Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 32 de 38

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Cadeiras Proibidas

O homem que decidiu investigar

Tinha um laranjal imenso, era um exportador de frutas. Naquele dia ele se levantou, antes

das seis. A família só ia acordar duas horas mais tarde. Dispunha de duas horas para andar

pelo quintal, apanhar laranjas, fazer um café forte e ficar no pátio atijolado lendo histórias

policiais. Lia até o ponto em que o detetive ia desvendar o mistério. Fechava o livro, ficava

analisando os pormenores e as pistas para descobrir o criminoso. Quando tinha certeza, abria

a revista e terminava. Acertava sempre. Antes de apanhar a revista, ou livro, ele percorria o

quintal. Escolhendo laranjas. Apanhava meia dúzia. Para ir chupando e cuspindo o caroço.

Pela manhã, as folhas guardavam sereno e as frutas estavam úmidas e macias. Ele escolhia

uma de uma árvore, outra de outra. Nunca duas da mesma árvore. Nesse dia reparou que as

laranjas estavam frescas e leves. Nunca tinham sido tão leves.

Começou a descascar as mexericas. Ao romper a casca, viu que os dedos se afundavam e de

dentro da laranja vinha o cheiro. Forte, do sumo. Mas não havia nada. Os gomos não existiam,

havia apenas casca. Ele riu. Alguma brincadeira da turma que estivera na casa, passando o

domingo. Deviam ter tirado a polpa, pacientemente, e reconstituído a casca. Recolocando a

fruta na árvore.

Abriu a segunda. Vazia. Riu e abriu a terceira. O serviço tinha sido benfeito. A turma sabia

mesmo trabalhar. Apanhou outra mexerica. Fresca e macia. Olhou bem. Perfeita. Nenhum sinal

de violação, de colas. Descascou. Vazia.

E outra. Vazia.

E mais uma, duas, dez. Nada, apenas o cheiro bom e forte. Ainda calmo. Depois, menos.

Até que começou a correr. Arrancando as laranjas dos pés, arrancando as cascas. Com

raiva. E as laranjas, vazias.

Era preciso iniciar a investigação.

Quem, os suspeitos?

Quais, os motivos?

Quem, seus inimigos?

Os objetivos?

Furioso, ele limpava as laranjeiras. Eram 5 mil. Diferentes qualidades. Todas grandes,

doces, podadas, livres de pragas. E quando a família o encontrou, o pomar estava coalhado.

De cascas. Não havia uma só fruta vazia, nos pés. E ele tinha iniciado a investigação,

interrogando laranjeiras, serrando troncos, abrindo-os, tirando a casca, examinando veios,

cortando raízes, mastigando pedaços delas, dissecando folhas.