Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 23 de 38

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Cadeiras Proibidas

Indagação

 

O homem que descobriu o dia da negação

Para Ilse

 

Pegou o táxi, deu a direção. O chofer:

– Para lá, não vou.

– Então, me leve para onde quiser.

Estava cansado de toda aquela situação e resolvido a se entregar, para ver o que ia

acontecer. Tinha começado na feira, pela manhã. A mulher pediu para fazer compras, lá foi

ele. De sacola, percorrendo as barracas habituais. Algo estranho ocorreu, na primeira banca.

A de tomates.

– Me dá meio quilo. Do tomate verde.

– Não, se quiser levar, leva do maduro.

– Quero do verde e bem grande.

– Só entrego do maduro, e pequeno.

Não discutiu. Achava o pessoal da feira grosseiro. Tentou a outra banca.

– Meio quilo de tomate verde.

– Não tem.

– E o que é isso aí?

– Não sei.

– Como não sabe?

– O que o senhor quer? Me amolar?

– Comprar.

– Não estou vendendo nada.

– Então, o que faz aí?

– Vendo tomates. Que pergunta!

Ele achou melhor continuar. Na próxima banca decidiu mudar de tática.

– O que o senhor está vendendo?

– O que acha que estou vendendo?

– Eu é que perguntei.

– O que é isso?

O homem exibia um tomate, grande e verde.

– Um tomate.

– Engano! Não é um tomate.

– O que é?

– Eu é que quero saber. Estava vendendo tomates. De repente, apareceu isto.

– Mas é um tomate.

– Se eu vender isto ao senhor, o senhor compra?

– Compro! Pode me dar meio quilo.

– Não posso. Se a fiscalização me pega vendendo isso, me multa.

– Mas quero comprar. De livre e espontânea vontade.

– O senhor não sabe que ninguém faz nada de livre e espontânea vontade?

– Eu faço.

– Aposto que foi sua mulher quem mandou o senhor comprar tomates.

– Foi.

– Está vendo?

Partiu, confuso. Tinha de levar tomate, ervilha, salsicha, couve, laranja, um abacaxi, dois

abacates, alface e ovos.

– Isto é abacate?

– O senhor não conhece abacate?

– Não.

– Está brincando comigo?

– Estou?

– Então, vá comprar noutra barraca. Não estou para brincadeiras.

Na próxima, a mulher tinha cara simpática, sorridente. Tentou. De modo diferente. Entregou

a lista a ela.

– A senhora tem tudo isto?

– O quê?

– As coisas desta lista?

– Esse é um papel em branco.

– Como em branco? Eu mesmo escrevi tomate, ervilha, salsicha, couve, laranja, um abacaxi,

dois abacates, alface e ovos.

– Então, veja.

Olhou. Estava tudo lá, escrito com sua letra firme. De caneta tinteiro, pena grossa.

– A senhora não quer me vender, não é?

– Pode me dizer por que não quero? Pode me dizer para que estou aqui?

– Mas recusa me dar as coisas que quero.

– Eu? O senhor acaso pediu?

– Mostrei a lista.

– Pedir é uma coisa. Mostrar uma lista é outra. Eu também posso sair por aí mostrando lista

e brigando com as pessoas.

Ela gritava e juntou gente. O dia não estava para ele, mesmo. Sentiu a cabeça quente. O

melhor era voltar para casa. Foi caminhando, na esquina, um guarda segurou-o.

– Onde pensa que vai?

– Para casa.

– A saída não é por aqui.

– Desde quando os quarteirões têm entrada e saída?

– Mesmo que não tivesse, olha a placa de contramão.

– Estas placas são para veículos.

– Qual a diferença entre um veículo e um homem?

Ele se indagou se o guarda não estaria louco. Ou era mais um a brincar com ele. Não, hoje

não era primeiro de abril. Ou teriam trocado o dia da mentira, do engano? Se tinham, ninguém

ficou sabendo. Culpa dele que não lia os jornais diariamente, como faziam todos na

repartição. Era até demais. Ninguém trabalhava. Jornais, revistas, livros, as velhas a tricotar,

loteria esportiva e o público esperando nos guichês.

– Está vendo? O senhor não sabe me dizer a diferença.

– Que bobagem. Não tem nada igual. Nada. Tudo é diferente.

– O senhor então não sabe que a diferença está nos dentes e nas garras?

Dentes e garras. “Estou sonhando, não é possível, as pessoas dizem coisas insensatas.

Ninguém está batendo bem. O melhor é voltar para casa, me encerrar no quarto, esperar o dia

passar. Vai ver é essa nuvem negra de poluição. Está afetando as pessoas.” Foi se afastando,

sabendo que o guarda o vigiava, dobrou a esquina, deu a volta. Entrou em casa com a cesta

vazia, foi guardá-la na despensa. A mulher costurava, não perguntou nada. Ele também não

disse nada, achou melhor. Difícil explicar o comportamento das pessoas na feira. Seria a alta

de preços que tinha deslocado os cérebros? Foi para o escritório, bateu o interruptor, a luz não

acendeu. Chamou a mulher.

– Queimou a lâmpada?

– Queimou? E como está acesa?

– Está acesa?

– O que há? Ficou cego?

Ela passou a mão em frente aos olhos dele. O homem se irritou.

– Que cego coisa nenhuma. O que há é um complô contra mim.

– O que é complô?

Sempre tinha sido muito burra. Mas ele a engravidara – se julgara responsável – e acabou se

casando. O filho nasceu morto. E desde esse dia ela não saíra mais de casa. Nem gostava

quando ela saía. Sofria porque ele deixava a casa todas as manhãs, ia para o trabalho.

“Arranja um emprego para trabalhar em casa”, pedia. Citava: fazer cestas de palha, colar

saquinhos de papel, remendar sacos de estopa, encadernar livros, tecer assentos de cadeira.

Insistia, não deixava de pedir um só dia, acabaria por vencer, pelo cansaço.

– O que é complô?

Se não explicasse, ela perguntaria o dia inteiro, a semana, o mês.

– É uma conspiração.

– O que é conspiração?

– As pessoas se juntam e resolvem prejudicar alguém, matar uma pessoa.

– Quem é que está fazendo isto contra você, benzinho?

– Ninguém. Eu é que acho.

– Mas por quê?

– Anda tudo muito estranho.

Súbito ela deu um grito.

– O que é isso, benzinho?

– Isso o quê?

– Olha no teu olho. Está tudo branco.

– Branco?

– Branco. Não tem a bolinha, não tem nada. Parece uma poça de leite.

Aparentemente, ele não sentia nada. Enxergava bem, não tinha dor de cabeça, nem tonturas.

Coisas de vista sempre dão dor de cabeça.

– Olhou?

– Como vou olhar? Preciso de um espelho.

– Você não sabe olhar com um olho dentro do outro?

– Não. Você sabe?

– Claro que sei. Olha.

O homem, abismado. Viu e não acreditava no que ela estava fazendo.

Não acreditava no que ela estava fazendo. Um olho estava avançado, olhando para dentro do

outro. Como aquela mulher burra podia fazer aquilo? Com quem aprendera? Começou a

imaginar que havia mais de uma coisa errada. Ou aquelas coisas é que estariam certas e ele errado? Todos os que estavam à sua volta concordavam. Porém, as coisas que ele dizia e fazia

não combinavam. Foi até a folhinha ver que dia era. O calendário estava em branco.

– O que foi feito da folhinha?

– Quem precisa de folhinhas?

– Eu preciso.

– Para quê?

– Para saber o dia.

– E o que ganha com isso?

– Ganhar não ganho, mas me localizo.

– O que adianta se localizar?

– Não adianta nada.

– Então, não precisa da folhinha.

– Não posso ficar sem saber em que dia estou.

– Pois vai. Não é dia nenhum. Os dias, separados, nomeados, não existem mais. Agora, todo

dia é dia. Não é sensacional?

Em teoria era. O que não combinava era sua mulher dizendo essas coisas. Onde tinha

achado? Não se ajustava a ela. Desistiu da folhinha, apanhou um jornal, não tinha data.

Reparou também no relógio. Não só estava parado, como o mostrador era absolutamente em

branco.

– E o relógio?

– Levaram os números.

– Levaram? Que coisa esquisita. Quem havia de levar os números?

– O relojoeiro oficial.

– O que vem a ser isso?

– Um homem encarregado de levar os números dos relógios.

– Como vou ver as horas?

– Você não precisa de horas, nem dias. Nada.

– Claro que preciso. Agora, por exemplo, preciso saber da hora para ir à repartição.

– Bobo, como não existe mais hora, você pode chegar a hora que quiser. Quem vai te acusar

de ter chegado cedo ou tarde? Baseado em quê?

“Não, essa mulher não é burra, não. Eu é que pensava. Nunca prestei atenção nela. Nunca

prestei atenção em nada ao meu redor. Vivia para aquela repartição. Preocupado com a hora,

com preencher todos os papéis, obedecer aos regulamentos, atender ao público com

eficiência, obedecer aos superiores, manter limpas as gavetas e a mesa, o arquivo em ordem e o fichário perfeito. Claro. Que diferença faz chegar quinze minutos mais quinze minutos

menos? O que importa é o que fiz para mim nestes quinze minutos. Ou o que fiz para mim

nestes anos todos? Quando a gente nasce, colocam a gente num trilho. Chega uma época em

que temos de decidir: continuar no trilho e não ter surpresas, inseguranças, angústias. Ou

saltar dele, correr pelo aterro, entrar nos atalhos e descobrir os próprios caminhos. Às vezes,

mais rápidos, eficazes. O trilho não traz surpresas, sempre se sabe que haverá estações pela

frente. E gente para nos conduzir e nos cuidar. Os atalhos provocam receio. Não importa em

que altura a gente se decida saltar dos trilhos. O importante é saltar fora deles, abandonando

bagagens. Porque nessa bagagem estão todas as coisas que nos prendem, nos amarram. Acho

que começo a entender o dia de hoje. Eu pensava que estavam todos mentindo. Que era um dia

de mentira. Ou, então, um dia em que todos diziam aquilo que vinha à cabeça. Não. É o dia da

verdade. Todos decidiram mostrar as coisas como elas são. Não sei por que razão, nem vou

perder tempo em descobri-la. E é curioso esperar o que acontece, as verdades restabelecidas.

Pelo visto, hoje vai dar grande confusão. Os homens conseguirão suportá-la? Como eu não

suportei?”

Agora no táxi, enquanto não sabia para onde ia meditava sobre tudo e sentiu-se contente.

Com a mesma alegria de um arqueólogo que encontra sinais de civilização numa escavação.

Dispôs-se a estudar com calma e profundidade a nova situação que se apresentava.