Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 20 de 38

Páginas do PDF

Cadeiras Proibidas

O homem que espalhou o deserto

Quando menino, costumava apanhar a tesoura da mãe e ia para o quintal, cortando folhas das

árvores. Havia mangueiras, abacateiros, ameixeiras, pessegueiros e até mesmo jaboticabeiras.

Um quintal enorme, que parecia uma chácara e onde o menino passava o dia cortando folhas.

A mãe gostava, assim ele não ia para a rua, não andava em más companhias. E sempre que o

menino apanhava o seu caminhão de madeira (naquele tempo, ainda não havia os caminhões

de plástico, felizmente) e cruzava o portão, a mãe corria com a tesoura: tome, filhinho, venha

brincar com as suas folhas. Ele voltava e cortava. As árvores levavam vantagem, porque eram

imensas e o menino, pequeno. O seu trabalho rendia pouco, apesar do dia a dia, constante, de

manhã à noite.

O menino cresceu, ganhou tesouras maiores. Parecia determinado, à medida que o tempo

passava, a acabar com as folhas todas. Dominado por uma estranha impulsão, ele não queria ir

à escola, não queria ir ao cinema, não tinha namoradas ou amigos. Apenas tesouras, das mais

diversas qualidades e tipos. Dormia com elas no quarto. À noite, com uma pedra de amolar,

afiava bem os cortes, preparando-as para as tarefas do dia seguinte. Às vezes, deixava aberta

a janela, para que o luar brilhasse nas tesouras polidas.

A mãe, muito contente, apesar do filho detestar a escola e ir mal nas letras. Todavia, era um

menino comportado, não saía de casa, não andava em más companhias, não se embriagava aos

sábados como os outros meninos do quarteirão, não frequentava ruas suspeitas onde mulheres

pintadas exageradamente se postavam às janelas, chamando os incautos. Seu único prazer

eram as tesouras e o corte das folhas.

Só que, agora, ele era maior e as árvores começaram a perder. Ele demorou apenas uma

semana para limpar a jaboticabeira. Quinze dias para a mangueira menor e vinte e cinco para

a maior. Quarenta dias para o abacateiro que era imenso, tinha mais de cinquenta anos. E seis

meses depois, quando concluiu, já a jaboticabeira tinha novas folhas e ele precisou recomeçar.

Certa noite, regressando do quintal agora silencioso, porque o desbastamento das árvores

tinha afugentado pássaros e destruído ninhos, ele concluiu que de nada adiantaria podar as

folhas. Elas se recomporiam sempre. É uma capacidade da natureza, morrer e reviver. Como o

seu cérebro era diminuto, ele demorou meses para encontrar a solução: um machado.

Numa terça-feira, bem cedo, que não era de perder tempo, começou a derrubada do

abacateiro. Levou dez dias, porque não estava habituado a manejar machados, as mãos

calejaram, sangraram. Adquirida a prática, limpou o quintal e descansou aliviado.

Mas insatisfeito, porque agora passava os dias a olhar aquela desolação, ele saiu de machado em punho, para os arredores da cidade. Onde encontrava árvore, capões, matos

atacava, limpava, deixava os montes de lenhas arrumadinhos para quem quisesse se servir. Os

donos dos terrenos não se importavam, estavam em vias de vendê-los para fábricas ou

imobiliárias e precisavam de tudo limpo mesmo.

E o homem do machado descobriu que podia ganhar a vida com o seu instrumento. Onde

quer que precisassem derrubar árvores, ele era chamado. Não parava. Contratou uma

secretária para organizar uma agenda. Depois, auxiliares. Montou uma companhia, construiu

edifícios para guardar machados, abrigar seus operários devastadores. Importou tratores e

máquinas especializadas do estrangeiro. Mandou assistentes fazerem cursos nos Estados

Unidos e Europa. Eles voltaram peritos de primeira linha. E trabalhavam, derrubavam. Foram

do sul ao norte, não deixando nada em pé. Onde quer que houvesse uma folha verde, lá estava

uma tesoura, um machado, um aparelho eletrônico para arrasar.

E enquanto ele ficava milionário, o país se transformava num deserto, terra calcinada. E

então, o governo, para remediar, mandou buscar em Israel técnicos especializados em tornar

férteis as terras do deserto. E os homens mandaram plantar árvores. E enquanto as árvores

eram plantadas, o homem do machado ensinava ao filho a sua profissão.