Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 8 de 38

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Cadeiras Proibidas

A jovem que trocava as letras

Mariana telefonou para Leonardo. Angustiada:

– Perdi o b.

– Perdeu o b?

– Não consigo mais escrever o b.

– Como? Que história é essa?

– Uma coisa estranha. Faz três dias que venho notando. A princípio imaginei que fosse

distração, sou uma digitadora primária, uso apenas dois dedos. Depois percebi que, ao

pressionar o b, sai um s.

– Defeito do teclado. Tão simples.

– Não é. Veio um técnico, testou. Pressionava o b e saía o b. Eu pressionava e saía o s.

– Será um problema neurológico?

– Por que haveria de ser? O computador não tem neurônios como nosso cérebro. E um

neurologista, pelo que sei, cuida de neurônios.

– Achei que sim.

Ele decidiu fazer um ligeiro teste. Leonardo adorava testes, comprava revistas de palavras

cruzadas apenas para fazê-los, conhecia truques. Pediu à Mariana:

– Venha à minha casa.

Em dez minutos ela estava lá, porque além de tudo tinha uma queda pelo garotão. Um gato!

Ligaram o computador.

– Escreva boiota.

– O que é isso?

– Uma palavra. Boiota.

– Não escrevo o que não sei. É soiola?

– Soiola, não. Boiola. Boiola é bicha. Boiota é mentecapto.

Ela digitou. Saiu soiota na tela. Leonardo escreveu certo, boiota.

– Viu?

– Agora, escreva botrópico.

– O que é isso?

– O mesmo que laquético.

– E o que é laquético?

– Não sei.

Ela digitou sotrópico. E assim, durante algum tempo, ele foi dizendo palavras como bracajá, brévia, bródio, buço, bucaneiro, bazofiar, baronato. Ela digitava sracajá, srécia, sródio, suço,

sucaneiro, sazofiar, saronato.

– Não adianta mesmo.

– Temos de encontrar um especialista em trocar palavras. Deve ser um vírus novo, há tantos

por aí, desconhecidos.

Dias depois, Mariana ligou.

– Agora piorou. Não consigo pronunciar o s.

– Também o s?

– Não o s. O s.

– Pois é isso que estou entendendo.

– Não, não está. Lembra-se? Havia uma letra que eu trocava pela outra. Quando digitava

aparecia o s. Naquele tempo eu podia pronunciar aquela letra, a primeira de soiota.

– Boiota.

– Só que agora não consigo mais pronunciar a primeira letra, aquela, a verdadeira.

– Não fala mais o b? Quando quer falar o b, fala o s?

– Isso!

Passou uma semana, Leonardo ligou para ela.

– Continua tudo igual?

– Continua.

– Ficou naquela letra?

– Ficou. Mas descobri um colega de trabalho que não consegue digitar, nem pronunciar o s.

Quando quer falar ou digitar, aparece o s. Exatamente o contrário de mim.

Ele ironizou:

– O jeito é vocês se casarem, para acertar as tetras.

– Tetras?

– É. Foi o que disse. Tetras.

– E o que significa?

– As tetras do alfabeto.

– Ah, as letras. Então, você está trocando o l pelo t? Diga limão.

– Timão.

– Linha.

– Tinha.

– Viu? Agora, você precisa procurar quem faça o contrário. Quem troque o t pelo l, e assim

acertam as letras.

Menos de um mês depois, se viu que cada um trocava uma letra por outra. A por h, x por d, p

por r. E todos esqueceram a trivialidade dos empregos, descalabros do governo,

congestionamentos, angústias amorosas, e centenas de outras coisas que compõem o cotidiano.

O que se viu, e se vê, é uma intensa busca do parceiro ideal, aquele que troca as letras ao

contrário da de cada um. Vive-se, agora, o tempo das trocas. Difícil como ser feliz.