Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 15 de 38

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Cadeiras Proibidas

O homem que atravessava portas de vidro

Quando chegou à casa do amigo, encontrou-o atravessando o vidro da porta. Era uma casa

de concreto aparente, com uma porta larga, em blindex fumê. O amigo ia e voltava, com uma

expressão de surpresa.

– Por que está fazendo isso? indagou o que chegava.

– Não sei, mas é divertido!

Ia, de cá para lá, como se não houvesse vidro, fosse apenas uma projeção, um reflexo.

– Faz tempo que descobriu que podia atravessar o vidro?

– Ontem de manhã, quando cheguei bêbado em casa. Tropecei no capacho de entrada, caí de

cabeça, pensei que ia me arrebentar. No entanto, meu corpo ultrapassou o vidro, fiquei meio

para fora, meio para dentro.

– Terá sido alguma coisa especial que você bebeu?

– Chope.

– Só chope?

– E alguns genebras.

– Mais nada?

– Nada.

– Sentiu alguma coisa diferente?

– Só as reações normais. Aperto na bexiga, cabeça zonza. Posso aguentar muito chope.

– Será que o vidro da porta não presta?

(O homem que tinha chegado pensou em mil chavões: a indústria moderna que não se

preocupa com o consumidor; produtos mal-acabados, material de carregação etc.)

– Como não presta? Custou dez mil pratas!

(O homem que atravessava também pensava por chavões: o que é caro, é bom.)

Os dois sentaram-se no meio-fio. Não eram inteligentes, mas tentavam pensar no que podia

estar ocorrendo. Nenhuma solução, nenhuma ideia. O que tinha chegado era um comerciante

médio, o que atravessava o vidro era um dono de confeitaria que tinha enriquecido e possuía

casa, dois carros, era sócio do Tênis Clube, do Rotary e Lions, possuía cartões de crédito

diversos, cheques especiais e nome limpo no serviço de proteção ao crédito da associação

comercial. Então, enquanto pensava, falaram. De loteria esportiva, imaginando o que fariam

com o dinheiro, caso ganhassem.

Sentados, viam o dia passar. Não se importavam. Queriam descobrir o que estava

acontecendo. Continuaram conversando de futebol e mulheres e preços dos novos carros.

Não tiveram fome, nem sede. O dia se acabou. Aí, cansado, o homem que tinha chegado

exclamou:

– Acho que sei.

– Então, o que é?

– É um mistério.

– Mistério?

– Claro, é um mistério. Não vamos descobrir, nunca! Vamos nos calar. Você para de

atravessar a porta. Esquece. Senão, começam a falar da gente. Como se tivéssemos visto disco

voador. A vida vira um inferno.

– Eu estava gostando, achei engraçado. Gostaria de atravessar portas para as pessoas verem.

– Você nem sabe em que mundo vai entrar. Muda tudo. Você se torna marginal, excêntrico.

Esquece. Os enigmas e as coisas sem resposta só prejudicam um homem sadio, normal, pai de

família como você.

– Quer dizer que esqueço?

– Esquece. Manda trocar a porta. E não se atire pelas janelas, só de brincadeira.

– Vou esquecer, é pena! Estava começando a gostar do meu mistério.