Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 26 de 38

Páginas do PDF

Cadeiras Proibidas

O homem que devia entregar a carta

Era sua primeira missão como office-boy. Estava com vinte anos, mas não tinha conseguido

outro emprego. Apesar dos jornais garantirem que não havia crise, ele batera o nariz em

dezenas de portas e tinha enfrentado filas de doze quilômetros. O patrão pediu que ele

entregasse uma carta, com protocolo. Avisou: a pessoa que receber precisa assinar esse

papelzinho. Só entregue ao destinatário, a ninguém mais. Essa carta é da maior importância.

Foi. Ao chegar, verificou o endereço: era um terreno baldio. Comparou, indagou. Não havia

engano mesmo. O número correspondia ao terreno. Voltou ao patrão, contou.

O patrão:

– Eu sei que é um terreno. Mas vão construir um prédio ali.

– E o que faço?

– Você entrega a carta, como mandei.

O patrão, homem ocupado, dispensou o boy. Ele voltou ao local. Nada. Um terreno sujo,

cheio de mato. O que fazer? Sentou-se, pensando que se alguém chegasse por ali, poderia dar

uma informação. No fim do dia, foi embora.

Na manhã seguinte, ao subir no elevador, encontrou o patrão.

– Como é, entregou a carta?

– Não tem prédio lá.

– Mas vão construir. Já conseguiram o financiamento da Caixa Econômica.

O boy voltou ao terreno. Naqueles e nos dias seguintes. Nas semanas e meses. O patrão,

inquieto, querendo saber da carta, o boy mais inquieto ainda, já sem saber por que não

construíam logo o edifício. Um dia, viu homens carpindo o mato. No outro dia, ergueram um

tapume. Em seguida, instalaram placas. Vieram tratores e máquinas. Cavaram, cavaram,

caminhões basculantes levaram a terra, chegou cimento, aço, pedras. As fundações ficaram

prontas.

O boy ali, todos os dias, firme. Fazendo amizade com os operários, capatazes da obra,

aprendendo como se mistura o cimento, como se processa a concretagem, acompanhando os

andares que subiam, as lajes sendo terminadas.

O prédio subiu. A esta altura o patrão, irritadíssimo com o boy, ameaçava despedi-lo.

– Que porcaria você é! Nem consegue entregar uma carta!

O boy, ferido no orgulho, plantou-se então, dia e noite, sentado num dos andaimes. Amigo de

todos os operários, comia e bebia com eles, contava casos, ouvia histórias do Nordeste,

lendas da Bahia, conhecia a miséria que ia pelo interior, os dramas de fome e doença, o abandono, a seca. A parte mais demorada, lenta. Colocar portas, janelas, armários, rebocar,

passar massa corrida, pintar, instalar pias, torneiras, vasos, tacos. Então, a festa de

inauguração, chope. As faixas, os corretores ansiosos por enganar alguém com as compras

maravilhosas que terminavam em pesadelo.

As pessoas começaram a se mudar. Todos os dias, o boy batia à porta do apartamento 114. O

destinatário ainda não tinha se mudado. Agora, o boy já tinha feito vinte e três anos e o patrão

tinha lhe dado um prazo fatal, irreversível. Ou entregava a carta, ou era despedido.

Ele batia à porta, ninguém atendia. Até que um caminhão trouxe mudança para o 114. Mas a

porta continuava fechada, muda.

Batia, e nada.

Uma tarde, abriram. Um senhor grisalho, ar sonolento. O boy, triunfante, estendeu a carta. O

homem olhou o destinatário.

– Não sou eu. Nem sei quem é.

– Como? O senhor comprou o apartamento de alguém?

– Não. Comprei na planta. Não teve nenhum dono antes de mim.

– O que faço?

– Passa na portaria, fala com o zelador.

O boy passou, explicou a situação. O zelador apanhou um carimbo, bateu no envelope:

DESTINATÁRIO DESCONHECIDO.

Devolveu a carta ao boy.