Caracteres

Jean de La Bruyère · Capítulo 9 de 12

Páginas do PDF

Caracteres

Da Cidade

 

Em Paris todos se encontram , na certa, todas as noites, sem se falarem , com o num a reunião pública, nas Alam edas e nas Tulherias, para se encararem e se desaprovarem uns aos outros.

Não se pode passar sem esse m undo de que não se gosta e do qual se zom ba.

As pessoas esperam a passagem um as das outras, num passeio público; aí se passa revista um ao outro: carruagem , cavalos, librés, brasões, nada escapa aos olhos, tudo é curiosa ou m alignam ente observado; e segundo o m elhor ou pior da equipagem , respeitam -se ou desdenham -se as pessoas.

Todo m undo conhece esse longo dique (37) que lim ita e une o leito do Sena, do lado em que entra em Paris, com o Marne, que acaba de receber: Os hom ens tom am banho aí durante os calores da canícula: chega-se a vê-los bem de perto atirarem -se n’água, e vê-los sair: é um divertim ento. Quando essa estação ainda não chegou, as m ulheres da cidade ainda não passeiam por ali, e quando passou,

elas não passeiam m ais (38).

Nesses lugares de concorrência geral em que as m ulheres se reúnem para m ostrar um belo tecido, e recolher o fruto de sua toalete, ninguém passeia com um a com panheira por necessidade de conversação; a gente se j unta para ter inform ações sobre o teatro, acostum ar-se com o público, e se firm ar contra a crítica: é precisam ente aí que a gente se fala sem dizer nada, ou antes, que fala para os passantes, para aqueles m esm os por cuj o favor a gente levanta a voz; gesticula-se, folga-se, curva-se negligentem ente a cabeça, passa-se e repassa-se.

A cidade está dividida em diversas sociedades, que são com o outras tantas repúblicas, que têm suas leis, seus usos, sua gíria, e suas piadas: enquanto esse grupo está bem unido e a m ania subsiste, não se acha nada bem dito ou bem feito além daquilo que parte dos seus, e se é incapaz de apreciar o que vem de outras partes; chega-se até a desprezar as pessoas que não estão iniciadas nos seus m istérios. O hom em m ais inteligente, que o acaso tenha levado para o m eio deles, lhes é estranho. Acha-se ali com o num país longínquo, de que não conhece as estradas, nem a língua, nem os costum es, nem as leis: vê um povo que conversa, sussurra, fala ao ouvido, desanda a rir, e cai depois em silêncio fechado; perde o j eito, não acha com o dizer um a só palavra, e não tem m esm o o que ouvir. Nunca falta aí um piadeiro que dom ina e, é com o o herói do grupo: esse se encarregou da alegria dos outros, e faz sem pre rir antes m esm o de ter falado. Se às vezes surge um a m ulher que não tom a parte nos seus passatem pos, o grupo alegre não pode com preender com o ela possa não saber rir das coisas que não entende, e pareça insensível a tolices que eles próprios só entendem porque foram eles que as fizeram : não lhe perdoam o tom de voz, nem o silêncio, nem o decote, nem o rosto,, nem o vestuário, nem seu ingresso, nem a m aneira por que saiu. Entretanto não passam dois anos sobre um a m esm a turm a. Há sem pre, desde o prim eiro ano, sem entes de divisão para brotar na que deve suceder. O interesse da beleza, os incidentes do j ogo, e extravagância das refeições, que m odestas no com eço, logo degeneram em pirâm ides de com ida e banquetes suntuosos, perturbam a república, e acabam por lhe dar um golpe m ortal: não se fala m ais nessa nação que nas m oscas do ano passado.

Há na cidade a grande e a pequena toga; e a prim eira se vinga sobre a outra dos desdens da corte, e das pequenas hum ilhações que ali suporta: saber quais são seus lim ites, onde acaba a grande e onde com eça a pequena, não é coisa fácil. Existe m esm o um corpo considerável que recusa ser da segunda ordem e ao qual se contesta a prim eira: no entanto ele não se rende; procura, ao contrário, pela gravidade e pela prodigalidade, igualar-se à m agistratura, ou só a custo cede a esta; ouve-se ela dizer que a nobreza de suas funções, a independência da profissão, o talento da palavra, e o m érito pessoal, pelo m enos eqüivalem aos sacos de m il francos que o filho do arrecadador de im postos ou de banqueiro pagou pelo cargo..

Você quer sonhar de carruagem e repousar dentro dela? Depressa, torne seu livro ou seus papéis: vá lendo, dificilm ente cum prim ente as pessoas que passam nos veículos; elas irão j ulgá-lo m uito ocupado; dirão: esse hom em é laborioso, infatigável; leia, trabalhe, até nas ruas ou nas estradas: aprenda com o m ais obscuro advogado que é preciso parecer sobrecarregado de negócios, j untar as sobrancelhas e pensar profundam ente em nada; saber perder bebida e com ida de propósito, m al aparecer em casa, eclipsar-se e diluir-se na som bra do escritório com o um fantasm a; esconder-se do público, evitar o teatro, deixá-lo para aqueles que não correm nenhum risco em se m ostrar ali, aqueles que m al têm tem po de freqüentá-lo, os GOMONS, os DUHAMELS.

Certo núm ero de j ovens m agistrados, pelos grandes bens e prazeres, associaram -se a alguns daqueles a que na corte se dá o nom e de petim etres: eles os im itam ; m antêm -se m uito acim a da gravidade da toga e se j ulgam dispensados, pela idade e pela fortuna, de ser prudentes e m oderados. Tom am da corte o que ela tem de pior: apropriam -se da vaidade, do desleixo, intem perança, libertinagem , com o se todos esses vícios lhes fossem devidos; e afetando assim um caráter afastado daquele que têm de sustentar, tornam -se afinal, segundo seus desej os, cópias fiéis de originais detestáveis.

Um hom em de toga na cidade, e o m esm o hom em na corte, são dois hom ens. Voltando para casa, retom a seus hábitos, sua estatura, e sua cara, que ali deixara: então j á não é m ais nem tão em baraçado nem tão honesto.

Os Crispins se cotizam e j untam na sua fam ília até seis cavalos para aum entar um a equipagem que, com um enxam e de pessoas de libré em que cada um forneceu sua parte, os faz triunfar na Alam eda ou em Vincennes, e ir par a par com as recém casadas, com Jasão, que se arruina, e Trasão que quer se casar e j á fez consignação.

Ouço falar dos Sannions, m esm o nom e, m esm as arm as; o ram o m ais velho, o ram o caçula, os caçulas do segundo ram o: aqueles levam arm as cheias, estes

acrescentam um lam bel (39), e os outros um a cercadura denticulada. Têm com os Bourbons, além da m esm a cor, o m esm o m etal; levam , com o eles, duas e um a: não são flores de lis, m as se consolam disso; talvez de coração achem suas m arcas tão honrosas quanto essa, e têm -nas com uns com grandes senhores que estão contentes com isso. A gente as vê sobre as insígnias e nos vitrais, sobre a porta do seu castelo, na pilastra do cadafalso, onde acabam de fazer enforcar um hom em que m erecia banim ento: elas se oferecem aos olhos em toda parte; estão sobre os m óveis e sobre as fechaduras; sem eadas pelas carruagens: suas librés não desonram os brasões. De boa vontade diria aos Sannions: a, loucura de vocês é prem atura, esperem ao m enos que o século acabe sobre sua raça; aqueles que viram o avô de vocês, que lhe falaram , estão velhos, e não poderiam viver m uito tem po; quem poderá dizer com o eles: Aí ele m ercava, e vendia m uito caro?

Os Sannions e os Crispins querem ainda que se diga além do m ais, que eles fazem grande despesa, e que não gostam de fazê-la: contam a história enorm e e cacete de um a festa ou j antar que deram ; falam no dinheiro que perderam no j ogo, e lam entam em altas vozes aquele que não pensaram em perder. Falam baixinho e m isteriosam ente sobre certas m ulheres; têm reciprocam ente cem coisas engraçadas a se contarem ; acabaram de fazer descobertas; com unicam uns aos outros que são pessoas de belas aventuras. Um deles, que se deitou tarde no cam po, e queria dorm ir, levanta-se cedo, calça polainas, veste um a roupa de linho, passa um cordão de onde pende o polvarinho, aj eita os cabelos, pega um a espingarda; ei-lo caçador, se soubesse atirar bem : volta de noite suado e cansadíssim o, sem ter m atado nada; volta à caça no dia seguinte e passa o dia inteiro deixando escapar tordos ou perdizes.

Outro, com alguns cachorros vagabundos, tinha vontade de dizer: m inha m atilha: conhece um a cabana de caça, m ete-se lá, está açulando, entra no abrigo, m istura-se com os picadores; tem , um calo. Não diz com o Menalipo: Tenho prazer? Pensa tê-lo; esquece leis e autos: é um Hipólito. Menandro, que o viu ontem num processo que está em suas m ãos, não reconheceria hoj e seu relator. Am anhã a gente o vê na sua câm ara, onde se vai j ulgar um a causa grave e capital; faz-se cercar pelos confrades, conta-lhes com o não perdeu o veado da m atilha, com o ficou sufocado de tanto gritar pelos cachorros que não aj udavam , ou pelos caçadores que erravam , que ele viu dar os seis cachorros: está em cim a da hora: ele acaba de falar nos latidos e na ceva que se dá aos cães de caça e corre a sentar-se com os outros para j ulgar.

Com o é grande o desvario de certos particulares que, ricos com o negócio de seus pais, cuj a herança acabam de receber, m oldam -se pelo príncipe para o guarda-roupa e a equipagem , excitam , por um a despesa excessiva e ostentação ridícula, os ditos e zom barias de toda um a cidade que pensam m aravilhar, e assim se arruinam para fazer com que caçoem deles!

Alguns não têm nem m esm o a triste com pensação. de espalhar suas loucuras além do quarteirão em que m oram : é o único teatro da sua vaidade. Não se sabe na ilha que André brilha no Marais, e aí dissipa seu patrim ônio: ao m enos se ele fosse conhecido em toda a cidade e nos arredores, seria difícil que entre tão grande núm ero de cidadãos dos quais nem todos sabem j ulgar sensatam ente todas as coisas, não se encontrasse algum que dissesse dele: É m agnífico, e levasse em conta o presentes que ele faz a Xanto e a Ariston, e as festas que dá em honra de Elam ira: m as ele se arruina obscuram ente. É apenas em favor de duas ou três pessoas que não o estim am , que ele cam inha para a indigência, e, hoj e em carruagem , dentro de seis m eses não terá m eios de ir a pé.

Narciso se levanta de m anhã. para se deitar à noite; tem suas horas de toalete com o um a m ulher; vai todos os dias regularm ente à m issa elegante nos Bernardos ou nos Mínim os: é hom em de boa sociedade, e contam com ele no quarteirão para fazer o terceiro ou o quinto na arrenegada ou no perdeganha; ai tem um a poltrona quatro horas seguidas em casa de Aricia, onde arrisca toda noite cinco pistolas de ouro. Lê atentam ente a Gazeta da Holanda e o Mercúrio

Galante: leu Bergerac (40), Desm arets (41), Lesclache, as historietas de Barbin, e um a com pilação de, poesias. Passeia com as m ulheres no Plaine ou na Alam eda, e é dum a pontualidade religiosa nas visitas. Fará am anhã o que faz hoj e e o que fez ontem ; e assim m orre depois de ter vivido.

Eis um hom em , diz você, que j á vi em algum lugar: saber onde, é difícil; m as seu rosto m e é fam iliar. Tam bém é fam iliar a m uitos outros; e vou, se for possível

aj udar sua m em ória: terá sido no Bulevar, num strapotin (42), ou na grande alam eda das Tulherias, ou no balcão da Com édia? Terá sido no serm ão, no baile, em Ram bouillet? Onde poderia você não o ter visto? Onde é que ele não está? Se há em praça pública um a execução fam osa ou um fogo de artifício, ele aparece num a j anela da prefeitura; se se espera um a m agnífica recepção solene ele tem seu lugar num palanque; se se faz um carrossel, ei-lo no recinto e posto no anfiteatro; se o rei recebe em baixadores, vê-lhes a passagem , assiste à audiência. Sua presença é tão essencial aos j uram entos das ligas suíças com o a do chanceler e a das próprias ligas. É seu rosto que se vê nos alm anaques representando o povo ou a assistência. Há um a caça pública, um a Santo-Hum berto, ei-lo a cavalo: fala-se de um acam pam ento e dum a revista, ele está em Houilles, está em Achères; am a as tropas, a m ilícia, a guerra; ele a vê de perto, e até o forte de Bernardi. CHANLEY conhece as m archas, JACQUIER os víveres, DU METZ a artilharia: este vê, envelheceu sob os arnezes só de ver; é espectador profissional, não faz nada daquilo que um hom em deve fazer, não sabe nada do que deve saber; m as viu, diz ele, tudo o que se pode ver, e não terá pena de m orrer: que perda, para toda a cidade! Quem dirá, depois dele, “A Alam eda está fechada, ninguém passeia lá; o atoleiro de Vincennes está esgotado e reparado a carruagem não virará m ais ali?” Quem anunciará um a bela prece, um a bruxaria de feira? Quem avisará que Beaum avielle m orreu ontem , que Rochois está resfriado, e levará oito dias sem cantar? Quem , com o ele, conhecerá um burguês pelas suas arm as e pela libré? Quem dirá que Scapin leva flores de lis? E quem ficará m ais espantado com isso? Quem pronunciará com m ais vaidade e ênfase o nom e de um a sim ples burguesa? Quem tem m elhor sortim ento de m odinhas? Quem em prestará às m ulheres os Anais Galantes e o Jornal Am oroso? Quem , com o ele, saberá declam ar à m esa todo um diálogo da Ópera e os furores de Rolando num beco? Enfim , havendo na cidade, com o noutros lugares, gente m uito estúpida, pessoas tolas, ociosas, desocupadas, quem poderá com tam anha perfeição lhes convir?

Teram eno era rico e tinha m érito; recebeu um a herança, é portanto m uito rico e tem im enso m érito: eis todas as m ulheres em cam po para tê-lo com o am ante e todas as donzelas para desposá-lo. Vai de casa em casa fazer as m ães esperarem que ele casará: se está sentado, elas se retiram para deixar as filhas toda liberdade de serem am áveis, e a Teram eno de fazer suas declarações. Aqui ele enfrenta o barrete de presidente; ali, vence o cavalheiro ou o gentilhom em : um j ovem culto, vivo, agradável, inteligente, não é desej ado com m ais ardor nem m elhor recebido; arrancam -no das m ãos, m al se tem ocasião de sorrir a quem se encontra com ele na m esm a visita: quantos galãs vai derrotar! Que bons partidos não fará fracassarem ! Poderá satisfazer a tantas herdeiras que o procuram ? Não é apenas o terror dos m aridos, é o espantalho de todos os que desej am ser m aridos, e esperam que um casam ento venha encher o vazio de seus depósitos. Devia-se prescrever personagens com o essa, tão felizes, tão cheias de pecúnia, de um a cidade bem policiada; ou condenar o sexo, sob pena de loucura ou indignidade, a não as tratar m elhor do que se elas só tivessem m érito.

Paris, geralm ente m acaco da corte, nem sem pre sabe im itá-la; não a im ita, de nenhum a form a, nas exterioridades agradáveis e carinhosas que alguns cortesãos, e principalm ente as m ulheres, concedem ali naturalm ente a um hom em de m érito, e que só tem m esm o, de seu, o m érito: não se inform am sobre seus contratos, nem indagam dos seus ancestrais; elas o acham na corte, isso lhes basta; suportam -no; não perguntam se veio de cadeirinha ou a pé, se tem um cargo, um a propriedade; ou um a equipagem : j á que elas se pavoneiam com séquitos, esplendor e dignidades, desafogam de boa vontade com a filosofia ou a virtude. Um a m ulher da cidade ouve o ruído de um a carruagem que para na sua porta, estala de, gozo e condescendência para quem vem dentro, sem o conhecer: m as se viu da j anela um a bela parelha, m uitas librés, e diversas fileiras de cravos perfeitam ente dourados a fascinaram , que im paciência não tem para ver desde j á, na sala, o cavalheiro ou o m agistrado! Que recepção encantadora não lhe fará! Tirará os olhos de cim a dele? Ele não perde nada perto dela; fala-se dos correões duplos e m olas que o fazem rodar m ais suavem ente; ela o am a ainda m ais por isso, ela por, isso o am a ainda m elhor.

Essa fatuidade de algum as m ulheres da cidade, conseqüente de m á im itação das da corte, é algo pior que a im polidez das m ulheres do povo, e a rusticidade das aldeãs: tem , sobre todas, a afetação a m ais.

Sutil invenção a de dar m agníficos presentes, de núpcias que não custam nada, e que devem ser pagos em espécie!

Útil e louvável prática a de gastar em despesas de casam ento o terço do dote que um a m ulher traz! Com eçar por se em pobrecer de propósito, acum ulando e em pilhando coisas supérfluas, e desfalcando desde logo, nos bens, o necessário para pagar Gaultier, os m óveis e a toalete!

Belo e j udicioso uso, aquele que preferindo um a espécie de descaram ento às conveniências e ao pudor, expõe um a m ulher dum a só noite num leito com o num teatro, para fazer aí, durante alguns dias, um a ridícula personagem , e a entrega nesse estado à curiosidade das pessoas de um e de outro sexo que, conhecidas ou desconhecidas, acorrem de toda um a cidade para esse espetáculo, enquanto ele dura! Que falta a esse costum e para ser inteiram ente bizarro e incom preensível, senão ser lido em algum a narrativa de viagem à Mingrélia?

Penoso costum e, suj eição incôm oda! procurarem -se continuam ente os outros com im paciência e não se encontrarem senão para se dizer ninharias, ensinarem -se m utuam ente coisas de que se é igualm ente sabedor, e que pouco im porta saber; só entrar num a sala precisam ente para sair depois; só sair de casa depois do j antar, para voltar de noite, m uito satisfeito de ter visto em cinco curtas horas três suíços, um a m ulher que m al se conhece e outra que não se estim a! Quem considerasse bem o valor do tem po, e quanto sua perda é irreparável, choraria am argam ente sobre tão grandes m isérias.

As pessoas se criam , na cidade, num a indiferença grosseira pelas coisas rurais e cam pestres; m al se distingue a planta que produz o cânham o da que produz o linho, e o trigo candial do centeio, e um ou outro da m istura de am bos: contentam -se em se alim entar e vestir. Não fale, a grande núm ero de burgueses, de alqueires, nem de carvalhos-novos, nem de vides, nem de feno tem porão, se quiser ser entendido; esses term os, para eles, não são franceses: fale a uns de m edição por varas, soldo por libra, e aos outros de grau de apelação, petição civil, m andados, advocação. Conhecem as pessoas j ustam ente pelo que têm de m enos belo e m enos sedutor; ignoram a natureza, seus fundam entos, seus progressos, seus dons e larguezas: a ignorância deles é m uitas vezes voluntária, e fundada sobre a estim a que têm pela sua profissão e seus talentos. Não há vil praticante que no fundo de seu escritório som brio e enfum açado, espírito ocupado pela m ais negra chicana, não se prefira ao agricultor que goza o céu, cultiva a terra, sem eia a tem po e faz colheitas ricas; e se às vezes ouve falar dos prim eiros hom ens ou dos patriarcas, sua vida cam pestre, sua econom ia, espanta-se de que se pudesse viver em tem pos assim , em que ainda não havia m inistério público, nem com issões, nem presidentes, nem procuradores; não com preende que se tenha j am ais podido passar sem o cartório, a sala de audiências, e o “café” dos tribunais.

Os im peradores nunca triunfaram em Rom a tão m olem ente, tão com odam ente, nem m esm o tão seguram ente, contra o vento, a chuva, a poeira, e o sol quanto o burguês sabe em Paris andar pela cidade: que distância desse uso às chinelas dos nossos antepassados! Eles ainda não sabiam se privar do necessário para ter o supérfluo, nem preferir o fausto às coisas úteis: não se via fazerem luz com velas e se esquentarem em fogo fraco; a cera era para o altar e para o Louvre. Não saiam dum m au j antar para tom ar a carruagem ; persuadiam -se de que os hom ens tinham pernas para andar, e andavam . Conservavam -se lim pos quando estava seco, e quando havia um idade estragavam o calçado; tão pouco em baraçados em atravessar ruas e becos quanto o caçador em atravessar um a cam pina, ou o soldado em se m olhar num a trincheira: ainda não se im aginara atrelar dois hom ens a um a liteira: havia até diversos m agistrados que iam a pé às câm aras, ou aos inquéritos, com tão boa vontade quanto Augusto, antigam ente, ia a pé ao Capitólio. O estanho, nesse tem po, brilhava nas m esas e aparadores com o o ferro e o cobre nas lareiras; a prata e o ouro estavam nos cofres. As m ulheres se faziam servir por m ulheres: em pregavam estas até na cozinha. Os bonitos nom es de preceptores e governantes não eram desconhecidos de nossos pais; eles sabiam a quem se confiavam Os filhos dos reis e dos m ais ilustres príncipes; m as dividiam o serviço de seus em pregados com os filhos, contentes de velarem eles m esm os de m aneira im ediata pela sua educação. Contavam , em todas as coisas, com eles m esm os: sua despesa era proporcional à receita; suas librés, equipagens, m óveis, sua m esa, suas casas na cidade e no cam po, tudo era m edido de acordo com as rendas e a sua condição. Havia entre eles distinções exteriores que im pediam de se tom ar a m ulher de um praticante pela de um m agistrado e o plebeu ou o sim ples lacaio pelo gentilhom em . Menos aplicados em dissipar ou aum entar seu patrim ônio que em sustentá-lo, deixavam -no inteiro aos herdeiros, e passavam assim de um a vida m oderada a um a m orte tranqüila. Não diziam : O século é duro, a m iséria é grande, o dinheiro é raro; tinham m enos do que nós e tinham bastante, m ais ricos pela sua econom ia e por sua m odéstia do que pelas rendas e dom ínios. Em sum a, naquele tem po se estava com penetrado desta m áxim a: o que nos nobres é esplendor, suntuosidade, m agnificência, é dissipação, loucura, inépcia, no particular.