Caracteres
Do Mérito Pessoal
Quem poderá, com os m ais raros talentos e m ais excelente m érito, deixar de se convencer da própria inutilidade quando verifica que deixa, ao m orrer, um m undo que não lhe sente a perda e no qual se acha tanta gente para substituí-lo?
De m uitos nada m ais existe, além do nom e, capaz de valer algum a coisa. Quando os vem os de m uito perto, são m enos que nada: de longe, fazem figura.
Apesar de convencido de que os escolhidos para diferentes em pregos, segundo seu gasto e profissão, saem -se bem , ouso dizer que pode acontecer existirem no m undo m uitas pessoas conhecidas ou desconhecidas, que não são utilizadas, e que se sairiam m uito bem : e sou induzido a esse sentim ento pelo sucesso m aravilhoso de certas pessoas que só o acaso colocou e das quais até então não se esperaram coisas m uito notáveis.
Quantos hom ens adm iráveis, possuidores de belas qualidades, m orreram sem que se falasse deles! Quantos ainda vivem dos quais nada se fala e j am ais nada se falará?
Que terrível trabalho tem um hom em , sem padrinhos e sem cabala, sem estar inscrito em nenhum a corporação, sendo sozinho, e só tendo por recom endação um grande m érito, para fazer luz sobre a obscuridade em que se encontra, e chegar ao nível de um tolo bem cotado!
Quase ninguém percebe por si m esm o o m érito dos outros.
Os hom ens estão ocupados dem ais consigo m esm os para ter tem po de com preender e discernir os outros: daí o fato de que com grande m érito e m odéstia ainda m aior pode-se ficar m uito tem po ignorado.
O gênio e os grandes talentos m uitas vezes faltam , às vezes tam bém faltam só as ocasiões: alguns podem ser louvados pelo que fizeram , outros pelo que teriam feito.
É m enos raro encontrar espírito, do que pessoas que se sirvam do seu, ou façam valer o dos outros e o utilizem em algum a coisa.
Há m ais ferram entas do que operários, e entre estes, há m ais m aus do que excelentes: que pensar de quem queira serrar com um a plaina e tom e o serrote para aplainar?
Não há no m undo ofício m ais penoso que o de fazer nom e ilustre: a vida acaba quando apenas se esboçou a obra.
Que fazer com Egesipo, que pede em prego? Colocá-lo na Fazenda ou no Exército? Isso é indiferente, é preciso que só o interesse decida; porque ele é tão capaz de m anej ar com dinheiro, ou fazer contas, quanto de carregar arm as. Serve para tudo, dizem os am igos: isso significa sem pre que não tem m ais j eito para um a coisa que para outra; ou, noutras palavras, que não serve para nada.
Assim a m aior parte dos hom ens, preocupados consigo m esm os na j uventude, corrom pidos pela preguiça ou pela farra, pensam erradam ente, num a idade m ais avançada, que lhes basta ser inúteis ou indigentes para que a república deva colocá-los ou socorrê-los; e raram ente aproveitam esta lição tão im portante: os hom ens deveriam em pregar os prim eiros anos da vida em se tornarem tais, pelos seus estudos e trabalhos, que a própria república precisasse de sua inteligência e de suas luzes; fossem com o um a peça necessária a todo o seu edifício, e ela se visse na contingência de, para sua própria vantagem , fazer-lhes a fortuna ou aum entá-la.
Devem os trabalhar para nos tornarm os m uito dignos de qualquer em prego: o resto não é conosco, é com os outros.
Valorizar-se por coisas que não dependem dos outros, e sim de si próprio, ou desistir de se valorizar: m áxim a inestim ável e de infinita aplicação na prática, útil aos fracos, aos virtuosos, às pessoas de espírito, que torna senhoras de sua sorte ou de sua tranqüilidade; perniciosa para os poderosos, pois dim inuiria seu séquito, ou antes, o núm ero de seus escravos destruiria sua arrogância com um a parte da sua autoridade, e os reduziria quase às suas baixelas e equipagens; iria privá-los do prazer que sentem em se fazer rogados, solicitados, fazer esperar ou recusar, prom eter e não dar; iria desm anchar o prazer que às vezes têm de pôr em destaque os tolos e esm agar o m érito, quando lhes acontece discerni-lo; baniria das cortes as intrigas, cabalas, m aus ofícios, baixeza, adulação, trapaça; faria de um a corte tem pestuosa, cheia de agitações e intrigas, com o que um a peça côm ica, ou m esm o trágica, na qual os prudentes seriam apenas espectadores; restituiria dignidade às diferentes condições dos hom ens, serenidade a suas faces, hábito de trabalho e de exercício; iria levá-los à em ulação, desej o de glória, am or da virtude; em vez de cortesãos vis, inquietos, inúteis, m uitas vezes onerosos à república, far-se-iam adm inistradores hábeis ou excelentes pais de fam ília, j uizes íntegros, bons oficiais, grandes capitães, oradores, filósofos; e não lhes daria, a todos, outro inconveniente que o de, talvez, deixar aos herdeiros m enos tesouros do que bons exem plos.
É preciso, na França, m uita firm eza e grande am plitude de espírito para dispensar as com issões e em pregos e consentir, assim , em ficar em casa e não fazer nada. Quase ninguém tem m érito bastante para desem penhar esse papel com dignidade, nem bastantes fundos para encher o vazio do tem po com aquilo que o vulgo cham a negócios. Entretanto só falta à ociosidade do hom em prudente um m elhor nom e: que m editar, falar, ler, estar tranqüilo se cham asse: trabalhar.
Um hom em de m érito que está no seu lugar nunca se aflige por vaidade; deslum bra-se m enos com o posto que ocupa do que se sente hum ilde pelo posto m aior que não ocupa, e do qual se acha digno; m ais capaz de inquietação que de orgulho ou desprezo pelos outros, ele só pesa a si m esm o.
Custa a um hom em de m érito com parecer à corte, m as por um a razão bem oposta à que se poderia im aginar. Não seria hom em de m érito sem um a grande m odéstia, que o im pede de pensar que possa dar grande prazer aos príncipes postando-se à sua passagem , plantando-se diante, dos seus olhos e m ostrando-lhes o rosto. Mais depressa se convence de que os im portuna; e precisa de todos os argum entos tirados do uso e do dever, para resolver se m ostrar. Ao contrário, aquele que tem boa opinião de si, e que o vulgo cham a brilhante, sente prazer em se tornar visto e faz a corte com tanto m aior confiança quanto é incapaz de im aginar que os poderosos, ao vê-lo, pensam sobre a sua pessoa diferente do que ele próprio pensa.
Um hom em de bem se paga por suas m ãos da aplicação ao dever, pelo prazer que sente em cum pri-lo, e se desinteressa dos elogios, estim a e reconhecim ento que algum as vezes lhe faltam .
Se eu ousasse fazer um a com paração entre duas condições com pletam ente desiguais, diria que um hom em de coragem pensa em cum prir seus deveres exatam ente com o o hom em que faz telhados pensa em colocar telhas: nem um nem outro procuram expor sua vida, nem se afastam por m edo do perigo; a m orte, para eles, é um incidente do ofício, e nunca um obstáculo.
O prim eiro, por ter estado na trincheira, tom ado um a posição ou forçado um refúgio inim igo, não se vangloria m ais do que este por ter subido na ponta das cum ieiras ou no alto de um cam panário. Todos dois trataram , apenas, de trabalhar bem ; enquanto que O fanfarrão trabalha em fazer com que se diga que ele trabalhou bem .
A m odéstia é para o m érito o que as som bras são para as figuras de um quadro: dá-lhe som bra e relevo.
Um a aparência sim ples é a vestim enta dos hom ens vulgares; talhada para eles, e sob m edida. Mas é enfeite para os que encheram sua vida de grandes ações; com paro-a a um a beleza descuidada, por isso m ais sedutora.
Certos hom ens, contentes consigo, com algum a ação ou obra que lhes saiu bem feita, tendo ouvido dizer que a m odéstia assenta bem aos grandes hom ens, ousam ser m odestos, arrem edam os sim ples e naturais, com o essas pessoas de estatura m ediana que se abaixam nas portas por m edo de bater com a cabeça no portal.
Seu filho é gago: não o faça subir à tribuna. Sua filha nasceu para o m undo: não a m eta entre vestais. Xanto, seu liberto, é fraco e tím ido: não hesite em retirá-lo das legiões e da m ilícia. Quero fazê-lo progredir, diz: encha-o de bens, sobrecarregue-o de terras, títulos e posses: siga o seu tem po: vivem os num século em que isso lhe dará m ais honrarias que virtudes. Isso m e custará m uito. Falou sério, Crasso? Pensa você que basta um a gota d’água que tira do Tibre para enriquecer Xanto, de quem você gosta, e prevenir as conseqüências vergonhosas de um negócio em que ele não está m uito lim po?
Não se deve olhar nos am igos senão a única virtude que nos prende a eles, sem nenhum exam e da sua boa ou m á fortuna; e quando nos sentim os capazes de segui-los na desgraça, é preciso freqüentá-los com decisão e confiança até na sua m aior prosperidade.
Se é com um surpreenderm o-nos com as coisas raras, por que nos surpreendem os tão pouco com a virtude?
Se é bom ter bom nascim ento, não o é m enos ser-se de tal form a que não se indague m ais do nosso nascim ento.
Aparecem de tem pos em tem pos na face da terra hom ens singulares, preciosos, que brilham pela virtude, e cuj as qualidades em inentes lançam fulgor .prodigioso. Parecidos com essas estrelas extraordinárias das quais se ignoram as causas, e ainda m enos se sabe o que será delas depois que desaparecerem , eles não têm antepassados nem descendentes: com põem sozinhos toda a sua raça.
O bom caráter nos revela nosso dever, nosso em penho em cum pri-lo; se há perigo, com perigo; inspira coragem e a substitui.
Quando se é inexcedível na sua arte, dando-lhe toda a perfeição de que ela é capaz, de qualquer m aneira se sobressai, igualando-se ao que há de m ais nobre e m ais elevado. V... é um pintor, C... é um m úsico, o autor de Py ram e é um . poeta
(17): m as MIGNARD é MIGNARD, LULLI é LULLI e CORNEILLE é CORNEILLE.
Um hom em livre, que não tem m ulher, se tiver algum engenho, pode transm ontar à própria sorte, m eter-se pelo m undo e se equiparar às pessoas m ais notáveis: isso é m enos fácil para aquele que está com prom etido; parece que o casam ento subm ete todo m undo às suas ordens.
Depois do m érito pessoal, é preciso confessar, é das dignidades extraordinárias e dos grandes títulos que os hom ens tiram m ais distinção e m aior brilho; quem não sabe ser um ERASMO deve pensar em ser bispo.
Alguns, para am pliar sua fam a, am ontoam sobre si os pariatos, cordões de ordem , prim ados, púrpura, teriam necessidade de um a tiara: m as que
necessidade teria Trofines (18) de ser cardeal?
Você diz que o ouro cintila nas roupas de Filém on; m as tam bém cintila nos ourives. Ele se veste com as m ais lindas fazendas; m as por isso deixarão elas de ser desdobradas nas loj as, e vendidas a retalho? Mas os bordados e ornam entos acrescentam m agnificência a essas roupas! Pagarei então o trabalho de um artífice. Se perguntam que horas são, Filém on saca um relógio que é obra prim a;
a guarda de sua espada é um ônix (19); tem no dedo um diam ante enorm e e perfeito, que faz ofuscar os olhos; não lhe falta nenhum a dessas curiosas bagatelas que se leva sobre si, tanto para uso com o por vaidade; e não poupa toda sorte de enfeites, tal com o um j ovem casado com um a velha rica.
Afinal m e desperta curiosidade: é preciso, ao m enos, ver essas coisas tão preciosas: m andem -m e essa roupa e essas j óias de Filém on; dispenso a pessoa.
Tu te enganas, Filém on, se com essa carruagem brilhante, esse grande núm ero de velhacos que te seguem , e esses seis anim ais que te puxam , pensas que te respeitam m ais. Afastam todo esse aparato que te é estranho, para penetrarem em ti, que não passas de um tolo.
Não é preciso perdoar, às vezes, aquele que com grande cortej o, roupa suntuosa, equipagem m agnífica, se j ulga com m elhor nascim ento e m ais inteligência: ele lê o perdão na atitude e nos olhos de quem lhe fala.
Um hom em na corte, e às vezes na cidade, com um grande m anto de seda ou tecido de holanda, cinto largo posto sobre o estôm ago, calçado de m arroquim , lindo barrete cor de uva, gola bem feita e bem engom ada, cabelos com postos e tez rubicunda; que além disso recorda algum as distinções m etafísicas, explica o que é a luz da glória e sabe precisam ente com o se vê Deus: isso se cham a um doutor.
Um a pessoa hum ilde, que m ergulhou no seu gabinete, m editou, procurou, consultou, confrontou, leu ou escreveu durante toda a vida: é um hom em douto.
Entre nós, o soldado é bravo e o hom em de toga é sábio: não vam os além Entre os rom anos, o hom em togado era bravo e o soldado, sábio: um rom ano era ao m esm o tem po soldado e hom em de toga.
Parece que o herói só tem um ofício, que é a guerra; e o grande hom em tem todos os ofícios, o da toga, o da espada, o do gabinete, o da corte: um e outro j untos não valem um hom em de bem .
Na guerra a diferença entre o herói e o grande hom em é sutil: todas as virtudes m ilitares fazem um e outro. Julga-se, entretanto, que o prim eiro há de ser j ovem , em preendedor, de grande coragem , firm e no perigo, intrépido; que o outro é insuperável em bom senso, vasta previdência, alta capacidade, longa experiência. Talvez ALEXANDRE não fosse m ais que herói e CÉSAR fosse um grande hom em .
EMÍLIO (20) tinha de nascença o que os hom ens m ais ilustres só conseguem a força de regras, m editação e exercício. Só teve de, nos prim eiros anos, utilizar talentos que eram naturais e entregar-se ao seu gênio.
Fez, agiu, antes de saber, ou antes, soube o que nunca aprendera. Poderia dizer que os brinquedos da sua infância foram outras tantas vitórias? Um a vida ornada de extrem a felicidade j unto a um a longa experiência seria ilustre só com as ações praticadas desde a sua j uventude. Todas as ocasiões de vencer que depois se apresentaram , ele as adotou; as que não eram , sua virtude e sua estréia fizeram -nas aparecer: adm irável tanto pelas coisas que fez com o pelas que poderia ter feito. Consideraram -no com o um hom em incapaz de ceder ao inim igo, dobrar-se ante o núm ero e sob os obstáculos, com o um a alm a de prim eira ordem , cheia de recursos e de luzes e que via m esm o onde ninguém via; com o aquele que, à frente das legiões, era para elas um presságio de vitória, e valia, sozinho, por diversas legiões; grande na prosperidade, m aior ainda quando a sorte lhe era contrária: levantar um sítio, um a retirada, enobreceram -no m ais do que os triunfos das batalhas ganhas e das cidades tom adas; cheio de glória e de m odéstia, ouviram -no dizer: Eu ia fugindo, com a m esm a graça com que dizia: Nós os vencem os; hom em dedicado ao Estado, à sua fam ília, ao chefe de sua fam ília; sincero para Deus e os hom ens, adm irador do m érito com o se este lhe fosse m enos fam iliar: hom em verdadeiro, sim ples, m agnânim o, ao qual só faltaram as virtudes m enores.
Os filhos dos deuses (21), por assim dizer, escapam às regras da natureza, e são com o exceções: quase nada esperam do tem po e dos anos. O m érito, entre eles, antecede a idade. Nascem instruídos e são hom ens perfeitos antes que o com um dos hom ens tenha saldo da infância.
Os vistas-curtas, quer dizer, os espíritos estreitos e fechados na sua pequena esfera, não podem com preender a universalidade de talentos que se observa às vezes num a m esm a pessoa: onde eles vêm o agradável, excluem o sólido; onde pensam descobrir as graças do corpo, agilidade, flexibilidade, destreza, não querem adm itir os dons da alm a, profundeza, reflexão, sabedoria: om item , na história de Sócrates, o fato de ele ter dançado.
Não existe hom em bastante perfeito e necessário aos seus que não tenha de que se tornar m enos pranteado.
Um hom em inteligente, de caráter sim ples e reto, pode cair nalgum a peça; não pensa que alguém possa querer arm ar-lhe algum a, e escolhê-lo para obj eto de logro: essa confiança torna-o m enos precavido, e os espertalhões o agarram por aí. Só têm a perder os que venham para segunda tentativa: ele só se engana um a vez.
Se eu for j usto, evitarei cuidadosam ente ofender a quem quer que sej a; m as sobretudo a um hom em inteligente, se eu zelar, um pouco que sej a, pelos m eus interesses.
Não há nada bastante sutil, sim ples, im perceptível, em que não entre um que especial que nos revele. Um tolo não entra, nem sai, nem se senta, nem se levanta, nem se cala, nem fica em pé, com o um hom em de espírito.
Conheço Mopse de um a visita que m e fez sem m e conhecer. Ele pede a pessoas que não conhece para o levarem à casa de outras que não o conhecem ; escreve a m ulheres que conhece de vista, insinua-se num círculo de pessoas respeitáveis, que não sabem quem é ele; e aí, sem esperar que o interroguem , sem sentir que interrom pe, fala, ininterruptam ente, ridiculam ente.
Outra vez, entra num a assem bléia, fica onde entende, sem nenhum a atenção pelos outros, nem por si m esm o: tiram -no do lugar destinado a um m inistro, ele se senta no de um duque, par do reino: aí está precisam ente aquele de quem a m ultidão se ri, e só ele conserva-se grave e não ri.
Expulse-se um cachorro da poltrona do rei, ele subirá ao púlpito do pregador; olha o m undo com indiferença, sem inquietação, sem pudor; tal com o o tolo, o cachorro não tem de que se envergonhar.
Celso é m edíocre; m as alguns poderosos o suportam ; não é sábio; m antém relações com sábios; tem pouco m érito; m as conhece pessoas que o têm m uito; não é inteligente, m as tem um a língua que pode servir de intérprete e pés que podem levá-lo de um lugar a outro. É um hom em nascido para idas e vindas, para ouvir proposições e m exericar, para fazer disso ocupação, ir além do seu recado e ser desm entido; reconciliar pessoas que discutem desde o prim eiro encontro; ter sucesso em um negócio e falhar em m il; cham ar a si toda a glória de um sucesso e desviar sobre os outros o ódio de um fracasso. Conhece os boatos correntes, as intriguinhas da cidade; não faz nada; diz ou escuta o que os outros fazem : é noticiarista; sabe até o segredo das fam ílias; penetra nos m ais altos m istérios; pode dizer por que este foi exilado, e por que repatriaram aquele: conhece o fundo e as causas da discórdia entre irm ãos e do rom pim ento de dois m inistros. Não predisse, desde o com eço, as tristes conseqüências dessa desinteligência? Não disse destes que sua união não seria longa? Não estava presente ouvindo certas palavras que foram ditas? Não tom ou parte num a espécie de negociação? Quiseram acreditar nele? Ouviram -no? A quem vem você falar dessas coisas! Quem m ais que Celso tom ou parte nessas intrigas da corte? E se não fosse assim , se ele não tivesse, pelo m enos, sonhado ou im aginado, pensaria ele em fazê-lo acreditar? Tom aria o ar im portante e m isterioso de hom em que volta de em baixada?
Menipo é o pássaro enfeitado com penas alheias: não fala, não sente; repete sentim entos e discursos, serve-se até com tanta naturalidade da inteligência alheia, que é o prim eiro a se enganar, e m uitas vezes pensa dar sua opinião ou explicar seu pensam ento, quando não é m ais que o eco de alguém que acaba de deixar.
E um hom em que aparenta bem um quarto de hora seguida; no m om ento seguinte se rebaixa, degenera, perde o pouco verniz que um pouco de m em ória lhe dava e se m ostra tal qual é; só ele ignora quanto está abaixo do sublim e e do heróico; incapaz de saber até onde se pode ter espírito, pensa ingenuam ente que o seu é todo o espírito que os hom ens podem ter: por isso tem o ar e o aprum o de quem nada m ais desej a nesse capítulo, e nada invej a de ninguém . Freqüentem ente fala sozinho e não se esconde para isso: quem passa, vê; parece sem pre tom ar partido, ou decidir que tal coisa é incontestável.
Cum prim entá-lo algum a vez é m etê-lo em dificuldade para saber se deve ou não responder à saudação; e enquanto delibera, j á se está for a de alcance.
A vaidade fez dele hom em correto; colocou-o acim a de si m esm o, fez com que se tornasse o que não era. Julga-se, ao vê-lo, que só está ocupado com sua pessoa; sabe que tudo lhe assenta e que os enfeites lhe vão bem ; pensa que todos os olhares estão fixados nele, e que os hom ens se revezam para contem plá-lo.
Aquele que, confortavelm ente instalado num palácio, com dois apartam entos para inverno e verão, vem se deitar num sótão do Louvre, não o faz por m odéstia.
O outro que para conservar talhe esbelto se abstém de vinho, e só tom a um a refeição; não é sóbrio nem tem perante; e de um terceiro que, im portunado por um am igo, pobre, afinal lhe dá algum socorro, diz-se que com pra o descanso, e nunca que é liberal.
Só o m otivo faz o m érito das ações hum anas, e o desinteresse acrescenta perfeição.
A falsa grandeza é intratável e inacessível: com o sente seu fraco, esconde-se, ou pelo m enos não m ostra o rosto m ais que o necessário para se im por e não aparecer tal com o é, digo, um a autêntica pequenez.
A verdadeira grandeza é livre, afável, fam iliar, popular. Deixa-se tocar e exam inar; não perde nada ao ser vista de perto: quanto m ais a conhecem , m ais a adm iram . Curva-se, por bondade, para os seus inferiores e volta, sem esforço, ao seu natural.
As vezes se abandona, se descuida, dá um a folga à sua superioridade, podendo sem pre retom á-la e fazê-la valer: ri, brinca e se diverte, m as com dignidade. A gente se aproxim a dela com liberdade e respeito. Seu caráter é nobre a acessível, inspira respeito e confiança, e faz com que os príncipes nos pareçam grandes e m uito grandes, sem nos fazer sentir que som os pequenos.
O hom em de j uízo cura-se da am bição com a própria am bição; tende a tão grandes coisas que não pode se lim itar ao que cham am tesouros, postos, fortuna, proteções. Não vê, nessas vantagens tão m inguadas, nada bastante bom e sólido para encher o coração e m erecer seus cuidados e desej os; tem até necessidade de esforços para desdenhá-las. O único tem capaz de tentá-lo é essa espécie de glória que deveria nascer da virtude pura e sim ples: m as os hom ens não a concedem ; ele a dispensa.
É bom aquele que faz o bem aos outros; se sofre pelo bem que faz, é m uito bom ; se recebe sofrim ento daqueles a quem fez bem , tem um a bondade tão grande que só pode ser aum entada no caso de aum entarem seus sofrim entos; e se m orre deles, sua virtude não podia ir m ais longe: é heróica e perfeita.