Caracteres

Jean de La Bruyère · Capítulo 7 de 12

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Caracteres

Da Sociedade e da Conversação

 

 

É dem onstrar caráter desagradável não ter nenhum .

O papel de um tolo é ser im portuno; um hom em de bom senso sabe quando é oportuno e quando é dem ais; sabe desaparecer no m om ento que precede aquele em que seria dem ais em algum lugar.

Atropelam -se os im pertinentes; essa espécie de insetos chove em toda parte. Um a pessoa espirituosa é coisa rara: para um hom em que nasceu assim é m uito difícil sustentar-se assim por m uito tem po; não é com um quem faz rir fazer-se estim ado.

Há m uitos espíritos obscenos, ainda m ais m aldizentes ou satíricos, poucos delicados. Para brincar com graça e ter expressões felizes sobre os assuntos m ais insignificantes, é preciso m uito j eito, m uita polidez e m esm o m uita fecundidade, é criar, caçoar; assim , é fazer, de nada, algum a coisa.

Se se prestasse séria atenção a tudo o que se diz de insípido, vão e pueril, nas conversações com uns, ter-se-ia vergonha de falar e de ouvir; e se condenaria talvez a um silêncio perpétuo, pior, no convívio, que os discursos inúteis.

É preciso, portanto, adaptar-se a todas as inteligências, perm itir com o um m al necessário que nos contem notícias falsas, que nos digam vagas reflexões sobre o governo atual ou o interesse dos príncipes, a enum eração dos bons sentim entos e a repetição constante dessas coisas; é preciso deixar Aronde citar provérbios, e Melindo falar de si, de suas m anias, suas dores de cabeça e suas insônias.

Vêm -se pessoas que na conversa ou no pequeno convívio que se tem com elas, desagradam com suas expressões ridículas, com a novidade, ou se m e atrevo a dizer, im propriedade dos term os de que se servem , com o pela j unção de certas palavras que só se encontram j untas na sua boca às quais dão significados que os seus prim eiros inventores nunca tiveram a intenção de em prestar-lhes. Não seguem , ao falar, nem a razão do uso; o gênio desagradável, a vontade de caçoar sem pre e talvez de brilhar, form a um a gíria que lhes é própria, e se torna, afinal, seu idiom a corrente; acom panham essa linguagem extravagante com o gesto afetado e pronúncia contrafeita. Andam todos contentes consigo m esm os e com a finura de sua inteligência, da qual não se pode dizer que sej am totalm ente isentos; m as a gente os lam enta por esse pouco que têm ; e, o que é pior, a gente os suporta.

Que diz? Com o? Não entendo: você quereria repetir? Entendo ainda m enos. Até que afinal! Você quer m e dizer, Acis, que está fazendo frio; por que não disse: está fazendo frio? Você quer m e dizer que está chovendo ou nevando; diga: está chovendo, está nevando. Você m e acha bem disposto e desej a m e felicitar; diga: eu o acho bem disposto. Mas, perguntam -m e, isso é claro e evidente: quem não poderia dizer o m esm o? Que im porta, Acis? Será tão grande m al ser ouvido, quando se fala, por todo o m undo? Um a coisa lhe falta, Acis, a você e a seus sem elhantes, os dizedores de palavras em poladas; vocês nem desconfiam , e vou surpreendê-los; um a coisa lhes falta: é inteligência. E não é só isso: um a coisa, em vocês, é dem ais: a im pressão de saberem m ais do que outros; eis a fonte da sua pom posa algaravia, frases em brulhadas e palavras solenes que nada significam .

Quando você aborda este hom em , ou entra nesta sala, eu puxo você pelo casaco e lhe digo ao ouvido: não procure inteligência, não tenha inteligência, seu papel é usar, se puder, de linguagem sim ples, igual à que têm aqueles em que você não acha inteligência: talvez então se pense que você tenha algum a.

Quem pode prom eter evitar na sociedade dos hom ens encontrar certos espíritos frívolos, levianos, que se fazem íntim os, e são sem pre, num a roda, os que falam e têm de ser ouvidos pelos outros? A gente os ouve desde a sala de espera; entra-se im punem ente, sem risco de interrom pê-los: eles continuam sua história sem a m enor atenção pelos que entram ou saem , nem pela posição ou m érito das pessoas que com põem o grupo: fazem calar-se aquele que com eça a contar um fato, para dizê-lo à sua m oda, que é sem pre a m elhor; ouviram -no

contar de Zam et, de Ruccelai ou .de Conchine (25), que eles não conhecem , aos quais nunca falaram , e tratariam de Excelentíssim o Senhor se lhes falassem ; aproxim am -se às vezes do ouvido do m ais notável dos presentes para brindá-lo com um detalhe que ninguém conhece, e eles não querem que os outros fiquem sabendo; suprim em alguns nom es para disfarçar a história que contam , e evitar as alusões: rogue, suplique, inutilm ente; há coisas que eles não dirão; há nom es que eles não poderiam dar: em penharam a palavra; é o m aior dos segredos, é um m istério; além do m ais você lhes pede o im possível: porque, sobre o que você quer saber, eles ignoram o fato e as personagens.

Arrias leu tudo, viu tudo; quer convencer-nos disso: é um hom em universal, e com o tal se apresenta; gosta m ais de m entir do que de ficar calado ou parecer ignorar algum a coisa. Fala-se na m esa de um nobre sobre um a corte do Norte: orienta-se nessa região longínqua com o se fosse originário de lá; discorre sobre os costum es dessa corte, as m ulheres do país, as leis e usos; conta pequenas histórias que aconteceram por lá; acha-as engraçadas, e é o prim eiro a rir até estourar. Alguém ousa contradizê-lo, e prova claram ente que ele disse coisas que não são verdadeiras; Arrias não se perturba, ao contrários enfurece-se contra quem o interrom peu. Não invento nada, diz, não conto nada que não conheça no origina1; soube por Séton, em baixador da França nessa corte que voltou a Paris há poucos dias, m eu íntim o, a quem fiz m uitas perguntas e ele não m e escondeu nenhum a circunstância. Retom a o fio da narração com m ais confiança do que ao com eçá-la, quando um dos convivas lhe diz: É com Séton em pessoa que o sr. está falando; ele acabou de chegar da em baixada.

Há um partido a tom ar nas conversas, entre um a certa preguiça que se tem de falar ou, às vezes, um espírito abstrato, que, nos levando para longe do assunto da palestra, nos faz form ular perguntas im próprias ou dar respostas estúpidas; e um a atenção im portuna que se presta à m enor palavra que se diz distraído para retorná-la, com entá-la, achar nela um m istério que, os outros não acham , procurar nisso finura e sutileza, só para ter ocasião de dem onstrar a, sua.

Ser enfatuado, e fortem ente convencido de que se tem m uita inteligência, é um acidente que só acontece a quem não tem , ou tem pouca, e então, ai de quem está exposto a conversar com tal personagem ! Quantas frases bonitas terá de suportar! Quantas dessas palavras aventureiras que aparecem subitam ente, duram algum tem po, e logo não se ouvem m ais! Se conta um fato, é m enos para contá-lo a quem o ouve que para ter o m érito de dizê-lo, e dizê-lo bem ; torna-se um rom ance nas suas m ãos; faz as pessoas, pensarem à sua m oda, põe-lhes na boca seu j eito de falar, e sem pre as faz falar m uito; cai depois em parêntesis que podem passar por episódios m as fazem esquecer o principal da história, a ele que fala, e a você que o suporta: que seria de você e dele se não viesse felizm ente alguém para desm anchar a roda e fazer esquecer a narração?

Ouço Teodecto da sala de espera; aum enta a voz à m edida que se aproxim a; ei-lo; ri, grita, explode; tapam os os ouvidos; é um trovão: não é m enos tem ível pelas coisas que diz que pelo tom com que as diz; só se acalm a e dim inui esse estrépito para balbuciar futilidades e tolices; tem tão pouca consideração pelo tem po, as pessoas, as conveniências, que cada um recebe sua parte sem que ele tenha intenção de lhe dar; m al se sentou, j á, sem querer, desagradou toda a assem bléia. Serviu-se a refeição: senta-se prim eiro à m esa, e no lugar principal; as m ulheres estão à sua direita e à sua esquerda: ele com e, bebe, narra, caçoa, interrom pe, tudo ao m esm o tem po; não distingue pessoas, nem o dono da casa, nem os convivas; abusa da louca deferência que se tem por ele. Será ele ou Eutidem o quem oferece o banquete? Cham a a si toda a autoridade da m esa; e é m enos inconveniente deixá-la inteira do que disputá-la com ele: o vinho e as iguarias não acrescentam nada ao seu caráter. Se se j oga, ganha no j ogo; zom ba de quem perde, e o ofende: os caçoistas são a favor dele; não há fatuidade: que não lhe perdoem . Afinal cedo e desapareço, incapaz de suportar por m ais tem po Teodecto e os que o suportam .

Troilo é útil aos que têm bens dem ais: tira-lhes a dificuldade do supérfluo; poupa-lhes o trabalho de j untar dinheiro, fazer contratos, fechar um cofre, trazer chaves consigo, e tem er um roubo dom éstico; aj uda-os nos seus prazeres, e se torna em seguida capaz de servi-los nas suas paixões: logo os regula e dom ina na sua conduta. É o oráculo de um a casa, aquele de quem se esperam — que digo? — de quem se prevêem , de quem se adivinham as decisões diz deste escravo: é preciso puni-lo, e o chicoteiam ; e deste outro: é preciso libertá-lo, e o libertam . Vê-se que um parasita não é despedido: o dono da casa dá-se por feliz se Troilo lhe deixa a m ulher e os filhos. Se Troilo está na m esa, e diz que um prato é gostoso, o dono da casa e os convivas, que o com iam sem reflexão, acham -no gostoso, e não se fartam de com ê-lo; se ao contrário, ele diz que outro prato é insípido, os que com eçavam a prová-lo, não ousando engolir o pedaço que têm na boca, o j ogam no chão: todos têm os olhos nele, observam sua atitude e fisionom ia antes de dar opinião sobre o vinho ou as iguarias que foram servidas. Não o procurem noutro lugar que não sej a a casa desse ricaço que ele governa; ai ele com e, dorm e, faz digestão, ralha com o criado, recebe seus operários, despacha os credores: dá regras, dom ina num a sala; recebe a corte e as hom enagens daqueles que, m ais finórios que os outros, só querem chegar ao dono da casa através de Troilo. Se entra alguém que por infelicidade não tem fisionom ia que lhe agrade, enruga a fronte e desvia os olhos; se o aborda, não se levanta; se se senta perto dele, afasta-se; se lhe fala, não responde; se continua a falar, vai para outra sala; se o segue, sobe a escada: atravessaria todos os andares ou se lançaria por um a j anela para não se deixar abordar por alguém cuj o rosto ou tom de voz não aprove; um e outro são agradáveis cm Troilo, e ele se serve de am bos com felicidade para se insinuar ou conquistar. Tudo se torna, com o tem po, suj eito a seus cuidados, com o ele está acim a de querer sustentar-se ou continuar agradando pelo m enor dos talentos que com eçaram a valorizá-lo: Já é m uito que ele saia às vezes de suas m editações e deixe o ar taciturno para contradizer e que m esm o para criticar se digne, um a vez por dia, ter espírito; longe de esperar dele que preste atenção aos sentim entos alheios, sej a condescendente e os louve, não se tem certeza se continua apreciando a sua aprovação, ou se sofre com a sua condescendência.

É preciso deixar falar esse desconhecido que o acaso colocou perto de si num veículo público, num a festa ou num espetáculo; e logo só custará, para conhecê-lo, tê-lo escutado; saber-se-á seu nom e, residência, origem , o estado de seus bens, ocupação, parentesco, as arm as da sua casa; com preender-se-á que é nobre, tem um castelo, belos m óveis, lacaios, e um a carruagem .

Há pessoas que falam um m om ento antes de pensar; há outras que prestam fraca atenção no que dizem , e com as quais sofrem os, na conversação, todo o trabalho que a sua inteligência tem ; estão com o am assados de frases e j eitos de

expressão, concertados nos gestos e em toda a sua atitude; são puristas (26) e não ousam a m enor palavra, ainda quando ela fizesse o m ais belo efeito do m undo; nada de feliz lhes escapa; nada flui com facilidade e liberdade: falam de m odo correto e cacete.

O espírito da conversação consiste m uito m enos em m ostrar m uito espírito que em fazer os outros o acharem : quem sai de um a palestra com você contente consigo m esm o e com seu espírito, sai perfeitam ente contente com você. Os hom ens não gostam de adm irar; querem agradar: procuram m enos ser instruídos, e m esm o satisfeitos, que serem apreciados e aplaudidos; e o prazer m ais delicado que há é o de causar o dos outros.

Não deve haver im aginação dem ais nas nossas palestras e escritos; geralm ente ela só produz idéias vãs e pueris, que não servem para aperfeiçoar o gosto e nos tornar m elhores: nossos pensam entos devem ser tom ados no bom sentido é razão j usta é devem ser efeito do nosso raciocínio.

É grande m iséria não ter bastante inteligência para falar bem , nem bastante j uízo para se calar. Eis o princípio de toda im pertinência.

Dizer de um a coisa, m odestam ente, que é boa ou que é m á, e as razões por que assim é, requer bom senso e expressão; é um problem a. É m ais côm odo pronunciar, em tom decisivo, que im porta em prova do que se afirm a, que ela é execrável ou que é m iraculosa.

Nada m enos de acordo com Deus e o m undo que concordar com tudo o que se diz na conversação até nas coisas m ais diferentes, por longos e fastidiosos j uram entos. Um hom em de bem que diz sim e não, m erece ser acreditado: seu caráter j ura por ele, dá crédito a suas palavras e lhe atrai toda confiança.

Aquele que diz incessantem ente que é honrado e probo, que não prej udica ninguém , que consente que o m al que ele faz aos outros lhe aconteça, e j ura para se fazer acreditado, não sabe nem fingir de hom em de bem .

Um hom em de bem não saberá im pedir, com toda a sua m odéstia, que se diga dele o que um vilão sabe dizer de si.

Cleon fala com pouca urbanidade ou pouca correção; m as acrescenta que é feito assim e que diz o que pensa.

Há falar bem , falar com facilidade, falar certo, falar a propósito: é pecar contra este últim o gênero descrever um a refeição m agnífica que se acaba de fazer, diante de pessoas que estão reduzidas a poupar o pão; dizer m aravilhas de sua saúde diante de doentes; discorrer sobre suas riquezas, rendas e alfaias para um hom em que não tem rendas nem dom icílio; num a palavra, falar de sua felicidade diante dos m iseráveis. Essa conversação é forte dem ais para eles; e a com paração que fazem do seu estado com o deles é odiosa.

Para você, diz Eutifron, você é rico, ou deve ser: dez m il libras de renda, e terra, é belo, é um a delicia, e com m enos do que isso j á se é feliz, enquanto ele, que fala assim , tem cinqüenta m il libras de renda e pensa ter apenas a m etade do que m erece: ele taxa, avalia, fixa a vossa despesa; e se vos j ulgasse digno de m elhor fortuna, m esm o daquela a que aspira, não deixaria de desej ar-vo-la. Não é o único a fazer tão m ás avaliações ou com parações tão desagradáveis; o m undo está cheio de Eutifrons.

Alguém , seguindo o costum e que m anda elogiar, e pelo hábito que tem de adular, e exagerar, felicita Teodem o por um discurso que não ouviu, e do qual ninguém ainda lhe deu conta; não se cansa de falar no gênio de Teodem o na sua gesticulação, e principalm ente na sua m em ória: a verdade é que Teodem o esteve calado.

Vêm -se pessoas bruscas, inquietas, presunçosas, que, apesar de ociosas, e sem nenhum a atividade que as requisite em outro lugar, nos despacham , por assim dizer, em poucas palavras, e só pensam em se livrar de nós: ainda estam os falando, j á partiram , e desapareceram . Esses não são m enos im pertinentes que aqueles que nos fazem parar só para nos cacetear; são, talvez, m enos incôm odos.

Falar e ofender, para certas pessoas, é precisam ente a m esm a coisa: são m ordazes e ásperos, seu estilo é m isturado com fel e absinto; zom baria, inj úria, insulto, escorrem de seus lábios com o saliva. Seria útil para elas terem nascido m udas ou estúpidas.

O que têm de vivacidade e inteligência prej udica-as ainda m ais do que, a outras, a tolice.. Nem sem pre se contentam em responder com azedum e, freqüentem ente atacam com insolência: dão m arradas de frente e de lado, com o os carneiros: será que se pede aos carneiros para não terem chifres? Assim tam bém não se espera reform ar com esta pintura naturezas tão duras, bravias, indóceis. O que se pode fazer de m elhor, assim que de longe os vem os, é fugir com todas as forças, e sem olhar para trás.

Há pessoas de certo estofo ou caráter com as quais nunca nos devem os m eter, das quais não nos devem os queixar senão o m enos que puderm os, contra as quais não é perm itido ter razão.

Entre duas pessoas que tiveram um a violenta querela, na qual um a tem razão e outra não, o que a m aior parte das pessoas que assistiram à querela nunca deixam de fazer, para se dispensar de j ulgar, ou por tem peram ento que sem pre m e pareceu deslocado, é condenar todos dois: lição im portante, m otivo urgente e indispensável para fugir ao oriente quando o tolo está no ocidente, a fim de evitar dividir com ele o m esm o agravo.

Não gosto de um hom em que não posso abordar em prim eiro lugar, nem cum prim entar antes que ele m e cum prim ente, sem m e dim inuir a seus olhos, e sem m e tornar cúm plice da boa opinião que tem de si m esm o. MONTAIGNE

diria: (27)

“Quero ter, m ovim entos livres e ser cortês e afável à m inha m oda, sem rem orso nem conseqüência. Não posso lutar contra m inha inclinação, e andar ao contrário do m eu natural, que m e faz aproxim ar daquele que sinto vir ao m eu encontro. Quando é m eu igual, e não é m eu inim igo, antecipo sua boa acolhida; pergunto-lhe pela disposição e saúde; ofereço-lhe m eus serviços sem discutir sobre se é pouco ou m uito, nem ficar, com o dizem alguns, de sobreaviso. Desagrada-m e aquele que, pelo conhecim ento que tenho de seus costum es e m odos de agir, tira-m e essa liberdade e franqueza: com o m e lem brar a propósito, logo ao ver de longe esse hom em , de tom ar atitude grave e im portante, dem onstrando-lhe que j ulgo valer tanto quanto ele e m ais até; pelo fato de, m e lem brar das m inhas boas qualidade e condições, e das suas m ás, posso fazer com paração? É trabalho dem ais para m im , e não sou absolutam ente capaz de tão rij a e súbita atenção; e m esm o quando ela m e tivesse acontecido algum a vez, eu não deixaria de ceder e m e desm entir num a segunda tentativa: não posso m e forçar e constranger, para nada, a ser arrogante.

Com virtude, capacidade e boa conduta, se pode ser insuportável. As atitudes, que se desprezam com o coisas sem im portância, são m uitas vezes o que faz com que os hom ens j ulguem de si bem ou m al: um a ligeira atenção em tê-las doces e polidas previne m aus j uízos. Não é preciso quase nada para ser j ulgado orgulhoso, incivil, insolente, desagradável; é preciso ainda m enos para ser considerado o contrário.

A polidez nem sem pre inspira bondade, eqüidade, condescendência, gratidão; dá, pelo m enos, a aparência disso, e faz o hom em parecer por fora o que devia ser interiorm ente.

Pode-se definir o espírito de polidez: não se pode fixar a prática: ele segue o uso e os costum es recebidos, está preso ao tem po, lugares, pessoas, e não é o m esm o nos dois sexos, nem em diferentes condições: a inteligência sozinha não o faz adivinhar; faz com que o sigam por im itação, e que se aperfeiçoe nisso. Há tem peram entos que só são suscetíveis de polidez, há outros que só servem aos grandes talento ou a um a virtude, sólida. É verdade que m aneiras polidas dão curso ao m érito, e o tornam agradável; e que é preciso ter qualidades bem em inentes para se sustentar sem a polidez.

Parece-m e que o espírito de polidez é um a certa atenção em fazer com que, por nossas palavras e m aneiras, os outros fiquem contentes conosco e consigo m esm os.

É um a ofensa contra a polidez louvar im oderadam ente na presença daquele a quem se pede para cantar ou tocar um instrum ento, algum a outra pessoa que tem esses m esm os talentos; com o diante daqueles que lêem seus versos, um outro poeta.

Nos banquetes ou festas que se dão, nos presentes que se fazem , e em todos os prazeres que proporcionam aos outros, há fazer bem e fazer segundo o gosto deles: o segundo é preferível.

Seria um a espécie de ferocidade desprezar indiferentem ente toda sorte de louvores: deve-se ser sensível aos que nos vêm com o pessoas de bem , que louvam em nós, sinceram ente, coisas louváveis.

Um hom em inteligente, que nasceu altivo, não perde nada da sua altivez e austeridade por estar pobre: se algum a coisa, ao contrário, deve am olecê-lo, torná-lo m ais am ável e m ais sociável, é um pouco de prosperidade.

Não poder suportar os m aus caracteres de que o m undo está cheio, não é sinal de m uito bom caráter: é preciso, no com ércio, haver m oedas de ouro e níqueis.

Viver com pessoas que estão brigadas, tendo-se de ouvir, de am bas as partes queixas recíprocas, é, por assim dizer, não sair da audiência e ouvir, da m anhã á noite, defender e tratar de processos.

Sabe-se de pessoas que tinham passado seus dias num a estreita união: seus bens eram com uns; tinham a m esm a residência; não se perdiam de vista. Perceberam , com m ais de noventa anos, que só tinham m ais um dia para viver, e não ousaram tentar passá-lo j untos; trataram de rom per antes de m orrer; só tinham reservas de com placência até esse m om ento. Viveram dem ais para bom exem plo; um m om ento m ais cedo, m orreriam sociáveis, e deixariam depois de si um raro m odelo de perseverança na am izade.

O íntim o das fam ílias é freqüentem ente perturbado pelas desconfianças, ciúm es e antipatias, enquanto um exterior contente, calm o e risonho nos engana e nos faz supor um a paz inexistente: poucas existem que ganham em ser exam inadas de perto. Essa visita que você faz acaba de suspender um a querela dom éstica que só espera a sua retirada para recom eçar.

Na sociedade é a razão a prim eira vencida. Os m ais aj uizados são freqüentem ente dirigidos pelo m ais louco e extravagante: estuda-se seu fraco, seu hum or, seus caprichos; acom oda-se a ele; evita-se feri-lo; todo m undo cede a ele: a m enor serenidade que aparece na sua fisionom ia basta para lhe atrair elogios; acham -no ótim o por não ser sem pre insuportável. É tem ido, considerado, obedecido, e às vezes am ado.

Só aqueles que tiveram velhos parentes colaterais, ou que os têm ainda, dos quais se espera herdar, podem dizer o que isso custa.

Cleante é um hom em m uito correto; escolheu um a m ulher que é a pessoa m elhor do m undo, e a m ais razoável: cada um por seu lado faz todo o prazer e agrado das reuniões a que com parecem ; não se pode ver em outro lugar m ais probidade, m ais polidez; se separam , e a ata de separação é feita no tabelião. Existem , sem dúvida, certos m éritos que não são feitos para estar j untos, certas virtudes incom patíveis.

Pode-se contar seguram ente com o dote, a pensão e convenções m as fracam ente com as doçuras; elas dependem de um a união frágil da sogra e da nora que freqüentem ente perece no ano do casam ento.

Um sogro não gosta do genro, gosta da nora; um a sogra gosta do genro, não gosta da nora: tudo é recíproco.

O de que um a m adrasta m enos gosta no m undo são os filhos do m arido: quanto m ais am a o m arido, m ais m adrasta é.

As m adrastas tornam desertas cidades e aldeias e não povoam m enos a terra de m endigos, vagabundos, criados e escravos, que a pobreza.

G“ e H“ são vizinhos de cam po, e suas terras são contíguas; habitam um a região deserta e solitária; afastados das cidades e de todo convívio, pareceria que a fuga de um a com pleta solidão ou o am or da convivência devesse uni-los por recíproca afeição; no entanto é difícil exprim ir a bagatela que os fez rom per, e os torna im placáveis um para o outro, e perpetuará seus ódios nos seus descendentes. Nunca pais, e m esm o irm ãos, disputaram por coisa m enor.

Supondo que só existam hoj e dois hom ens na terra que a possuam sozinhos, e a dividam entre si, estou convencido de que nascerá logo entre eles algum m otivo de rom pim ento, quando não fosse pelos lim ites.

Às vezes é m ais sim ples e m ais útil se enquadrar aos outros do que fazer os outros se aj ustarem a nós.

Aproxim o-m e de um a cidadezinha; j á cheguei num a elevação de onde a vej o. Está situada a m eia encosta; um rio banha seus m uros e corre depois num a bela cam pina: tem um a floresta espessa que a cobre de ventos frios e brisas frescas. Vej o-a num a luz tão favorável que conto suas torres e cam panários; ela m e parece pintada na encosta da colina. Exclam o satisfeito: que prazer viver sob um céu tão lindo, em tão delicioso lugar! Desço para a cidade, onde m al m e deitei duas noites e j á pareço com aqueles que ali habitam : quero sair de lá.

Há um a coisa que nunca se viu sob o céus e segundo todas as aparências, nunca se verá: é um a cidade pequena que não estej a dividida em partidos; onde as fam ílias sej am unidas e os prim os se vej am com confiança; onde um casam ento não gere guerra civil; onde a querela dos partidos não desperte a todo m om ento, por fraude, incenso e pão bento, procissões e enterros; de onde se baniram os linguarudos, a m entira e a m aledicência: onde se vej am falar j untos o j uiz e o prefeito, os eleitores e os assessores; onde o deão viva bem com o cônego, onde os cônegos não desdenhem os capelães e estes suportem os padres-m estres.

Os provincianos e os tolos estão sem pre prontos a se zangarem e pensarem , que se está zom bando deles, ou os desprezando; nunca se deve arriscar um a brincadeira, m esm o a m ais leve e m ais perm issível, se não com pessoas polidas ou inteligentes.

Não se vencem os nobres: eles se defendem com seu poder; nem os plebeus: eles nos repelem pelo quem vem lá?

Tudo o que é m érito se sente, se discerne, se adivinha reciprocam ente: quem quiser ser apreciado deve viver com pessoas apreciáveis.

Aquele que está num a em inência acim a dos outros que o põe a coberto de resposta nunca deve fazer um a caçoada ferina.

Há pequenos defeitos que de boa vontade se abandonam à censura e dos quais não odiam os ser criticados; defeitos assim é que devem os escolher para criticar nos outros.

Rir das pessoas inteligentes é privilégio dos tolos: eles são, no m undo, o que os bobos são na corte, quero dizer, inconseqüentes.

A zom baria é, m uitas vezes, indigência de espirito.

Você pensa que o engana; se ele finge enganado, quem se engana m ais, ele ou você?

Se você observar com cuidado quem são as pessoas que não podem louvar, reprovam sem pre, não estão contentes com ninguém , reconhecerá que são as m esm as com quem ninguém está contente.

O desdém e a presunção na sociedade atraem precisam ente o contrário do que se procura, se o que se quer é ser apreciado.

O prazer da sociedade entre am igos se cultiva com um a sem elhança de gostos no que concerne aos costum es, e por algum a diferença de opiniões sobre as ciências; assim , ou se solidariza com seus sentim entos, ou se exercita e se instrui pela disputa.

Não se pode ir longe na am izade, se não se está disposto a perdoar, uns aos outros, os pequenos defeitos.

Quantas belas e inúteis razões a m ostrar àquele que está num a grande adversidade, para tentar tranqüilizá-lo! As coisas externas a que se dá o nom e de acontecim entos são às vezes m ais fortes que a razão e a natureza. Com a, durm a, não se deixe m orrer de pesar, pense em viver: arengas frias, e que, pretendem o im possível. Dizer: será razoável inquietar-se tanto? não será dizer: está louco em ser infeliz?

O conselho, tão necessário para os negócios, é, às vezes, na sociedade, prej udicial a quem o dá e inútil a quem o recebe: sobre os costum es, faz observar defeitos que não se confessam , ou que se j ulga serem virtudes; sobre as obras, riscam trechos que parecem ao autor adm iráveis, onde ele pensa ter sobrepuj ado a si m esm o. Você perde assim a confiança dos am igos, sem tê-los tornado m elhores nem m ais capazes.

Viu-se, não há m uito tem po, um grupo de pessoas (28) dos dois sexos, ligadas em conj unto pela conversação, e por um com ércio de espírito: deixavam ao vulgo a arte de falar de m aneira inteligível; um a coisa dita entre eles com pouca clareza puxava outra ainda m ais obscura, sobre a qual sé excediam em verdadeiros enigm as, sem pre seguidos de grandes aplausos, por tudo o que eles cham avam delicadeza, sentim entos, form a e finura de expressão; chegaram , finalm ente, a não ser m ais entendidos, e a não se entenderem . Não era preciso, para dar assunto a essas conversas, nem bom senso, nem raciocínio, nem m em ória, nem a m enor capacidade; era preciso inteligência, não da m elhor, m as da que é falsa, e onde a im aginação tem m uita parte.

Eu sei, Teobaldo, você envelheceu, m as quereria que eu acreditasse que você decaiu, que não é m ais poeta nem belo espírito, que é presentem ente tão m au j uiz de todo gênero de obra quanto m edíocre autor, que não tem m ais nada de natural e delicado na conversação? Seu ar livre e presunçoso m e tranqüiliza e m e convence do contrário. Você é, portanto, hoj e, tudo o que sem pre foi, e talvez m elhor; porque, se na sua idade você está tão vivo e im petuoso, que nom e, Teobaldo, se devia lhe dar na sua j uventude, quando você era a coqueluche ou a preocupação de certas m ulheres que só j uravam por você e sua palavra, que diziam : Isso é delicioso, que foi que ele disse?

Fala-se im petuosam ente nas conversas, m uitas vezes por vaidade ou por disposição, raram ente com atenção bastante: preocupado com o desej o de responder ao que não se ouve, seguem -se suas idéias, que se explicam sem a m enor consideração pelos argum entos dos outros; está-se bem longe de achar a verdade, ainda não se entrou em acordo sobre aquilo que se procura. Quem pudesse ouvir essas espécies de conversações e escrevê-las, faria ver às vezes boas coisas que não têm nenhum a conexão.

Reinou durante algum tem po um a espécie de conversação insípida e pueril que versava toda sobre questões frívolas que tinham relação com o coração e com aquilo a que se dá o nom e de coração, e que se cham a paixão ou ternura. A leitura de alguns rom ances tinha-a introduzido entre as m elhores pessoas da cidade e da corte: desfizeram -se dela e a burguesia a recebeu com piadas e ditos equívocos.

Algum as m ulheres da cidade têm a delicadeza de não saber ou não ousar dizer o nom e de ruas, praças e alguns lugares públicos que elas não j ulgam .. bastante nobres para ser conhecidos. Elas dizem : O Louvre, A Praça Real: m as preferem usar circunlóquios e frases a pronunciarem certos nom es; e se lhes escapam , é pelo m enos com algum a alteração da palavra e depois de alguns trej eitos que as anim am : são nisso, m enos naturais que as, m ulheres da corte, que, precisando no discurso, do Mercado, da Cadeia, ou coisas sem elhantes, dizem : O Mercado, A Cadeia.

Se se finge às vezes não lem brar certos nom es que se pensa serem obscuros, e se, afeta corrom pê-los ao pronunciá-los, é pela boa opinião que se tem do seu

(29).

Dizem -se por bom hum or e na liberdade da conversação, essas coisas frívolas que na verdade se dão com o tais, e só se acham boas porque não são extrem am ente m ás. Essa m aneira baixa de caçoar passou do povo, ao qual pertence, para um a grande parte da j uventude da corte, que está infectada. É verdade que entra nisso m uita tolice e grosseria para que se deva tem er que ela se estenda m ais longe, e faça m aiores progressos num país que é o centro do bom gosto e da polidez; deve-se, entretanto, fazer aqueles que o praticam aborrecerem ,. isso: porque se bem que nunca sej a seriam ente, ele não deixa de ocupar lugar no seu espírito e no convívio de algum a coisa m elhor.

Entre dizer coisas m ás ou dizer boas coisas que todo m undo sabe, dando-as com o novas, não tenho o que escolher.

“Luciano disse um a bela frase; contém um a expressão feliz de Claudien; e transcreve um trecho de Sêneca”: e aí um a grande seqüência de latim que se cita freqüentem ente diante de pessoas que não entendem e fingem entender. O segredo seria ter um grande senso e bastante inteligência; porque ou se dispensariam os antigos, ou, depois de tê-los lido com cuidado, saber-se-iam escolher os m elhores, e citá-los a propósito.

Herm ágoras não sabe quem é o rei da Hungria; espanta-se de não ouvir fazer nenhum a referência ao rei da Boêm ia: não lhe fale das guerras de Flandres e da Holanda, dispense-o, pelo m enos, de responder: ele confunde as épocas, ignora quando elas com eçaram , quando acabaram : com bates, sítios, tudo é novo para ele. Mas está instruído sobre a guerra dos gigantes, conta o desenvolvim ento dela e os m enores detalhes; nada lhe escapou: explica da m esm a form a o horrível caos dos dois im périos, o babilônio e o assírio; conhece a fundo os egípcios e suas dinastias. Nunca viu Versalhes, nem verá; quase viu a torre de Babel; conta os seus andares; sabe quantos arquitetos dirigiram essa obra; sabe o nom e dos

arquitetos. Dir-se-ia que pensa que Henrique IV (30) é filho de Henrique III? Despreza conhecer algo sobre as casas da França, Áustria, Baviera: que m inúcias! diz ele, enquanto recita de m em ória toda um a lista de reis dos m edas ou de Babilônia, e os nom es de Apronal, Herigebal, Noesnem ordach, Mardokem pad lhe são tão fam iliares quanto para nós os de VALOIS e BOURBON. Pergunta se o Im perador se casou algum a vez; m as não precisa que ninguém lhe ensine se Ninus teve duas m ulheres. Dizem -lhe que o rei goza perfeita saúde; e ele se recorda que Tetm osis, um rei do Egito, era valetudinário e tirava essa com pleição do seu antepassado Alifarum tosis. Que é que ele não sabe? Que lhe será escondido dessa venerável antigüidade? Ele dirá que Sem iram is ou segundo alguns, Serim aris, falava com o seu filho Ninias; que não se distinguia entre os dois ao falarem : se era porque a m ãe tinha voz m áscula com o o filho, ou o filho um a voz afem inada com o a m ãe, isso ele não ousa decidir. Revelar-nos-á que Nem brot era canhoto, e Sesostris am bidestro; que é um erro im aginar que um Artaxerxes fosse cham ado Mão com prida pelo fato de seus braços descerem até os j oelhos e não porque tivesse um a das m ãos m ais com prida que a outra; e acrescenta que há autores graves que afirm am que era a direita; que no entanto ele se j ulga fundam entado em sustentar que era a esquerda.

Ascânio é estatuário, Hégion fundidor, Esquines m ói greda e Cidias é rapaz inteligente: é sua profissão. Tem letreiro, estúdio, obras de encom enda é com panheiros a quem não poderia entregar em m ais de um m ês as estâncias que prom eteu, se não faltasse com a palavra a Dositeu, que lhe encom endou um a elegia; um idílio está em andam ento: é. para Crântor, que o apressa e lhe deixa esperar rico salário. Prosa, verso, que desej a? Ele aceita bem um a e outro. Peça-lhe cartas de consolação ou sobre ausência, ele as fará; se quiser j á feitas, entre na loj a dele, onde há para escolher. Tem um am igo que não tem outra função na terra além de prom etê-lo m uito tem po a certas pessoas e apresentá-lo afinal, nos salões, com o hom em invulgar e de conversa agradável; e aí, assim que o m úsico canta e o tocador de alaúde toca seu alaúde diante das pessoas a quem ele foi prom etido, Cidias, depois de ter tossido, aj eitado os punhos, estendido as m ãos e aberto os dedos, divulga gravem ente seus pensam entos quintessenciados e raciocínios sofisticados. Diferente daqueles que, de acordo com os princípios, e conhecendo que a razão ou a verdade é um a só, arrancam a palavra uns aos outros para chegar a acordo sobre seus sentim entos, ele só abre a boca para contradizer: “Parece-m e, diz graciosam ente, que é exatam ente o contrário do que o senhor acaba de dizer”; ou: “não posso com partir da sua opinião”; ou então: “isso antigam ente foi um a obsessão m inha, com o agora é sua; m as... há três coisas, acrescenta ele, a considerar”... E acrescenta um a quarta: falador cacete que m al pôs o pé num salão j á procura algum as m ulheres j unto às quais possa se insinuar, enfeitar-se de inteligência cintilante e de filosofia e pôr em ação suas concepções singulares: porque, falando ou escrevendo, ele não deve ser suspeitado de ter em vista o verdadeiro ou o falso, o razoável ou o ridículo; ele evita unicam ente estar de acordo com os outros, e ter a m esm a opinião de alguém : tam bém espera, num grupo, que cada um tenha se explicado sobre o assunto que se oferece, ou que às vezes ele m esm o provocou, para. dizer dogm aticam ente coisas com pletam ente novas, m as, na sua opinião, decisivas e

irreplicáveis. Cidias se iguala a Luciano e Sêneca (31), põe-se acim a de Platão, Virgílio e Teóocrito; e seu adulador tem o cuidado de confirm á-lo toda m anhã nessa opinião. Unido, por gosto e interesse aos que desprezam Hom ero, espera calm am ente que os hom ens desabusados prefiram os poetas m odernos; põe-se nesse caso à frente destes últim os, e sabe a quem concede o segundo lugar. É, num a palavra, um com posto de pedante é precioso, feito para ser adm irado pela burguesia e pela província, no qual, entretanto, não se vê nada de grande além da opinião que ele tem de si m esm o.

É a ignorância profunda que inspira o tom dogm ático. Aquele que nada sabe pensa ensinar aos outros o que acaba de aprender; aquele que sabe m uito m al chega a pensar que o que diz possa ser ignorado, e fala com m ais indiferença.

As m aiores coisas só precisam ser ditas sim plesm ente; elas se estragam com a ênfase: é preciso dizer nobrem ente as pequenas; elas só se sustentam pela expressão, o tom e a m aneira.

Parece-m e que se dizem as coisas com m ais finura do que se pode ter ao escrevê-las.

Só um bom nascim ento ou um a boa educação torna os hom ens capazes de guardar um segredo.

Toda confiança é perigosa, se não é total: há poucas conj unturas em que não se arrisque dizer tudo ou tudo esconder. Já se disse dem ais sobre seu segredo àquele a quem se j ulga dever ocultar um a circunstância.

Há pessoas que prom etem segredo e elas m esm as o revelam , sem querer; não m exem com os lábios e nós as ouvim os: lê-se em seu rosto e nos olhos, vê-se através de seu peito; são transparentes: outras não dizem precisam ente um a coisa que lhes foi confiada; m as falam e agem de m aneira que a gente a descubra por si; finalm ente, alguns desprezam o seu segredo, qualquer que sej a a conseqüência que possa ter; “É um m istério, fulano m e com unicou, e m e proibiu dizê-lo”, e o dizem .

Toda revelação de um segredo é culpa daquele que o confiou.

Nicandro conversa com Elisa sobre a m aneira agradável e doce com que viveu com sua m ulher, desde o dia em que o escolheu até à m orte dela: j á disse que lam enta que ela não lhe tenha deixado filhos, e repete; fala das casas que tem na cidade, é logo de um as terras que tem no cam po; calcula a renda que essas terras lhe dão; descreve a planta dos prédios, descreve a situação, exagera a com odidade dos apartam entos, assim com o a riqueza e elegância dos m óveis. Garante que, gosta da boa vida e do bom passadio; queixa-se de que a m ulher não gostava bastante do j ogo e da sociedade. Você é tão rico, dizia-lhe um dos am igos, por que não com pra esse cargo? Por que não fazer essa aquisição, que aum entaria sua propriedade? Pensam , acrescenta ele, que eu tenho m ais do que realm ente possuo. Não esquece sua linhagem e parentescos: O sr. superintendente, que é m eu prim o; a esposa do chanceler, que é m inha parenta: eis seu estilo. Conta um fato que prova o descontentam ento que deve ter dos seus m ais próxim os, e j ustam ente daqueles que são seus herdeiros: Estou errado? diz ele a Elisa; tenho m otivo para querer-lhes bem ? E ele próprio faz de j uiz. Insinua depois que tem um a saúde fraca e consum ida; e fala da sepultura em que deve ser enterrado. Insinuante, lisongeiro, oficioso, em relação a todas as pessoas que encontra perto da pessoa a quem aspira. Mas Elisa não tem coragem de ser rica casando-se com ele. Anunciam , no m om ento em que ele está, falando, um cavalheiro, que só com sua presença desm onta a bateria do hom em da cidade: ele se levanta desconcertado e aflito e vai dizer noutro lugar que desej a casar de novo.

O hom em de j uízo às vezes evita o m undo, por m edo de ser im portunado.