Caracteres
Do Coração
Há na pura am izade um prazer a que não podem atingir os que nasceram m edíocres.
A am izade pode subsistir entre pessoas de sexo a diferentes, isenta m esm o de toda m aterialidade. Um a m ulher, entretanto, olha sem pre um hom em com o um hom em ; e reciprocam ente, um hom em olha um a m ulher com o um a m ulher; essa ligação não é paixão nem pura am izade: constitui um a classe aparte.
O am or nasce bruscam ente, sem outra reflexão, por tem peram ento, ou por fraqueza: um detalhe de beleza nos fixa, nos determ ina. A am izade, ao contrário, form a-se pouco a pouco, com o tem po, pela prática, por, um longo convívio. Quanta inteligência, bondade, dedicação, serviços e obséquios, nos am igos, para fazer, em anos, m uito m enos do que faz às vezes, num m inuto, um rosto bonito e um a bela m ão!
O tem po, que fortalece as am izades, enfraquece o am or.
Enquanto o am or dura, subsiste por si, e às vezes pelo que parece dever extingui-lo: caprichos, rigores, ausência, ciúm e, a am izade, ao contrário, precisa de alento; m orre por falta de cuidados, de confiança, de atenção.
É m ais com um ver um am or extrem o que um a am izade perfeita.
O am or e am izade se excluem um ao outro. Aquele que teve a experiência de um grande am or descuida a am izade; e quem se esgotou na am izade ainda não fez nada para o am or.
O am or com eça pelo am or, e só se passaria da m ais forte am izade para um am or fraco.
Nada parece m ais com um a viva am izade do que essas ligações que o interesse do nosso am or nos faz cultivar.
Só se am a bem um a única vez: a prim eira vez. Os am ores que se seguem são m enos involuntários.
O am or que nasce de repente é o m ais difícil de curar.
O am or que cresce pouco a pouco, e por graus, parece-se dem ais com a am izade para ser um a paixão violenta.
Quem am a bastante para querer am ar m ais um m ilhão de vezes do que am a, só se com para, em am or, com aqueles que am am m ais do que queriam .
Se digo que na violência de um a grande paixão se pode am ar alguém m ais do que a si m esm o, a quem darei m ais prazer, aos que am am ou aos que são am ados?
Os hom ens m uitas vezes querem gostar, e não saberiam conseguir; procuram sua derrota, sem poder encontrá-la; e se assim posso dizer, são constrangidos a ficar livres.
Os que com eçam se am ando com a m ais violenta paixão, contribuem logo, cada um com sua parte, para se am arem m enos, e depois para não se am arem m ais. Quem , entre um hom em e um a m ulher, participa m ais nesse rom pim ento? Não é fácil decidir. As m ulheres acusam os hom ens de volúveis; os hom ens dizem -nas levianas.
Por m ais exigente que se sej a em am or, perdoam -se m ais faltas que em am izade.
Para quem m uito am a é um a doce vingança transform ar, pelo seu procedim ento, um a pessoa ingrata em pessoa m uito ingrata.
É triste am ar sem grande fortuna que nos dê m eios de prodigalizar a pessoa que se am a, e torná-la tão feliz que não tenha m ais desej os a form ular.
Um grande reconhecim ento suprim e, com ele, m uita sim patia e am izade pela pessoa a quem o devem os.
Estar com a pessoa de quem se gosta, basta sonhar, falar-lhe, não lhe falar, pensar nela, pensar nas coisas m ais indiferentes, m as perto dela, tudo está bem .
Não há m ais distância do ódio à am izade que dele à antipatia.
Parece que é m enos raro passar da antipatia ao am or que à am izade.
Confia-se um segredo na am izade; em am or, nos escapa!
Na am izade só se vêm os defeitos que podem prej udicar nossos am igos; em am or só se vêm , na pessoa am ada, os defeitos que nos fazem sofrer. Só há um prim eiro despeito no am or, com o a prim eira falta na am izade, que se pôde utilizar.
Parece que se existe um a suspeita inj usta, extravagante e sem fundam ento, à qual se deu o, nom e de ciúm e, esse outro ciúm e que é um sentim ento j usto, natural, fundado na razão e na experiência, m ereceria outro nom e.
O tem peram ento tem m uita participação no ciúm e, que nem sem pre faz supor grande paixão; no entanto é um paradoxo, um violento am or sem ciúm e.
Acontece m uitas vezes que sozinho se suporta o zelo: do ciúm e se sofre e se faz os outros sofrerem .
Aquelas que não nos perdoam nada, e não poupam ocasiões de m ostrar ciúm e, não m ereciam de nós nenhum ciúm e, se nos regulássem os m ais pelos seus sentim entos e conduta que pelo seu coração.
A frieza e dim inuição na am izade têm suas causas: em am or não há outra razão de não se am ar m ais, além da de j á se ter am ado dem ais.
Não se é senhor de continuar am ando com o não se foi de não am ar.
Os am ores m orrem de aborrecim ento e o esquecim ento os enterra.
O com eço e o declínio do am or se fazem sentir pelo em baraço em que se fica ao estar sós.
Deixar de am ar, prova sensível de que o hom em é lim itado e que o coração tem seus lim ites.
Am ar é um a fraqueza; às vezes deixar de am ar é outra fraqueza.
A gente deixa de am ar com o quando se consola, não se tem no coração de que chorar a vida inteira e am ar a vida inteira.
Devia haver no coração fontes inesgotáveis de dor para certas perdas. Não é por virtude, ou força de espírito que se sai de um a grande aflição: chora-se am argam ente, e se fica sensivelm ente com ovido, m as depois som os tão fracos, ou tão levianos, que nos consolam os.
Se um a m ulher feia se faz am ar, só o pode ser perdidam ente; porque tem que ser por estranha fraqueza do am ante ou por encantos m ais secretos e invencíveis que os da beleza.
Ainda se fica m uito tem po a se ver por hábito e a se dizer de boca que se am a, depois que os atos dizem que j á não se am a.
Querer esquecer alguém , é pensar nele. O am or tem isso de com um com os escrúpulos, se aguça pelas reflexões e circunlóquios que se fazem para livrar-se dele. É preciso, se se pode, não pensar na paixão, para enfraquecê-la.
Querem os fazer toda a felicidade, ou, se isso não for possível, toda a infelicidade da pessoa que se am a.
Lam entar o que se am ou é um bem , em com paração a viver com quem se odeia.
Por m ais desinteressado que se sej a em relação às pessoas que se am a, é preciso às vezes se deixar constranger por elas, e ter a generosidade de receber.
Pode ganhar quem tem prazer tão delicado em receber quanto seu am igo em lhe ofertar.
Dar, é agir; não é sofrer pelo bem que faz, nem ceder à im pertinência ou necessidade daqueles que nos pedem .
Se se beneficiou a quem se gosta, aconteça o que acontecer, não há m ais ocasiões para pensar nos benefícios que se fez.
Já se disse, em latim , que custa m enos odiar que am ar; ou, se se quiser, que a am izade é m ais, difícil que o ódio. E verdade que se é dispensado de beneficiar os inim igos; m as vingar-se, tam bém não custa? Ou, se é agradável e natural fazer m al a quem se odeia, será m enos fazer bem a quem se am a? Não seria duro e penoso não fazer nada?
Dá prazer encontrar os olhos daquele a quem se acaba de fazer o bem .
Não sei se um bem que cai sobre um ingrato, e assim , sobre um indigno, não m uda de nom e, e se ele m erecia m ais reconhecim ento.
A liberalidade consiste m enos em dar m uito que em dar a propósito.
Se é verdade que a piedade ou a com paixão é um retorno a nós m esm os, que nos põe no lugar dos infelizes, por que tiram eles de nós tão pouco alívio às suas m isérias?
Mais vale se expor à ingratidão que faltar aos m iseráveis.
A experiência confirm a que a brandura ou a indulgência para si e a dureza para os outros são um só e único vício.
Um hom em duro no trabalho e no sofrim ento, inexorável para si m esm o, só é indulgente para os outros por um excesso de raciocínio.
Por desagradável que sej a ter de cuidar de um indigente, m al se prova as novas vantagens que afinal o tiram da nossa suj eição: assim tam bém , a alegria., que se tem com a elevação de um am igo é um pouco com pensada pelo pequeno despeito que se tem de vê-lo acim a de nós, ou se igualar a nós. Assim , a gente se acom oda m al consigo m esm o; porque se quer dependentes, e que não nos custem nada: tam bém se desej a o bem dos am igos e se isso acontece, nem sem pre é por se alegrar que se com eça.
Convida-se para com er; insiste-se, oferece-se a casa, a m esa, os bens, e os serviços; nada custa, a não ser cum prir a palavra.
É bastante, para si, um am igo fiel; é m esm o m uito tê-lo encontrado: não se pode tê-los dem ais para servir aos outros.
Quando se fez bastante j unto a certas pessoas para tê-las conquistado, se isso não dá certo, ainda há um recurso, que é não fazer m ais nada.
Viver com inim igos com o se eles devessem um dia ser am igos, e viver com am igos com o se pudessem se tornar inim igos. Não está de acordo com a natureza do ódio nem com as regras da am izade: não é um a m áxim a m oral, m as política.
Não se deve transform ar em inim igos aqueles, que, m elhor conhecidos, poderiam alistar-se entre nossos am igos. Deve-se escolher am igos tão seguros e de tão exata probidade que, vindo a deixar de sê-lo, não queiram abusar da nossa confiança, nem se fazer tem er com o nossos inim igos.
É agradável ver am igos por gosto e por estim a; é penoso cultivá-los por interesse; é suplicar.
É preciso disputar a cotação daqueles a quem se quer bem , m ais do que a daqueles de quem se espera o bem .
Não se voa para a fortuna com as m esm as asas com que se voa para coisas frívolas e fantasias. Há um sentim ento de liberdade em seguir seus caprichos, e ao contrário, de servidão, em com parecer ao em prego: é natural desej á-lo m uito e trabalhar pouco, considerar-se digno de achá-lo sem tê-lo procurado.
Quem sabe esperar o bem que desej a não tom a a decisão de se desesperar se ele não chega; aquele que, ao contrário, desej a um a coisa com grande im paciência, põe nisso m uito de si m esm o para que o sucesso sej a recom pensa bastante.
Há pessoas que querem tão ardente e determ inadam ente certa coisa, que por m edo de perdê-la, não esquecem nada do que é preciso fazer para perdê-la.
As coisas m ais desej adas não acontecem ; ou se acontecem , não é no tem po nem nas circunstâncias em que teriam causado extraordinário prazer.
É preciso rir antes de ser feliz, por m edo de m orrer sem ter rido.
A vida é curta se só m erece esse nom e quando é agradável; pois que, se se j untassem as horas que se passam com quem nos agrada, m al se faria, com grande núm ero de anos, um a vida de alguns m eses.
Com o é difícil estar contente com alguém !
Não se poderia evitar algum a alegria em ver m orrer um hom em m au; gozar-se-ia então o fruto do seu ódio e se tiraria dele tudo o que se pode esperar, que é o prazer da sua perda. Afinal chega sua m orte, m as num a conj untura em que nossos interesses não perm item nos alegrarm os; ele m orre cedo dem ais ou tarde dem ais.
É penoso para um hom em orgulhoso perdoar a quem o surpreende em falta, e se queixa dele com razão: seu orgulho só se adoça quando retom a sua posição e identifica o outro com seu erro.
Assim com o am am os cada vez m ais as pessoas a quem fazem os bem , odiam os violentam ente aquelas que ofendem os m uito.
É igualm ente difícil abafar no com eço o sentim ento das inj úrias, e conservá-lo depois de um certo núm ero de anos.
É por fraqueza que se odeia um inim igo e se pensa em vingar-se dele; e é por preguiça que se acha calm a e não se tira vingança.
Há tanta preguiça quanto fraqueza em se deixar governar.
É preciso não pensar em , governar um hom em de um m om ento para outro, sem outra preparação, num caso im portante, que seria capital para ele e os seus: ele sentiria logo o im pério e ascendente que se quer tom ar sobre seu espírito, e sacudiria o j ugo, por vergonha ou capricho. É preciso tentar j unto a ele as pequenas coisas, e daí o progresso até às grandes se faz infalivelm ente. Quem no com eço só podia conseguir fazê-lo partir para o cam po ou voltar para a cidade, acaba por ditar-lhe um testam ento em que ele reduz seu filho à legítim a.
Para governar alguém m uito tem po, e de m odo absoluto, é preciso ter m ão leve e fazê-lo sentir sua dependência o m enos que se pode.
Uns se deixam governar até certo pontos e além daí são intratáveis, e não se governam m ais; perde-se, de repente, o cam inho de seu coração e da sua inteligência; nem altivez, nem sutileza, nem força, nem artifício podem dom á-los, com a diferença de que uns são assim por raciocínio e com fundam ento, e outros por tem peram ento e hum or.
Há hom ens que não atendem à razão nem aos bons conselhos e se perdem voluntariam ente, pelo m edo que têm de ser governados.
Outros consentem em ser governados pelos am igos em coisas quase indiferentes, e se acham no direito de governá-los, por sua vez em coisas graves que têm conseqüências.
Drance quer passar por governar seu senhor, que não acredita nisso, nem o público tam pouco: falar sem cessar a um poderoso a quem se serve, em lugares e tem pos inconvenientes; falar-lhe ao ouvido em term os m isteriosos, rir até estourar na sua presença, cortar-lhe a palavra, pôr-se entre ele e os que lhe falam , desdenhar os que vêm fazer-lhe a corte, ou esperar im pacientem ente que eles se retirem , pôr-se j unto dele em posição desleixada, falar-lhe de costas apoiadas na lareira, bancar o fam iliar, tom ar liberdades, caracterizam m elhor um tolo do que um favorito.
Um hom em de bom senso não se deixa governar nem procura governar os outros; desej a que só a razão governe, e sem pre.
Não odiaria ser entregue, por confiança, a um a pessoa razoável, e ser assim governado em todas as coisas, absolutam ente e sem pre: teria certeza de proceder bem sem ter o trabalho de deliberar; gozaria a tranqüilidade de quem é governado pela razão.
Todas as paixões são m entirosas disfarçam -se quanto podem aos olhos dos outros; escondem -se .de si m esm as; não há vício que não tenha algum a virtude, e não se sirva dela.
Abre-se um livro de orações, e ele com ove; abre-se um outro, galante, e ele causa im pressão. Ousaria dizer que só o coração concilia as coisas contrárias e adm ite as incom patíveis?
Os hom ens se envergonham m enos de seus crim es que das suas fraquezas e vaidades: há quem sej a abertam ente inj usto, violento, pérfido, caluniador, que esconda seu am or ou sua am bição sem outra intenção que a de as esconder.
Não acontece nunca o caso em que se possa dizer: ou era am bicioso; ou não se é, ou se é sem pre; m as chega o tem po em que se confessa que se am ou.
Os hom ens com eçam pelo am or, acabam pela am bição, e só encontram tranqüilidade quando m orrem .
Nada custa m enos à paixão que se pôr acim a da razão: seu grande triunfo é superar o interesse. A gente é m ais sociável e m elhor de conviver pelo coração que pela inteligência.
Há certos grandes sentim entos, certas ações nobres e elevadas que devem os m enos à força de nosso espírito que à bondade da nossa natureza.
Não há no m undo excesso m ais bonito que o do reconhecim ento.
É preciso ser bem despido de inteligências se o am or, a m alignidade, a indigência, não fazem encontrá-la.
Há lugares que a gente adm ira; há outros que com ovem , e nos quais se gostaria de viver.
Parece-m e que se depende do lugar para a inteligência, o hum or, paixão, sim patia e sentim entos
Aqueles que fazem o bem são os únicos que m ereceriam ser invej ados, se não houvesse ainda m elhor partido a tom ar, que é de fazer m elhor: doce vingança contra aqueles que nos despertam essa invej a.
Alguns se defendem de am ar e fazer versos com o de duas fraquezas que não se ousam confessar, um a do coração, outra da inteligência.
Há, às vezes, no curso da vida, prazeres tão queridos e tão ternos com prom issos que nos proíbem , que é natural desej ar que eles fossem ao m enos perm itidos: tão grandes encantos só podem ser superados pelo de saber renunciar a eles por virtude.