Caracteres

Jean de La Bruyère · Capítulo 3 de 12

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Caracteres

Das Obras do Espírito

 

Tudo está dito: e chegam os tarde, depois que existem hom ens há m ais de sete m il anos e hom ens que pensam . No que concerne aos costum es, o m ais belo e m elhor foi feito; não se faz m ais que respigar os antigos e os m ais capazes dentre os m odernos.

É preciso que se procure apenas pensam ento e palavra j usta, sem querer trazer os outros ao nosso gosto — e aos nossos sentim entos: é proj eto grande dem ais.

Fazer um livro é ofício, com o fazer um relógio. É preciso m ais do que inteligência para ser autor. Um m agistrado atingira, pelo seu m érito, à m ais alta dignidade: era um hom em sutil e prático nos negócios. Fez im prim ir um a obra sobre m oral, extraordinária pelo ridículo.

Não é tão fácil fazer nom e por um a obra perfeita, quanto fazer valer um a obra m edíocre pelo nom e que j á se fez.

Um a obra satírica ou de façanhas, distribuída em fascículos clandestinos, contanto que sej a devolvida da m esm a form a, se for m edíocre, passa por m aravilhosa: a im pressão é que atrapalha.

Se tirar de m uitas obras de m oral a advertência ao leitor, a epístola dedicatória, o prefácio, o índice, as referências de aplauso, sobram apenas as páginas bastantes para m erecerem o nom e de livro.

Há certas coisas em que a m ediocridade é insuportável: a poesia, a m úsica, a pintura, a oratória.

Que suplício ouvir declam ar pom posam ente um discurso frio, ou pronunciar versos m edíocres com toda a ênfase de um m au poeta

Certos poetas, no gênero dram ático, são propensos a longas tiradas de versos pom posos, que parecem fortes, elevados e cheios de grandes sentim entos. O povo ouve avidam ente, olhos arregalados e boca aberta, pensa que isso lhe agrada, e quanto m enos com preende m ais adm ira; não tem tem po de respirar, m al tem o de gritar e aplaudir. Antigam ente, na m inha prim eira j uventude, cheguei a pensar que essas passagens eram claras e inteligíveis para os atores, platéia e anfiteatro; que os autores se entendiam a si m esm as e que com toda a atenção que eu prestava à sua história, estava errado em não entender nada daquilo.

Estou desenganado.

Não se viu até hoj e obra prim a da inteligência que sej a obra de vários. Hom ero escreveu a Ilíada; Virgílio, a Eneida; Tito Livio, suas Décadas; e o Orador Rom ano, seus Discursos.

Há na arte um ponto de perfeição, com o de bondade ou m aturidade na natureza:, aquele que o sente e o aprecia, tem o gosto perfeito; quem não o sente e o aprecia aquém ou além do verdadeiro valor, tem o gosto defeituoso. Existe, portanto, bom e m au gosto, e o gosto se discute com fundam ento.

Há m uito m ais vivacidade que gosto entre os hom ens; ou m elhor, poucos são os hom ens que a par de inteligência sej am dotados de gosto seguro e crítica j udiciosa.

A vida dos heróis enriqueceu a história, e a história em belezou as ações dos heróis: assim , não sei quem deva m ais ao outro, se os que escrevem a história aos que forneceram tão nobre m atéria, se esses grandes hom ens aos seus historiadores.

Monte de epítetos: m aus louvores; os fatos é que louvam , e a m aneira de contá-los.

Todo o engenho do autor consiste em bem definir e bem pintar. Moisés (2), Hom ero, Platão, Virgílio, Horácio, só estão acim a dos outros escritores pelas suas expressões e im agens: é preciso exprim ir a verdade para escrever naturalm ente, rij am ente, delicadam ente.

Foi preciso fazer com o estilo o que se fez com a arquitetura; abandonou-se inteiram ente a ordem gótica que a barbaria introduzira nos palácios e tem plos; restabeleceu-se o dórico, o j ônico e o coríntio; o que não se via m ais senão nas ruínas da Rom a antiga e da velha Grécia, tornado m oderno, resplandece nos nossos pórticos e peristilos. Da m esm a form a não se poderia, escrevendo, encontrar a perfeição, e se é possível, sobrepuj ar os antigos, senão im itando-os. -

Quantos séculos se passaram antes que os hom ens, nas ciências e nas artes, tenham podido voltar ao gosto dos antigos, e retom ar enfim , sim plicidade e naturalidade!

A gente se alim enta dos antigos e dos m ais capazes dentre os m odernos; esprem endo-os, tira-se deles o m ais que se pode, enchem -se deles as obras; e quando afinal se é autor, e se pensa avançar sozinho, a gente se levanta contra eles, m altrata-os, com o essas crianças atrevidas que criadas com o bom leite que sugaram , espancam sua am a.

Um autor m oderno (3) prova geralm ente de duas m aneiras que os antigos são inferiores a nós; pela razão e pelo exem plo: tira a razão do seu gosto pessoal e o exem plo das obras deles. Confessa que os antigos, desiguais e pouco corretos que sej am , têm belas passagens e as cita; e são tão belos esses trechos, que nos fazem ler sua crítica.

Alguns entendidos (4) pronunciam -se a favor dos antigos contra os m odernos; m as são suspeitos e parecem j ulgar em causa própria tanto suas obras são feitas ao gosto da antigüidade: a gente as recusa.

Devíam os gostar de ler nossas obras àqueles que sabem delas bastante para corrigi-las e avaliá-las.

Não querer conselhos nem correções para sua obra é pedantism o.

Um autor deve receber com igual m odéstia os elogios e a crítica que se faz de suas obras.

Entre todas as diferentes expressões que podem representar um só dos nossos pensam entos, só há um a boa; nem sem pre se pode encontrá-la falando ou escrevendo. É verdade, no entanto, que existe, e que tudo o que não sej a ela é fraco e não satisfaz um hom em inteligente que queira se fazer ouvido.

Um bom autor, que escreve com cuidado, verifica freqüentem ente que a expressão que há tanto tem po procurava sem encontrar, e que afinal encontrou, é de todas a m ais sim ples, a m ais natural, a que parecia dever ter-lhe ocorrido em prim eiro lugar e sem esforço.

Os que escrevem de acordo com as disposições de m om ento são propensos a retocar suas obras. Com o não são sem pre iguais e variam neles segundo a ocasião, cedo aborrecem as expressões e term os que m ais am aram .

A m esm a clareza de inteligência que nos faz escrever boas coisas, nos faz perceber quando não o são bastante para m erecerem ser lidas.

Um a inteligência m edíocre pensa escrever divinam ente; um a inteligência boa pensa escrever razoavelm ente.

Fizeram -m e prom eter, diz Aristo, ler m inhas obras a Zoilo; li-as; a princípio o em polgaram e antes que tivesse calm a para achá-las m as, elogiou-as m odestam ente na m inha frente; depois não as elogiou m ais diante de ninguém ; eu o desculpo, e não peço a um autor m ais do que isso; até o lam ento por ter ouvido belas coisas que não foram feitas por ele.

Aqueles que pela sua condição se acham isentos da invej a de autor, têm paixões ou necessidades que os distraem e os tornam frios em relação às concepções alheias: quase ninguém , por disposição de espírito, de coração e de fortuna, se acha em estado de se entregar ao prazer que dá a perfeição de um a obra.

O prazer da crítica nos tira o de nos com overm os vivam ente diante de coisas m uito bonitas.

Muita gente chega a sentir o m érito de um m anuscrito que se lhes lê, m as não se lhe pode declarar em favor antes de ter visto a aceitação que terá do público, depois de im presso, ou qual será sua sorte entre os entendidos. Não aventuram sufrágios, e querem ser levados pela turba, arrastados pela m ultidão. Então dizem que foram os prim eiros a aprovar essa obra, e que o público participa de sua opinião.

Essa gente deixa passar as m elhores ocasiões de nos convencer de que têm capacidade e luzes, que sabem j ulgar, achar bom o que é bom e m elhor o que é m elhor. Um a bela obra cai nas suas m ãos; é um a obra de estréia, o autor ainda não fez grande nom e, não tem nada que intervenha em seu favor; não se trata de cortej á-lo nem de agradar poderosos aplaudindo seus escritos. Não se pede a você, Zelotes, que grite: “É um a obra prim a do pensam ento; a hum anidade não vai além dai; é o m áxim o a que a palavra hum ana pode se elevar: futuram ente não se j ulgará o gosto de alguém senão na proporção em que gostar desta peça!”; frases excessivas, desprezíveis, que cheiram a pensionato ou abadia, prej udiciais m esm o ao que é louvável e que se quer louvar. Por que não disse sim plesm ente: eis um — bom livro? Você diz isso, é verdade, com toda a França, com os estrangeiros com o com os com patriotas, quando .a obra está im pressa em toda a Europa e traduzida em diversas línguas; não é m ais tem po de dizer essas coisas.

Alguns dos que leram um a obra extraem dela certos trechos cuj o sentido não com preenderam , e ainda os alteram , com tudo o que acrescentam por sua conta; e esses trechos assim corrom pidos e desfigurados, que não são m ais que seus próprios pensam entos e expressões, expõem -nos à censura, sustentando que são m aus, e todo m undo concorda em que o são; m as o trecho da obra que esses críticos pensam citar, e que na realidade não citam , não é pior.

Que diz você do livro de Herm odoro? Que é m au, responde Antim o, que é m au; tão m au que não é um livro que pelo m enos m ereça que se fale dele. Mas j á o leu? Não, diz Antim o. Por que não acrescenta que Fúlvio e Melânio o condenaram sem o ler, e que ele é am igo de Fulvio e de Melânio?

Arsênio, das culm inâncias do seu espírito, contem pla os hom ens; e da distância em que os vê, está com o que assustado com a pequenez dos hom ens. Louvado, exaltado, elevado até os céus por certas pessoas que se prom eteram adm irar-se reciprocam ente, acredita, com algum m érito que tem , possuir tudo o que se pode ter, e que ele j am ais terá; ocupado e recheado dessas idéias sublim es, apenas se digna pronunciar alguns oráculos; elevado pelo seu caráter acim a dos j ulgam entos hum anos, abandona às alm as com uns o m érito de um a vida conseqüente e uniform e; só é responsável pelas suas inconstâncias perante esse círculo de am igos que o idolatram . Só eles sabem j ulgar, sabem pensar, sabem escrever, devem escrever. Não há obra de pensam ento, por m elhor que sej a recebida no m undo e universalm ente apreciada pela gente de bem , não digo que ele queira aprovar, m as que se digne ler; é incapaz de ser corrigido por essa pintura, que ele não lerá.

Teócrines sabe coisas bastante inúteis, tem sem pre opiniões singulares; é m enos profundo que m etódico, só exercita a m em ória; abstrato, desdenhoso, parece sem pre rir para dentro, daqueles que pensa não valerem o que ele vale. O acaso faz com que eu leia m inha obra para ele ouvir. Ele ouve. Acabo a leitura, ele m e fala da obra dele. E da sua, perguntarão, que pensa ele? Já vos disse: fala da obra dele.

Não haveria obra bastante perfeita que não se liqüidasse inteiram ente, no m eio da crítica, se seu autor quisesse acreditar em todos os censores, cada um tirando o trecho que m enos lhe agradar.

E um a experiência feita: quando se encontram dez pessoas que riscam de um livro um a expressão ou um sentim ento, encontram -se facilm ente outras tantas que os reclam am ; estes perguntam : por que suprim ir esse conceito? Ele é novo, belo, e a form a é adm irável; aqueles afirm am , ao contrário, que teriam desprezado esse conceito ou que lhe teriam dado outra form a. Há um term o na sua obra, dizem uns, que é bem achado e exprim e bem a realidade; há um a palavra, dizem outros, que é arriscada e aliás não significa m uito claram ente o que você talvez quisesse dar a entender: e é do m esm o trecho e da m esm a palavra que toda essa gente fala assim ; e todos são entendidos e tidos com o tais. Que outro partido resta ao autor, senão ousar seguir a opinião dos que o aprovam ?

Um autor que se preza não é obrigado a encher o espírito com todas as extravagâncias, todas as porcarias, todas as m ás palavras que lhe podem dizer e todas as ineptas aplicações que se podem fazer a propósito de alguns trechos de sua obra; e, ainda m enos, suprim i-los. Está convencido de que, por m ais escrupulosa exatidão que se tenha na m aneira de escrever, a zom baria pueril dos im pertinentes é um m al inevitável, e as m elhores coisas freqüentem ente só servem para faze-los achar um a tolice.

Se alguns espíritos vivos e decisivos fossem acreditados, seria ainda dem ais em pregar term os para exprim ir sentim entos; seria necessário falar-lhes por sinais, ou se fazer entendido sem falar. Por m ais cuidado que se tenha em ser conciso e lacônico, e ainda que se sej a reputado por isso, eles nos acham prolixos. É preciso deixar tudo para eles com pletarem , e escrever só para eles; concebem um período pela palavra que o com eça; e por um período, todo o capítulo: leu-se para eles um único trecho da obra, basta: j á penetraram tudo, e entendem a obra. Um tecido de enigm as ser-lhes-ia leitura divertida; e é um a pena para eles que esse estilo estropiado que os enleva sej a raro, e poucos escritores se resignem a isso. As com parações tiradas de um rio cuj o curso, apesar de rápido, é igual e uniform e, ou dum braseiro que em purrado pelos ventos se expande longe num a floresta em que consom e carvalhos e pinheiros, não lhes fornece a m enor idéia da eloqüência. Mostre-lhes um fogo que arde n’água, que os surpreende, o um relâm pago, que os ofusca: ficarão encantados com você.

Que prodigiosa distância entre um a bela obra e um a obra perfeita e regular! Não sei se se encontra desse últim o gênero. Talvez sej a m enos difícil nos raros gênios encontrar o grande e o sublim e, que evitar alguns erros. O Cid só teve um voto por ele no seu aparecim ento, e foi o voto da adm iração: tornou-se m ais forte que a autoridade e a política, que em vão tentaram destruí-lo; reuniu em seu favor espíritos sem pre divididos em opiniões e sentim entos, os nobres e o povo; todos concordam em sabê-lo de cor e aplaudir no teatro os atores que o recitam . O Cid, enfim , é um dos m ais belos poem as que se pode fazer; e um a das m elhores críticas que foram feitas sobre qualquer assunto, foi a do Cid.

Quando um a leitura encanta o seu espírito, e lhe inspira sentim entos nobres e coraj osos, não procure outra regra para j ulgar a obra; esta é boa, e feita com m ão de bom operário.

Capis, que se arvora j uiz do bom estilo, e pensa escrever com o BOUHOURS e RABUTIN, resiste à voz do povo, e diz sozinho que Dam is não é bom autor, Dam is cede à m ultidão e diz ingênuam ente, com o público, que Gapis é um escritor sem fibra.

O dever do j ornalista é dizer: há um livro tal que está à venda, im presso por Cram oisy, em tipo tal; está bem encadernado em bonito papel; o preço é tanto. Deve saber até a m arca do livreiro que o divulga; sua im prudência é querer criticá-lo.

O sublim e do j ornalista é o raciocínio oco sobre política.

O j ornalista se deita de noite tranqüilam ente sobre um a notícia que se corrom pe durante a noite, e se, vê obrigado a abandoná-la de m anhã ao acordar.

O filósofo consom e sua vida observando os hom ens, usa seus talentos. para separar os vícios e o ridículo: se dá algum a form a aos pensam entos é m enos por vaidade de autor que para trazer um a verdade que encontrou para, toda a luz necessária à im pressão que deve servir ao seu obj etivo. Alguns leitores, entretanto, pensam pagar com j uros por dizerem doutoralm ente que leram o livro, e que acharam engenho nele; m as ele devolve todos os elogios, que não procurou com seus trabalhos e vigílias. Tem m ais altos proj etos, e age para um fim m ais elevado: pede aos hom ens um sucesso m aior e m ais extraordinário que louvores, e m esm o recom pensas: tornarem -se m elhores.

Os tolos lêem um livro, e não o entendem ; os espíritos m edíocres pensam entendê-lo perfeitam ente; os grandes espíritos às vezes não o entendem de todo; acham obscuro o que está obscuro, com o acham claro o que está claro. Os espíritos “brilhantes” querem achar obscuro o que não o é, e não entender o que é m uito inteligível.

Em vão procura um autor fazer-se adm irar por sua obra. Os tolos adm iram às vezes; m as são tolos. As pessoas inteligentes têm em si a sem ente de todas as verdades e sentim entos; nada é novo para elas; adm iram pouco; aprovam .

Não sei se j am ais se poderá pôr nas cartas m ais espírito, m ais elegância, m ais estilo, do que vem os nas de BALZAC e de VOITURE. São vazias de sentim entos que só reinaram depois deles, e que devem às m ulheres seu advento. Esse sexo vai m ais longe que o nosso em tal gênero de escrita. Elas acham na pena form as e expressões que para nós, às vezes, são o resultado de longo trabalho e penosa procura: são felizes na escolha dos term os e os em pregam tão oportunos, que por conhecidos que sej am , têm encanto de novidade e parecem feitos apenas para o uso em que elas os tom am . Só elas fazem ler num a só palavra um sentim ento inteiro, nos apresentam delicadam ente um pensam ento delicado. Têm um encadeam ento de discurso inim itável, que se segue naturalm ente e só se liga pelo sentido. Se as m ulheres fossem sem pre corretas, eu ousaria dizer que as cartas de

algum as delas seriam talvez o que tem os de m elhor escrito na nossa língua (5) . Só faltou a Terêncio ser m enos frio; que pureza, que exatidão, que polidez que elegância, que caracteres! Só faltou a Molière evitar a gíria e escrever com pureza: que vivacidade, que ingenuidade, que fonte de boa piada, que im itação dos costum es, que im agens, e que flagelo do ridículo! Mas que hom em se poderia fazer com esses dois côm icos!

Li Malherbe e Teófilo. Todos dois conheceram a natureza, com a diferença que o prim eiro, com estilo cheio e uniform e, m ostra ao m esm o tem po o que ela tem de m ais belo e m ais nobre, de m ais ingênuo e m ais sim ples; faz-lhe a pintura ou a história. O outro, sem escolha, sem exatidão, com a pena livre e desigual, às vezes se encarrega das descrições, acentuando dem ais os porm enores; faz anatom ia: às vezes claudica, exagera, despreza o verdadeiro na natureza, e faz-lhe o rom ance.

Ronsard e Balzac tiveram , cada um no seu gênero, coisas boas e m ás, bastantes para form ar depois deles grandes hom ens em verso e prosa.

Marot, pela form a e pelo estilo, parece ter escrito depois de Ronsard: só existe, entre O prim eiro e nós, a diferença de algum as palavras.

Ronsard e os autores seus contem porâneos m ais perturbaram do que favoreceram o estilo. Retardaram -no no cam inho da perfeição; expuseram -se a nunca atingir, a nunca m ais voltar a ela. É de adm irar que as obras de Marot, tão naturais e tão fáceis, não tenham sabido fazer, de Ronsard, tão cheio de estro e entusiasm o, m aior poeta que Ronsard e Marot; e, ao contrário, que Belleau, Jodelle e Saint-Gelais, tenham sido logo seguidos por um Racan, um Malherbe; e que a nossa língua, m al fora corrom pida, tenha sido restaurada.

Marot e Rabelais são indesculpáveis por ter espalhado im undície nos seus escritos;: tanto um com o outro tinham bastante gênio e naturalidade para poder dispensá-la, m esm o para os que procuram m enos adm irar que rir de um autor. Rabelais, principalm ente, é incom preensível. Seu livro é um enigm a por m ais que se diga, inexplicável; um a quim era: um rosto de m ulher bonita com pés e cauda de víbora ou de outro anim al m ais disform e; é um am ontoado m onstruoso de m oral fina e engenhosa e de corrupção porca. Onde ele é m au, passa m uito além do que há de pior: é o encanto da canalha;, onde é bom , vai até o delicioso e o excelente, pode ser a iguaria dos m ais exigentes.

Dois escritores (6), em suas obras, censuraram Montaigne, que, tanto quanto eles, não j ulgo isento de qualquer censura; parece que todos dois não o apreciaram de form a algum a. Um não pensava bastante para saborear um autor que pensa m uito; o outro pensa com excesso de sutileza para se conform ar com pensam entos que são naturais.

Um estilo grave, sério, escrupuloso, vai m uito longe: Lê-se Am y ot e Coeffeteau; qual de seus contem porâneos se lê ainda? Balzac, pelos term os e expressões, é m ais antigo que Voiture: m as se este últim o, pela form a, por. espírito e por índole, não é m oderno, e não se parece em nada com nossos escritores, é que lhes foi m ais fácil desprezá-lo que o im itar; e o pequeno núm ero dos que o seguem não pode atingi-lo.

O H. G. (7) está: im ediatam ente abaixo do nada: há m uitas outras obras que se lhe assem elham . Há tanta habilidade em se enriquecer com um livro estúpido,: quanto de estupidez em com prá-lo: não ousar às vezes grandes tolices ignorar o gosto do povo.

Vê-se bem que a Ópera é o esboço de um grande espetáculo: dá um a idéia disso.

Não sei com o a Ópera, com m úsica tão perfeita e gastos tão régios pode chegar à perfeição de m e cacetear.

Há trechos na Ópera que fazem desej ar outros. As vezes arriscam fazer desej ar o fim de todo o espetáculo: falta de teatro, de ação e de coisas que interessem .

A Ópera, até hoj e, não é um poem a: são versos; nem um espetáculo, depois

que o artifício desapareceu, pelos bons ofícios de Anfion e sua raça (8): é um concerto, ou vozes am paradas por instrum entos. É se enganar com pletam ente e cultivar o m au gosto dizer-se, com o se diz, que o artifício não passa de brincadeira de crianças, e só convêm às m arionetes; ele aum enta e em beleza a ficção, sustenta nos espectadores essa doce ilusão que é todo o prazer do teatro, onde acrescenta ainda o m aravilhoso.

Não são necessários vôos, nem carruagens, nem m udanças, às Berenices (9)

e a Penélope (10); as óperas é que precisam desses acessórios; e o característico desse espetáculo é m anter espírito, olhos, ouvidos, num m esm o encantam ento.

Esses abelhudos fizeram o teatro, enredo, bailados, versos, m úsica, todo o espetáculo: até a sala em que se deu o espetáculo, isto é, teto e quatro paredes,

desde os alicerces: quem duvida que a caça aquática, o encanto da m esa (11), a

m aravilha do labirinto (12), sej am invenção deles? Julgo assim pela agitação em que ficam e pelo ar contente com que se aplaudem a si próprios pelo sucesso. Se estou enganado, e eles não tiverem contribuído em nada para essa festa soberba, e tão galante, tanto tem po conservada e onde um só bastou para proj eto e despesa, adm iro duas coisas: a tranqüilidade e fleum a daquele que tudo m ovim entou e o em baraço e agitação dos que nada fizeram .

Os entendidos, ou os que assim se j ulgam , atribuem -se voto deliberativo e decisivo sobre os espetáculos, tam bém se aboletam num canto, e se dividem em partidos contrários, nos quais cada um , levado por interesse m uito diferente do interesse público ou da eqüidade, adm ira certo poem a ou certa m úsica e vaia quaisquer outros. Prej udicam igualm ente, por esse calor em defender suas prevenções, a facção oposta e sua própria facção: desencoraj am por m il contradições os poetas e os m úsicos, retardam o progresso das ciências e das artes, privando-as do fruto que elas podiam colher da em ulação e liberdade que teriam diversos m estres excelentes fazendo, cada um no seu gênero e segundo seu gênio, m uito boas obras.

Donde vem o costum e de se rir tão livrem ente no teatro e ter vergonha de ali chorar?

Será m enos natural enternecer-se com o que é com ovente, que estourar de riso com o ridículo? Será a alteração dos traços que nos prende? Ela é m aior num riso im oderado que na m ais am arga dor; e a gente esconde o rosto, para chorar com o para rir, na presença dos nobres e de todos aqueles que se respeitam . Será repugnância que se sente em deixar ver que se é m eigo e dem onstrar certa fraqueza, principalm ente num tem a fictício, em que parece ser-se logrado?

Mas sem levar em conta as pessoas graves ou espíritos fortes que acham fraqueza tanto num riso excessivo com o no pranto, e evitam igualm ente os dois, que se espera de um a cena trágica? Que faça rir?

E além do m ais, a verdade não reina ali tão viva nas suas im agens quanto no côm ico? A alm a não chega até à verdade num e noutro gênero antes de se com over? Será ela tão fácil de contentar? Não será necessária ainda a verossim ilhança? Assim com o não é coisa do outro m undo ouvir levantar-se em todo o anfiteatro um riso unânim e nalgum trecho da com édia, e ao contrário supõe que a com édia é agradável e representada com naturalidade, tam bém a extrem a violência a que cada um se obriga ao conter as lágrim as e o riso contrafeito com que se pretende disfarçá-las provam claram ente que o efeito natural do grande trágico seria chorar francam ente e em conj unto, à vista uns dos outros, sem outra preocupação que a de enxugar as lágrim as; ainda m ais que depois de concordar em chorar sem constrangim ento, ainda se verificaria que geralm ente há m enos razão para ter receio de chorar no teatro que de nele perder tem po.

O poem a trágico com ove de pronto o coração, m al deitando, em todo o seu desenvolvim ento, liberdade e tem po de se recuperar a calm a; se dá algum a folga é para reconduzir a novos abism os e novos lances. Chega ao assom bro pelo sentim ento de com paixão, ou, reciprocam ente, chega à com paixão pelo sentim ento de assom bro; leva, por lágrim as, soluços, incerteza, esperança, tem or, surpresa, horror, até a catástrofe. Não se trata, portanto, de um a tram a de chistes, declarações ternas, palestras galantes, retratos agradáveis, palavras açucaradas, ou, às vezes, suficientem ente divertidas para fazer rir, em seguida à verdade de

um a últim a cena (13) em que os am otinados não atendem a nenhum a razão e, para geral satisfação, há sangue derram ado se algum infeliz a quem isso custa a vida.

Não basta que os costum es do teatro não sej am m aus: é preciso que sej am decentes e instrutivos. Pode haver nele um ridículo tão baixo e tão grosseiro, ou m esm o tão insípido e desinteressante, que não é perm itido ao poeta prestar-lhe atenção, nem possível aos espectadores divertir-se com ele.

O cam ponês ou o ébrio fornecem algum as cenas a um farsista, m as m al penetra no verdadeiro côm ico: com o poderia ele constituir o fundo ou a ação principal da com édia? Esses caracteres, diz-se, são naturais: assim , por essa regra, breve todo o anfiteatro terá que se ocupar com um lacaio que assobia, um doente m etido no seu roupão, um bêbado que dorm e ou vom ita: haverá coisa m ais natural?

É próprio do afem inado levantar-se tarde, passar boa parte do dia na sua toalete, m irar-se no espelho, perfum ar-se, colar sinais no rosto, receber bilhetinhos e respondê-los: leve esse papel à cena, quanto m ais o fizer durar, um ato, dois atos, m ais natural e conform e ao original ele será; m as tam bém m ais

cacete e insípido há de ficar (14).

Parece que o rom ance e a com édia poderiam ser tão úteis quanto são prej udiciais: vêm -se neles tão grandes exem plos de constância, virtude, ternura e desinteresse, tão belos e perfeitos caracteres, que quando um a criatura j ovem tira os olhos deles e vê tudo o que a cerca, não encontrando senão pessoas indignas e m uito abaixo do que acaba de adm irar, duvido que sej a capaz da m enor fraqueza por elas.

CORNEILLLE não pode ser igualado, nos trechos em que é em inente: possui ai um caráter original e inim itável; m as é desigual. Suas prim eiras com édias são secas, insípidas, e não faziam esperar que ele fosse tão longe, assim com o as últim as fazem com que nos espantem os de ver que ele tenha podido cair de tão alto. Em algum as de suas m elhores peças, há erros indesculpáveis contra os costum es; um estilo de declam ador que trava a ação e a faz esm orecer; negligências nos versos e na expressão, que não se podem com preender em tão grande hom em . O que há nele de m ais em inente é a inspiração, que tinha sublim e, à qual ficou devendo certos versos, os m ais felizes que j á se leram até hoj e, a m aneira do seu teatro, que às vezes ousou conduzir contra as regras dos antigos, e, finalm ente, os desfechos de suas peças, porque nem sem pre se suj eitou ao gosto dos gregos e à sua grande sim plicidade; ao contrário, gostava de sobrecarregar a cena com acontecim entos dos quais geralm ente dava conta com sucesso adm irável, principalm ente pela extrem a variedade e pouca relação que se encontra, quanto ao delineam ento, entre tão grande núm ero de poem as que com pôs.

Parece haver m ais uniform idade nos de Racine, e que tendem um pouco m ais para um m esm o fim ; ele é igual, firm e, sem pre o m esm o em toda parte, sej a pelo plano de desenvolvim ento e o m odo de conduzir suas peças, que são j ustas, regulares, tom adas no bom sentido e na natureza, sej a pela versificação que é correta, rica nas rim as, elegante, num erosa, harm oniosa; im itador exato dos antigos, cuj a clareza e sim plicidade de ação ele seguiu escrupulosam ente; a quem o grandioso e o m aravilhoso não faltaram , assim com o a Corneille não faltaram o com ovente e o patético.

Que m aior ternura pode haver do que a que se difunde em todo o Cid, em Polieuctes, e em Os Horácios? Que grandeza não se nota em Mitridates, em Porus, em Burrus? Estas paixões, tam bém favoritas dos antigos, que os trágicos gostavam de excitar nos teatros — terror e com paixão — foram conhecidas desses dois poetas: Orestes, na Androm aque, de Racine, e Pedro, do m esm o autor, com o o Édipo e Os Horácios de Corneille, são a prova. Entretanto, se for perm itido fazer algum a com paração entre eles, e m arcá-los, um e outro, pelo que têm de m ais característico e pelo que m ais se destaca com um ente nas suas obras, talvez se. pudesse dizer: Corneille nos prende a seus caracteres e suas idéias, Racine se conform a às nossas: aquele pinta os hom ens com o deviam ser, este pinta os hom ens com o são.

Há no prim eiro m ais daquilo que se adm ira, e m esm o do que se deve im itar; há no segundo aquilo que se reconhece nos outros, ou que se experim enta em si m esm o. Um eleva, assom bra, dom ina, instrui; o outro agrada, perturba, com ove, penetra. O que há de m ais belo, de m ais nobre, de m ais im perioso na razão, é m anej ado pelo prim eiro; e pelo outro, o que há de m ais brando e delicado na paixão.

Encontram -se, naquele, m áxim as, regras, preceitos; neste, gosto e sentim ento. A gente se absorve m ais nas peças de Corneille; e m ais se abala e se enternece nas de Racine. Com eille é m ais m oral; Racine, m ais natural. Parece que um im ita Sófocles e o outro deve m ais a Eurípides.

O povo cham a eloquência a facilidade que alguns têm de falar sozinhos m uito tem po, aliada ao arrebatam ento do gesto, ao fragor da voz e à força dos pulm ões. Os pedantes tam bém não a adm item senão no discurso oratório, e não a distinguem do am ontoado de im agens, do uso de palavrório e dos períodos arredondados.

Parece que a lógica é, a arte de convencer de algum a verdade; e a eloqüência um dom da alm a, que nos torna senhores do coração e do espirito dos outros; que nos faz inspirar ou convencer os outros de tudo o que nos apraz.

A eloqüência pode se encontrar nas palestras e em todo gênero de escrito Raram ente está onde a procuram , e às vezes está onde não a procuram .

A eloqüência está para o sublim e com o o todo para a parte.

Que é o sublim e? Não parece que o tenham definido. É um a im agem ? Todo gênero de escrito com portará o sublim e, ou só os grandes tem as serão capazes disso? Poderá brilhar, outra coisa na égloga além de um a bela naturalidade e nas cartas fam iliares, com o nas palestras, um a grande delicadeza? Ou naturalidade e delicadeza serão o sublim e das obras, que tornam perfeitas? Que é o sublim e? Onde está o sublim e?

Os sinônim os são diversas dicções, ou diversas frases diferentes, que significam a m esm a coisa.

A antítese é um a oposição de duas verdades que se dão à luz m utuam ente. A m etáfora, ou a com paração, tira de um a coisa estranha um a im agem sensível e natural de um a verdade.

A hipérbole exprim e além da verdade, para perm itir ao espírito conhecê-la m elhor.

O sublim e não pinta m ais que a verdade, m as num tem a nobre; pinta-a inteira, na causa e no efeito; é a expressão ou a im agem m ais digna dessa verdade. Os espíritos m edíocres não acham um a expressão única e usam sinônim os. Os j ovens se deixam ofuscar pelo brilho da antítese, e se servem dela. Os espíritos j ustos, que gostam de im agens precisas, vão dar naturalm ente na com paração e na m etáfora. Os espíritos vivos, ardentes, e arrastados por vasta im aginação para fora das regras e da exatidão, não podem se contentar senão com a hipérbole. Ao sublim e, m esm o entre os grandes gênios, só os m ais elevados são capazes de atingir.

Todo escritor, para escrever claram ente, deve colocar-se no lugar de seus leitores, exam inar sua própria obra com o algo novo para ele, algo que pela prim eira vez ele estej a lendo, e que o autor tivesse subm etido à sua crítica; e persuadir-se depois de que não som os entendidos quando nos entendem os, m as sim quando o que fazem os é de fato inteligível.

Só se escreve para ser ouvido: m as é preciso, pelo m enos, ao escrever, fazer ouvir belas coisas. Deve-se ter dicção pura e usar term os adequados à verdade; m as é preciso que esses term os tão j ustos sej am expressão de pensam entos nobres, vivos, sólidos, e que contenham sentido m uito belo.

É fazer m au uso da pureza e da clareza do discurso, fazê-lo servir a m atéria árida, infrutífera, sem sal, sem utilidade, sem novidade: de que serve aos leitores com preender facilm ente e sem esforço coisas frívolas e pueris, às vezes insípidas e vulgares, e estarem m enos incertos em relação ao pensam ento de um autor que caceteados com sua obra?

Quando se põe algum a profundidade em certos escritos, quando se afeta finura de estilo, e às vezes excesso de delicadeza, é apenas pela boa opinião que se tem dos leitores.

Tem os de suportar este constrangim ento (15) na leitura dos livros feitos por gente de partido e facção: de nem sem pre ver aí a verdade. Os fatos são disfarçados, as razões recíprocas não são relatadas em toda sua força, nem com inteira exatidão; e o que esgota a m ais longa paciência, é preciso ler grande. núm ero de term os duros e inj uriosos que hom ens graves se dizem , por fazerem de um ponto de doutrina, ou dum fato contestado, querela pessoal. Essas obras têm isso de particular, é não m erecerem a voga prodigiosa de que gozam durante algum tem po, nem o profundo esquecim ento em que caem quando, extinto o ardor da pendência, se transform am em alm anaques do ano passado.

A glória ou o m érito de certos hom ens está em escrever bem , a de alguns outros, em não escrever

Escreve-se regularm ente há vinte anos; é-se escravo da construção: enriqueceu-se a língua de palavras novas, sacudido o j ugo do latinism o, e reduziu-se o estilo à frase puram ente francesa: quase se encontrou o núm ero que MALHERBE e BALZAC pela prim eira vez tinham encontrado, e depois tantos autores deixaram fugir-lhes Estabeleceu-se, enfim , no discurso, toda a ordem e clareza de que ele é capaz; isso conduz sensivelm ente a acrescentar-lhe espírito.

Existem artífices ou eruditos cuj a inteligência é tão vasta quanto a arte ou a ciência que professam ; retribuem -lhe com vantagem , pelo gênio e pela invenção, o que recebem dela e dos seus princípios: saem da arte para enobrecê-la, afastam -se das regras, se estas não conduzem ao grandioso e ao sublim e; andam sozinhos e sem com panhias, m as chegam bem alto e penetram bem longe, sem pre seguros e confirm ados pelo sucesso, das vantagens que às vezes se tiram da irregularidade.

Os espíritos j ustos, pacíficos, m oderados, não só não os atingem , com o não os com preendem , e m enos ainda quereriam im itá-los. Perm anecem tranqüilos nos confins de sua esfera, vão até certo ponto que enche os lim ites de sua capacidade e de suas luzes; não vão m ais longe porque nada vêm além ; não podem ser m ais que os prim eiros de um a segunda classe, e sobrepairar no m edíocre.

Há inteligências, se assim m e atrevo a dizer, inferiores e subalternas, que não parecem feitas senão para com pilação, registro ou arm azém de todas as produções dos outros gênios. São plagiários, tradutores, com piladores: não pensam , dizem o que os autores pensaram ; e com o a escolha dos pensam entos é invenção, têm m á escolha, preferem relatar m uitas coisas do que coisas excelentes: não têm nada de original, que lhes pertença: não sabem o que aprenderam ; e só aprendem aquilo que todo m undo prefere ignorar, um a ciência vã, árida, despida de graça e de utilidade, que não surge na conversação, que está fora do com ércio, feito m oeda que não tem m ais curso. Sua leitura nos espanta e ao m esm o tem po são cacetes suas conversas e suas obras.

Esses são os que os nobres e o vulgo confundem com os sábios e os hom ens de engenho encam inham ao pedantism o.

Em geral a crítica não é ciência: é um oficio em que se precisa m ais de saúde que de espírito, m ais trabalho que capacidade m ais hábito que gênio. Se vem de um hom em que tem m enos discernim ento que leitura, e se exerce sobre certos capítulos, corrom pe os leitores e o escritor.

Aconselho a um a autor copista de nascença, que tem a extrem a m odéstia de trabalhar segundo alguém , a não escolher para m odelo senão essa espécie de obras em que entram inteligência, im aginação ou m esm o erudição: se não atingir os seus originais, pelo m enos se aproxim e deles e assim se fará ler. Deve, ao contrário, evitar com o um escolho o desej o de im itar os que escrevem por ím peto, falam pelo coração que lhes inspira term os e im agens, e tiram , por assim dizer, das próprias entranhas, tudo o que expressam no papel; m odelos perigosos, próprios para fazer cair na frieza, na baixeza e no ridículo os que se m etem a segui-los. De fato eu riria de um hom em que quisesse seriam ente falar com o m eu tom de voz ou parecer-se com m eu rosto.

Um hom em nascido cristão e francês se constrange na sátira: os grandes assuntos lhe são proibidos:, aborda-os às vezes e depois se afasta para pequenas coisas, a que ele dá relevo pela beleza do seu gênio e do seu estilo.

É preciso evitar-se o estilo vão e pueril, para não se parecer com Dorilas e

Handburg (16).

Pode-se, ao contrário, em alguns gêneros de escrito, ousar certas expressões, usar term os transpostos que com põem a frase com vivacidade, e lam entar os que não sentem o prazer que existe em se servir desses recursos, ou ouvir os que deles se serviram .

Aquele que ao escrever só pensa no seu século pensa m ais na sua pessoa que no que escreve. É preciso tender sem pre para a perfeição; e então essa j ustiça que os contem porâneos nos recusam , a posteridade nos fará.

Não se deve pôr ridículo onde não existe: é estragar o gasto, corrom per o j ulgam ento próprio e o alheio.

Mas o ridículo que está em algum lugar, é preciso vê-lo aí, ressaltá-lo, com graça e de m aneira que agrade e instrua.

HORÁCIO e DESPRÉAUX disseram isso antes de você. Mas eu disse com o coisa m inha. Não posso, então, pensar depois deles um a verdade que outros ainda irão pensar depois de m im ?