Caracteres

Jean de La Bruyère · Capítulo 10 de 12

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Caracteres

Da Corte

 

A censura m ais honrosa que se pode fazer a um hom em é dizer-lhe que não conhece a corte: não há virtudes que não se j untem nele com essa única palavra.

Um hom em que sabe fazer a corte é m estre de seu gesto, de seus olhos, e do rosto; profundo, im penetrável; dissim ula os m aus pensam entos, sorri aos inim igos, constrange seu hum or, disfarça suas paixões, desm ente o coração, fala, age contra seus sentim entos. Todo esse grande refinam ento não passa de um vício que se cham a falsidade; às vezes tão inútil ao cortesão, para sua fortuna, quanto a franqueza, a sinceridade e a virtude.

Quem pode dar nom e a certos tons furta-cores, que são diversos, segundo os diversos dias em que os vem os? Assim tam bém , quem pode definir a corte?

Furtar-se à corte um só m om ento é renunciar a ela: o cortesão que a viu de m anhã vai vê-la, de noite, para reconhecê-la no dia seguinte, ou a fim de que ele próprio sej a conhecido ali.

Som os pequenos na corte; e por vaidoso que se sej a, nos consideram os assim ; m as o m al é com um , e os próprios grandes lá são pequenos.

A província é o local de onde a corte, sob o seu ponto de vista, parece um a coisa adm irável: se se aproxim a, seus encantos dim inuem com o os de um a perspectiva que se vê de perto dem ais.

Dificilm ente nos acostum am os a um a vida que se passe num a antecâm ara, em paços ou escadarias.

A corte não contenta; im pede que a gente se contente noutro lugar.

É preciso que um hom em de bem tenha provado a corte: descobre, ao entrar ali, com o um novo m undo que lhe era desconhecido, onde vê reinar igualm ente o vício e a polidez, e onde tudo lhe é inútil, o bom e o m au.

A corte é com o um edifício construído de m árm ore; quero dizer que ela se com põe de hom ens m uito duros m as m uito polidos.

As vezes se vai à corte para de volta fazer-se respeitar pelo nobre de sua província ou pelo seu diocesano.

O bordador e o confeiteiro seriam supérfluos e fariam apenas am ostra inútil se se fosse m odesto e sóbrio; as cortes ficariam desertas e os reis quase sozinhos, se se curasse da vaidade e da cobiça. Os hom ens querem ser escravos em algum lugar, e tirar aí de que dom inar alhures. Parece que se vende, por atacado, aos nobres da corte, o ar de altaneria, orgulho e com ando, a fim de que eles distribuam a retalho nas províncias: fazem precisam ente com o lhes fazem ; verdadeiros cacos da realeza.

Não há nada que enfeie m ais certas cortesãs do que a presença do príncipe: m al consigo reconhecer seus rostos; os traços se alteram e sua com postura se avilta. As pessoas orgulhosas e soberbas são as m ais desfeitas porque são as que m ais perdem do que é seu; quem é decente e m odesto sustenta-se m elhor ali: não tem nada a reform ar.

O ar da corte .é contagioso: ele se tom a em V (43) com o o sotaque norm ando em Rouen ou Falaise, deixa-se entrever em furriéis, m ordom os e fornecedores de frutas; pode-se, com um a inteligência de alcance bem m edíocre, fazer ali grandes progressos. Um hom em de gênio elevado e m érito sólido não faz bastante caso dessa espécie de talento para fazer questão de estudá-lo e assim ilá-lo; adquire-o sem reflexão, e não pensa em desfazer-se dele.

N. chega com estardalhaço; afasta toda gente, fura um lugar; m altrata, quase fere; dá seu nom e: então se respira e ele só entra com a m ultidão.

Há nas cortes com o que aparições de indivíduos aventureiros e audaciosos, de caráter livre e ordinário, que se produzem por si m esm os, afirm am ter na sua arte toda a habilidade que falta aos outros, e acham quem acredite na sua palavra. Aproveitam , entretanto, do engano público, ou do am or que os hom ens tem pela novidade: furam a m ultidão e chegam aos ouvidos do príncipe, com quem os cortesãos os vêm falar, enquanto que ele se sente feliz por ser visto assim .

Têm isso de côm odo para os nobres, que é o fato de serem suportados sem conseqüência, e despedidos da m esm a form a: então desaparecem , ao m esm o tem po ricos e desacreditados; e o m undo que eles acabam de enganar j á está perto de ser enganado por outros.

Vêm -se pessoas que entram , saúdam apenas ligeiram ente, que andam gingando, e se pavoneiam com o um a m ulher: interrogam -nos sem nos olhar; falam em tom elevado, que acentuam quanto se sentem acim a dos presentes. Param e todos as cercam : têm a palavra, presidem o grupo, e persistem nessa arrogância ridícula. e contrafeita, até que venha um nobre que, fazendo com que elas desapareçam de repente só com sua presença, redú-las ao natural, que é m enos m au.

As cortes não poderiam passar sem certa espécie de cortesãos, hom ens aduladores, Serviçais, insinuantes, dedicados às m ulheres, cuj os prazeres satisfazem , estudam os fracos é lisonj eiam todas as paixões; sopram -lhes palavras ao ouvido, falam -lhes dos m aridos e am antes em term os com edidos, adivinham seus desgostos, e doenças, e fixam a data de seus partos; fazem a m oda, refinam o luxo e a despesa, e ensinam a esse sexo m eios rápidos de consum ir grandes quantias em roupas, m óveis e equipagens; têm , eles próprios, roupas em que brilham a invenção e a riqueza, e só habitam palácios antigos depois de renová-los e em belezá-los. Com em delicadam ente e refletidam ente; e não há variedade de volúpia que eles não experim entem , e de que não possam dar inform ações. Devem a si m esm os sua fortuna, e a m antêm com a m esm a perícia com que a fizeram ; desdenhosos, não abordam seus iguais, não os cum prim entam m ais; falam onde todos os outros se calam ; entram , penetram em lugares e a horas em que os nobres não ousam se m ostrar: estes, com grandes serviços prestados, m uitas cicatrizes no corpo, belos cargos, ou grandes dignidades, não m ostram tanta segurança, nem tão livre com postura. Essa gente é recebida pelos m ais ilustres príncipes, participa dos seus prazeres e de todas as suas festas, não sai do Louvre ou do castelo, onde andam e agem com o em casa e na intim idade; parece se m ultiplicarem em m il lugares; é sem pre a prim eira cara que surpreende os recém chegados num a corte: beij a e é beij ada; ri, dá gargalhadas, é divertida, conta histórias: gente côm oda, agradável, rica, que presta serviço e que não tem nenhum a im portância.

Não se pensaria de Cim on e de Clutandro que são os únicos encarregados de todos os negócios do Estado, e que tam bém só eles devem responder por isso? Um tem a seu cargo, pelo m enos, os negócios de terra, e o outro, os m arítim os. Quem pudesse representá-los exprim iria a precipitação, a inquietação, a curiosidade, a atividade; saberia pintar o m ovim ento. Nunca foram vistos, nunca fixos e parados: quem é que os viu m esm o andar? Só os vem os correr, falar correndo, e interrogar sem esperar resposta. Não vêm de lugar nenhum , não vão para nenhum lugar; passam e repassam . Não os atrase na sua corrida precipitada, você desm ontaria a m áquina deles: não lhes faça perguntas, ou pelo m enos dê-lhes tem po para respirarem , e de se recordarem de que não têm nada a tratar; podem ficar consigo e. m uito tem po, segui-lo m esm o onde você quiser levá-los. Eles não são os satélites de Júpiter, quero m e referir àqueles que perseguem e cercam o príncipe; m as o anunciam e o precedem ; lançam -se im petuosam ente na m ultidão dos cortesãos; tudo o que se encontra à sua passagem está em perigo: a profissão deles é ser visto e revisto; e nunca se deitam sem ter cum prido essa função tão séria e tão útil à república. De resto são instruídos, e a fundo, sobre todas as notícias indiferentes, e sabem na corte tudo o que se pode ignorar: não lhes falta nenhum dos talentos necessários para vencer m ediocrem ente. Pessoas, entretanto, avisadas e alertas sobre tudo o que j ulgam lhes convir, um pouco afoitas, levianas e precipitadas: chegarei a dizer elas vão atreladas ao carro da fortuna e m uito longe de se verem sentadas nele.

Um hom em da corte que não tem nom e bastante bonito, deve sepultá-lo sob um m elhor; m as se tem um nom e tal que ousa levá-lo, deve então insinuar que é de todos os nom es o m ais ilustre, com o sua casa é de todas as casas a m ais antiga: deve se aparentar aos PRÍNCIPES LORENOS, aos ROHANS, aos CHARILLONS, MONTMORENCIS, e, se for possível, aos PRÍNCIPES DE SANGUE; só falar em duques, cardeais, m inistros; fazer entrarem em todas as palestras seus antepassados paternos e m aternos, e achar um j eito de m eter nisso

a auriflam a (44) e as cruzadas; ter salas enfeitadas de árvores genealógicas, escudos de arm as cobertos de dezesseis costados, e quadros de seus ancestrais e dos aliados de seus ancestrais; prezar-se de possuir um castelo antigo, com torreões, am eias e seteiras; dizer a cada passo m inha raça, m eu reino, m eu nom e e m inhas arm as: falar daquele que não é hom em qualificado, daquela que não, é donzela nobre; ou, se lhe dizem que Jacinto ganhou a sorte grande, perguntar se ele é gentilhom em . Alguns rirão desses incidentes; m as deixá-los rir: outros arranj arão histórias e ele os deixará contá-las; dirá sem pre que segue logo depois da casa reinante; e à força de dizer, será acreditado.

E um a grande ingenuidade ir plebeu para a corte e lá não se tornar gentilhom em .

Quem se deita na corte levanta-se sobre a cobiça: é o que se digere de m anhã e de tarde, dia e noite: é o que faz com que se pense, se fale, se em udeça e se aj a; é nesse espírito que se abordam uns e se desprezam outros, se sobe e se desce; é nessa regra que se m edem cuidados, atenções, estim a, indiferença, desprezo. Alguns passos que alguém faça, por virtude, para a m oderação e sabedoria, um prim eiro fito de am bição o leva com os m ais avaros, os m ais violentos nos seus desej os e os m ais am biciosos: com o ficar im óvel onde tudo anda, tudo se agita, e não correr onde os outros correm ? Julga-se até ser responsável pela própria elevação e fortuna; aquele que não a fez na corte é j ulgado com o não devendo fazê-la; não são considerados. Afastar-se antes de ter colhido nenhum fruto, ou insistir em continuar ali sem graças e recom pensas? Problem a tão espinhoso, tão em baraçoso, e de tão difícil decisão, que um núm ero infinito de cortesãos envelhecem sobre o sim ou não e m orrem na dúvida.

Não há nada tão desprezível, na corte, e tão indigno, com o um hom em que não pode contribuir para nada na nossa fortuna: adm ira-m e que ouse m ostrar-se ali.

Aquele que despreza um hom em de seu tem po e da m esm a condição, com o qual veio pela prim eira vez à corte, se j ulga ter razão sólida para apreciar o próprio m érito e se j ulgar m elhor que o que ficou no cam inho, não se lem bra m ais do que, antes de ser beneficiado, pensava de si m esm o e dos que tinham passado na sua frente.

É ter recebido m uito de um am igo, se tendo ele subido em grande conceito, ainda se digne conhecer-nos.

Se aquele que está com o favorito ousa prevalecer-se disso antes de passar da m oda, se se serve do bom vento que sopra para o seu lado para abrir cam inho, se tem os olhos abertos sobre tudo o que vaga, posto, abadia, para pedi-los e obtê-los, e se m une de pensões, patentes, alvarás de m ontepio, você lhe reprova sua avidez e am bição; você diz que tudo o tenta, que tudo lhe serve, aos seus, a suas criaturas, e que, pelo núm ero e diversidade das graças com que o cum ulam , só ele fez diversas fortunas. No entanto que devia ele fazer? Se eu j ulgar m enos pelas palavras que você diz que pelo que você faria em situação idêntica, ele fez precisam ente o que devia fazer.

Censuram -se as pessoas que fazem grande fortuna enquanto têm ocasião, porque se desespera, pela m ediocridade da sua própria, j am ais chegar ao estado de fazer com o elas, e m erecer essa censura. Se estivesse em seu poder sucedê-las se com eçaria a sentir que elas têm m enos culpa e se havia de ser m ais com edido, por m edo de pronunciar adiantadam ente um a auto-condenação.

Não se deve exagerar nada, nem dizer das cortes o m al que lá não existe; lá não se atenta nada de pior contra o verdadeiro m érito, além de deixá-lo, às vezes, sem recom pensa: nem sem pre o desprezam , quando chegam a discerni-lo; esquecem -no; e é ali que se sabe perfeitam ente não fazer nada, ou fazer m uito pouca coisa por aqueles a quem m uito se estim a.

É difícil que na corte, de todas as peças que se em pregam no edifício de sua fortuna, não haj a algum as que não dêem resultado; um de m eus am igos que prom eteu falar não fala; outro fala friam ente: acontece a um terceiro falar contra m eus interesses e contra as suas intenções: àquele falta boa vontade; a este, habilidade e prudência; nenhum a tem bastante prazer em m e ver feliz a ponto de contribuir com todo o seu prestígio para m e tornar assim . Cada um se lem bra m uito bem de tudo o que lhe custou a sua prosperidade, assim com o os auxílios que lhe franquearam cam inho: chegar-se-ia a j ustificar os serviços, que se receberam de uns com os serviços que em situações idênticas se prestariam a outros, se o prim eiro e único cuidado que se tivesse depois da fortuna feita, não fosse pensar apenas em si.

Os cortesãos não utilizam o que têm de inteligência, destreza, finura, para encontrar os expedientes que podem prestar auxílio a seus am igos, m as apenas para encontrar razões aparentes, pretextos especiosos, ou o que eles cham am im possibilidade de poder prestá-lo; e se convencem de que estão quites, com isso, de todos os deveres de am izade ou reconhecim ento.

Ninguém na corte quer incom odar; oferece-se auxílio porque, j ulgando os outros por si, espera-se que ninguém incom odará e que assim se ficará dispensado de auxiliar: é um a m aneira doce e polida de recusar seu crédito, seus ofícios, sua m ediação a quem precisa.

Quanta gente o enche de elogios na intim idade, am a-o, estim a-o, e se sente confuso de estar com você em público, no despertar do rei ou na m issa evitam seus olhos e seu encontro! Só um pequeno núm ero de cortesãos, por grandeza natural ou pela confiança que têm em si m esm os, ousam honrar diante do m undo o m érito solitário, despido de grandes atributos.

Vej o um hom em cercado e seguido; m as está no seu lugar; vej o outro que todos abordam ; m as está em boas graças: este é abraçado e adulado, m esm o pelos nobres; m as é rico: aquele é olhado por todos com curiosidade, m ostram -no com o dedo; m as é sábio e eloqüente: descubro um que ninguém esquece de saudar; m as é m alvado: procuro um hom em que sej a bom , e não sej a nada m ais do que isso, e sej a procurado pelos outros.

Alguém acaba de assum ir novo cargo, é um a inundação de louvores em seu favor que sobe dos paços e capelas, ganha a escadaria, as salas, a galeria, todo o prédio: têm -se os ouvidos cheios; não se agüenta m ais. Não há duas vozes diferentes sobre essa personagem ; a invej a, a rivalidade, falam com o a adulação: todos se deixam levar pela torrente que arrasta, que os força a dizer de um hom em o que eles pensam ou o que não pensam , com o louvar m uitas vezes um suj eito que nem conhecem . O hom em de inteligência, de m érito, ou de valor, se torna, num instante, um gênio de prim eira ordem , um herói, um sem ideus. É tão prodigiosam ente favorecido, em todas as pinturas que fazem dele, que parece disform e perto de seus retratos: é im possível para ele chegar j am ais até onde a baixeza e a lisonj a acabam de levá-lo; ele se envergonha da própria reputação. Mal com eça a vacilar no cargo em que o tinham posto, todo m undo m uda facilm ente de opinião: se é com pletam ente destituído, as geringonças que o tinham guindado tão alto, pelo aplauso e os elogios, ainda estão arm adas para fazê-lo cair no últim o desprezo; quero dizer que não há quem o desdenhe m ais, quem o censure m ais am argam ente, e quem diga m ais m al dele, do que aqueles que estavam com o que tom ados pelo furor de dizer bem dele.

Penso poder dizer de um cargo em inente e honroso que m ais facilm ente se sobe a ele do que se consegue conservar-se ali.

Vêm -se hom ens caírem de alta fortuna pelos m esm os erros que os haviam feito subir até lá.

Há nas cortes duas m aneiras disso que se cham a despedir o pessoal ou desfazer-se das pessoas: zangar-se com elas, ou proceder de m aneira que elas se zanguem conosco e se aborreçam de nós.

Fala-se na corte bem de alguém por duas razões: a prim eira, para que ele saiba que nós falam os bem dele; a segunda, para que ele fale bem de nós.

É tão perigoso, na corte, adiantar dinheiro, quanto é em baraçoso não adiantar.

Ha pessoas para as quais não conhecer o nom e e a cara de um hom em é m otivo para rir e desprezá-lo. Perguntam quem é esse hom em : não é nem

Rousseau nem Fabry, (45), nem La Couture (46); eles não poderiam desconhecê-lo.

Falam -m e tanto m al desse hom em , e vej o tão pouco m al nele, que com eço a suspeitar haver nele algum m érito que ofusque o dos outros.

Você é um hom em de bem , não pensa em desagradar aos favoritos, unicam ente dedicado a seu senhor e ao seu dever: está perdido.

Não se é descarado por gosto, e sim por natureza: é um vício do ser, m as natural. Quem não nasceu assim é m odesto, e não passa facilm ente desta extrem idade à outra: é um a lição bastante útil dizer-lhe: sej a descarado e vencerá; im itação m á não lhe aproveitaria, e o faria fracassar. Não é preciso, nas cortes, nada m enos que um a verdadeira e ingênua im pudência para vencer.

Procura-se, em penha-se, disputa-se, atorm enta-se, pede-se, recusam -no, pede-se e- se obtém ; m as diz-se ter obtido sem pedir, m im tem po em que não se pensava nisso, e ate se pensava noutra coisa: m oda antiga, m entira inocente, e que não engana ninguém .

Manej a-se para chegar a um alto cargo, prepara-se todos os enredos, todas as m entiras estão bem tram adas, e deve-se ser servido segundo se desej a: uns devem tom ar a iniciativa, os outros apoiá-la: a isca j á foi lançada e a m ina está pronta a render; então se afasta da corte. Quem ousaria suspeitar que Artem on pensara em se m eter em tão bom lugar, quando o vão buscar na sua terra ou no seu distrito para levá-lo até lá?

Artifício grosseiro, sutilezas gastas, e das quais o cortesão se serviu tantas vezes que se eu quisesse enganar todo o público, e esconder-lhe m inha am bição, ficaria à vista e sob a m ão do príncipe, para receber dele a graça que tivesse pleiteado com m ais afinco.

Os hom ens não querem que se descubram as am bições que têm sobre sua fortuna, nem que se perceba. que eles pensam em tal dignidade, porque, se não a obtêm , há vergonha, pensam eles, em ser recusados; e se conseguem , há m ais glória para eles em serem j ulgados dignos por quem as concedeu que de se j ulgarem dignos eles próprios por suas intrigas e cabalas: enfeitam -se, ao m esm o tem po, com sua dignidade e com sua m odéstia.

Qual é m aior vergonha, ser recusado para um cargo que se m erece, ou ocupá-lo sem m erecer?

Por grandes que sej am as dificuldades em se colocar na corte, é ainda m ais duro e difícil tornar-se digno de ser colocado ali.

Custa m enos fazer dizer de si: por que sem que ele obteve esse cargo? do que fazer perguntar: por que não obteve?

A gente ainda se apresenta para os cargos da cidade, ainda se candidata a um a vaga na Academ ia Francesa; pleiteava-se o consulado: que haveria de m al então em trabalhar, nos prim eiros anos da vida em se tornar capaz de um grande cargo, e depois pedi-lo sem m istério nenhum e sem nenhum a intriga, abertam ente e com confiança de nele servir a pátria, o príncipe, a república?

Não vej o nenhum cortesão a quem o príncipe acabe de conceder um bom lugar na adm inistração, um posto em inente, ou grande pensão, que não garanta por vaidade, ou para acentuar o seu desinteresse, que está m enos contente com o benefício que com a m aneira pela qual foi feito: o que há nisso de certo e indubitável é que ele diz assim .

É grosseria dar de m au hum or: o pior e o m ais penoso é dar; que custa acrescentar um sorriso?

É preciso confessar que j á se viram hom ens que recusavam m ais polidam ente do que os outros sabiam dar; j á se disse de alguns que se faziam m uito tem po rogar, e davam tão secam ente, e enchiam um a graça que se arrancava deles de condições tão desagradáveis, que a m aior graça era obter deles ser dispensado de aceitar coisa algum a.

Notam -se, na corte hom ens ávidos que se revestem de todas as condições para ter as vantagens: governanças, cargos, benefícios, tudo lhes convém : são tão bem aj ustados, que, por seu estado, se tornam capazes de todas as graças; são anfíbios; vivem da Igrej a e da espada, e, encontrarão o segredo de acrescentar a toga. Se você pergunta: que faz essa gente na corte? Eles recebem , e invej am sem pre aqueles a quem se concede.

Mil pessoas na corte arrastam sua vida abraçando, cum prim entando, congratulando os que recebem , até que m orrem sem nada possuir.

Menófilo tom a seus costum es de um a profissão e de outra seu traj e: vive o ano inteiro m ascarado, apesar de ter o rosto descoberto; aparece na corte, na cidade, em toda parte, sem pre sob um certo nom e e o m esm o disfarce. Reconhecem -no, e se sabe o que ele é pelo seu rosto.

Há, para chegar às honrarias, o que se cham a a estrada real, ou cam inho largo; há o cam inho oblíquo ou atalho, que é o m ais curto.

Todos procuram os infelizes para exam iná-los; dispõem -se em fila ou se põem às j anelas para observar os traços e a atitude de um hom em que foi condenado e sabe que vai m orrer: vã, m aligna, desum ana curiosidade! Se os hom ens fossem sábios, a praça pública seria abandonada, e ficaria estabelecido que só em ver tais espetáculos haveria ignom ínia. Se você se enche de curiosidade, exerça-a pelo m enos em um assunto digno: vej a um hom em feliz, contem ple-o no dia exato em que ele foi nom eado para um novo cargo, e está recebendo cum prim entos; leia nos seus olhos, através dum a calm a estudada e dum a fingida m odéstia, com o ele está contente e cheio de si: vej a que serenidade essa satisfação de seus desej os espalha no seu coração e no seu rosto; com o ele não pensa m ais que em viver e ter saúde; com o depois sua alegria transborda e ele não pode m ais dissim ulá-la; com o se dobra ao peso da felicidade; que ar frio e sério conserva para aqueles que não são m ais seus iguais; não lhes respondes não os vê: os abraços e cum prim entos dos nobres, que ele j á não vê de tão longe, acabam por fazer-lhe m al: desconcerta-se, se atordoa; é um a curta alucinação. Você quer ser feliz, desej a m ercês: quanta coisa tem que evitar!

Um hom em que acaba de ser colocado não se serve m ais da razão e da inteligência para regular sua conduta e suas aparências em relação aos outros: tom a a regra do cargo e do seu estado: daí o esquecim ento, o orgulho, a arrogância, a dureza, a ingratidão. “

Teonas, padre há trinta anos, cansava-se de o ser. Tem -se m enos ardor e im paciência em se ver vestido de púrpura que ele em levar um a cruz de ouro no peito: e porque as grandes festas se passavam sem pre sem nada m udar na sua sorte ele m urm urava contra o tem po presente, achava o Estado m al governado, e nada predizia que não fosse sinistro; convindo de coração que o m érito é perigoso, na corte, para quem quer subir, tom ara então um a resolução e renunciara à, prelazia, quando veio alguém dizer-lhe que ele fora nom eado para um bispado. Cheio de alegria e confiança por um a notícia tão pouco esperada, diz: Você verá que não ficarei m uito tem po por lá, logo m e farão arcebispo.

Tem de haver velhacos na corte, perto dos nobres e dos m inistros, m esm o os m elhor intencionados; m as lidar com eles é delicado; é preciso saber fazê-los agir: há tem pos e ocasiões em que eles são insubstituíveis. Honra, virtude, consciência, qualidades sem pre respeitáveis, freqüentem ente inúteis: que é que você quer que se faça com um hom em de bem ?

Um velho autor (47), do qual ouso aqui transcrever as próprias palavras, pelo receio de enfraquecer o sentido com a m inha tradução, disse que “afastar-se dos pequeninos, isto é dos seus sem elhantes, aviltá-los e desprezá-los, freqüentar nobres e poderosos no gozo de bens e riquezas, e na sua frequentação e privança ser de todas as folganças, brincos, bufonerias, e necedades viloas; ser descarado, sem pudor é sem nenhum a vergonha; aturar chufas e m angações de toda gente, sem por isso deixar de fazer cam inho, e por sua desenvoltura, form ar dita e fortuna”.

Juventude do príncipe, fonte de belas fortunas.

Tim anto, sem pre o m esm o, sem nada perder desse m érito que lhe atraiu de com eço reputação e recom pensas, não deixava de degenerar no espírito dos cortesãos: estavam cansados de apreciá-lo, saudavam -no friam ente, não lhe sorriam m ais; com eçavam a não se aproxim ar m ais dele, não o abraçavam m ais, não o cham avam aparte para falar m isteriosam ente de um a coisa banal, não tinham m ais nada a dizer-lhe. Precisava dessa pensão ou deste novo cargo com que acaba de ser honrado para fazer reviver suas virtudes m eio, apagadas da m em ória deles, e refrescar-lhes as idéias; fazem -lhe agora com o no com eço, e m elhor ainda.

Quantos am igos, quantos parentes nascem num a noite para o novo m inistro! Uns fazem valer suas antigas ligações, sociedade de estudos, direitos de vizinhança; os outros folheiam a genealogia deles, sobem até um trisavô, apelam para o lado paterno e o m aterno; quer-se agarrar esse hom em por algum lugar, e diz-se diversas vezes por dia que se é seu parente; de boa vontade se chegaria a im prim ir: É m eu am igo, e estou m uito contente com sua subida; devo tom ar parte na alegria, ele é m eu íntim o. Hom ens vãos e dedicados à fortuna, insípidos cortesãos, falaríeis assim há oito dias? Daí para cá ele teria se tornado m elhor, m ais digno da escolha que o príncipe acaba de fazer? Esperáveis essa circunstância para conhecê-lo m elhor?

O que m e am para e m e garante contra os pequenos desdens que às vezes sofro dos nobres e dos m eus iguais é dizer-m e a m im m esm o: essa gente só tem raiva, talvez, da m inha sorte, e tem razão, ela é bem pequena. Adorar-m e-iam , sem dúvida, se eu fosse m inistro.

Será que irei, breve, ocupar algum cargo? Será que ele sabe? Será um pressentim ento que ele teve? Ele pressente, ele m e saúda.

Aquele diz: Ontem j antei em casa de Tibur, ou esta noite vou cear, e repete,: e faz entrar dez vezes o nom e de Planco nas m ais sim ples conversas, e diz: Planco m e perguntava... Eu dizia a Planco... Esse m esm o vem a saber neste m om ento que seu herói acaba de ser arrebatado por um a m orte extraordinária. Correndo, j unta povo nas praças ou sob os pórticos, acusa o m orto, difam a sua conduta, desacredita seu consulado, nega-lhe a ciência dos cálculos que a voz pública lhe concede, não concorda que tivesse m em ória feliz, não lhe dá a honra de incluí-lo entre os inim igos do im pério, com o um inim igo.

Um hom em de m érito assiste, j ulgo eu, a um belo espetáculo quando o m esm o lugar que num a assem bléia ou num espetáculo lhe é recusado ele vê concedida a um hom em que não tem olhos para ver, nem ouvidos para escutar, nem inteligência para conhecer e j ulgar; que só tem de recom endável certas librés que m esm o ele não leva m ais.

Teodoto (48), com um hábito austero, tem um rosto côm ico de hom em que pisa no palco: sua voz seu andar, seu gesto, sua atitude, acom panham -lhe o rosto; é finório, cauteloso, adocicado, m isterioso; aproxim a-se de você e lhe diz um segredo: Eis um dia bonito ou Eis um grande degelo. Se não tem as grandes atitudes, tem pelo m enos as pequenas, j ustam ente aquelas que só convêm a um a j ovem preciosa. Im agine a aplicação de um a criança em levantar um castelo de cartas ou pegar um a borboleta; é a de Teodoto por um a coisa a toa que não m erece que a gente se m exa; trata-a seriam ente, e com o algum a coisa fundam ental; age, em penha-se e consegue bom êxito: ei-lo que respira e descansa, e tem razão: custou-lhe m uito trabalho.

Vêm -se pessoas em briagadas, enfeitiçadas com o favor de que gozam : pensam nisso de dia, sonham com isso de noite; sobem a escada de um m inistro e descem ; saem da sua antecâm ara e tornam a entrar; não têm nada a dizer-lhe, e lhe falam ; falam segunda vez: ei-las contentes por lhe terem falado. Esprem am , torçam -nas, elas gotej am orgulho, arrogância, presunção; dirij a-lhes a palavra, elas não respondem , não o conhecem , têm os olhos desvairados e o espírito alienado: os pais devem tom ar cuidado com elas e interná-las, por m edo de que sua loucura se torne furor e o m undo sofra com isso. Teodoto tem um a m ania m ais calm a: am a perdidam ente o favoritism o; m as sua paixão tem m enos fulgor: faz votos a ela em segredo, cultiva-a, serve-a m isteriosam ente; está de atalaia e pronto a saltar sobre tudo o que aparece de novo com as librés do favoritism o. Tem um a pretensão, oferece-se a eles, intriga com eles, sacrifica-lhes secretam ente m érito, parentescos, am izade, com prom issos, reconhecim ento. Se o lugar de um Cassini se tornasse vago, e o suíço ou o postilhão de um favorito o resolvesse pedir para si, ele apoiaria tal pedido, e o j ulgaria digno do lugar, consideraria o indivíduo capaz de observar e calcular, falar de parélios e de paralaxes. Se você perguntasse a Teodoto se ele é autor ou plagiário, original ou copista, eu lhe daria as obras dele, e diria: Leia, e j ulgue; m as, se ele é ou cortesão ou beato, poderia decidir à vista do retrato que acabo de fazer? Eu m e pronunciaria com m ais audácia sobre sua estréia: sim , Teodoto, observei o período do seu nascim ento; você será colocado, e m uito breve: não fique m ais de vigia, não im prim a m ais, o público lhe pede quartel.

Não espere m ais candura, franqueza, eqüidade, bons ofícios, serviços, benevolência, generosidade, firm eza, num hom em que há pouco tem po se dedicou à corte e desej a secretam ente fazer fortuna. Reconhece-lhe o rosto, as conversas? Já não cham a cada coisa pelo nom e; não existem m ais para ele velhacos, ladrões, tolos e im pertinentes. Aquele sobre o qual ele se arriscasse a dizer o que pensa é precisam ente este que, vindo a saber, o im pediria de fazer cam inho. Pensando m al de todo m undo, não diz m al de ninguém ; não querendo bem senão a si próprio, pretende convencer de que quer bem a todos, a fim de que todos lhe façam bem ou pelo m enos ninguém lhe sej a contrário. Não contente de não ser sincero, não suporta que ninguém o sej a; a verdade lhe fere o ouvido; ele é frio e indiferente acerca das observações que se fazem sobre a corte e o cortesão; e por ter ouvido, j ulga-se cúm plice e responsável. Tirano da sociedade e m ártir de sua am bição, tem um a triste circunspecção nas atitudes e nas palavras, gracej os inocentes, m as frios e constrangidos riso forçado, afabilidade contrafeita, conversação interrom pida, distrações freqüentes; tem em profusão, — ousaria dizer? — torrentes de louvores pelo que fez ou disse um hom em altam ente colocado e que está cotado, e para qualquer outra pessoa um a secura de tísico; tem fórm ulas de cum prim entos diferentes para a entrada e a saída em relação àqueles que visita ou que o visitam ; e não há ninguém ; dentre esses que se ralam por trej eitos é falas m acias, que não saia de j unto dele m uito satisfeito. Visa igualm ente fazer-se patrão e servo: é m ediador, confidente, alcoviteiro; quer governar; tem um fervor de noviço para todas as práticas da corte; sabe onde é preciso se colocar para ser visto; sabe abraçá-lo, tom ar parte na sua alegria, fazer-lhe, um a em cim a da outra, perguntas interessadas sobre sua saúde, seus negócios e enquanto você responde, ele perde o fio da curiosidade, interrom pe-o aborda outro assunto; ou, se chega alguém a quem deva um a fala diferente, sabe, acabando de felicitar você, fazer ao outro um cum prim ento de condolência; chora com um olho, ri com o outro. Inform ado às vezes sobre os m inistros ou sobre o favorito, fala em público de coisas frívolas, do vento, da geada: e ao contrário, se cala, banca o m isterioso sobre o que sabe de m ais im portante, e m ais espontaneam ente ainda sobre o que não sabe.

Há um país (49) em que as alegrias são visíveis m as falsas, e as am arguras escondidas, m as reais.

Quem poderia pensar. que o ardor pelos espetáculos, e a pom pa e os aplausos, os carrosséis, cobrissem tantas inquietações, cuidados e diversos interesses, tantos tem ores e esperanças, paixões tão vivas e negócios tão sérios?

A vida da corte é um j ogo sério, m elancólico, que se arm a: é preciso arrum ar suas peças e baterias, ter um obj etivo, segui-lo, prevenir o do adversário, e todas as m edidas tom adas, se está em cheque, às vezes m ate. Às vezes com peões que se reservam chega-se a dam a e se ganha a partida: vence o m ais hábil, ou o m ais feliz.

As rodas, m olas, m ovim entos, estão escondidos: só aparece num relógio a agulha que insensivelm ente avança e com pleta sua volta: im agem do cortesão, tanto m ais perfeita quanto se sabe que depois de ter feito bastante cam inho, volta m uitas vezes ao m esm o ponto de onde partira.

Dois terços da m inha vida se escoaram ; por que inquietar-m e tanto sobre o que m e resta? A m ais brilhante fortuna não m erece o torm ento a que m e entrego, nem as m esquinharias em que m e surpreendo, nem as hum ilhações, as vergonhas que suporto trinta anos destruirão esses colossos de poder que só se viam bem à força de levantar a cabeça: desaparecerem os, eu que sou tão pouca coisa, e aqueles que eu contem plava tão avidam ente, e dos quais esperava toda a m inha grandeza: o m elhor de todos os bens, se é que existem bens, é o descanso, o retiro, num lugar que sej a nosso dom ínio. N“ pensou isso na desgraça, e na prosperidade esqueceu o que pensara.

Um pobre se vive em casa na província, vive livre m as sem apoio; se vive na corte é protegido, m as é escravo; essas coisas se com pensam .

Xantipo, no fundo de sua província, sob um velho teto e num m au leito, sonhou durante a noite que via o príncipe, que lhe falava, e que com isso sentia grande alegria: ficou triste ao despertar; contou seu sonho, e disse: que quim eras enfunam o espírito dos hom ens enquanto eles dorm em !

Xantipo continuou a viver: veio à corte, viu o príncipe falou-lhe, e foi além do seu sonho: é favorito.

Quem é m ais escravo do que um cortesão assíduo, senão um cortesão m ais assíduo?

O escravo só tem um senhor; o am bicioso tem tantos quantas sej am as pessoas úteis à sua fortuna.

Mil pessoas quase desconhecidas fazem m ultidão no despertar real para ser vistas pelo príncipe, que não poderia ver m il ao m esm o tem po; e se não vê hoj e senão as que viu ontem e verá am anhã, quanta gente infeliz!

De todos os que rodeiam os nobres e lhes fazem a corte, pequeno núm ero os honra de coração, grande núm ero os procura com intuitos am biciosos, núm ero ainda m aior por ridícula vaidade, ou por tola im paciência de se m ostrarem .

Certas fam ílias, pelas leis do m undo, ou por aquilo a que se dá o nom e de decoro, devem ser irreconciliáveis: ei-las unidas; e onde a religião fracassou, quando tentou reconciliá-las, vence o interesse, e facilm ente.

Fala-se de um país (50) em que os velhos são galantes, polidos, e afáveis; os j ovens, ao contrário, são duros, ferozes, sem costum es nem polidez: j ulgam -se libertados da paixão pelas m ulheres num a idade em que noutros lugares se com eça a senti-la; preferem , a elas, os banquetes, as com idas, e os am ores ridículos. Entre eles é sóbrio e m oderado aquele que só se em bebeda de vinho; o uso excessivo que dele fizeram tornou o vinho insípido. Procuram despertar o gosto j á extinto por aguardentes e os licores m ais violentos: só falta à sua depravação beber água-forte. As m ulheres desse lugar precipitam o declínio de sua beleza com artifícios que j ulgam servir para torná-las belas: seu costum e é pintar os lábios, as faces, as sobrancelhas, e os om bros, que elas ostentam com o colo, os braços e as orelhas, com o se tem essem esconder o lugar por onde devem agradar, ou não m ostrá-lo suficientem ente. Os que vivem nesse lugar têm um a fisionom ia que não é clara, m as confusa, m ergulhada num a espessura de cabelos estranhos que preferem aos naturais, e dos quais fazem um extenso tecido para cobrir a cabeça; desce até a m etade do corpo, altera os traços, e im pede que se conheçam os hom ens pelo rosto. Além disso essa gente tem seu deus e seu rei: os grandes da nação se reúnem todos os dias, num a certa hora, num tem plo que cham am igrej a. Há no fundo desse tem plo um altar consagrado ao seu deus, onde um padre celebra m istérios que eles cham am santos, sagrados e tem íveis. Os grandes form am um vasto círculo em torno desse altar, e ai se põem de pé, costas diretam ente viradas para os padres e os santos m istérios, e rosto levantado para o seu rei, que se vê de j oelhos num a tribuna, ao qual eles parecem dedicar todo o espírito e o coração. Não se deixa de ver nesse uso um a espécie de subordinação: porque esse povo parece adorar o príncipe, e o príncipe adorar a Deus., As pessoas do país dão-lhe o nom e de V., e ele está situado a quarenta e oito graus de elevação do polo e m ais de m il e cem léguas m arítim as dos iroqueses e dos hurões.

Quem considerar que o rosto do príncipe faz toda a felicidade do cortesão, que este se ocupa e contenta toda sua vida em vê-lo e ser visto por ele, com eçará a com preender com o ver Deus pode fazer toda a glória e toda a felicidade dos santos.

Os grandes senhores são cheios de atenções com os príncipes, essa é sua ocupação; têm inferiores: os pequenos cortesãos relaxam seus deveres, fazem -se de íntim os, e vivem com o pessoas que não têm exem plos a dar a ninguém .

Que falta, em nossos dias, à j uventude? Ela pode, ela sabe; ou, pelo m enos, quando soubesse tanto quanto pode, não seria m ais resoluta.

Hom ens fracos! Um nobre diz de Tom agenes, seu am igo, que ele é um tolo, e se engana; não peço que você responda que ele é um hom em de espírito; Ouse som ente pensar que ele não sej a tolo.

Da m esm a form a ele diz que Ificrates não tem coração: você o viu praticar um a boa ação; fique tranqüilo: dispenso-o de contá-la, contanto que depois do que acabou de ouvir, ainda se lem bre de que o viu praticá-la.

Em quem sabe falar aos reis, é talvez onde term ine toda a prudência e sutileza do cortesão. Um a palavra lhe escapa, e cai, do ouvido do príncipe, bem fundo na sua m em ória, e às vezes até no seu coração: é im possível reavê-la; todos os cuidados que se tom am e toda a habilidade que se usa para explicá-la ou atenuá-la servem para gravá-la m ais fundam ente e aprofundá-la ainda m ais: se foi apenas contra nós que falam os, além dessa desgraça não ser com um , há rem édio pronto, que é nos instruirm os com nosso erro, e suportar o castigo da leviandade; m as se é contra outrem , que desalento! que arrependim ento! Haverá regra m ais útil contra tão perigoso inconveniente quanto falar dos outros ao soberano, de suas pessoas, de suas obras, de suas ações, costum es, conduta, pelo m enos com a m esm a atenção, precaução e prudência com que se fala de si?

Hom em que gosta de piadas, m au caráter: isso diria eu, se j á não tivessem dito. Os que prej udicam a reputação ou a sorte dos outros, contanto que não perca um a piada, m erecem pena infam ante: isso não foi dito, e eu ouso dizer.

Há certo núm ero de frases feitas que se tom a com o num arm azém , e das quais nos servim os para nos felicitarm os uns aos outros pelos nossos êxitos. Apesar de serem ditas geralm ente: sem afeição, e recebidas sem reconhecim ento, nem por isso é perm itido om iti-las, porque pelo m enos são a im agem daquilo que há de m elhor no m undo, que é a am izade; e os hom ens não podendo contar uns com os outros na realidade, parecem ter com binado entre si contentarem -se com as aparências.

Com cinco ou seis term os de arte, e nada m ais, dá-se ares de conhecedor de m úsica, quadros, construções e m anj ares: pensa-se ter m ais prazer do que os outros em ouvir, ver, com er; im põe-se aos seus sem elhantes, e se engana a si m esm o.

A corte nunca está desprovida de certo núm ero de pessoas nas quais o trato do m undo, a polidez ou a fortuna fazem as vezes de inteligência e substituem o m érito. Sabem entrar e sair; livram -se da conversa, não tom ando parte nela; agradam à força de se calarem , e se tornam im portantes por um silêncio m uito tem po m antido, ou no m áxim o, alguns m onossílabos: m ostram -se por poses, um a inflexão de voz, um gesto, um sorriso: não têm , se ouso dizer, duas polegadas de profundidade; quem aprofundar encontrará o tufo.

Há pessoas às quais a m ercê do príncipe acontece com o um acidente; são as prim eiras a ficar surpreendidas e consternadas: afinal se reconhecem e se acham dignas de sua sorte: e com o se a estupidez e a fortuna fossem duas coisas incom patíveis, ou fosse im possível ser feliz e tolo ao m esm o tem po, j ulgam -se inteligentes, ousam — que digo? — têm a confiança de falar em qualquer ocasião, e sobre qualquer assunto que se possa oferecer, sem nenhum discernim ento das pessoas que as ouvem : acrescentaria que espantam ou causam profundo dissabor pela sua fatuidade e sensaboria. É verdade, ao m enos, que desonram sem apelação aqueles que têm algum a parte no acaso da sua elevação.

Que nom e daria a essa espécie de pessoas que só são astutas para os tolos? Sei, pelo m enos, que as pessoas solertes as confundem com aquelas que sabem enganar.

É ter, dado um grande passo na astúcia, fazer pensar de si que só se é m ediocrem ente astuto.

A argúcia não é nem m uito boa nem m uito m á qualidade; ela flutua entre vício e virtude: não há ocasião em que não possa e talvez deva ser substituída pela prudência.

A astúcia é o m om ento próxim o da velhacaria; de um a a outra o passo escorrega: só a m entira faz a diferença; se a acrescentarm os à astúcia, eis a velhacaria.

Com as pessoas que por astúcia ouvem tudo e falam pouco, fale m enos ainda; ou, se você falar m uito, diga pouca coisa.

Você depende num negócio que é j usto e im portante, do consentim ento de duas pessoas. Um a diz: de pleno acordo, contanto que fulano concorde; fulano concorda, e só desej a certificar-se das intenções do outro. Enquanto isso nada vai adiante: os m eses, os anos se passam inutilm ente. Diz você: não entendo nada, trata-se apenas de fazer com que eles se reunam e se falem . Eu lhe digo, da m inha parte, que vej o claro e com preendo tudo: eles j á se falaram .

Parece que quem pede para os outros tem a confiança de um hom em que pede j ustiça, e falando ou agindo por si m esm o se tem o em baraço e pudor de quem pede perdão.

Se não se tom am precauções, na corte, contra as arm adilhas que ali se arm am incessantem ente para fazer cair no ridículo, fica-se espantado, com toda sua inteligência, de se surpreender alvo do riso dos m ais tolos.

Há ocasiões na vida em que a verdade e a sim plicidade são o m elhor ardil do m undo.

Se você é favorito, todo recurso é bom ; você não erra, todos os cam inhos o levam a term o: do contrário tudo é erro, nada é útil, não há vereda em que não se extravie.

Um hom em que viveu na intriga certo tem po não pode m ais dispensá-la; qualquer outra vida para ele é insípida.

E preciso ter inteligência para ser hom em de facção: pode-se, entretanto, tê-la a um certo ponto em que se está acim a da intriga e da facção, e não se deixaria suj eitar-se a ela; vai-se então a grande fortuna ou alta reputação por outros cam inhos.

Com inteligência sublim e, um a doutrina universal, probidade a toda prova e m érito incontestável, não tem a, ó Aristides, cair no conceito da corte ou perder a predileção dos poderosos enquanto eles precisarem de você.

Que se observe um favorito bem de perto; porque, se ele m e faz esperar m enos na sua antecâm ara do que o com um , se tem o rosto risonho, se enruga m enos a fronte, se m e ouve com m ais atenção, e se m e reconduz um pouco m ais longe, pensarei que com eça a cair e pensarei certo.

O hom em tem m uito poucos recursos em si m esm o, pois que precisa de um a desgraça ou m ortificação para tornar-se m ais hum ano, m ais tratável, m enos feroz, m ais probo.

Contem plam -se nas cortes certas pessoas, e vê-se bem , pelo que elas dizem e por sua m aneira de se conduzirem , que não pensam nos avós, nem nos netos: o presente é delas? Elas não gozam dele, elas abusam .

Straton (51), nasceu sob duas estrelas: infeliz, feliz, no m esm o grau. Sua vida é um rom ance: não, falta-lhe o verossím il. Não teve aventuras; teve sonhos bons e sonhos m aus; que digo? ninguém sonha com o ele viveu. Ninguém tirou de um destino m ais do que ele fez; o grandioso e o m edíocre são seus conhecidos: brilhou, sofreu, levou um a vida com um ; nada lhe escapou. Fez-se valer por virtudes que lhe garantiam seriam ente que estavam nele; disse de si: Tenho inteligência, tenho coragem ; e todos disseram depois dele: Ele tem inteligência, ele tem coragem . Exerceu num a e noutra fortuna o gênio do cortesão, que disse dele m ais coisas boas talvez e m ais coisas m ás do que realm ente tinha. O belo, o am ável, o raro, o m aravilhoso, o heróico, foram em pregados para elogiá-lo; e todo o contrário serviu depois para o rebaixar; caráter equívoco, com plicado, disfarçado; um enigm a, um a interrogação quase indecisa.

O favoritism o põe o hom em acim a de seus iguais; e sua queda, abaixo.

Aquele que um belo dia sabe renunciar decididam ente ao seu nom e nobre, ou a um a grande autoridade, ou a um a grande fortuna, liberta-se, nesse m om ento, de m uitas penas, m uitas vigílias, e às vezes de m uitos crim es.

Dentro de cem anos o m undo subsistirá ainda em sua totalidade: o m esm o teatro e os m esm os cenários; não serão m ais os m esm os atores. Todos os que se alegram com um a graça recebida, ou que se entristecem e desesperam com um a recusa, todos terão desaparecido da cena. Já entram no teatro outros hom ens que vão representar os m esm os papéis na m esm a peça: hão de se apagar por sua vez; e aqueles que ainda não existem , um dia não existirão m ais; novos atores tom arão o lugar deles: que fundo para fazer destacar um a personagem de com édia!

Quem viu a corte viu do m undo o que há de m ais bonito, m ais sedutor e m ais enfeitado: quem despreza a corte de tê-la visto, despreza o m undo.

A cidade enfastia da província: a corte desengana da cidade, e cura da própria corte.

Um espírito são acha na corte o prazer da solidão e do retiro.