Caracteres
Dos Nobres
A prevenção do povo em relação aos nobres é tão cega e a predileção pelo seu gesto, rosto, tom de voz e atitudes está tão generalizada que se eles resolvessem ser bons, isso havia de chegar à idolatria.
Se você nasceu vicioso, ó Teógenes, eu o lam ento; se você se tornou assim por fraqueza pelos que têm interesse em vê-lo assim , e j uram entre si corrom pê-lo, e j á se gabam de poder consegui-lo, perm ita-m e que eu o despreze; m as se você é m origerado, tem perante, reconhecido, trabalhador, além do m ais tem posição e nascim ento capaz de dar, exem plos em vez de recebê-los, e concorda com essa gente em seguir, por condescendência, seus desregram entos, vícios e loucuras, quando eles tiverem exercido, pela deferência que lhe devem , todas as virtudes que você aprecia: ironia forte m as útil, m uito própria para pôr seus costum es em segurança, destruir todos os proj etos deles e obrigá-los a continuar a ser o que são, deixando você tal com o é.
A vantagem dos nobres sobre os outros hom ens é im ensa, por um lado.
Deixo para eles o bom passadio, ricas m obílias, cães, cavalos, m acacos, anões, truões e aduladores; m as invej o neles a felicidade de ter a seu serviço gente que os iguale pelo coração e inteligência, e que às vezes até são m elhores do que eles.
Os nobres se distraem abrindo alam edas na floresta, am parando terras com extensas m uralhas, dourando tetos, fazendo vir dez polegadas d’água, guarnecendo um a estufa; m as tornar um coração contente, encher um a alm a de alegria, prover à extrem a penúria ou rem ediá-la, eis até onde não chega a curiosidade deles.
Pergunta-se se com parando em conj unto diferentes condições dos hom ens, suas penas e proveitos, não se notaria um a certa m istura ou espécie de com pensação do bem e do m al que estabeleceria igualdade entre essas condições ou, pelo m enos, faria com que um a não fosse m ais desej ável do que a outra. Pode form ular tal pergunta alguém poderoso, rico, e ao qual nada falte; m as é preciso que sej a um hom em pobre quem a responda.
Não deixa de haver com o que um encanto, em cada um a dessas diferentes condições, perm anecendo ai até que a m iséria o tenha esgotado. Assim os grandes gostam do excesso e os pequenos am am a m oderação; aqueles gostam de dom inar e com andar e estes sentem prazer e m esm o vaidade em servir e obedecer: os nobres são cercados, saudados, respeitados; os plebeus cercam , saúdam , se prosternam ; e todos estão contentes.
Custa tão pouco aos nobres dar apenas palavras, e sua condição os dispensa tanto de cum prir as belas prom essas que fizeram , que se não prom etem com largueza ainda m aior, é por m odéstia.
Está velho e gasto. diz um nobre; arrebentou a m eu serviço: que fazer dele? Outro, m ais m oço, arrebata suas esperanças e obtém o posto que só se recusa a esse infeliz porque o m erece dem ais.
Não sei — diz você com ar frio e desdenhoso — Filanto tem m érito, inteligência, atrativos, rigor no cum prim ento do dever, fidelidade e dedicação ao patrão, no entanto é m ediocrem ente apreciado; não agrada, não gostam dele; explique-se: quem é que você está condenando: Filanto ou o nobre a quem ele serve?
Geralm ente é m ais útil afastar-se dos nobres do que queixar-se deles.
Quem pode explicar por que alguns ganham a sorte grande e outros a proteção dos poderosos?
Os nobres são tão felizes que nem sequer sofrem , em toda sua vida, o inconveniente de lam entar a perda dos seus m elhores servidores ou das pessoas ilustres no seu gênero, das quais tiraram m ais prazer e utilidade.
A prim eira coisa que a adulação sabe fazer depois da m orte desses hom ens únicos, cuj a falta não se preenche, é atribuir-lhes pontos fracos que ela pretende não existirem nos seus sucessores: garante que um , com toda a capacidade e todas as luzes daquele cuj o lugar vem ocupar, não tem os defeitos do outro; e esse estilo serve para os príncipes se consolarem do grande e do excelente, com o m edíocre.
Os nobres desprezam as pessoas inteligentes que não têm m ais que inteligência; as pessoas inteligentes desprezam os nobres que só têm nobreza; a gente de bem , lam enta uns e outros quando têm nobreza ou inteligência sem nenhum a virtude.
Quando vej o, de um lado, perto dos nobres, à sua m esa, ou às vezes na sua intim idade, esses hom ens solertes, intrigantes, aventureiros, espíritos, perigosos e prej udiciais, e considero por outro lado que dificuldade têm as pessoas de m érito para se aproxim arem , nem sem pre m e disponho a acreditar que as pessoas desagradáveis sej am suportadas por interesse e as de bem consideradas inúteis;, acho-m e m ais disposto a confirm ar este pensam ento: grandeza e discernim ento são duas coisas diferentes e o am or pela virtude e pelos, virtuosos, um a terceira coisa.
Lucila gosta m ais de gastar sua vida se fazendo suportar por alguns nobres do que ser reduzida a viver fam iliarm ente com seus iguais.
A regra de ver gente superior a si deve ter suas restrições: é preciso às vezes estranhos talentos para reduzi-la em prática.
Qual é a doença incurável de Teófilo (52)? Dura há m ais de trinta anos: ele não se cura: quis, quer e quererá governar os nobres; só a m orte lhe há de tirar, com a vida, esta sede de im pério e ascendência sobre os espíritos: será zelo pelo próxim o? Será hábito? Será um a opinião excessiva sobre si m esm o? Não há palácio em que não se insinue; não é no m eio de um quarto que ele para; passa no vão da porta ou do gabinete: espera-se que tenha falado, e m uito, e com ação, para ter audiência, para ser visto Entra no segredo das fam ílias: contribui com algum a coisa em tudo que lhes acontece de triste ou proveitoso: antecede todo m undo, se oferece, m ete-se na festa; é preciso adm iti-lo. Não basta, para encher seu tem po ou sua am bição, o cuidado de dez m il alm as pelas quais responde perante Deus com o pela própria; há gente de m ais alta categoria e m aior distinção, pela qual não tem que prestar contas, e da qual se encarrega de bom grado. Ouve, vela por tudo o que pode servir de pasto a seu espírito de intriga, m ediação ou m anej o: m al um nobre desem barcou, assenhoreia-se dele; antes que se tenha podido suspeitar que Teófilo queria governá-lo j á se ouve Teófilo dizer que o governa.
Um a frieza ou incivilidade que vem daqueles que estão acim a de nós nos faz odiá-los; m as um sorriso ou um cum prim ento logo nos reconcilia com eles.
Há hom ens soberbos que a elevação de seus rivais hum ilha e am ansa; chegam , com essa desgraça, até ao ponto de corresponderem ao nosso cum prim ento; m as o tem po, que adoça tudo, afinal os repõe no seu natural.
O desprezo que os nobres têm pelo povo torna-os indiferentes em relação às lisonj as ou louvores que recebem , e tem pera sua vaidade; assim tam bém os príncipes louvadas infinitam ente e sem descanso pelos nobres ou cortesãos, seriam ainda m ais presunçosos se por sua vez apreciassem aqueles que os louvam .
Os nobres j ulgam -se os únicos perfeitos, dificilm ente adm item nos outros hom ens retidão de espírito, engenho, escrúpulo, e se apossam desses ricos talentos com o coisas devidas ao seu nascim ento. No entanto é erro grosseiro alim entar-se com essas falsas prevenções: tudo o que j á houve de m elhor pensado, de m elhor dito, de m elhor escrito, talvez de conduta m ais delicada, nem sem pre nos veio de sua essência. Têm grandes dom ínios e extensa fila de antepassados: isso não lhes pode ser contestado.
Você tem inteligência, grandeza, sagacidade, gosto, discernim ento? Devo acreditar na prevenção e adulação que divulgam audaciosam ente o seu m érito? Elas m e são suspeitas: recuso-as. Deixar-m e-ia ofuscar por um ar de capacidade ou de altaneria que o coloca acim a de tudo o que se faz, se diz, e se escreve; que o torna seco para louvores e im pede que se possa arrancar de você a m enor aprovação? Concluo daí, m ais naturalm ente, que você tem proteção, crédito e grandes riquezas. Qual é o m eio para defini-lo, Telefon? A gente só se aproxim a de você com o do fogo, e num a certa distância; seria preciso desvendá-lo, conhecê-lo de perto, confrontá-lo com seus sem elhantes, para fazer de você um j uízo são e razoável. Seu hom em de confiança, que goza da sua intim idade, com o qual você se aconselha, pelo qual você deixa Sócrates e Aristides, com o qual você ri, e que ri m ais alto do que você, enfim esse, Dave, conheço-o m uito bem : seria isso bastante para conhecer você?
Há gente que se pudesse conhecer seus subalternos e conhecer-se a si m esm a teria vergonha de sobressair.
Se há poucos oradores excelentes, haverá m uita gente que possa ouvi-los? Se não há bastantes escritores bons, onde estão os que sabem ler? Da m esm a form a houve queixas contra o pequeno núm ero de pessoas capazes de aconselhar o rei e aj udá-lo na adm inistração de seus negócios Mas se afinal nascem esses hom ens hábeis é inteligentes, se agem segundo seu m odo de ver e suas luzes, serão am ados, serão apreciados tanto quanto m erecem ? Serão louvados pelo que pensam e fazem pela pátria? Eles vivem , é quanto basta: censuram -nos se fracassam , invej am -nos se têm êxito.
Censurem os o povo onde seria ridículo querer desculpar: seu pesar e sua invej a, olhados pelos nobres e poderosos com o inevitáveis, conduziram estes últim os, insensivelm ente, a não contar com ele, desprezar seus sufrágios em todas as suas iniciativas e fazer deste desprezo um a regra de política.
Os pequeninos se odeiam uns aos outros quando se prej udicam reciprocam ente. Os nobres são odiosos para os plebeus pelo m al que lhes fazem e por todo o bem que não lhes fazem : são responsáveis pela obscuridade deles, pela sua pobreza e infortúnio; ou pelo m enos parecem sê-lo.
Já é dem ais ter de com um com o povo um a m esm a religião e um m esm o Deus: com o pode ainda cham ar-se Pedro, João ou Jaques, com o o negociante ou o lavrador. Evitem os ter qualquer coisa de com um com a m ultidão; afetem os, ao contrário, todas as distinções que nos separam dela: ela que se aproprie dos doze apóstolos, seus discípulos, os prim eiros m ártires (tal gente, tais patronos); ela que vej a com prazer voltar todos os anos esse dia especial que cada um celebra com o o dia de seu padroeiro. Quanto a nós, nobres, recorram os aos nom es profanos: façam o-nos batizar com os nom es de Anibal, César e Pom peu, que eram grandes hom ens; com o de Lucrécia, que era um a ilustre rom ana; com os de Renaud, Rogério, Oliveiros e Tancredo, que eram paladinos, e o rom ance não tem heróis m ais m aravilhosos; com os de Heitor, Aquiles, Hércules, todos sem ideuses; até m esm o com os de Febo e Diana; e quem nos im pediria de nos cham arm os Júpiter, Mercúrio, Venus, Adonis?
Os nobres descuidam conhecer qualquer coisa, j á não digo apenas os interesses dos príncipes e negócios públicos, m as os seus próprios interesses e negócios; j á que ignoram a econom ia de um pai de fam ília e, louvam a si m esm os pela sua ignorância, deixam -se em pobrecer e dom inar por seus
intendentes; contentam -se em ser gastrônom os ou coteaux (53), ir à casa de Tais ou de Frinéia falar da m atilha e velha m atilha, dizer quantas postas de m uda há de Paris a Besançon e a Filisburgo; enquanto isso há cidadãos que se instruem sobre a arte de governar, tornam -se finos e políticos. Os nobres que os desdenhavam , fazem -lhes reverências: são felizes quando se tornam seus genros!
Se com paro as duas condições m ais opostas dos hom ens, quero dizer, os nobres e o povo, este últim o m e parece contente com o necessário e os outros inquietos e pobres com o supérfluo. Um hom em do povo não saberia fazer nenhum m al; um nobre não quer nenhum bem e é capaz de grandes m alefícios; um , só se form a e se exerce nas coisas úteis; o outro, acrescenta as perniciosas: ali, se m ostram ingenuam ente a grosseria e a franqueza; aqui, se esconde um a seiva m aligna e corrom pida sob a casca da polidez: o povo não tem espírito e os nobres não têm alm a; aquele tem bom fundo e não tem boa aparência; estes só têm aparências e um a sim ples superfície. Será preciso optar? Não hesito: quero ser povo.
Por profundos que sej am os grandes da corte, e por grande que sej a a arte que em pregam em parecer o que não são e não parecer o que são, não conseguem esconder sua m alignidade, sua extrem a tendência para rir à custa dos outros e freqüentem ente atirar ridículo onde não pode haver; esses belos talentos se descobrem neles à prim eira vista: adm iráveis, sem dúvida, para em brulhar um sim plório e tornar m ais estúpido aquele que j á é estúpido; m as ainda m ais próprios para tirar-lhes todo o prazer que poderiam ter diante de um hom em inteligente que soubesse desdobrar-se em m il atitudes agradáveis e divertidas! se o perigoso caráter do cortesão não o forçasse a um a grande circunspecção. Opõe-lhe um caráter sério, no qual se entrincheira, e faz isso com tanta perícia que aos caçoistas, com intenções tão m ás, faltam ocasiões de zom bar dele.
Os gozos da vida, a abundância, a calm a de um a grande prosperidade, fazem com que os príncipes tenham alegria de sobra para rir de um anão, dum m acaco, dum im becil e dum a anedota sem graça: as pessoas m enos felizes só riem quando há m otivo.
Um nobre gosta de Cham pagne, detesta Brie; em bebeda-se com m elhor vinho que o hom em do povo: única diferença que a crápula deixa entre as condições
m ais desproporcionadas, entre o senhor e o estafeiro (54).
Parece à prim eira vista entrar nos prazeres dos príncipes um pouco daquilo que consiste em incom odar os outros; m as não; os príncipes parecem com os hom ens; pensam em si, seguem seu próprio gosto, suas paixões, suas com odidades: isso é natural.
Parece que a prim eira regra das com panhias e das pessoas que ocupam altas posições é dar àqueles que dependem deles para o cuidado de seus negócios, todos os obstáculos que eles podem tem er.
Se um nobre tem algum grau de felicidade acim a dos outros hom ens, não percebo qual, a não ser que sej a, talvez, o de se achar freqüentem ente com poder e ocasião de dar prazer aos outros, e se essa circunstância nasce, parece que ele deve servir-se dela: se é em favor de um hom em de bem deve tem er que ela lhe escape. Quando é num a coisa j usta deve prevenir a solicitação, e só ser visto para receber os agradecim entos; e se ela é fácil, não deve nem sequer fazê-la valer: se a deixa passar, lam ento os dois.
Há hom ens inacessíveis de nascença, e são precisam ente aqueles de quem os outros têm necessidade, dos quais dependem : estão sem pre de pé atrás; m óveis com o m ercúrio, piruetam , gesticulam , gritam e se agitam , sem elhantes a essas figuras de papelão que servem de enfeite num a festa pública, lançam fogo e cham a, trovej am e relam peiam : ninguém se aproxim a, até que vindo a extinguir-se, caem , e com sua queda se tornam tratáveis, m as inúteis.
O suíço, o criado de quarto, o hom em de libré, se não têm m ais inteligência do que a de sua condição, não j ulgam m ais de si m esm os pela sua hum ildade, e sim pela elevação e fortuna das pessoas a quem servem , e põem todos os que entram pela sua porta e m ostram a escada indiferentem ente abaixo deles e de seus senhores: tanto é verdade que se é destinado a aturar dos nobres e daqueles que lhes pertencem !
Um alto dignitário deve am ar seu príncipe, sua m ulher, seus filhos, e depois deles os hom ens inteligentes: deve adotá-los; deve abastecer-se deles e não os deixar faltar. Nunca seria dem ais pagar, não digo com pensões e benefícios dem ais, m as com dem asiadas atenções e fam iliaridades, os auxílios e serviços que eles lhe dão, m esm o sem que ele saiba: quantos rum ores dissipam ! Sabem j ustificar até os m aus sucessos pelas boas intenções, provar a bondade de um intuito e a j usteza de suas m edidas com a felicidade dos acontecim entos; levantar-se contra a m aledicência e a invej a para atribuir, a boas iniciativas, m otivos ainda m elhores; dar explicações favoráveis a aparências m ás; desviar os pequenos defeitos, só m ostrar virtudes, e trazê-las à luz; sem ear, em m il ocasiões, fatos e detalhes vantaj osos e provocar o riso e a zom baria contra aqueles que ousam duvidar o sustentar fatos contrários. Sei que os nobres têm por m áxim a deixar falar e continuar agindo; m as sei tam bém que lhes acontece, diversas vezes, que o deixarem que se fale os im pede de fazer.
Sentir o m érito, e um a vez que é conhecido, tratá-lo bem : duas grandes providências a tom ar, im ediatam ente, e das quais a m aior parte dos nobres é com pletam ente incapaz.
Tu és grande, és poderoso; não basta: faz com que eu te estim e, a fim de que eu fique triste por decair de tuas boas graças ou por não ter podido adquiri-las.
Você diz de um nobre ou de um alto dignatário que ele é cortês e prestativo; que gosta de dar prazer: e confirm a isso por um longo relato, a respeito do que ele fez num negócio em que soube que você tinha interesse. Eu entendo: você quer dizer que por sua causa se tom a im enso interesse pela sua solicitação; Você está bem com as potências: desej ava que eu soubesse outra coisa?
Alguém lhe diz: “Queixo-m e de fulano; está vaidoso com sua grandeza; desdenha-m e, não m e conhece m ais. — Não tenho, por m inha parte, diz você, nenhum m otivo para m e queixar dele: ao contrário, só tenho de que elogiá-lo; e m e parece que ele é bastante cortês”. Julgo com preendê-lo um a vez m ais: você quer que se saiba que um alto dignatário é atencioso com você, o reconhece na antecâm ara entre m il pessoas de bem das quais desvia os olhos, por m edo de cair no inconveniente de lhes retribuir cum prim ento ou lhes sorrir.
Gabar alguém , gabar um nobre, frase delicada na origem , e que significa, sem dúvida, louvar-se a si m esm o dizendo de um nobre todo o bem que nos fez ou que nem pensou em nos fazer.
Quem elogia os nobres, é para acentuar que os vê de perto; raram ente por estim a ou gratidão: m uitas vezes nem conhece aqueles que louva. A vaidade ou leviandade vence às vezes o ressentim ento: está descontente com eles, m as lhes faz elogios.
Se é perigoso m eter-se num negócio suspeito, m ais ainda é ser nisso cúm plice de um nobre ele se desem baraça e o deixa pagar duplam ente, por ele e por você.
Não basta toda a fortuna do príncipe para pagar um a baixa com placência, se se j ulga por tudo o que aquele que ele quer recom pensar pôs de si no caso; e nem todo o seu poder é bastante para puni-lo, se se m edir a vingança pelo dano que recebeu.
A nobreza expõe sua vida pela salvação do Estado e pela glória do soberano; o m agistrado alivia o príncipe de um a parte do encargo de j ulgar os povos; eis, de um a e de outra parte, funções bem sublim es e de m aravilhosa utilidade. Os hom ens não são capazes de m aiores coisas; não sei onde a toga e a espada foram buscar m otivo para se desprezarem m utuam ente.
Se é verdade que um nobre se entrega m ais ao destino quando aventura um a vida destinada a correr no risco, prazer e abundância, do que um indivíduo qualquer que só arrisca dias m iseráveis, é preciso confessar tam bém que ele tem m uito m ais com pensação, que é a glória e a alta reputação. O soldado não aspira a ser célebre; m orre obscuro na m ultidão: vivia da m esm a form a, é verdade, m as vivia; eis um a das fontes da falta de coragem nas cam adas baixas e servis. Aqueles que, ao contrário, o nascim ento separou do m eio do povo, e expõe aos olhos dos hom ens, à sua censura e ao seu elogio, são até capazes de sair daí por esforço de tem peram ento, se não fossem levados à virtude; e essa disposição de coração e inteligência, que se transm ite dos antepassados dos pais e seus descendentes, é essa bravura tão fam iliar às pessoas nobres e talvez à própria nobreza.
Joguem -m e nas tropas com o sim ples soldado, sou TERSITES; ponham -m e à frente de um exército pelo qual eu tenha de responder perante a Europa inteira, sou AQUILES.
Os príncipes, sem outra ciência nem outra regra, têm o gosto por com paração: nasceram e se educaram no m eio e com o que no centro das coisas m elhores, com as quais relacionam o que lêem , o que vêm e o que ouvem . Tudo o que se afasta m uito de LULLI, de RACINE e de LE BRUN é condenado.
Só falar aos príncipes j ovens do zelo pela sua categoria é um excesso de precaução quando toda um a corte dedica seu dever e um a parte de sua polidez a respeitá-los e eles estão m uito m enos suj eitos a ignorar qualquer das atenções devidas ao seu nascim ento do que a confundir as pessoas e tratá-las indiferentem ente, sem distinção pelas suas condições e títulos. Têm um orgulho natural que recobram nas ocasiões; só precisam de lições para regulá-lo, inspirar-lhes bondade, probidade, e espírito de discernim ento.
É pura hipocrisia um hom em de certa elevação não tom ar logo o lugar que lhe é devido, e que todo m undo lhe cede. Não lhe custa nada ser m odesto, m isturar-se com a m ultidão que vai se abrir para ele, tom ar num a assem bléia um últim o lugar, a fim de que todos o vej am ali e se apressem em tirá-lo. A m odéstia é m ais difícil aos hom ens de condição ordinária: se se atiram na m ultidão, esm agam -nos; se escolhem um lugar incôm odo, ali se fixam .
Aristarco com parece em praça pública com um arauto e um corneteiro: este com eça, toda a m ultidão acorre e se reúne. Ouve, povo, diz o arauto; presta atenção; silêncio, silêncio! Aristarco, que aqui vês, vai fazer am anhã um a boa ação. Eu diria m ais sim plesm ente e sem im agem : Alguém que faz o bem quererá fazer m elhor? Que eu não saiba do que ele faz, ou que pelo m enos não suspeite dele m e ter com unicado o que fez.
As m elhores ações se alteram e enfraquecem pela m aneira por que são praticadas, e deixam até duvidar das intenções. Aquele que protege ou louva a virtude pela virtude, que corrige ou reprova o vício por causa do vício a sim plesm ente, naturalm ente, sem nenhum rodeio, sem nenhum a singularidade, sem ostentação, sem afetação: não usa respostas graves e sentenciosas, ainda m enos os detalhes picantes e satíricos; não é nunca um a cena que ele representa para o público, é um bom exem plo que dá e um dever que cum pre; não fornece
nada às visitas das m ulheres, nem ao pavilhão (55), nem aos j ornalistas; não dá a um hom em espirituoso m atéria para boa anedota. O bem que acaba de fazer é um pouco m enos sabido, na verdade; m as fez esse bem ; que é que ele queria m ais?
Os nobres não devem gostar dos tem pos prim itivos; não lhes são favoráveis: é triste para eles ver que saím os todos de irm ão e irm ã, Os hom ens com põem em conj unto um a única fam ília; só há o m ais e o m enos nos graus de parentesco.
Teognis é requintado nos seus arranj os e sai enfeitado com o um a m ulher: ao sair de casa j á com pôs os olhos e o rosto, a fim de ficar tranqüilo em público, e aí aparecer preparadíssim o, e os transeuntes o acharem gracioso, lhe sorrirem , e nenhum lhe escapar. Se anda nas salas, vira-se à direita, onde há m uita gente, e à esquerda, onde não há ninguém ; saúda os que estão e os que não estão ali. Abraça um hom em que se acha ao seu alcance; aperta-lhe a cabeça j unto ao peito; depois pergunta quem é aquele que ele abraçou. Alguém precisa dele num negócio fácil, procura-o, faz-lhe o pedido: Teognis ouve favoravelm ente; está encantado por servi-lo em algum a coisa, concita-o a fazer nascer essas ocasiões de lhe prestar serviço; e com o este insiste no seu negócio, diz-lhe que não fará nada; roga-lhe que se ponha no seu lugar, faz dele o j uiz de sua causa: o cliente sai acom panhado até à porta, lisonj eado, confuso, quase contente por ter sido rej eitado.
Panfilo não conversa com as pessoas que encontra nas salas ou no paço: a j ulgar pela sua gravidade e elevação de sua voz, ele as recebe, dá-lhes audiência, despede-as. Há term os ao m esm o tem po polidos e altivos, polidez im periosa, que ele em prega sem discernim ento: tem um a falsa grandeza que o rebaixa, e em baraça m uito os que são seus am igos e não querem desprezá-lo.
Um Panfilo está cheio de si, não se perde de vista, não vai além da idéia de sua grandeza, de seu parentesco, de seu cargo, de sua dignidade: aj unta, por assim dizer, todas as suas peças, se cobre com elas para se fazer valer; diz: Minha ordem , m inhas insígnias honoríficas: ostenta-as ou as esconde por ostentação: um Panfilo, num a palavra quer ser nobre; j ulga que o é, e não é; é segundo um nobre; se às vezes sorri para um hom em de últim a ordem , um hom em inteligente, escolhe ocasião tão oportuna que nunca é surpreendido nesse m om ento: o rubor cobriria sua face se desgraçadam ente o surpreendessem na m enor fam iliaridade com alguém que não é opulento, nem poderoso, nem am igo de m inistro, nem seu parente, nem seu em pregado. É severo e inexorável para quem ainda não fez fortuna; encontra-se com você, um a vez, num a galeria, e o evita; no dia seguinte, se o encontra num lugar m enos público, ou se é público, na com panhia de um nobre, tom a coragem , chega j unto de você e lhe diz: Você ontem fingiu que não m e estava vendo. Logo o deixa bruscam ente para j untar-se a um senhor ou um prim eiro escriturário; e logo, se os encontra em conversa com você, corta a conversa e os arranca de j unto de si. Outra ocasião você o aborda e ele não para; faz-se acom panhar; fala tão alto que é um a cena para quem passa. Tam bém os Panfilos estão sem pre com o no teatro; gente alim entada de falsidades, que odeia a naturalidade m ais do que tudo na vida; verdadeiras personagens de com édia, dos Floridors, dos Mondoris.
Não se esgota o assunto sobre os Panfilos: são rastej antes e tím idos diante dos príncipes e m inistros, cheios de altaneria e confiança com aqueles que só têm virtude, m udos e atrapalhados diante dos sábios; vivos, audaciosos e arrogantes com aqueles que nada sabem . Falam de guerra a um hom em de toga, e de política a um financista; sabem história com as m ulheres, são poetas com um doutor, e geôm etras com um poeta. De m áxim as, não se encarregam ; de, princípios, ainda m enos; vivem ao acaso, em purrados e arrastados pelo vento das proteções e pela atração das riquezas. Não têm opinião que sej a deles, que lhes sej a própria; tom am em prestadas, à m edida que necessitam delas; e aquele a quem recorrem não é um hom em instruído, ou com petente; é um hom em que está na m oda.
Tem os pelos nobres e para as pessoas de destaque um ciúm e estéril, ou um ódio im potente que não nos vinga de seu esplendor e elevação, e só faz acrescentar à nossa própria m iséria o peso insuportável da felicidade alheia: que fazer contra um a doença da alm a tão inveterada e contagiosa? Contentem o-nos com pouco e com m enos ainda, se possível; saibam perder na ocasião; a receita é infalível, e concordo em experim entá-la: evito com isso ser em purrado na porta pela m ultidão de clientes ou cortesãos que a casa de um m inistro despej a diversas vezes por dia; penar na sala de audiência, pedir trem endo ou balbuciando um a coisa j usta; suportar a gravidade do m inistro, seu riso am argo, e seu laconism o. Então não o odeio m ais, e não o invej o m ais; ele não m e faz nenhum a súplica, eu não lhe faço nenhum a; som os iguais, a não ser no fato dele não estar tranqüilo, e eu estar.
Se os nobres têm ocasiões de nos fazer o bem , raram ente têm vontade de fazê-lo; e se desej am fazer-nos m al, nem sem pre encontra ocasião. Assim se pode ser iludido na espécie de culto que se rende a eles, se esse culto só se funda na esperança ou no tem or; e um a longa vida às vezes term ina sem que aconteça depender deles para o m enor interesse, ou sem que se deva a eles boa ou m á fortuna. Nós devem os respeitá-los porque são nobres e nós som os plebeus; e porque há outros m ais plebeus do que nós que nos respeitam .
Na corte, na cidade, as m esm as paixões, m esm as fraquezas, m esm as baixezas, m esm os caprichos, m esm as desavenças nas fam ílias e entre os parentes, m esm as invej as, m esm as antipatias: por toda parte noras e sogras, m aridos e m ulheres, divórcios, rupturas e reconciliações im perfeitas; por toda parte descontentam entos, cóleras, parcialidades, queixas e aquilo a que se dá o nom e de m á palavra: com bons olhos vê-se sem dificuldade a cidadezinha, a rua
São Diniz, com o transportadas a V. ou a F. (56) Aqui e pensa odiar com m ais orgulho e sobranceria, e talvez com m ais dignidade: as pessoas se prej udicam um as às outras com m ais habilidade e finura; as cóleras são m ais eloqüentes, e se dizem inj úrias m ais polidam ente e em m elhores term os; aqui não se fere a pureza da língua; aqui só se ofendem os hom ens ou sua reputação: todas as aparências do vicio são especiosas; m as o fundo, ainda um a vez, é o m esm o que nas condições m ais hum ildes: tudo o que é baixo, fraco e indigno se encontra aqui. Esses hom ens, tão nobres por nascim ento, ou por graças concedidas, ou altas dignidades, essas cabeças tão fortes e tão hábeis, essas m ulheres tão polidas e espirituosas todos desprezam o povo; e são povo.
Quem diz povo diz m ais de um a coisa: é um a vasta expressão; e a gente se espantaria de ver o que ela subentende e até onde se estende. Há o povo que é oposto aos nobres: é o populacho e a m ultidão; há o povo oposto aos instruídos, aos com petentes e aos virtuosos: são tanto os nobres com o os plebeus.
Os nobres se governam por sentim ento: alm as ociosas sobre as quais tudo faz, à prim eira vista, viva im pressão. Um a coisa acontece, eles falam dem ais naquilo, logo falam pouco, depois não falam m ais, e nunca m ais falarão: ação, conduta, obra, acontecim ento, tudo é esquecido; não lhe peçam correção nem previdência, nem reflexão, nem reconhecim ento, nem recom pensa.
A gente se coloca em extrem idades opostas em relação a certas personagens. A sátira, depois de sua m orte, corre entre o povo, enquanto nas abóbadas dos tem plos ressoam seus elogios. As vezes não m erecem nem libelos nem discursos fúnebres às vezes tam bém são dignos de am bos.
Deve-se silenciar sobre os poderosos: há quase sem pre adulação em dizer bem deles; há perigo em dizer m al enquanto vivem , e covardia quando j á m orreram .