Caracteres

Jean de La Bruyère · Capítulo 2 de 12

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Caracteres

Prefácio

 

Devolvo ao público o que ele m e em prestou; dele tom ei a m atéria desta obra; j usto é que ao term iná-la, com todo o respeito à verdade de que sou capaz, e que ele m e m erece, faça-lhe agora esta restituição. Pode m irar-se com alm a neste retrato que lhe fiz, tom ado do natural; e se reconhecer em si alguns dos defeitos que aponto, corrij a-os. É o único fim que se deve ter em vista ao escrever, e tam bém o sucesso com que m enos se deve contar.

Mas com o os hom ens não aborrecem o vício, por isso m esm o é preciso não se cansar tam bém de reprová-los: talvez fossem piores se viessem a faltar-lhes censores ou críticos: é isso que faz com que se exorte e se escreva.

O orador e o escritor não saberiam vencer a alegria que têm de ser aplaudidos: m as deviam se envergonhar caso não procurassem , com discursos e escritos, m ais do que elogios; além de que a aprovação m ais certa e m enos equívoca é a m udança de costum es e a reform a daqueles que os lêem ou que os ouvem . Não devem os falar, não devem os escrever, senão para instrução; e se acontecer agradarm os, nem por isso devem os arrepender-nos, quando o sucesso servir para insinuar e tornar aceitáveis as verdades que instruem . Quando, pois, escorregarem num livro alguns pensam entos e reflexões que não tenham a veem ência, nem a form a, nem a vivacidade de outros, ainda que pareçam incluídos para variar, descansar o espírito, torná-lo m ais presente, m ais atento ao que se segue, quando não sej am suaves, naturais, instrutivos, acom odados ao sim ples do povo — que não é perm itido desprezar —, pode o leitor condená-los e deve o autor prescrevê-los: eis a regra.

Há outra, que m e interessa ver seguida: é não perder de vista o m eu título, e pensar sem pre, durante toda a leitura desta obra, que eu descrevo caracteres e costum es deste século: porque se bem m e inspire freqüentem ente na corte de França, não se pode restringi-los a um a só corte, nem lim itá-los a um só país, sem que m uito perca o livro de seu alcance e utilidade, se afaste do plano que m e tracei — pintar os hom ens em geral —, com o das razões que entram na ordem dos capítulos e um a certa seqüência insensível nas reflexões que os com põem . Depois dessa precaução tão necessária, cuj as conseqüências tão bem se percebem , creio poder protestar contra toda m ágoa, toda queixa, toda interpretação m aligna, toda falsa aplicação e toda censura; contra os severos im pertinentes e os leitores m al-intencionados.

É preciso saber ler, e em seguida silenciar, ou poder relatar o que se leu, e nem m ais nem m enos do que aquilo que se leu; e se às vezes se pode fazer isso, não basta; é preciso ainda querer fazê-lo. Sem essas condições, que um autor exato e escrupuloso tem o direito de exigir de certos espíritos, com o única recom pensa do seu trabalho, duvido que ele deva continuar a escrever, salvo se preferir sua própria satisfação ao aproveitam ento alheio e ao zelo da verdade. Confesso, aliás, que desde o ano de 1690, e antes da quinta edição, hesitei entre a im paciência de dar ao m eu livro m ais am plitude e m elhor form a introduzindo novos caracteres, o tem or de que alguns dissessem : não acabam m ais esses Caracteres, e não verem os m ais outra coisa desse escritor? Por um lado, pessoas circunspectas m e diziam : a m atéria é sólida, útil, agradável, inesgotável; viva m uito tem po, e trate-a sem interrupção enquanto viver: que poderia fazer de m elhor? Não há ano em que a estultícia dos hom ens não possa dar um volum e.

Outras, com m uita razão, m e punham de sobreaviso contra os caprichos da m ultidão e a leviandade do público, com o qual, aliás, tantos m otivos tenho para estar contente; e não deixaram essas pessoas de m e sugerir que ninguém nos últim os trinta anos lendo m ais que por ler, eram precisos, para divertir os hom ens, novos capítulos e novo título: que essa indolência do público enchera as loj as e povoara o m undo, esse tem po todo, de livros insípidos e cacetes, de m au estilo e nenhum recurso, sem regras e desconchavados, contrários aos costum es e conveniências, escritos com precipitação e lidas da m esm a form a, só por serem novidade; e que se eu só sabia am pliar um livro razoável, o m elhor que podia fazer era descansar. Tom ei então um pouco de cada um desses dois conselhos opostos, e adotei um a form a que os aproxim ava. Não hesitei em acrescentar algum as observações novas às que j á tinham aum entado do dobro a prim eira edição de m inha obra; m as para que o público não fosse obrigado a reler o antigo para passar ao que havia de novo, e tivesse diante dos olhos apenas o que sentisse vontade de ler, tom ei a precaução de lhe designar este segundo acréscim o por um sinal particular: j ulguei tam bém que não seria inútil diferençar o prim eiro acréscim o com outra m arca m ais sim ples, que servisses para m ostrar os progressos dos m eus “caracteres” e auxiliar a escolha da leitura que se

quisesse fazer (1); e com o se pudesse tem er que esse progresso fosse infinito acrescentei a todos esses cuidados um a prom essa sincera de não tentar m ais nada no gênero. Se alguém m e acusar de ter faltado à palavra, inserindo, nas três edições que se seguiram , grande núm ero de observações novas, ao m enos verá que ao m isturá-las com as antigas pela com pleta supressão dessas diferenças que se vêm em notas aparte, pensei m enos em fazer com que se leia algo novo do que em deixar, talvez, à posteridade, um estudo de costum es m ais com pleto, m ais rem atado e m ais regular.

De resto não foram m áxim as que eu quis escrever: elas são com o leis no dom ínio da m oral; e confesso que não tenho autoridade bastante, nem gênio, para m e fazer legislador. Sei m esm o que teria pecado contra os usos das m áxim as, os quais determ inam que elas sej am , à m aneira dos oráculos, curtas e concisas. Algum as dessas observações são assim ; outras são m ais extensas: pensam -se as coisas de m aneira diferente e se explicam , de um a form a tam bém com pletam ente diferente, por um a sentença, um raciocínio, um a m etáfora ou outra figura qualquer, por um paralelo, um a sim ples com paração, por um fato com pleto, por um único porm enor, por um a descrição, por um a cena; daí a extensão ou brevidade de m inhas reflexões. Finalm ente: aqueles que fazem m áxim as querem ser acreditados: eu, ao contrário, consinto que se diga de m im que algum as vezes não observei bem .; contanto que se observe .m elhor do que eu.