Caracteres

Jean de La Bruyère · Capítulo 5 de 12

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Caracteres

Das Mulheres

 

Os hom ens e as m ulheres raram ente concordam sobre o m érito de um a m ulher: seus interesses são com pletam ente diferentes. As m ulheres não se agradam um as às outras pelas m esm as qualidades com que agradam aos hom ens: m il m aneiras que acendem nestas grandes paixões, criam entre elas aversão e antipatia.

Há em algum as m ulheres um a grandeza artificial relacionada com o m ovim ento dos olhos, um j eito de cabeça, m odos de andar, e não passa daí; um espírito encantador que se im põe e só se aprecia porque não é profundo. Há, noutras, um a grandeza sim ples, natural, independente do gesto e do andar, que brota do coração e é com o um a conseqüência de seu alto nascim ento; um m érito plácido, m as sólido, acom panhado de m il virtudes que elas não podem cobrir com sua m odéstia: escapam desta e se m ostram aos que têm olhos. Eu vi alguém desej ar ser m oça, e m oça bonita, dos treze aos vinte e dois anos, e dessa idade em diante, se tornar hom em .

Algum as j ovens não conhecem suficientem ente as vantagens dum a natureza feliz, e quanto seria útil abandonar-se a ela. Desvirtuam esses dons do céu, tão raros, tão frágeis, com m aneiras afetadas e m á im itação. O som da voz e o andar são copiados. Elas se com põem , se procuram , olham no espelho a ver se se afastam bastante do natural: não é sem dificuldades que conseguem agradar m enos.

Entre as m ulheres, enfeitar-se e pintar-se não é — confesso — falar contra seu pensam ento; tam bém não eqüivale ao disfarce e à m ascarada, em que ninguém procura passar pelo que não é; pensam apenas em se esconderem e se tornarem desconhecidas: procuram im por-se aos olhos e querem parecer, segundo seu exterior, contra a verdade; é um a espécie de m entira.

É preciso j ulgar as m ulheres do calçado ao penteado, exclusivam ente, m ais ou m enos com o: se m ede, o peixe entre a cauda e a cabeça.

Se as m ulheres querem ser belas apenas aos seus próprios olhos, e agradar a si m esm as, podem , sem dúvida, seguir seu gosto e capricho na escolha dos traj es e enfeites: m as se é aos hom ens que querem agradar, se é para eles que se pintam e aplicam ilum inuras, recolhi opiniões, e lhas transm ito, da parte de todos os hom ens, ou da m aior parte: acham eles que o branco e verm elho as tornam horríveis e repugnantes; que o verm elho só as envelhece e m ascara; odeiam tanto vê-las com alvaiade no rosto quanto com dentes postiços na boca e bolas de cera nas m andíbulas; protestam seriam ente contra todo artifício que usam para se tornarem feias; e longe de responder por isso diante de Deus, parece que, ao contrário, ele lhes reservou esse últim o e infalível m eio de curar as m ulheres.

Se as m ulheres fossem , naturalm ente, iguais ao que se tornam com artifícios, se perdessem num m om ento toda a frescura da pele e tivessem o rosto tão aceso e vidrado quanto fazem com o carm im e tintas com que se pintam , ficariam inconsoláveis.

Um a m ulher vaidosa não desiste da paixão de agradar e da opinião que tem sobre sua beleza. Considera o tem po e os anos com o algo que enruga e enfeia apenas as outras m ulheres: esquece que pelo m enos a idade está escrita no rosto. O m esm o enfeite que antes lhe em belezara a j uventude, desfigura agora sua pessoa, ilum ina os defeitos da sua velhice. Os requebros e a afetação acom panham -na na dor e na febre: m orre enfeitada, e com fitas de cor.

Lise ouve dizer de outra vaidosa que ela gosta de afetar m ocidade e quer usar adornos que não convêm m ais a um a m ulher de quarenta anos. Lise j á com pletou quarenta; m as os anos para ela têm m enos de doze m eses e não a envelhecem . Assim acha ela; enquanto se olha no espelho, espalha carm im no rosto e coloca sinais, concorda que não é perm itido a um a certa idade fingir de j ovem , e que realm ente Clarice, com seus sinais e seu carm im , é ridícula.

As m ulheres se preparam para seus am antes, quando os esperam ; m as se são surpreendidas, esquecem , quando eles chegam , o estado em que se acham ; não se vêm m ais. Com os que lhes são indiferentes, têm m ais ócios; sentem a desordem em que estão, endireitam -se na presença deles, ou desaparecem um m om ento, para voltarem enfeitadas.

Um rosto bonito é o m ais bonito de todos os espetáculos; a m ais doce harm onia é o som da voz que a gente am a.

A graça é arbitrária; — a beleza — é algo m ais real e m ais independente do gosto e da opinião.

Pode-se ficar de tal m aneira im pressionado com belezas tão perfeitas, de tão grande m érito, que a gente se contente em vê-las e falar-lhes.

Um a m ulher bonita com as qualidades de um hom em de bem , é o que há de m ais delicioso no m undo para o convívio: encontra-se nela todo o m érito dos dois sexos.

Sem sentir, um a j ovem faz pequenas coisas que convencem e agradam sensivelm ente aquele para quem essas coisas são feitas: os hom ens quase nada fazem sem sentir; suas carícias são voluntárias, eles falam , agem , são solícitos, e convencem m enos.

O capricho, nas m ulheres, está m uito próxim o da beleza; para ser o seu contraveneno, e para que faça m enos m al aos hom ens, que não se curariam sem rem édio.

As m ulheres se prendem aos hom ens pelos favores que lhes concedem : os hom ens se desprendem por esses m esm os favores.

Um a m ulher esquece, de um hom em que ela j á não am a, até os favores que ele recebeu dela.

Um a m ulher que tem um am ante pensa não ser nam oradeira, a que tem diversos am antes pensa ser apenas nam oradeira.

Certa m ulher que evita ser leviana por sua firm e dedicação a um só, passa por louca pela sua m á escolha.

Um antigo am ante depende de tão pouco que cede a um novo m arido; e este dura tão pouco que um novo am ante que lhe sucede, paga-lhe na m esm a m oeda.

Um antigo am ante tem e ou despreza um novo rival, segundo o caráter da pessoa a quem serve.

Muitas vezes só falta a um antigo am ante, j unto à m ulher que o prende, o nom e de m arido: é m uito; ele estaria m il vezes perdido sem esta circunstância.

Parece que a galanteria, num a m ulher, aum enta a fem inilidade. Um hom em fem inil, ao contrário, é algo pior que um hom em galante. O hom em fem inil e a m ulher galante se eqüivalem .

Há poucas galanterias secretas: m uitas m ulheres não são m elhor designadas pelo nom e dos m aridos que pelo dos am antes.

Um a m ulher am orosa quer ser am ada: a um a nam oradeira basta que a considerem am ável e se contenta com isso. Aquela procura com prom isso, esta se contenta em agradar. A prim eira passa sucessivam ente de um com prom isso a outro; a segunda tem diversos ao m esm o tem po. O que dom ina num a, é a paixão e o prazer; na outra vaidade e leviandade. A galanteria é um a fraqueza sentim ental, ou, talvez, um vício orgânico, a vaidade é um desregram ento da inteligência; a m ulher am orosa faz-se tem er, a nam oradeira faz-se odiar. Pode-se tirar desses dois caracteres o bastante para fazer um . terceiro, o pior de todos.

Fraca é a m ulher a quem se reprova um a falta, que ela reprova a si m esm a, cuj o coração com bate a razão; que quer se curar e não se curará, ou só m uito tarde.

Inconstante é a m ulher que j á não am a; leviana é aquela que j á am a outro; volúvel, a que não sabe se am a e a quem am a; indiferente, a que não am a.

A perfídia, se assim ouse dizer, é um a m entira de corpo inteiro: é, na m ulher, a arte de proferir um a palavra ou praticar um a ação que enganam , e, às vezes, de fazer j uram entos e prom essas que não lhe custam m ais fazer que violar.

Um a m ulher infiel, quando conhecida com o tal pela pessoa interessada, não passa de infiel; se essa pessoa pensa que ela é fiel, ela é pérfida.

Um beneficio resulta da perfídia das m ulheres: cura o ciúm e.

Algum as m ulheres têm , durante a vida, um duplo com prom isso a sustentar, igualm ente difícil de rom per e dissim ular: só falta a um o contrato, e a outro, o coração.

A j ulgar esta m ulher pela sua beleza, sua m ocidade, seu orgulho e seus desdens, ninguém duvida que sej a um herói quem há de um dia conquistá-la: ei-la que escolhe: trata-se de um m onstrengo sem inteligência. Há m ulheres j á m aculadas que por sua constituição orgânica, ou pelo m au caráter, são naturalm ente o recurso dos rapazes que não têm bastantes bens. Não sei quem é m ais lam entável, a m ulher de idade avançada que precisa de um galã ou um galã que precisa de um a velha.

O rebotalho da corte é recebido na cidade num a ruazinha em que desbanca o próprio m agistrado de gravata e roupa cinzenta, assim com o o burguês de talabarte, afasta-os e se torna senhor da situação: é ouvido e am ado; não se resiste m ais que um m om ento contra um cinto de ouro e um penacho branco, contra um hom em que fala aos reis e vê os m inistros. Ele faz cium entos e cium entas; adm iram -no, invej am -no: a quatro léguas daí, ele causa piedade.

Um hom em da cidade é, para um m ulher da província, o que é, para um a m ulher da cidade, um hom em da corte.

A um hom em fátuo, indiscreto, falador e im pertinente, que fala de si com confiança e dos outros com desprezo: im petuoso, presunçoso, audaz, sem costum es nem probidade, nenhum critério e im aginação m uito livre, só falta, para ser adorado de certas m ulheres, belos traços e boa estatura.

Será por ter em vista o segredo, ou por gosto hipocôndrio, que essa m ulher am a um criado, a outra, um m onge, e Dorina, o seu m édico?

Róscio (22) entra em cena com geral agrado, sim , Lélia, e acrescento ainda que tem pernas bem torneadas, representa bem papéis de destaque e para declam ar perfeitam ente só lhe falta, com o se diz, fazer falar a boca: m as será o único que agrade no que faz? E o que faz será a coisa m ais nobre e m ais honesta que se possa fazer? Róscio, aliás, não pode ser seu; j á é de outra; e quando não fosse assim , está reservado: Cláudia espera, para tê-lo, que tenha aborrecido Messalina. Tom e Batildo, Lélia: onde encontrará um j ovem que chegue tão alto dançando e faça m elhor a cabriola?

Queria o dançarino Cobus, que, j ogando os pés para a frente, roda um a vez no ar antes de pousar na terra? Ignora você que ele é m ais m oço? Para Batildo, diz você, a solicitação é inum erável, ele recusa m ais do que concede. Mas você tem Dracon, o flautista: nenhum outro, no seu ofício, enche m ais docem ente as bochechas soprando no oboé ou na gaita: porque é infinito o núm ero de instrum entos que ele faz falar; engraçado, além do m ais, faz rir até as crianças e as m ulherinhas. Quem com e e bebe m elhor, num a refeição, do que Dracon? Em bebeda todos os convivas e é o últim o a se render. Você suspira, Lélia: será que Dracon teria escolhido alguém , ou que desgraçadam ente alguém a houvesse antecipado? Teria ele, afinal, se com prom etido com Cesônia, que tanto o perseguiu, sacrificou-lhe um bando de am antes, direi m esm o, toda a flor dos Rom anos; Cesônia que é de fam ília patrícia, e tão j ovem , e bela, e séria? Lam ento, Lélia, se você apanhou por contágio esse novo gosto que têm tantas m ulheres rom anas pelo que se cham am hom ens públicos, expostos, pela sua condição, à vista dos outros. Que fará você, quando o m elhor do gênero lhe for roubado? Ainda resta Bronte, o carrasco; o povo só fala na sua força e destreza; é um j ovem de om bros largos e grande estatura, negro além do m ais, um hom em preto.

Para as m ulheres m undanas um j ardineiro é um j ardineiro e um pedreiro é um pedreiro; para algum as outras, m ais retraídas, um pedreiro é um hom em , um j ardineiro é um hom em . Tudo é tentação para quem a tem e.

Algum as m ulheres doam aos conventos e aos am antes: am orosas e benfeitoras, têm até no âm bito do altar tribunas e oratórios em que lêem bilhetes de am or, onde ninguém vê que não estão rezando para Deus.

Que é um a m ulher às direitas? Será um a m ulher m ais condescendente com o m arido, m ais indulgente com os criados, m ais dedicada à fam ília e às suas ocupações, m ais ardente e m ais sincera com os am igos; m enos escrava de seus hum ores, m enos agarrada a seus interesses; am ando m enos as com odidades da vida; não digo que faça larguezas aos filhos, que j á são ricos, m as que, opulenta e repleta do supérfluo, lhes forneça o necessário, e faça ao m enos a j ustiça que lhes deve; m ais isenta de am or próprio e de hostilidade para com os outros; m ais livre de todos os apegos hum anos? Não, dizem , não é nada dessas coisas. Insisto e pergunto: que é então, um a m ulher às direitas? Ouso dizer: é um a m ulher que tem um diretor.

Se o confessor e o diretor não concordam sobre um a regra de conduta, quem será o terceiro que um a m ulher tom ará para super-árbitro? Fundam ental para um a m ulher não é ter um diretor, m as viver tão lealm ente que possa dispensá-lo.

Se um a m ulher pudesse dizer ao seu confessor, com suas outras fraquezas, as que tem pelo diretor e o tem po que com ele perde, talvez lhe fosse dado, com o penitência, renunciar a isso.

Queria que fosse perm itido gritar com todas as forças a esses santos hom ens que foram , antigam ente, feridos pela m ulher: fuj am das m ulheres, não as dirij am ; deixem a outros o cuidado de salvá-las.

É dem ais, contra um m arido, ser nam oradeira e devota: a m ulher devia optar.

Hesitei em dizê-lo, e sofri com isso; m as desabafo agora, e espero que m inha franqueza será útil àquelas que, não achando bastante um confessor para conduzi-las, não têm nenhum discernim ento na escolha de seus diretores. Não canso de m e adm irar e surpreender à vista de certas personagens cuj o nom e não digo. Arregalo os olhos para elas; contem plo-as: elas falam , sou todo ouvidos, m e inform o; contam -m e fatos, recolho-os; e não com preendo com o pessoas em que penso ver todas as coisas diam etralm ente opostas ao bom espírito, ao bom sentim ento, à experiência dos negócios do m undo, ao conhecim ento do hom em , à ciência da religião e dos costum es, presum em que Deus deva renovar nos nossos dias a m aravilha do apostolado e fazer um m ilagre nas suas pessoas, tornando-as capazes, espíritos estreitos e sim plórios que são, do m inistério de alm as, o m ais delicado e m ais sublim e; e se, ao contrário, se j ulgam aptos para um função tão elevada e difícil, concedida a tão poucas pessoas, se convencem de não estar fazendo m ais do que aplicar seus talentos naturais e seguir um a vocação com um , ainda os entendo m enos.

Sei m uito bem que o prazer de se tornar depositário do segredo das fam ílias, de se tornar necessário para as conciliações, obter encom endas, e colocar em pregados, ter todas as portas abertas na casa dos poderosos, com er freqüentem ente em m esas opulentas, passear de carruagem num a grande cidade, e fazer deliciosos retiros no cam po, ver diversas pessoas de nom e e distinção interessar-se pela sua vida e sua saúde, dispor para os outros e para si m esm o de todos os interesses hum anos: vej o perfeitam ente, ainda um a vez, que só isso fez ignorar o especioso e irrepreensível pretexto de cuidar das alm as, e espalhou no m undo essa escola inesgotável de diretores.

A devoção vem para alguns, e principalm ente para as m ulheres, com o um a paixão ou a fraqueza de um a certa idade, ou um a m oda que se tem de seguir. Antigam ente elas contavam um a sem ana pelos dias de j ogo, espetáculo, concerto, m ascarada, e de serm ão bonito. Iam na segunda feira perder dinheiro em casa de Ism ênia, na terça, o tem po em casa de Clim enes, na quarta, a reputação na de Clim enes; sabiam de véspera toda a alegria que deviam ter no dia seguinte e no outro: desfrutavam , ao m esm o tem po, o prazer presente e o que não lhes podia faltar; desej ariam poder j untá-los todos num dia só. Era, então, sua única inquietação, e todo o tem a das suas distrações; e se elas com pareciam às vezes à Ópera, era para lam entar a falta da com édia.

Outros tem pos, outros costum es: afetam austeridade e retiro; não abrem m ais os olhos que lhes foram dados para ver; não usam m ais os sentidos para nada, e, coisa incrível! falam pouco: pensam bastante bem de si m esm as e bastante m al das outras. Há entre elas um a em ulação de virtude e de reform a que se parece bastante com o ciúm e. Não odeiam superar nesse novo gênero de vida, com o faziam no que acabam de abandonar por política ou fastio. Perdiam -se alegrem ente por galanteria, pela boa farra, e ociosidade; e se perdem tristem ente

por presunção e invej a. Se desposo, Herm as, (23), um a m ulher avara, ela não m e arruinará; se for um a j ogadora, poderá m e enriquecer; se sábia, saberá m e instruir; se dissim ulada, não será geniosa; se geniosa, exercitará m inha paciência; se faceira, há de querer m e agradar; se am orosa, sê-lo-á talvez a ponto de m e am ar; se devota, responde, Herm as, que devo esperar de quem quer enganar a Deus, e se engana a si m esm a?

Fácil é governar um a m ulher; contanto que sej a hom em quem se dê a esse trabalho. Um só hom em governa diversas; cultiva-lhes o espírito e a m em ória, fixa e determ ina a sua religião; ousa até regular-lhes o coração. Elas não aprovam nem desaprovam , não louvam nem condenam senão depois de lhe ter consultado os olhos e o rosto. Ele é depositário de suas alegrias e tristezas, desej os, ciúm es, ódios e am ores, ele as faz rom per com os am antes; fá-las brigar e as reconcilia com os m aridos; e aproveita os interregnos. Trata dos negócios delas; advoga seus processos, e se entende com seus j uizes; dá-lhes seu m édico, seu freguês, seus operários; ocupa-se de instalá-las, m obiliá-las, e dispõe sobre a equipagem . A gente o vê com elas nas carruagens, nas ruas dum a cidade e nos passeios, assim com o nos bancos de igrej a e no cam arote da com édia. Faz com elas as m esm as visitas; acom panha-as ao banho, às águas, nas viagens; tem o apartam ento m ais côm odo da casa delas no cam po; Envelhece sem decair na sua autoridade: um pouco de espírito e m uito tem po a perder bastam -lhe para conservá-la. Os filhos, os herdeiros, a nora, a sobrinha, os em pregados, todos dependem dele. Com eçou por se fazer estim ado, acabou por se tornar tem ido. Esse am igo tão antigo, tão necessário, m orre sem ser chorado; e dez m ulheres de quem era o tirano, herdam , com sua m orte, a liberdade.

Algum as m ulheres quiseram esconder sua conduta sob aparência de m odéstia; e tudo o que cada um a pode ganhar à custa de contínua afetação, nunca desm entida, foi fazer com que se dissesse dela: A gente a tom aria por um a vestal.

É, nas m ulheres, irrecusável prova de reputação firm e e irrem ovível, não ser nem sequer tocada pela fam iliaridade de algum as que não se parecem com elas; e que com toda a propensão que se tem para as explicações m alignas, se recorra a um a razão bem diferente para esse com ércio, que a da conveniência dos costum es.

Um côm ico exagera, no palco as suas personagens; um poeta carrega nas suas descrições; um pintor que tira do natural, força e exagera um a paixão, contrastes, atitudes; e o que copia, se não m ede com o com passo as grandezas e as proporções, am plia as figuras, dá a todas as peças que entram na disposição do quadro m ais volum e do que têm as do original: assim tam bém a dissim ulação de virtude é um a im itação do pudor.

Há um a falsa m odéstia que é vaidade, um a falsa glória que é leviandade; um a falsa grandeza que é m ediocridade; um a falsa virtude que é hipocrisia; um falso pudor que é afetação de virtude.

Um a m ulher que finge virtude satisfaz com atitude e palavras; um a m ulher digna satisfaz com sua conduta. Aquela segue seu hum or e sua natureza, esta segue a razão e o coração. Um a é séria e austera; outra é, em todas as situações, precisam ente o que deve ser. A prim eira esconde as fraquezas sob aparências plausíveis, a segunda m ostra sólidas virtudes com ar sim ples e natural.

A falsa virtude constrange o espírito, não esconde idade nem feiura; m uitas vezes as pressupõe. A verdadeira, ao contrário, faz em palidecer os defeitos do corpo, enobrece o espírito, só torna a j uventude m ais sedutora, e a beleza m ais perigosa.

Por que acusar os hom ens, por não serem as m ulheres instruídas? Porque leis, porque editos, porque rescritos lhes proibiram abrir os olhos e ler, assim ilar o que leram , e prestar contas do que sabem nas suas palavras, ou por suas obras? Não estabeleceram elas, ao contrário, por si m esm as, esse hábito de não saber nada, por fraqueza, ou preguiça de espírito, ou cuidados com a beleza, ou certa leviandade que lhes im pede seguir estudo, ou pelo talento e gênio que elas só têm para os trabalhos m anuais, ou pelas distrações que lhes dão as ordens aos em pregados, ou por um afastam ento natural das coisas penosas e sérias, ou por curiosidade com pletam ente diferente daquela que contenta o espírito, ou por gosto m uito diferente que o de exercitar a m em ória? Mas qualquer que sej a a causa a que os hom ens devam essa ignorância das m ulheres, eles se sentem felizes pelo fato das m ulheres, que os dom inam sob tantos aspectos, terem sobre eles essa vantagem de m enos.

Olha-se um a m ulher instruída com o se faz com um a bela arm a: artisticam ente cinzelada, adm iravelm ente polida, caprichadam ente trabalhada; peça de gabinete que se m ostra aos curiosos, que não é para uso corrente, não serve na guerra nem na caça m ais que um cavalo de picadeiro, por m ais instruída que sej a.

Se a ciência e a sabedoria aparecem aliadas na m esm a pessoa, não indago do sexo, adm iro; e se m e disserem que um a m ulher aj uizada não pensa em ser instruída, ou que um a m ulher instruída não é aj uizada, é que j á esqueceram o que acabam de ler; as m ulheres só se afastam da ciência por certas im perfeições: conclua, portanto, sozinho, que quanto m enos defeitos elas tivessem , m ais aj uizadas seriam ; e assim um a m ulher aj uizada só poderia ser m ais apta a se tornar instruída, ou um a m ulher instruída, não podendo ser instruída senão vencendo m uitas im perfeições, só pode ser m ais aj uizada.

A neutralidade entre m ulheres que são igualm ente am igas, apesar de terem rom pido por questões em que não tom am os parte, é um ponto difícil; geralm ente é preciso escolher entre elas ou perder a am bas.

Há m ulheres que gostam m ais do dinheiro que dos am igos, e dos am antes m ais que do dinheiro.

É espantoso ver no coração de certas m ulheres algo m ais vivo e m ais forte que o am or pelos hom ens, quero dizer, a am bição e o j ogo: tais m ulheres tornam os hom ens castos; só têm , do seu sexo, o vestido.

As m ulheres são extrem as: são m elhores ou piores do que os hom ens.

A m aior parte das m ulheres não têm princípios; guiam -se pelo coração, dependem , para seus costum es, daqueles a quem am am .

As m ulheres vão m ais longe, em am or, que a m aior parte dos hom ens; m as os hom ens lhes passam adiante em am izade.

Os hom ens são a causa das m ulheres não se am arem .

Há perigo em falsificar. Lise, j á velha, quer ridicularizar um a j ovem , e se torna disform e; m e faz m edo. Usa, para im itá-la, caretas e contorções: ei-la tão feia quanto é preciso para tornar bonita aquela de quem caçoa.

Quer-se, na cidade, que m uitos e m uitas idiotas tenham espírito. Na corte se quer que gente de m uito espírito não o tenha; e entre as pessoas deste últim o gênero, um a m ulher bonita m al escapa perante outras m ulheres.

Um hom em é m ais fiel ao segredo alheio que ao seu segredo; um a m ulher, ao contrário, guarda m elhor o segredo próprio que o alheio.

Não há no coração dum a j ovem am or tão violento que o interesse e a am bição não acrescentem .

Há um a época em que as m oças m ais ricas têm de tom ar partido. Elas não deixam passar as prim eiras ocasiões sem preparar um grande arrependim ento. Parece que a reputação dos bens dim inui nelas com a da beleza. Ao contrário, tudo favorece um a j ovem j unto à opinião dos hom ens, que gostam de lhe atribuir todas as vantagens que podem torná-la m ais desej ável.

Quantas m oças a quem um a grande beleza nunca serviu senão para fazê-las aguardar um a grande fortuna!

As j ovens bonitas são suj eitas a vingar os am antes que m altrataram , por feios, ou velhos, ou indignos m aridos.

A m aior parte das m ulheres j ulga o m érito e valor de um hom em pela im pressão que ele lhes causa, e não concedem nem um nem outro àqueles por quem elas nada sentem .

Um hom em que estej a em dificuldade para saber se está m udando, se com eça a envelhecer, pode consultar os olhos de um a j ovem que aborda, e o tom com que ela lhe fala: saberá o que tem e saber. Dura escola!

Um a m ulher que só tem olhos para um a única pessoa, ou que os afasta sem pre dela, faz pensar de si a m esm a coisa.

Custa pouco, às m ulheres, dizer o que não sentem ; custa m enos ainda, aos hom ens, dizer o que sentem .

Acontece às vezes um a m ulher esconder a um hom em toda a paixão que sente por ele, enquanto, por sua vez, ele sim ula por ela toda a paixão que não sente.

Suponha-se um hom em indiferente, querendo persuadir um a m ulher de um a paixão que não sente; pergunta-se se não lhe seria m ais fácil convencer aquela que o am a do que aquela que não o am a.

Um hom em pode enganar um a m ulher por um afeto sim ulado, contanto que não tenha, noutro lugar, um verdadeiro.

Um hom em se enfurece contra um a m ulher que não m ais o am a, e se consola: um a m ulher faz m enos barulho quando é abandonada, e fica m uito tem po inconsolável.

As m ulheres se curam da preguiça pela vaidade ou pelo am or.

A preguiça, ao contrário, nas m ulheres ardentes, é presságio de am or.

É certo que um a m ulher que escreve com arrebatam ento é arrebatada; m enos certo é que estej a convencida daquilo que escreve. Parece que um a paixão viva e terna é severa e silenciosa; e que o m ais urgente interesse dum a m ulher que não está m ais livre, aquele que m ais a agita, é m enos persuadir de que am a do que ter a certeza de que é am ada.

Glicéria não gosta das m ulheres; odeia o seu convívio e suas visitas, se esconde delas, e m uitas vezes de seus am igos, cuj o núm ero é reduzido, para os quais ela é severa, e faz conhecer o lugar de cada um , sem lhes perm itir nada além da am izade: m ostra-se-lhes distante, responde por m onossílabos, e parece procurar desfazer-se deles. Está solitária e intratável na sua casa; a porta está m elhor guardada e o quarto m ais inacessível que os de Monthauron e Hém ery

(24). Apenas um a, Corina, é esperada, recebida a toda hora: beij ada diversas vezes; crê gostar dela; fala-lhe j unto ao ouvido num gabinete em que estão sozinhas; tem m ais de dois ouvidos para ouvi-la; queixa-se de todo m undo, m enos dela; conta-lhe tudo e nada lhe pergunta; ela tem a sua confiança. Vê-se Glicéria em sua com panhia no baile, no teatro, nos j ardins públicos, no cam inho de Venouze, onde se com em os prim eiros frutos da estação; às vezes sozinha, em liteira, no cam inho do grande arrabalde em que tem um pom ar delicioso, ou na porta de Conídia, que sabe segredos tão deliciosos, prom ete às j ovens segundas núpcias e diz o tem po e as circunstâncias. Geralm ente aparece com um penteado chato e descuidado, em sim ples roupão, sem colete, e de chinelos: bela nessa vestim enta, só lhe falta frescura. Nota-se nela, entretanto, um rico broche, que esconde cuidadosam ente aos olhos do m arido; ela o agrada, o acaricia; inventa todo dia novos nom es para ele; não tem outro leito além do desse querido esposo, e não quer pernoitar noutro. De m anhã divide-se entre sua toalete e alguns bilhetes que tem de escrever. Um liberto vem falar-lhe em segredo; é Parm enon, favorito, que ela defende contra a antipatia do senhor e a invej a dos criados. Na verdade, quem faz conhecer m elhor sim ples intenções e traz m elhor um a resposta do que Parm enon? Quem fala m enos daquilo que se deve calar? Quem sabe abrir um a porta secreta com m enos ruído? Quem conduz com m ais perícia pela escadinha? Quem faz m elhor sair por onde se entrou?

Não com preendo com o um m arido que se entregue ao seu hum or e disposição do m om ento, não esconda nenhum dos seus defeitos, m ostre-se, ao contrário, pelo lado pior, avaro, descuidado no traj e, brusco nas respostas, incivil, frio e taciturno, possa esperar defender o coração de um a esposa j ovem contra as investidas de um adm irador que em prega o enfeite e a m agnificência, a lisonj a, os cuidados, a dedicação, os presentes, os carinhos.

Um m arido nunca tem rival que não sej a dado pela sua m ão, com o um presente outrora feito à m ulher. Louva diante dela, os belos dentes e a bonita cabeça dele; aceita suas atenções; recebe suas visitas; e depois do que lhe vem de sua fazenda, nada lhe parece m ais gostoso do que a caça e as trufas que esse am igo lhe m anda. Dá um j antar e diz aos convivas: provem isto, é de Leandro, e só m e custa um m uito obrigado.

Existirá m ulher que esm ague ou enterre o m arido a ponto de não se fazer, no m undo, nenhum a referência a ele: ainda vive? Não vive m ais? Tem -se dúvidas. Só serve na fam ília para m ostrar o exem plo de um silêncio tím ido e perfeita subm issão. Não lhe são devidos nem dotes nem convenções; m as tirando isso, e o fato dele não parir, ele é a m ulher e ela o m arido. Passam m eses inteiros num a m esm a casa sem o m enor perigo de se encontrarem : é verdade, apenas, que são vizinhos. O Senhor paga o açougueiro e o cozinheiro; e foi sem pre nos aposentos da Senhora que se ceou. Muitas vezes não têm nada de com um , nem o leito, nem a m esa, nem m esm o o nom e: vivem á rom ana ou à grega; cada um tem o seu; e só com o tem po, ou depois que se está iniciado na gíria da cidade, é que se chega a saber que o sr. B. é publicam ente, há vinte, anos, o m arido da sra. L.

Outra m ulher, a quem falta a desordem para m ortificar o m arido, consegue isso com sua nobreza e seu parentesco, com o dote rico que trouxe, e os encantos de sua beleza, e o seu m érito, é com isso que alguns cham am virtude.

Há poucas m ulheres bastante perfeitas para im pedir que o m arido se arrependa, ao m enos um a vez por dia, de ter um a esposa, ou de achar feliz quem não a tem .

As dores m udas e estúpidas estão fora de uso; chora-se, declam a-se, recita-se, fica-se tão com ovida com a m orte do m arido que não se chega a esquecer o m enor detalhe.

Não se poderia descobrir a arte de se fazer am ar por sua própria m ulher?

Havia em Sm irna um a j ovem bonita, a quem cham avam Em iria, m enos conhecida em toda a cidade por sua beleza que pela severidade de seus, costum es, e principalm ente pela indiferença que tinha pelos hom ens, os quais ela via, segundo afirm ava, sem nenhum perigo, e sem outras disposições diferentes das que tinha para com as am igas ou irm ãos. Não acreditava nem um pouco em todas essas loucuras que se dizem causadas pelo am or em todos os tem pos; e as que ela vira, não podia com preender; só conhecia a am izade. Um a criatura, j ovem e encantadora, a quem devia essa experiência, tornara-a tão doce que ela só pensava em fazê-la durar; não im aginava que outro sentim ento pudesse j am ais esfriar o da estim a e confiança, com o qual estava contente. Só falava de Eufrosina — era o nom e dessa fiel am iga. Sm irna inteira só falava dela e de Eufrosina; essa am izade era proverbial. Em íria tinha dois irm ãos que eram m oços de esplêndida beleza, e pelos quais todas as m ulheres da cidade estavam apaixonadas: e é verdade que ela sem pre os am ou com o um a irm ã am a seus irm ãos. Houve um sacerdote de Júpiter que tinha entrada na casa de seu pai, ao qual ela agradou, e que ousou declarar-se, só despertando desprezo; um velho, confiando em sua nobreza e grande fortuna, tivera a m esm a audácia e teve tam bém a m esm a desventura. Ela ia triunfando. Até então era entre seus irm ãos, um padre e um velho que ela se dizia insensível. Parecia que o céu quisesse expô-la a provas m ais fortes, que no entanto só serviram para torná-la m ais invencível, e fortalecer sua reputação de m oça que o am or não atingia. De três apaixonados que seus encantos lhe deram sucessivam ente, e cuj a paixão ela não tem eu ver até o fundo, um traspassou o peito aos seus pés; o segundo, desesperado por não ser atendido, foi se fazer m atar na guerra de Creta; e o terceiro m orreu de langor e de insônia. Aquele que devia vingá-los ainda não aparecera. O velho que fora tão infeliz nos seus am ores, curara-se refletindo em sua idade, e no caráter da pessoa a quem queria agradar: desej ou continuar a vê-la, e ela o suportou. Levou-lhe um dia o filho, que era j ovem , fisionom ia agradável, excelente estatura. Ela o viu com interesse; e com o ele guardou silêncio na presença do pai, achou que ele não tinha m uita inteligência, desej ou que tivesse m ais. Viram -se a sós, ele falou bastante, e com inteligência; m as com o a olhou pouco, e falou ainda m enos dela e de sua beleza, ficou surpreendida e com o indignada de ver um hom em tão bem feito e tão inteligente não ser galanteador.

Falou dele à sua am iga, que quis vê-lo. Ele só olhou para Eufrosina: disse-lhe que ela era linda; e Em iria, tão indiferente, foi se tornando cium enta; com preendeu que Clesifon estava convencida do que dizia e não só era galanteador, com o era m eigo. Teve então m enos liberdade com a am iga. Desej ou vê-los j untos um a segunda vez, para ficar m ais esclarecida; e um segundo encontro fé-la ver ainda m ais do que tem ia ver, m udando suas suspeitas em certeza. Afasta-se de Eufrosina, não acha m ais nela o m érito que a tinha encantado, perde o gosto de conversar com ela; não gosta m ais dela; e essa m udança faz sentir que o am or tom ou o lugar da am izade no seu coração. Clesifon e Eufrosina vêm -se todos os dias, se am am , pensam em casar-se, casam -se. A notícia se espalha pela cidade; torna-se público que essas duas criaturas afinal tiveram a alegria tão rara de se casarem porque se am avam . Em iria sabe, e desespera. Revive todo, o seu am or; procura Eufrosina só pelo prazer de rever Clesifon; m as esse m arido recente ainda am a sua m ulher e acha a am ante na j ovem esposa; só vê em Em iria a am iga de um a pessoa que am a. Essa m oça infortunada perde o sono, não quer m ais com er: enfraquece; seu espírito se perturba; tom a o irm ão por Clesifon e lhe fala com o a um am ante. Desengana-se, envergonha-se com a perturbação: recai logo em outras m aiores, e não se envergonha m ais; não as conhece m ais. Então tem e os hom ens, tarde dem ais. Sua loucura é essa. Tem intervalos em que a razão volta e ela suspira por encontrá-la. A m ocidade de Sm irna, que a viu tão orgulhosa e insensível, acha que os deuses a puniram bastante.