Caracteres
Dos Bens de Fortuna
Um hom em rico pode com er entrem ets, fazer pintar seus lam brequins e suas alcovas, gozar um palácio no cam po e outro na cidade, ter grande equipagem , pôr um duque na fam ília e fazer de seu filho grande senhor: isso é j usto e da sua alçada. Mas talvez pertença a outros o viver contentes.
Um grande nascim ento nobre ou grande fortuna anuncia o m érito e o faz notar m ais cedo.
O que j ustifica o tolo am bicioso da sua am bição é o cuidado que se tom a, se ele faz grande fortuna, de achar nele um m érito que nunca teve, e tão grande quanto ele pensa ter.
À m edida que o favor e grandes bens se retiram de um hom em , deixam ver o ridículo que cobriam e que estava ali sem que ninguém percebesse.
Se não se visse com os próprios olhos, poder-se-ia j am ais im aginar a estranha desproporção que o m ais ou o m enos m oedas faz entre os hom ens?
Esse m ais ou esse m enos determ ina à espada, à toga, ou à Igrej a: quase não existe outra vocação.
Dois negociantes que eram vizinhos, e faziam o m esm o negócio, tiveram m uito diversa fortuna. Tinham , cada um , um a filha única; am am entadas j untas viveram nessa fam iliaridade que dão a m esm a idade e m esm a condição: um a das duas, para sair da extrem a m iséria, procura se em pregar; entra a serviço de um a dam a de alta nobreza, um a das prim eiras da corte: sua com panheira.
Se o financista erra o golpe, os cortesãos dizem dele: é um burguês, um tipo insignificante, um desastrado; se. tem sucesso, pedem -lhe a filha.
Alguns aprenderam , na j uventude, um certo ofício, para exercer outro m uito diferente o resto da vida.
Um hom em é feio, baixinho, pouco inteligente. Dizem -m e em segredo: tem cinqüenta m il libras de renda; isso é com ele; ele não m e fará nem pior nem m elhor se eu com eçar a olhá-lo com outros olhos; e se eu não puder deixar de fazer de outra form a, que tolice!
Proj eto bem vão é o de querer levar para o ridículo um hom em m uito estúpido e m uito rico: os gozadores ficam do lado dele.
N., com um porteiro brusco, grosseiro, tirante a suíço, com um vestíbulo e antecâm ara, por pouco que aí faça m ofar alguém e perder tem po, e apareça enfim com rosto grave e andar m edido, ouça um pouco e não conduza até à porta, por subalterno que sej a noutro lugar, fará sentir de si algum a coisa que se aproxim a da consideração.
Vou, Clitifon, à sua porta; a necessidade que tenho de falar com você m e põe para fora da cam a e do m eu quarto; praza aos céus que eu não fosse seu cliente nem im pertinente! Seus escravos m e dizem que você é invisível e que só pode m e atender daqui a um a hora: volto antes do tem po que m e m arcaram , e eles m e dizem que você saiu.
Que é que você está fazendo, Clitifon, nesse canto escondido de seu apartam ento, tão trabalhoso que o im pede de m e ouvir? Está alinhavando m em órias, coligindo um registro, subscrevendo, abrindo parágrafos? Eu só tinha um a coisa que lhe pedir, e você um a palavra a m e responder, sim ou não. Quer ser original? Preste serviço aos que dependem de você: será ainda m ais com essa conduta do que não se deixando ver. O hom em im portante e ocupadíssim o, que por sua vez precisa de m eus ofícios, venha à solidão de m eu gabinete! O filósofo é acessível; não m andarei voltar noutro dia. Você m e encontrará sobre os livros de Platão que tratam da espiritualidade da alm a e da distinção entre ela e o corpo, ou, pena na m ão, calculando as distâncias de Saturno e de Júpiter: adm iro Deus em suas obras, e procuro, pelo conhecim ento da verdade, regular m eu espírito e m e tornar m elhor. Entre, todas as portas estão abertas para você: m inha antecâm ara não é feita para ai se cacetearem esperando por m im ; venha até onde estou sem se fazer anunciar: você m e traz algo m ais precioso que a prata e o ouro, se é um a ocasião de lhe prestar serviço: fale, que é que você quer que eu lhe faça? Devo largar m eus livros, m eus estudos, m inha obra, esta linha que está com eçada? Que interrupção feliz para m im , aquela que é útil a você! O hom em que m anej a com dinheiro, o hom em de negócios, é um urso que não se poderia dom esticar: dificilm ente podem os vê-lo na sua j aula um m om ento e logo, depois não se vê m ais. O hom em de letras, ao contrário, é trivial com o um poste na esquina das praças, todos o vêm , a toda hora, em todos os estados, na m esa, na cam a, nu, vestido, são ou enferm o; ele não pode ser im portante, nem quer sê-lo.
Não invej em os a certa espécie de gente suas grandes riquezas: eles as têm à custa de ônus que não nos, daria bom côm odo. Estragaram seu repouso, sua saúde, sua felicidade e sua consciência, para consegui-las: isso é caro dem ais, e não há nada a ganhar por esse preço.
Os P. T. S. nos fazem sentir todas as paixões, um a após outra. Com eça-se pelo desprezo, por causa da sua obscuridade. Em seguida os invej am os, odiam os, tem em os, apreciam os às vezes, e os respeitam os. Vive-se bastante para acabar, em relação a eles, pela com paixão.
Sósio passou, da libré, por um a pequena cobrança, a um a granj a; e pelas concussões, violências, abuso que fez de seus poderes, elevou-se afinal a algum a posição, sobre a ruína de diversas fam ílias: tornou-se nobre por ordenação, e só lhe faltava ser hom em de bem ; um lugar de m ordom o fez esse prodígio.
Arfura ia sozinha a pé a cam inho do grande pórtico de Santo, ouvia de longe o serm ão de um carm elita ou de um doutor que ela só via obliquam ente, e do qual perdia m uitas palavras.
Sua virtude era obscura e sua devoção conhecida com o sua pessoa. O m arido entrou na oitava contribuição: que fortuna m onstruosa em m enos de seis anos! Ela só chega à igrej a de carro; levam -lhe enorm e cauda; o orador se interrom pe enquanto ela escolhe lugar; ela o vê de frente e não perde nem um a palavra: há briga entre os padres para confessá-la; todos querem absolvê-la: o vigário a conquista.
Levam Creso ao cem itério: de todas as suas im ensas riquezas, que o roubo e a concussão lhe tinham dado, e que ele esgotou com luxo e vida larga, não lhe sobrou o necessário para se fazer enterrar; m orreu insolvável, sem bens, e assim privado de todos os socorros: não se viu em sua casa nem j ulepo, nem cordiais,
nem m édicos, nem o m enor doutor (32) que lhe tivesse assegurado a salvação.
Cham pagne, saindo dum grande j antar que lhe dilatou o estôm ago, e nos doces vapores de um vinho de Avenay ou de Sillery, assina um a ordem que lhe apresentam , que priva de pão toda um a província e não lhe derem rem édio: é desculpável: com o é que se pode com preender, na prim eira hora da digestão, que se possa em algum lugar m orrer de fom e?
Silvino, com seus dízim os, adquiriu nascim ento nobre e outro nom e. É senhor da paróquia em que seus avós pagavam tributo.
Antigam ente não teria podido ser pagem de Cleóbulo: é seu genro.
Doro passa de liteira na via Apia, precedido por seus libertos e escravos, que afastam o povo para lhe dar passagem : só lhe faltam litores. Entra em Rom a com esse cortej o, em que parece triunfar da hum ildade e pobreza de seu pai Sanga.
Não se pode utilizar a fortuna m elhor do que faz Periandro ela lhe dá posição, crédito, autoridade; j á não lhe pedem m ais que conceda sua am izade: im plora-se sua proteção. Com eçou por dizer de si m esm o, um hom em da m inha espécie; passou a dizer: um hom em da m inha qualidade; ele se apresenta com o tal; e não há ninguém , entre aqueles a quem em presta dinheiro ou recebe à m esa, que,. sendo delicado, que irá contradizê-lo. Sua casa é soberba, o estilo dórico reina em todo o exterior; não é um a porta, um pórtico: será um a casa particular? Um tem plo? O povo chega a se enganar. Doro é o senhor que dom ina todo o quarteirão; é dele que se tem invej a e se queria ver a queda; é ele cuj a m ulher, pelo seu colar de pérolas, ganhou inim igas em todas as senhoras da vizinhança. Tudo se sustenta nesse hom em ; ainda nada se desm ente dessa grandeza que ele adquiriu, da qual nada deve, porque j á pagou. Por que seu pai, tão velho e tão caduco, não m orreu vinte anos m ais cedo, antes que se fizesse na sociedade
m enção de Periandro! Com o poderá ele suportar esses odiosos editais (33) que revelam as condições e freqüentem ente fazem vergonha à viúva e aos herdeiros? Conseguirá suprim i-los aos olhos de toda um a cidade invej osa, m aligna, clarividente, e às escondidas de m il pessoas que desej am absolutam ente tom ar parte nas exéquias? Com o se pode querer que faça de seu pai um hom em nobre e talvez um hom em honorável, ele que é m essire?
Quantos hom ens parecem com essas árvores j á fortes e idosas que se transplantam nos j ardins, onde surpreendem os olhos de quem as vê postas em sítios bonitos nos quais não as viram crescer, não conhecem nem o seu com eço nem os. seus progressos!
Se certos m ortos voltassem ao m undo e vissem seus grandes nom es e as m ais tituladas de suas terras, com seus castelos e casas antigas, possuídos por pessoas cuj os pais foram talvez seus m eeiros, que opinião poderiam ter do nosso século?
Nada faz m elhor com preender o pouco que Deus pensa dar ao hom em , abandonando-lhe as riquezas, o dinheiro, os grandes estabelecim entos e os outros bens, do que a distribuição que faz e o gênero de hom ens que são os m ais providos dessas coisas.
Se você entrar nas cozinhas, onde se vê reduzido em arte e m étodo o segredo de agradar seu paladar, e fazer com que você com a além do necessário; se você exam inar detalhadam ente todo o preparo das iguarias que devem com por o festim que lhe preparam ; se olhar por que m ãos passam , e todas as diferentes form as que tom am antes de se tornar um a iguaria deliciosa, e chegar a esse asseio e elegância que encantam seus olhos, e fazem -no hesitar na escolha e resolver provar de tudo; se você visse a refeição em outro lugar que não um a m esa bem servida, que porcaria! Que noj o! Se você for nos fundos de um teatro, e olhar os pesos, rodas, cordam es que fazem os vôos e truques; se im aginar quantas pessoas entram na execução desses m ovim entos, que força de braços, que extensão de nervos eles em pregam aí, dirá: São esses os princípios e elem entos desse espetáculo tão bonito, tão natural, que parece anim ado e agindo sozinho? Exclam ará: Quanto esforço! Quanta violência! Da m esm a form a não procure aprofundar m uito sobre a fortuna dos arrecadadores de im postos.
Esse rapaz tão robusto, tão florido, de tão boa saúde, é senhor de um a abadia e de outros benefícios: todos j untos lhe dão vinte m il libras de renda, que lhe é paga só em m oedas de ouro. Há por aí cento e vinte fam ílias indigentes que não se esquentam durante o inverno, que não têm roupas para se cobrir, e m uitas vezes não têm pão; sua pobreza é extrem a e vergonhosa: que divisão! E isso não prova claram ente um futuro?
Crisipo, hom em j ovem , e o prim eiro nobre de sua raça, aspirava, há trinta anos, ver-se um dia com duas m il libras de renda por toda fortuna: isso era o cúm ulo de seus desej os e sua alta am bição; assim disse ele, e todos se lem bram disso. Chega, não sei por que cam inhos, até dar de renda a um a de suas filhas, para dote, o que desej ava ter com o toda fortuna durante a vida: um a som a igual está contada nos seus cofres para cada um dos filhos que tem de prover; e tem um a porção de filhos: e isso apenas com o adiantam ento de herança; há outros bens a receber depois de sua m orte: ele ainda vive, se bem que j á m uito velho, e passa o resto de seus dias trabalhando para enriquecer.
Deixe Ergasto agir, e ele exigirá um tributo de todos os que bebem água no rio, ou andam na terra firm e. Sabe converter em ouro até os caniços, os j uncos e as urtigas; ouve todas as propostas e propõe tudo o que ouviu. O que o príncipe dá aos outros; é à custa de Ergasto, e só lhes concede as graças que eram devidas a ele: é um a fom e insaciável de ter e de possuir; traficaria com as artes e as ciências e m eteria nisso até a harm onia. Seria necessário, se lhe dessem ouvidos, que o povo, para ter o prazer de vê-lo rico, com m atilha e cavalariça, perdesse a lem brança da m úsica de Orfeu e se contentasse com a sua.
Não discuta com Criton, ele só se convence dos próprios argum entos.
A arm adilha está feita para aqueles a quem seu cargo e sua terra, ou o que possui, fizer invej a: ele im porá condições extravagantes. Não há nenhum a consideração e nenhum a com postura a esperar de um hom em tão cheio de seus interesses e tão inim igo dos interesses dos outros: ele precisa de um a vitim a.
Bontino, diz o povo, faz retiros e se fecha durante oito dias com seus santos:, eles têm suas m editações e ele tem as dele.
Muitas vezes o povo tem prazer com a tragédia; vê m orrerem no teatro do m undo as personagens m ais odiosas, que m ais fizeram m al, em diversas cenas, e que ele m ais odiou.
Se se repartir a vida dos P. T. S. (arrecadadores de im postos) em duas porções iguais, a prim eira, viva e ativa, está toda ocupada em afligir o povo; a segunda, vizinha da m orte, em se denunciarem e arruinarem uns aos outros.
Esse hom em que fez a fortuna de diversos, que fez a sua, não pode sustentar a dele, nem garantir, antes da m orte, a m ulher e os filhos; vivem escondidos e infelizes: ainda que você estej a a par da m iséria em que se acham , não poderá pensar em abrandá-la; na verdade você não pode, porque sustenta m esa, e constrói; m as conserva, por gratidão, um retrato do seu benfeitor, que passou, — diga-se de passagem —, do gabinete para a antecâm ara: quantos cuidados! Ele bem podia ir parar no guarda-m óveis.
Há um a dureza natural; há outra de condição, de estado. Tira-se desta, com o da prim eira, .o bastante para não se com over com a m iséria dos outros, diria m esm o, o bastante para não lam entar as desgraças da sua fam ília! Um . bom financista não chora os am igos, nem a m ulher nem os filhos.
Fuj a, retire-se; você não está bastante longe. Estou, diz você, no, outro trópico. Passe para o pólo, e no outro hem isfério; suba às estrelas, se puder. Eis-m e. Muito bem : agora está em segurança. Descubro na terra um hom em ávido; insaciável, que quer, à custa de tudo o que encontrar no seu cam inho e ao seu alcance, e por m ais que isso possa custar aos outros, prover apenas a si, aum entar sua fortuna, e se abarrotar de bens.
Fazer fortuna é um a frase tão bela, e que diz tão boa coisa, que é de uso universal. Reconhecem o-la em todas as línguas; ela agrada aos estrangeiros e aos bárbaros, reina na corte e na cidade; furou os claustros e pulou o m uro das abadias de um e de outro sexo: não há lugares sagrados em que não tenha penetrado, deserto ou solidão em que sej a desconhecida.
À força de fazer novos contratos, ou sentir o dinheiro aum entando nos cofres, acaba-se por se pensar ter cabeça, e quase a se j ulgar capaz de governar.
É preciso um a espécie de inteligência, nem a grande, nem a sublim e, nem a forte, nem a delicada; eu não sei precisam ente qual é, e espero que alguém queira m e indicar qual sej a.
É preciso m enos inteligência que hábito ou experiência para fazer fortuna: só se pensa nisso tarde dem ais; e quando afinal se percebe, com eça-se por erros que nem sem pre se tem tem po de reparar: daí vem , talvez, o fato das fortunas serem tão raras.
Um hom em de pouco gênio pode querer sobressair: descuida tudo; só pensa, da m anhã à noite num a coisa: sobressair. Com eçou cedo, e desde sua adolescência, a se m eter nos bons cam inhos da fortuna: se encontra um a barreira que lhe fecha a passagem , desvia-se naturalm ente, e vai à direita ou à esquerda, segundo vê num ou noutro lugar um a aparência; e se novos obstáculos o trapalham , volta ao atalho que deixara. É governado pela natureza das dificuldades, às vezes a vencê-las, às vezes a evitá-las ou a tom ar outras m edidas, seus interesses, usos, conj unturas, dirigem -no. Será preciso tão grandes talentos e tão boa cabeça a um viaj ante para seguir prim eiro a cam inho largo, e se o cam inho está cheio e acidentado, tom ar a terra, e ir através dos cam pos, depois voltar à prim eira estrada, continuar nela, chegar ao term o? Será preciso tanta inteligência para ir aos seus fins? Será então um prodígio ver um tolo rico e conceituado?
Há até estúpidos, e ouso dizer: im becis, que se colocam em belos lugares e sabem m orrer na opulência sem que se deva suspeitar de terem contribuído, de nenhum a form a, com seu trabalho ou com o m enor esforço, para isso; alguém os conduziu às nascentes de um rio, ou talvez só o acaso os fez encontrá-las; disseram -lhe: Quer água? apanhe. E ele apanhou a água.
Quando se é m oço, m uitas vezes se é pobre: ou ainda não se fez aquisições, ou as heranças ainda não vieram . A gente se torna rico e velho ao m esm o tem po; tão raro é poderem os hom ens reunir todas as vantagens! E se isso acontece a alguns, não há de que invej á-los: eles têm a perder com a m orte o bastante para serem lam entados.
É preciso trinta anos para pensar na fortuna; aos cinqüenta está feita; constroi-se na velhice e se m orre quando ainda se está às voltas com pintores e vidraceiros.
Qual o fruto de um a grande fortuna, se não gozar a vaidade, indústria, trabalho e esforço dos que vieram antes de nós, e trabalhar nós m esm os, plantando, construindo, adquirindo, para a posteridade?
Abrem -se as portas e se ostenta todas, as m anhãs para enganar o m undo: fecham -se, à noite, depois de ter enganado o dia inteiro.
O negociante faz relógios para dar de sua m ercadoria o que há de pior ele tem o lustro e as luzes indiretas para esconder os seus defeitos, e fazer com que pareça boa; tem a alta dos preços para vendê-la m ais caro do que ela vale; as m arcas falsas e m isteriosas para que se pense dar o j usto valor; um m au m edidor para dar o m enos possível; um a balança viciada a fim de que aquele que com prou pague o seu peso em ouro.
Em todas as condições, o pobre está bem próxim o do hom em de bem , e o opulento não está longe da ladroeira. A capacidade e a habilidade não levam a grandes riquezas.
Pode-se enriquecer em qualquer arte ou com ércio pela ostentação de um a certa probidade.
De todos os m eios. de receber benefícios, o m ais curto e m elhor é fazer as pessoas verem claram ente o interesse que têm em fazer bem a você.
Os hom ens obrigados pelas necessidades da vida, e às vezes pelo desej o de lucro, ou de glória, cultivam talentos profanos, ou se dedicam a profissões equívocas, das quais escondem a si m esm os, por m uito tem po, o perigo e as conseqüências. Deixam -nas depois por um a devoção discreta que nunca lhes vem senão depois que fizeram sua colheita, e j á gozam fortuna bem estabelecida.
Há m isérias sobre a terra que cortam o coração: falta a m uitos até o alim ento; tem em o inverno; têm m edo de viver. Em outros lugares com em -se frutos precoces, forçam -se a terra e as estações para satisfazer a gula; sim ples burgueses, só porque eram ricos, tiveram a audácia de engolir num só bocado a com ida de cem fam ílias. Agüente-se quem puder contra tão grandes excessos; eu não quero ser, se puder, nem infeliz nem feliz: m e abandono e m e refugio na m ediocridade.
Sabe-se que os pobres sofrem com tudo o que lhes falta, e que ninguém os alivia; m as se é verdade que os ricos se tornam coléricos, é pela m enor coisa que lhes possa faltar, ou quando alguém quer resistir-lhes.
É rico aquele que recebe m ais do que consom e; é pobre aquele cuj a despesa excede a receita.
Fulano, com dois m ilhões de renda, pode ter um déficit, no fim de cada ano, de quinhentas m il libras.
Não há nada que sustente m ais tem po do que um a fortuna m edíocre: não há nada, cuj o fim se vej a m elhor do que um a grande fortuna.
A ocasião próxim a da pobreza é a das grandes riquezas.
Se é verdade que se sej a rico de tudo aquilo de que não se precisa, um hom em m uito rico é um hom em m uito atilado.
Se é verdade que se sej a pobre de todas as coisas que se desej am , o am bicioso e o avaro vegetam em extrem a pobreza.
As paixões tiranizam o hom em ; e a am bição suspende nele as outras paixões e lhe dá por algum tem po as aparências de todas as virtudes. Esse Trifão que tem todos os vícios, pensei fosse sóbrio, casto liberal, hum ilde e até devoto: e ainda o pensaria, se não tivesse, afinal, feito fortuna.
Ninguém desiste do desej o de possuir e se engrandecer: a bilis avança e a m orte se aproxim a; com o rosto m urcho e as pernas j á fracas, ainda se diz: Minha fortuna, m eu estabelecim ento.
Só há no m undo duas m aneiras de se elevar: por seu próprio esforço ou pela im becilidade dos outros.
Os traços descobrem a com pleição e os costum es; m as a fisionom ia designa os bens de fortuna: o m ais ou o m enos de m il libras de renda se acha escrito no rosto.
Crisanto, hom em opulento e im pertinente, não quer ser visto com Eugênio, que é hom em de m érito, m as pobre: pensa ele que ficaria desonrado. Eugênio tem para com Crisanto as m esm as disposições: não correm risco de se abalroarem .
Quando vej o certas pessoas que m e agradavam antigam ente pela sua civilidade, esperar, agora, que eu as saúde, e estar de pé atrás com igo digo de m im para m im : Muito bem , encantado; m elhor: para eles: você verá que esse hom em está m elhor instalado, m elhor m obiliado e m elhor alim entado que de costum e; entrou há m eses em algum negócio no qual j á teve lucro razoável.
Deus queira que não chegue, em pouco tem po, a m e desprezar!
Se os pensam entos, os livros e os autores dependessem dos ricos e daqueles que fizeram grande fortuna, que proscrição! Não haveria m ais apelação: que tom , que ascendente tom ariam sobre os sábios! Que m aj estade não observam eles em relação a esses hom ens desprezíveis cuj o m érito não os colocou nem enriqueceu, e que ainda estão pensando em escrever j udiciosam ente!
É preciso confessar, o presente é dos ricos, e o futuro é dos virtuosos e dos capazes. HOMERO ainda vive, e viverá sem pre; os recebedores de direitos, os publicanos, não existem m ais: existiram algum dia? Sua pátria, seus nom es são conhecidos?. Houve arrecadadores de im postos na Grécia? Que fim levaram essas personagens que desprezavam Hom ero, que só pensavam , na rua, em evitá-lo, não correspondiam à sua saudação, ou o saudavam pelo nom e, não desdenhavam associá-lo à sua m esa, olhavam -no com o um hom em que não era rico e fazia um livro?
Que fim terão os Fauconnets? (34). Irão tão longe na posteridade quanto
DESCARTES, que nasceu na França e m orreu na Suécia? (35).
O m esm o orgulho que faz elevar-se altivam ente acim a dos seus inferiores, faz rastej ar vilm ente diante dos que estão acim a de si. É próprio desse vício, que não se funda sobre o m érito pessoal nem sobre a virtude, e sim sobre as riquezas, cargos, crédito, e sobre ciências vãs, levar-nos igualm ente a desprezar os que têm m enos essa espécie de bens do que nós e a apreciar dem ais aqueles que têm um a m edida que excede à nossa.
Há alm as suj as, am assadas com lam a e suj eira, tom adas pelo desej o de ganho e interesse, com o as belas alm as o são pelo da glória e da virtude: capazes de um a única volúpia, que é a de adquirir ou de não perder; ansiosas e ávidas pela décim a prestação, a baixa dos preços, a queda do curso das m oedas, m ergulhadas e com o que subm ersas nos contratos, títulos, pergam inhos. Gente dessa m arca não é parente, nem am igo, nem concidadão, nem cristão, nem pode ser hom em : é feita de dinheiro.
Com ecem os por excetuar essas alm as nobres e coraj osas, se ainda as existem sobre a terra, caridosas, esm eradas em fazer o bem , que nenhum a necessidade, nenhum a desproporção, nenhum artifício pode separar daqueles que um a vez escolheram para am igos; e depois dessa precaução, digam os audaciosam ente um a coisa triste e dolorosa de se im aginar: não há ninguém no m undo bastante ligado a nós por conveniência e benevolência, que nos am e, nos aprecie, nos faça m il ofertas de serviço, e às vezes nos preste favores, que não tenha em si, por apego ao seu interesse, disposições m uito próxim as a rom per conosco e se tornar nosso inim igo.
Enquanto Oronte avança em anos, fortuna e renda, um a m enina nasce num a fam ília qualquer, se educa, cresce, torna-se bela, entra no décim o sexto ano; aos cinqüenta anos ele se apresenta para casar-se com ela, j ovem , bela inteligente: esse hom em , sem nascim ento, sem inteligência e sem o m enor m érito, é preferido a todos os rivais.
O casam ento, que deveria ser, para um hom em , fonte de todos os bens, é para ele, m uitas vezes, pela disposição de fortuna, um fardo pesado sob o qual sucum be: é aí que um a m ulher e filhos são a violenta tentação à fraude, à m entira, e aos ganhos ilícitos. Ele se acha entre o roubo e a indigência: estranha situação!
Casar com um a viúva, em bom francês, significa fazer fortuna: m as nem sem pre faz aquilo que significa.
Aquele que da divisão entre irm ãos ficou com o bastante para viver folgadam ente com o bom prático, quer ser oficial; o sim ples oficial se faz m agistrado e o m agistrado quer presidir; e assim acontece em todas as condições em que os hom ens vegetam , apertados e indigentes, depois de ter tentado acim a de sua fortuna e, por assim dizer, forçado seu destino, ao m esm o tem po incapazes de não querer ser ricos e de enriquecerem .
Jante bem , Clearco, ceie, ponha lenha no fogo, com pre um capote, m ande forrar o quarto de tapetes: você não gosta do seu herdeiro, não o conhece, não o tem .
Jovem , a gente se conserva para a velhice: velho, a gente se poupa para a m orte; o herdeiro pródigo paga funerais soberbos e devora o resto.
O avaro despende m ais, m orto, num só dia, do que fazia, vivo, em dez anos; e seu herdeiro m ais em dez m eses do que soube fazer ele próprio em toda a vida.
O que se prodigaliza, tira-se do herdeiro: o que se poupa sordidam ente, tira-se de si m esm o. O m eio term o é j ustiça para si e para os outros.
Triste condição do hom em , e que faz aborrecer a vida! É preciso suar, velar, curvar-se, depender, para ter algum a fortuna, ou devê-la à agonia de nosso próxim o: aquele que se im pede de desej ar que seu pai se vá depressa, é um hom em de bem .
O caráter de quem herda de alguém incide com o do adulador: nós não som os m ais adulados, m elhor obedecidos, m ais seguidos, m ais cercados, m ais cultivados, m ais acariciados por ninguém em nossa vida do que por aquele que pensa ganhar com nossa m orte e desej a que ela chegue.
Todos os hom ens, pelos cargos diferentes, pelos títulos e heranças se consideram herdeiros uns dos outros, e cultivam , por esse interesse, durante todo o curso da vida, um desej o secreto e disfarçado da m orte de outrem : o m ais feliz, em cada condição, é aquele que m ais fará perder com , sua m orte, e deixará o que perde ao seu sucessor.
Diz-se do j ogo que ele iguala as condições; m as às vezes elas se acham tão estranham ente desproporcionadas e há entre tal e tal condição um abism o. de perm eio, tão im enso e profundo, que os olhos sofrem de ver tais extrem idades se aproxim arem : é com o um a m úsica que desafina, cores que não com binam , palavrões que ofendem o ouvido, com o esses ruídos ou sons que fazem frem ir; é, num a palavra, um a transm utação de todas as conveniências. Se m e afirm am que isso é uso em todo o Ocidente, respondo que talvez sej a essa um a das coisas que nos tornam bárbaros diante da outra parte do m undo, e que os orientais que vêm até nós registram nos seus cadernos de viagem : não duvido até que esse excesso
de fam iliaridade lhes desagrade m ais do que a nós suas zum baias (36) e outras prosternações.
Um a assem bléia de estados, ou as câm aras reunidas para um assunto de sum a im portância, não oferece aos olhos nada de tão grave e sério com o um a m esa de pessoas que j ogam j ogo forte: triste severidade reina no seu rosto; im placáveis uns para com os outros, e irreconciliáveis inim igos enquanto dura a sessão, não reconhecem m ais ligações, nem parentesco, nem nascim ento, nem distinções. Só a sorte, cega e feroz divindade, preside o círculo e aí decide soberanam ente: honram -na todos por um silêncio profundo, e por um a atenção da qual em qualquer outro lugar são incapazes; todas as paixões, com o que suspensas, cedem a um a só: o cortesão então não é am ável nem lisonj eiro, nem condescendente, nem m esm o devoto.
Não se reconhece m ais, naqueles que o j ogo e o lucro tornaram ilustres, o m enor vestígio de sua prim eira condição. Perdem de vista seus sem elhantes, alcançam os m ais ilustres senhores! É verdade que a sorte dos dados ou do lansquenete os devolve m uitas vezes ao lugar em que foi buscá-los.
Não m e adm iro que haj a casas de j ogo públicas com o outras tantas arm adilhas à avareza dos hom ens, com o abism os em que o dinheiro dos particulares vem se despedaçar e se perder; que partam desses lugares em issários para saber, à hora m arcada, quem desceu a terra com dinheiro fresco de nova em issão, quem ganhou um processo que lhe rendeu grande som a, quem recebeu um presente, quem ganhou conderavelm ente no j ogo, que filho-fam ílias acaba de receber herança rica, ou que caixeiro im prudente quer arriscar num a cartada os depósitos de sua caixa.
É m ister suj o e indigno, é verdade, o de enganar; m as antigo, conhecido, praticado em todos os tem pos por esse gênero de hom ens que eu cham o j ogadores profissionais. A tabuleta está na porta; quase se lê ali: Aqui se engana de boa fé; por que quereriam eles dar-se por irreprocháveis? Quem não sabe que entrar e perder nessas casas é a m esm a coisa? Que encontrem , no entanto, as vítim as necessárias à sua subsistência, eis o que m e surpreende.
Mil pessoas se arruinam no j ogo, e dizem friam ente que não poderiam passar sem j ogar: que desculpa! Haverá paixão, por m ais violenta ou vergonhosa que sej a, que não possa usar essa m esm a linguagem ? Seria adm irável que se dissesse não ser possível passar sem roubar, assassinar, suicidar-se? Um j ogo pavoroso, continuado, sem m edida, sem lim ites, no qual só se tem em vista a ruína total do adversário, no qual se é transportado pelo desej o do ganho, desesperado quando se perde, consum ido pela avareza, no qual se expõe sobre um a carta, ou na sorte do dado, a sua própria fortuna, a de sua m ulher e de seus filhos, será coisa perm itida, ou tolerável? Não será preciso, às vezes, fazer a si m esm o um a violência m aior, quando, levado pelo j ogo até a ruína total, será preciso até que se passe sem roupas e alim entação e sem poder fornecê-las à fam ília?
Não perm ito a ninguém ser velhaco; m as perm ito a um velhaco j ogar no j ogo forte: proíbo isso a um hom em honesto. É um a puerilidade grande dem ais expor-se a tão grande perda.
Só há um a aflição durável: é a que vem da perda de, bens; o tem po, que adoça todos as outras, azeda esta. Sentim os a todo m om ento, no curso da nossa vida, quanto o que perdem os nos faz falta.
É agradável conviver com aquele que não se serve de seus bens para casar as filhas, pagar as dívidas ou fazer contratos, contanto que não se sej a seu filho, nem sua m ulher.
Nem as perturbações, Zenóbia, que agitam seu im pério, nem a guerra que você sustenta virilm ente contra um a nação poderosa desde a m orte do rei seu esposo, nada dim inuem da sua m agnificência: você teria preferido, a qualquer outro lugar, as m argens do Eufrates para aí levantar um soberbo edifício; o clim a ali é são e tem perado, a natureza é risonha; um bosque sagrado som breia do lado do poente; os deuses da Síria, que às vezes habitam na terra, não poderiam escolher m orada m ais linda do que ali; o cam po em torno é coberto de hom ens que talham e cortam , vão e vêm , rodam ou carreiam a m adeira do Líbano, o bronze, o pórfiro; as polés e as m áquinas gem em no ar e fazem esperar, àqueles que viaj am para a Arábia, rever, ao voltar para seus lares, esse palácio term inado, nesse esplendor de que você quer dotá-lo antes de o habitar, você e os príncipes seus filhos. Não poupe nada, grande rainha; em pregue o ouro e toda a arte dos m elhores operários; que os Fidias e os Teuxis do seu século desenvolvam toda a ciência deles nos tetos e retábulos; trace vastos e deliciosos j ardins, cuj o encanto sej a tal que não pareçam feitos pela m ão dos hom ens; esgote seus tesouros e sua indústria nessa obra incom parável; e depois que você tiver dado, Zenóbia, a últim a dem ão, algum desses pastores que habitam as areias vizinhas de Palm ira, tornado rico pelas peagens de seus rios, com prará um dia, em dinheiro de contado, essa casa real, para em belezá-la e torná-la m ais digna dele e de sua fortuna.
Esse palácio, esses m óveis, esses j ardins, essas belas águas, o encantam e fazem você exclam ar à prim eira vista diante de casa tão deliciosa, sobre a extrem a felicidade do senhor que a possui. Ele não existe m ais: não gozou dela tão agradavelm ente nem tão tranqüilam ente quanto você; nunca teve um dia sereno, nem um a noite tranqüila; afogou-se em dívidas para dar-lhe essa extraordinária beleza que agora m aravilha você: os credores o expulsaram dali; ele voltou a cabeça, olhou-a um a últim a vez; e m orreu de sentim ento.
Não se poderia deixar de ver em certas fam ílias o que se cham am capricho do acaso ou os golpes da sorte: há cem anos atrás não se falava dessas fam ílias: elas não existiam . O céu, de repente, abriu-se em favores para elas: bens, honras, dignidades, choveram sobre elas em diversas prestações; nadam na prosperidade. Eum oltpe, um desses hom ens que não têm avós, teve ao m enos um pai que se elevara tão alto, que tudo o que o filho pode desej ar de m elhor no decurso de um a longa vida foi chegar até ele; e chegou. Seria, nessas duas personagens, culm inância de inteligência capacidade profunda? Seriam as circunstâncias? A fortuna, afinal, não lhes sorri m ais: diverte-se em outros lugares, e trata a sua posteridade com o tratou os seus antepassados.
A causa im ediata da ruína e do desvio das pessoas das duas condições, a toga e a espada, é que só o passadio e não a fortuna, regula a despesa.
Se você nada esqueceu para sua fortuna, que trabalho! Se desprezou a m enor coisa, que arrependim ento!
Giton tem a tez fresca, o rosto cheio e as bochechas flácidas, olhar fixo e obstinado, om bros largos, cheios de chum aço, passo firm e e decidido: fala com confiança; faz quem lhe fala repetir e só aprecia m ediocrem ente o que lhe dizem ; desdobra um enorm e lenço e se assoa com estrépito; cospe m uito longe e espirra m uito alto; dorm e de noite, e profundam ente; ronca quando dorm e com outros. Ocupa, na m esa e nos passeios, m ais lugar que outro qualquer; fica no m eio, passeando com os da sua igualha; para, todos param ; continua a andar, todos andam ; todos se regulam por ele: ele interrom pe, em enda os que estão com a palavra; não o interrom pem ouvem -no todo tem po que queira falar; têm a sua opinião, acreditam nas notícias que ele transm ite. Se se senta, vej a com o afunda na poltrona, cruzando as pernas, fecha o sobrolho, abaixa o chapéu sobre os olhos para não ver ninguém , ou levanta-o depois e descobre a fronte por orgulho e audácia. É j ovial, caçoista, im paciente, presunçoso, colérico, libertino, político, m isterioso sobre os casos do tem po; presum e ter talentos e inteligência. É rico.
Fédon tem os olhos fundos, pele afogueada, corpo seco, rosto m agro: dorm e pouco e sono leve; abstrato, sonhador, tem , com inteligência, o ar de um estúpido; esquece de dizer o que sabe, ou de falar em fatos que são do seu conhecim ento: e se às vezes fala, sai-se m al; pensa im portunar àqueles a quem fala; conta laconicam ente, m as sem relevo; não se faz ouvir e não faz rir: aplaude, sorri ao que os outros lhe dizem , com parte da opinião dos outros; corre, voa para fazer-lhes pequenos favores; é condescendente, lisonj eiro, solícito; m isterioso acerca de seus negócios, às vezes m entiroso; supersticioso, escrupuloso e tím ido; anda de leve e tim idam ente; parece ter m edo de esm agar a terra; anda com os olhos no chão; não ousa levantá-los para fixar os que passam : nunca faz parte do núm ero daqueles que form am círculo para discutir; põe-se atrás de quem fala, recolhe furtivam ente o que se diz, se retira se olham para ele. Não tom a espaço e não ocupa lugar: vai de om bros fechados, chapéu baixado sobre os olhos para não ser visto; se com prim e, e se encerra no seu capote: não há ruas nem galerias, por m ais cheias de gente, em que ele não encontre um m eio de passar sem esforço, e deslizar sem que o percebam ; se o convidam a sentar-se, m al o ousa na beira de um a cadeira; fala baixo, livre, entretanto, sobre os negócios públicos, desgostoso com o século, m ediocrem ente inform ado sobre os m inistros e o m inistério, só abre a boca para responder: tosse e se assoa sob o chapéu; cospe quase em cim a de si m esm o, e espera que estej a sozinho para espirrar, ou, se isso lhe acontece, é sem que os circunstantes percebam ; não regateia a ninguém saudação nem cum prim ento. É pobre.