Caracteres
Do Soberano ou da República
Quando se passam em vista, sem quaisquer prej uízos sobre o próprio país, todas as form as de governo, não se sabe qual a preferível; há em todas o m enos bom e o m enos m au.
O m ais razoável e certo é j ulgar aquela em que se nasceu a m elhor de todas e se subm eter a ela.
Não é preciso arte nem ciência para exercer a tirania; e a política que só consiste em fazer derram ar sangue é m uito restrita e não requer nenhum a sutileza; ela inspira a m atar aqueles cuj a vida é obstáculo à nossa am bição: um hom em nascido cruel pratica crueldades sem esforço; é a m aneira m ais horrível e m ais grosseira de se sustentar no poder ou aum entá-lo.
É um a política segura e antiga nas repúblicas, em briagar o povo com festas, espetáculos, luxo, fausto, prazeres, vaidade e m oleza; deixá-lo encher-se de vazio .e ocupar-se com frivolidades: que grandes concessões não se fazem ao déspota por essa indulgência!
Não há pátria para o despotism o; outras coisas suprem sua falta: a cobiça, a glória, o serviço do príncipe.
Quando se quer m udar e inovar num a república, consideram -se m enos as coisas do que o tem po. Há conj unturas em que se sente m uito bem que nunca seria dem ais atentar contra o povo; há outras em que é claro que nunca é dem ais respeitá-lo. Você hoj e pode tirar a um a cidade suas franquias, direitos, privilégios, m as am anhã não pense nem m esm o em reform ar suas insígnias.
Quando o povo está agitado não se com preende por onde a calm a pode entrar; e quando está calm o, não se percebe por onde a calm a pode sair.
Há certos m ales na república que são suportados, porque prevêem ou im pedem m ales m aiores; há outros que o são apenas em seus fundam entos e que, sendo na origem um abuso ou uso nocivo, são m enos perniciosos em suas conseqüências, na prática, do que um a lei m ais j usta ou um costum e m ais razoável.
Vê-se um a espécie de m ales corrigíveis pela m udança ou novidade, que é um m al; e m al m uito perigoso; há em outros escondidos e enterrados com o im undícies num a cloaca, quero dizer, sepultados sob a vergonha, sob o segredo e na obscuridade: não se pode escavá-los, e rem exê-los sem que exalem veneno e infâm ia; os m ais prudentes às vezes duvidam se é m elhor conhecer esses m ales ou ignorá-los. Às vezes se tolera num Estado um , grande m al que evita um m ilhão de pequenos m ales ou inconvenientes, os quais seriam todos inevitáveis e irrem ediáveis.
Há m ales que fazem sofrer a cada cidadão, e se tornam , entretanto, num bem público, m uito em bora o público não sej a outra coisa que a reunião de todos os cidadãos.
Há m ales pessoais que concorrem para o bem e proveito de cada fam ília.
Há m ales que afligem , arruinam ou desonram as fam ílias, m as que tendem para o bem e conservação da m áquina do Estado e do governo. Outros m ales derrubam Estados, e sobre as ruínas elevam novos. Viram -se enfim outros que destruíram os fundam entos de grandes im périos e os fizeram desaparecer da face da terra, para variar e renovar a face do universo.
Que im porta ao Estado que Ergasto sej a rico, tenha cachorros que saibam acuar bem , sej a criador de m odas nas carruagens e nas roupas, tenha o supérfluo em abundância?
Onde se trata do interesse e das com odidades de todo o público, leva-se em conta o particular?
O consolo dos povos nas coisas que lhes pesam um pouco é saber que aliviam o príncipe ou só enriquecem a ele: não se j ulgam devedores de Ergasto pelos requintes de sua fortuna.
A guerra tem por si a antigüidade; existiu em todos os séculos: sem pre foi vista enchendo o m undo de viúvas e órfãos, privando as fam ílias de herdeiros, e fazendo perecerem irm ãos na m esm a batalha.
Jovem SOYECOUR (57), lam ento tua virtude, teu valor, teu espirito m aduro, penetrante, educado, sociável; lam ento essa m orte prem atura, que te une ao teu intrépido irm ão e te arrebata a um a corte onde m al te m ostraras: desgraça deplorável m as ordinária.
Em todos os tem pos os hom ens, por algum pedaço de terra de m ais ou de m enos, com binaram entre si despoj arem -se, queim arem -se, trucidarem -se, esganarem -se uns aos outros; e para fazê-lo m ais engenhosam ente e com m aior segurança, inventaram belas regras às quais se deu o nom e de arte m ilitar; ligaram à prática dessas regras a glória, ou a m ais sólida reputação; e depois ultrapassaram uns aos outros na m aneira de se destruírem m utuam ente.
Da inj ustiça dos prim eiros hom ens, com o da sua origem com um , veio a guerra, assim com o a necessidade em que se acharam de adotar senhores que fixassem seus direitos e pretensões. Se, contente com o que se tinha, se tivesse podido abster-se dos bens dos vizinhos, ter-se-ia para sem pre paz e liberdade.
O povo tranqüilo nos lares, nas fam ílias e no seio de um a grande cidade onde nada tem a tem er para seus bens nem para a vida, anseia por fogo e sangue, ocupa-se de guerras, ruínas, braseiros e m atanças, suporta im pacientem ente que os exércitos que m antêm a cam panha não tenham recontros, ou se j á se encontraram , não sustentem com bate, ou se se enfrentam , não sej a sangrento o com bate, e haj a m enos de dez m il hom ens no local. Muitas vezes chega a esquecer seus m ais caros interesses, o repouso e a segurança, pelo am or que tem à m udança e pela m ania da novidade ou das coisas extraordinárias. Alguns consentiriam em ver outra vez os inim igos às portas de Dij on ou de Corbie, ver estender correntes e fazer barricadas, só pelo prazer de saber ou de com unicar a notícia. Dem ófilo, à m inha direita, se lam enta e exclam a: tudo está perdido, era um a vez o Estado; pelo m enos está próxim o da ruína. Com o resistir a um a conj uração tão forte e generalizada? Que m eio haverá, j á não digo de ser superior, m as de agüentar sozinho contra inim igos tão poderosos? Isso é sem exem plo na m onarquia. Um herói, um AQUILES, ai sucum biria. Praticaram -se, diz ele, erros im ensos: sei bem o que digo, conheço o ofício, vi a guerra e a história m uito m e ensinou. Nesse m om ento, fala com adm iração em Oliver Le
Daim e Jaques Coeur (58): esses eram hom ens, diz ele, esses é que eram m inistros.
Espalha, as notícias m ais tristes e desvantaj osas que se poderiam forj ar: um a hora o partido dos nossos foi atraído num a em boscada e esfacelado; outra hora algum as tropas sitiadas num castelo se entregaram aos inim igos à discrição, e foram passadas na espada. E se você diz que esse boato é falso, e não teve confirm ação, ele não ouve: logo acrescenta que o general tal foi m orto; e apesar da verdade ser que ele só recebeu ferim ento ligeiro, e assim você garanta, ele deplora a m orte do general, lam enta a viúva, os filhos, o Estado; lam enta-se a si m esm o; perdeu um grande am igo e um a grande proteção. Diz que a cavalaria alem ã é invencível: em palidece só de ouvir o nom e dos couraceiros do im perador. Se atacarem esta praça, continua ele, levantar-se-á o sítio ou se ficará na defensiva sem dar com bate; ou se o com bate se efetuar, vai-se perdê-lo; e se o perdem os, eis o inim igo na fronteira. E com o Dem ófilo dá asas aos inim igos, ei-los no coração, do reino: j á vai tocar o sino de rebate das cidades e gritar alarm e; pensa em seus bens e suas terras: para onde conduzirá sua fam ília? Onde se refugiará? Na Suíça ou em . Veneza?
Mas à m inha esquerda, Basilídio levanta de repente um exército de trezentos m il hom ens; não abateria nesse núm ero nem um a brigada: tem a lista dos esquadrões e dos batalhões, dos generais e dos oficiais; não esquece nem a artilharia, nem a bagagem . Dispõe absolutam ente de todas essas tropas: envia tantas para a Alem anha e tantas para Flandres; reserva certo núm ero para os Alpes, um pouco m enos para os Pireneus, e faz o restante atravessar o m ar. Conhece as m archas desses exércitos, sabe o que farão e o que não farão; dir-se-ia que é o dono do ouvido do príncipe ou dos segredos do m inistro. Se os inim igos acabam de perder um a batalha na qual tenham ficado em cam po uns nove ou dez m il hom ens dos seus, ele conta trinta m il, nem m ais nem m enos; porque esses núm eros são sem pre fixos e certos, com o os de alguém bem inform ado. Se de m anhã sabe que os nossos perderam um arraial, não só m anda desavisar os am igos que na véspera convidara para j antar, com o chega ele próprio a não j antar, e se com e, é sem apetite. Se os nossos sitiam um a praça m uito forte, m uito regular, provida de víveres e m unições, com boa guarnição, com andada por hom em de grande coragem , diz ele que a cidade tem pontos fracos e m al fortificados, que lhe falta pólvora, que seu governador é inexperiente e capitulará depois de oito dias de trincheira aberta. Outra vez acorre esbaforido, e depois de respirar um pouco exclam a: eis um a grande notícia: foram desbaratados de form a esm agadora; o general, os chefes, pelo m enos boa parte deles, tudo foi m orto, tudo pereceu. Eis, continua, um grande m assacre, é preciso concordar que estam os com m uita felicidade. Senta-se, respira depois de ter dado essa notícia à qual só falta um a circunstância: é que é certo não ter havido batalha. Além do m ais, garante que o príncipe fulano renuncia à liga e abandona seus confederados; que um outro se dispõe a tom ar o m esm o partido; acredita firm em ente, com o populacho, que m orreu um terceiro, aponta o lugar em que está enterrado; e quando no m ercado e nos subúrbios todos j á estão desenganados, ele ainda aposta a favor da afirm ativa. Sabe, por via insuspeita,
que T. K. L (59) faz grandes progressos contra o im perador; que o grão-senhor se arm a poderosam ente e não quer saber de paz e seu vizir vai se m ostrar de novo diante das portas de Viena: bate com as m ãos, estrem ece só de falar nesse acontecim ento, sobre o qual j á não tem dúvida. A tríplice aliança para ele é um Cérbero e os inim igos outros tantos m onstros a esm agar. Só pensa e fala em louros, palm as, triunfos, troféus. Diz, nas conversas dom ésticas: Nosso augusto herói, nosso grande potentado, nosso invencível m onarca. Reduza-o, se puder, a dizer sim plesm ente: O rei tem m uitos inim igos; são poderosos, se uniram , se exasperaram : ele os venceu; espero que sem pre há de poder vencê-los. Esse estilo, por dem ais firm e e decisivo para Dem ófilo, não é bastante pom poso nem bastante exagerado para Basilídio: tem expressões m uito diferentes na cabeça; trabalha para as inscrições nos arcos e pirâm ides que devem ornam entar a cidade principal num dia de com em oração guerreira; e desde que ouve dizer que os exércitos se enfrentam , ou que se investe contra um a praça, m anda desdobrar a roupa de gala e pô-la ao sol a fim de aprontá-la para a cerim ônia da catedral.
É preciso que o essencial de um caso que reúne num a cidade plenipotenciários ou agentes das coroas e repúblicas sej a de longa e extraordinária discussão, para lhes custar m ais tem po, j á não digo que os sim ples prelim inares, m as que o sim ples regulam ento do protocolo, discrim inação dos lugares segundo os postos, e outras cerim ônias.
O m inistro ou plenipotenciário é um cam aleão, um proteu: parecido às vezes com um j ogador hábil, não m ostra sua disposição de espírito, nem seu tem peram ento, sej a para não dar lugar a conj ecturas ou se deixar penetrar, sej a para não deixar escapar nada do seu segredo por paixão ou fraqueza. Às vezes tam bém sabe dissim ular o caráter de acordo com seus obj etivos e as necessidades em que se encontra, parecendo ser aquilo que desej a que os outros pensem que de fato é. Assim num grande poderio, ou num grande desprestígio que queria dissim ular, m ostra-se firm e e inflexível, para aniquilar os desej os de obter m uito de sua parte; ou então se m ostra condescendente para dar aos outros ocasião de lhe pedir, e então se atribuir o m esm o direito.
Outras vezes é profundo e dissim ulado para esconder um a verdade ao anunciá-la, porque lhe interessa que ela sej a dita e não sej a acreditada; ou se m ostra franco e expansivo a fim de que, quando dissim ula o que não deve ser conhecido, todos j ulguem não ignorar nada do que querem saber, e se convençam de que ele disse tudo
Da m esm a form a, ou é vivo e palrador, para fazer os outros falarem , im pedir que lhe falem daquilo que não quer que se fale ou daquilo que ele não deve saber, para dizer diversas coisas indiferentes que se m odificam ou se destroem um as às outras, confundem os espíritos no tem or e na confiança, para se defender de um desabafo que lhe escapou por outro que sim ulou. Ou então é frio e taciturno, para forçar os outros a falarem , ouvir m uito tem po, ser ouvido quando fala, falar com ascendência e peso, fazer prom essas ou am eaças que ferem certo no alvo e produzem abalo. Manifesta-se e fala em prim eiro lugar, descobrindo as oposições, contradições, tram as e cabalas dos m inistros estrangeiros, sobre as proposições que ele avançou, tom ar m edidas e dar-lhes a réplica: e noutra ocasião fala por últim o, para não falar em vão, para ser conciso, conhecer exatam ente as realidades com as quais é perm itido contar para si e seus aliados, saber o que deve pedir e o que pode obter. Sabe falar em term os claros e form ais; sabe ainda m elhor falar am biguam ente, de m odo obscuro, usar circunlóquios e palavras equívocas cuj o valor pode fazer valer ou dim inuir segundo as ocasiões e interesses. Pede pouco quando não quer dar m uito. Pede m uito para ter pouco, e obter com certeza. Exige a princípio pequenas coisas, que em seguida pretende lhe sej am contadas com o nada, e não im pedem de pedir outra m aior; evita com eçar por obter um ponto im portante, se isso lhe im pede de ganhar diversos outros de m enor conseqüência, m as que em conj unto são m elhores que o prim eiro. Pede dem ais para ser recusado, m as com o obj etivo de se arrogar o direito ou conveniência de recusar aquilo que sabe perfeitam ente lhe será pedido, e que não quer conceder: tão cuidadoso então em exagerar a enorm idade da pretensão e fazer convir, se possível, suas razões para não atender, quanto em enfraquecer aquelas que se pretende ter de não lhe conceder o que ele solicita insistentem ente; igualm ente aplicado a fazer soar e aum entar na idéia dos outros o pouco que oferece, e a desprezar abertam ente o pouco que consente em lhes dar.
Faz falsas ofertas, m as extraordinárias, que obrigam a recusar o que se aceitaria inutilm ente; e no entanto constituem um a ocasião para ele fazer pedidos exorbitantes e tornar odiosos os que recusam satisfazê-lo. Concede m ais do que lhe pedem , para ter ainda m ais do que deve dar.
Faz-se de rogado m uito tem po, espera que insistam e o im portunem por um a coisa m edíocre, para atalhar a intenção de exigir dele algum a coisa m aior; ou, se se deixa convencer até conceder o que lhe pedem , é sem pre com condições que lhe perm item dividir o lucro e as vantagens com os que recebem . Torna direta ou indiretam ente o interesse de um aliado, se nisso acha utilidade e adiantam ento para suas pretensões.
Vive falando em paz, alianças, tranqüilidade pública,, interesse público; e na verdade só pensa nos seus, quer dizer, no de seu senhor ou de sua república. Às vezes reúne os que eram contrários uns aos outros, outras vezes divide os que estavam unidos; intim ida os fortes e poderosos, encoraj a os fracos; a princípio une pelo interesse diversos fracos contra um m ais poderoso para equilibrar a balança; em seguida j unta-se aos prim eiros para fazê-la oscilar e lhes vende caro sua proteção e aliança.
Sabe interessar aqueles com quem negocia; e por um hábil m anej o, por finas e sutis m anobras, faz com que eles sintam suas vantagens particulares, os bens e honrarias que podem esperar por determ inada facilidade que não vai de encontro às suas funções nem às intenções de seus senhores: tam bém não quer que o j ulguem inexpugnável por esse lado; denota algum a sensibilidade pela fortuna: atrai assim propostas que lhe descobrem os m ais secretos obj etivos, os intuitos m ais rem otos e o suprem o recurso dos outros; e se aproveita disso.
Se às vezes é lesado em alguns pontos que afinal tenham sido regulados, grita; se é o contrário, grita ainda m ais alto, e obriga os que perdem à j ustificação e à defensiva.
Sua tarefa foi dirigida pela corte, todos os seus passos lhe são prescritos; no entanto ele age nos m om entos difíceis e nos tópicos contestados com o se desabafasse no m om ento, com o se se tratasse de um espírito de conciliação: ousa até prom eter à assem bléia que irá transm itir a proposta e não será desautorado. Faz correr boato falso a respeito das coisas de que só ele é encarregado, e só as desvenda no últim o instante e nos m om entos em que seria pernicioso para ele deixar de utilizá-las. Visa principalm ente, com suas intrigas, o sólido e o essencial, sem pre pronto a sacrificar, por eles, as m inúcias e pontos de honra im aginários. Possui fleum a, arm a-se de coragem e paciência, m ão se cansa, fatiga os outros e os leva até o desânim o: tom a precauções e se previne contra as dem oras e adiam entos, contra censuras suspeitas, desconfianças, contra dificuldades e obstáculos, persuadido de que só o tem po e as circunstâncias dirigem as coisas e conduzem os espíritos ao ponto que ele desej a. Chega a sim ular secreto interesse pela ruptura da negociação, quando m ais ardentem ente desej a que ela prossiga; quando, ao contrário, tem ordens term inantes para em pregar todos os esforços em rom pê-la, j ulga dever, para conseguir esse obj etivo, m ostrar-se interessado na sua continuação e fim .
Se sobrevém um grande acontecim ento, m ostra-se obstinado ou condescendente conform e um a dessas atitudes lhe sej a útil ou prej udicial, e se por grande prudência sabe prevê-lo, apressa ou contem poriza segundo o Estado para o qual trabalha deva tem er ou confiar; regula, por suas necessidades, suas condições. Pede conselhos ao tem po, ao local, às ocasiões, à sua força ou à fraqueza, ao gênio das nações com que trata, ao tem peram ento e caráter das pessoas com quem negocia; toda a sua atenção, todas as suas m áxim as, todas as sutilezas de sua política tendem para um único fim , que é: não ser enganado e enganar os outros.
O caráter dos franceses exige seriedade no soberano.
Um a das infelicidades do príncipe é ficar m uitas vezes repleto de segredo pelo perigo que há em divulgá-lo: sua felicidade é encontrar um a pessoa de confiança que o alivie.
Só faltam a um rei as doçuras da vida privada: ele só pode ser consolado de tão grande falta pelo encanto da am izade e pela fidelidade dos am igos.
O prazer de um rei que m erece ser rei é ser às vezes m enos rei, sair do teatro,
abandonar os toneletes (60) e os coturnos e representar com pessoa de confiança um papel m ais natural.
O favorito não tem séquito; não tem com prom issos nem ligações. Pode estar cercado de parentes e de criaturas, m as não se prende a eles; está desligado de tudo, com o que isolado.
Não, duvido que um favorito, quando tenha algum a força e algum a dignidade, se sinta às vezes confundido e desconcertado com as baixezas e m esquinharias da adulação, cuidados supérfluos e atenções frívolas dos que o perseguem , o acom panham e se agarram a ele com suas vis criaturas; e que na intim idade ele com pense tam anha servidão pelo riso e zom baria.
Hom ens altam ente colocados, m inistros, favoritos, m e perm itireis falar? Não confieis aos vossos descendentes o cuidado de vossa m em ória e a duração de vossa nom eada: os títulos passam , a proteção se extingue, as honrarias se perdem , as riquezas se dissipam e o m érito degenera. Na verdade vós tendes filhos dignos de vós; acrescento que são até capazes de m anter toda a vossa fortuna: m as quem pode prom eter-vos outro tanto de vossos netos? Duvidai do que eu digo: olhai, um a única vez, certos hom ens que nunca vistes, que desdenhais; eles têm antepassados aos quais, por grandes que sej ais, não fazeis m ais que suceder. Tende virtude e hum anidade; e se m e disserdes: que terem os além disso? eu vos responderei: hum anidade e virtude; senhores, então, do futuro, e independentes da posteridade, podeis estar certos de durar tanto quanto a m onarquia; e no tem po em que se m ostrarem as ruínas de vossos castelos, e talvez apenas o lugar em que eles existiram , a lem brança de vossas ações louváveis ainda estará viva no espírito dos povos; eles hão de olhar avidam ente vossos retratos e m edalhas; dirão: este hom em , cuj o retrato estão vendo, falou ao seu superior com energia e liberdade, e teve m ais m edo de prej udicá-lo que de o desagradar; ele tornou possível ao seu senhor o ser bom e benfazej o, e dizer de suas cidades: Minha leal cidade, e de seu povo: Meu bom povo. Esse outro suj o retrato vêm , no qual se nota fisionom ia forte e aspecto grave, austero e m aj estoso, aum enta de ano para ano sua reputação; os m aiores políticos saem perdendo quando lhe são com parados. Seu grande obj etivo foi fortalecer a autoridade do príncipe e a segurança dos povos pela dim inuição do poder dos nobres: nem partidos, nem conj urações, nem traições, nem o perigo da m orte, nem seus achaques puderam desviá-lo do seu cam inho; teve tem po de sobra para encetar um a obra, continuada depois e term inada por um dos nossos m ais nobres e m elhores príncipes: a extinção da heresia.
A rede m ais sutil e m ais enganadora que em todos os tem pos foi estendida aos nobres pelos seus hom ens de negócios, e aos reis pelos m inistros, é o conselho que lhes dão de se desonerarem e enriquecerem : excelente conselho, m áxim a útil frutuosa, m ina de ouro, Peru, pelo m enos para aqueles que têm sabido até agora inspirá-lo a seus am os!
É um a grande felicidade para os povos quando o príncipe adm ite na sua confiança e escolhe para o m inistério aqueles m esm os que eles quereriam escolher se fossem o soberano.
A ciência das m inúcias, ou um a diligente atenção pelas m enores necessidades da república, é parte essencial ao bom governo, na verdade excessivam ente desprezada nos últim os tem pos pelos reis ou pelos m inistros, m as que nunca é dem ais desej ar ao soberano que a ignora, nem se pode considerar excessiva naquele que a possui.
No fim de contas, de que serve para o bem do povo e felicidade de seus dias o príncipe levar os lim ites de seu im pério além das terras dos inim igos, fazer de suas soberanias províncias do reino, e igualm ente ser superior a eles em sítios e batalhas a ponto de não se sentirem em segurança diante dele, nem nas planícies nem nos m ais fortes bastiões, e as nações se unirem um as às outras, aliando-se em conj unto para se defenderem e enfrentá-lo, e se unam em vão, e ele continuar m archando, sem pre triunfante, e as últim as esperanças dos inim igos desabarem pelo enrij am ento de um a saúde que dará ao m onarca o prazer de ver os príncipes seus netos sustentarem ou acrescentarem seus destinos, desfecharem cam panhas, apossarem -se de tem íveis fortalezas e conquistarem novos Estados, com andarem velhos e experientes capitães, m enos pela sua posição e nascim ento que pelo seu gênio e sabedoria, seguir as pegadas, augustas de seu vitorioso pai, im itar sua bondade, docilidade, eqüidade, vigilância, intrepidez?
Num a palavra: de que m e serviria, com o a todo o povo, o príncipe ser feliz e cum ulado de glórias devidas a si m esm o e aos seus, e m inha pátria ser poderosa e form idável, se, triste e inquieto, eu vivesse dentro dela na opressão e na indigência; se, a coberto das incursões do inim igo, m e achasse exposto, nas praças e ruas da cidade, ao punhal de um assassino, e tem esse m enos nas trevas da noite ser pilhado ou m assacrado em florestas espessas do que nas suas avenidas; se a segurança, a ordem , e o asseio não tornassem a estada nas cidades tão deliciosa e não tivessem introduzido, com a abundância, a paz na sociedade; se, fraco e sozinho, sem proteção, tivesse de sofrer na m inha granj a, com a vizinhança de um nobre, e se tivesse m enos garantia de ter, por m im a j ustiça contra a sua usurpação; se não tivesse ao m eu alcance bastantes professores, e professores excelentes, para educar m eus filhos nas ciências e artes que hão de ser um dia o seu ganha-pão; se, pelas concessões feitas ao com ércio, m e fosse m enos fácil vestir-m e com bons tecidos, alim entar-m e de carne sã e com prar por, pouco dinheiro; se, enfim , pelos cuidados do príncipe, eu não estivesse tão contente com m inha sorte quanto ele por suas virtudes deve estar com a sua?
Oito ou dez m il hom ens são para o soberano com o um a m oeda com a qual ele com pra um a praça ou um a vitória: se faz com que lhe custe m enos, se poupa os hom ens, parece com os que regateiam por conhecerem , m elhor do que qualquer outro, o preço do dinheiro.
Tudo prospera num reino em que se confundem os interesses do Estado com os do príncipe.
Cham ar um rei de PAI DO POVO é m enos fazer-lhe um elogio que cham á-lo pelo nom e ou defini-lo.
Há um intercâm bio ou troca de deveres, do soberano para seus vassalos e destes para o soberano: quais os m ais pesados e penosos? Não decidirei: trata-se de j ulgar, de um lado, entre as rigorosas prom essas de respeito, socorro, serviço, obediência, dependência; e de outro as obrigações indispensáveis de bondade, j ustiça, cuidados, defesa, proteção. Dizer que um príncipe é árbitro da vida dos hom ens é apenas dizer que os hom ens, por seus crim es, se tornam naturalm ente suj eitos às leis e à j ustiça, das quais o príncipe é depositário; acrescentar que ele é senhor absoluto de todos os bens de seus vassalos, sem consideração, sem contas nem discussão, é a linguagem da adulação, é a opinião de um favorito que se desdirá na hora da agonia.
Quando às vezes você vê um rebanho num eroso, espalhado num a colina à hora em que declina um lindo dia, pastando tranqüilam ente o tom ilho e o serpão, ou roendo num prado a herva m iúda e tenra que escapou à foice do segador, o pastor cuidadoso e atento está em pé j unto das ovelhas; não as perde de vista, segue-as, dirige-as, faz com que elas m udem de pastagem : se se dispersam , ele as reúne; se um lobo fam into aparece, solta o cachorro que o põe em fuga; alim enta-as, defende-as; a aurora j á o encontra em pleno cam po, de onde só sai com o sol: quantos cuidados! quanta vigilância! quanta suj eição! Que condição parece m ais deliciosa e m ais livre: a do pastor ou a das ovelhas? O rebanho é feito para o pastor ou o pastor para o rebanho? Im agem ingênua dos povos e do príncipe que os governa, quando se trata de bom príncipe.
O fausto e o luxo num soberano, é o pastor vestido de ouro e pedrarias, caj ado de ouro nas m ãos; coleira de ouro no cachorro, que está seguro por um a corda de ouro e seda: de que serve tanto ouro para o rebanho ou contra os lobos?
Com o é boa a posição que dá, a todo instante, ocasiões a um hom em para fazer o bem a tantos m ilhares de hom ens! Com o é perigoso o posto que expõe a todo m om ento um hom em a fazer m al a um m ilhão de hom ens!
Se os hom ens não são capazes sobre a terra de alegria m ais natural, lisonj eira e sensível do, que a de saber que são am ados; e se os reis são hom ens, poderá haver preço para com prar o coração de seus súditos?
Há poucas regras gerais e m edidas certas para bem governar: segue-se o tem po e as circunstâncias, e isso gira em torno da prudência e visão dos que governam : por isso m esm o a obra prim a do espírito é o governo perfeito; e talvez isso não fosse possível se os povos, pelo hábito que têm de dependência e subm issão, não fizessem m etade da tarefa.
Sob um grande rei aqueles que ocupam os lugares de m aior responsabilidade só. têm deveres fáceis que se executam sem nenhum esforço: tudo corre com o um curso d’água; a autoridade e gênio do príncipe desem baraça os cam inhos, poupa-lhes dificuldades, e tudo faz prosperar além de suas expectativas. Eles têm m érito de subalternos.
Se é dem ais estar encarregado de um a única fam ília, se j á é bastante ter de responder por si, que peso, que responsabilidade responder por todo um reino! Um soberano é pago de seus trabalhos pelo prazer que parece dar um poder absoluto, por todas as prosternações dos cortesãos? Penso nos penosos, duvidosos e perigosos cam inhos que às vezes tem de seguir para conseguir a tranqüilidade pública; recordo os m eios extrem os, m as necessários, aos quais freqüentem ente recorre para um fim benévolo: sei que tem de responder perante o próprio Deus pela felicidade de seus povos, que o bem e o m al está nas suas m ãos, e que nenhum a ignorância lhe serve de desculpa; e pergunto a m im m esm o: quereria eu reinar? Um hom em um tanto ou quanto feliz na sua vida privada deveria renunciar a ela pela m onarquia? Não será m uito, para aquele que é levado a isso por direito hereditário, suportar ter nascido rei?
Que dons do céu se precisa para reinar! Nascim ento augusto (61), ar de im pério e autoridade, rosto que satisfaça a curiosidade dos povos ansiosos por ver o príncipe e conserve o respeito dos cortesãos; perfeita igualdade de gênio, grande distância da zom baria picante, ou bastante j uízo para não a perm itir: nunca fazer am eaças nem censuras, não ceder à cólera, e ser sem pre obedecido; inteligência fácil, insinuante; coração aberto, sincero, do qual se j ulgue ver o fundo, e assim conquista am igos, criaturas e aliados: ser, entretanto, discretos profundo e im penetrável em seus intuitos e proj etos: seriedade e circunspecção em público; concisão, j unto a m uita firm eza e dignidade, sej a nas respostas aos em baixadores dos príncipes, sej a nos conselhos; um a m aneira de conceder graças que é com o um segundo benefício. Senso na escolha das pessoas agraciadas; discernim ento dos espíritos talentos e m oderação na distribuição dos cargos e em pregos, escolha dos generais e dos m inistros, j uízo firm e, sólido, decisivo nos negócios fazendo perceber o m elhor e m ais j usto partido a tom ar; espírito de retidão e eqüidade que faz chegar ao ponto de se pronunciar às vezes contra si m esm o e a favor do povo, dos aliados, dos inim igos; m em ória feliz e sem pre presente para recordar as necessidades dos súditos, suas fisionom ias, seus nom es, seus requerim entos: um a vasta capacidade que se estende não só aos negócios externos, com ércio, sentenças de Estado, obj etivos da política, expansão das fronteiras pela conquista de novas províncias, e sua segurança por um . núm ero de fortalezas inexpugnáveis; m as que tam bém sabe concentrar-se, no interior, nas m inúcias do reino inteiro; banindo dai um culto falso, suspeito e inim igo da m onarquia, se ele ai se encontra, abolindo os usos cruéis e ím pios, se aí reinam ; reform ando leis e costum es se constituem abusos; dando às cidades m ais segurança e com odidade pela renovação de um a policia exata, m ais brilho e m aj estade por m eio de edifícios suntuosos: punindo severam ente os vícios escandalosos; dando, pela sua autoridade e exem plo, crédito à devoção e virtude; protegendo a Igrej a, seus m inistros, seus direitos, suas liberdades; poupando os povos com o seus filhos; preocupando-se sem pre com a idéia de poupá-los, tornando os im postos reduzidos, e tais que pesem sobre as províncias sem em pobrecê-las; grandes talentos para a guerra; ser vigilante, aplicado, laborioso; tendo exércitos num erosos, com andá-los em pessoa; frio no perigo, só poupando a vida pelo bem do Estado, am ando o bem de seu Estado e sua glória m ais do que a própria vida: potência absoluta que não deixa m argem a brigas, intrigas e cabalas, suprim indo nessa distância infinita que às vezes separa os nobres do povo, aproxim ando-os, e sob a qual todos se subm etem igualm ente possuindo um a extensão de conhecim entos que faz o príncipe ver tudo por seus próprios olhos, agindo im ediatam ente e por si m esm o; seus generais não sej am , por m ais distantes que estej am , m ais do que seus tenentes, e os m inistros não sej am m ais do que m inistros; um a profunda sabedoria que sabendo declarar a guerra, sabe vencer e usar a vitória, sabe fazer a paz, sabe rom pê-la, e sabe às vezes, segundo os diversos interesses, constranger os inim igos a aceitá-la; dando regras a um a vasta am bição e sabendo até onde se deve conquistar; no m eio de inim igos encobertos ou declarados conseguir tem po livre para freqüentar diversões, festas, espetáculos; cultivando as artes e ciências, form ar e executar proj etos de edifícios surpreendentes; um gênio, em sum a, superior e poderoso que se faz am ar e reverenciar pelos seus, e tem er pelos estrangeiros; faz de um a corte, e m esm o de todo um reino, com o um a só fam ília perfeitam ente unida sob um m esm o chefe, cuj a união e boa inteligência é tem ível para o resto do m undo. Essas adm iráveis virtudes m e parecem concentradas na idéia do soberano.
E verdade ser raro vê-las reunidas num m esm o indivíduo; é preciso que concorra ao m esm o tem po um excesso de circunstâncias, inteligência, coração, aparência, tem peram ento; parece-m e que um m onarca que as reunisse todas seria digno de ser cham ado o Grande.
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Jean de La Bruyère
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