Catarina de Bragança
D. João, provocara a euforia da família,…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
- Por isso, se morrer, vou ter com Ele, porque é assim que Ele o deseja -murmurou Teodósio, deixando-se escorregar pelas almofadas lentamente.
Catarina preparava-se para protestar, mas frei Pedro abraçou-a com força contra si e, virando-a de frente para o irmão, disse - por ela:
- Se essa for a Sua vontade, assim será, e ica a certeza de que Deus nos quer pôr à prova, obrigando-nos a aprender a viver sem o nosso querido príncipe. Não temos medo, pois não, Catarina? Não temos medo e não abandonamos quem sofre, muito menos nos momentos mais di íceis, por isso quem morre não morre nem sozinho, nem assustado. Sabe que Deus o espera do outro lado, com os braços abertos como os de um pai, e que acolhe os justos em glória.
Catarina mordeu o lábio. Frei Pedro dirigia-se a ela. Era também ela que tinha de colaborar na vontade de Deus, era ela a quem o Altíssimo pedia que reunisse todas as suas forças para impedir que Teodósio, o seu querido irmão, se sentisse abandonado, assustado ou sozinho. Buscando coragem aos braços que a seguravam com carinho e determinação, conseguiu esboçar qualquer coisa como um sorriso:
- Vou pedir à Maria do Rosário que te traga um chá, um chá preto, forte.- E virando-se para frei Pedro, num momento de quase desafio, perguntou:
- Deus não se oporá a um chá preto, pois não?
Frei Pedro sorriu e, sentando-se de novo para aplicar pachos no seu menino, respondeu:
- Nem à Maria do Rosário, nem ao chá. Venham ambos.
Teodósio trocou com ele um sorriso de gratidão. Era duro fazer sofrer os outros e aceitar o seu amor sem o poder retribuir, sem ter forças para desembainhar a espada e lutar por eles. Nesse dia bebeu o melhor chá da sua vida, e as mãos de Rosarinho tocaram as suas uma e outra vez, e Catarina icou convencida de que a inal o amor era mesmo tal qual como vinha nos livros.
Os sinos tocaram, sinistros e tristes, naquela manhã de dia 15 de Maio, quando a Primavera despontava em todas as árvores do jardim, o cheiro das frésias e dos cachos de glicínias entrava pelas janelas e o céu era de um azul como só o céu português consegue ser.
Catarina sentiu a porta do quarto abrir-se, e sem pensar puxou os cobertores para trás: sabia que era Joana. Abraçaram-se e misturaram as suas lágrimas salgadas, sem trocar uma palavra. Catarina tapou a cabeça com a almofada de penas e soluçou. Joana encostou-se muito perto, o braço em redor dos ombros da sua irmã mais pequenina, e ficou em silêncio.
Nenhuma delas quis ir a correr saber como tudo acabara. Nenhuma delas queria olhar o corpo morto de Teodósio, do duque, do príncipe, do herdeiro, mas sim do Teodósio que apanhava peixes nos tanques, lhes deixava cair cevada para dentro dos vestidos, que corria atrás delas, com os olhos tapados mas sempre guiado por um instinto tão forte que as descobria sempre; Teodósio de armadura vestida, direito e bonito, os caracóis ao vento, a espada na ilharga, os olhos cheios de esperança, seguro de si, como só pode ser um filho muito amado.
Nenhuma delas se sentia capaz de enfrentar a dor de Luísa. Sabiam bem que o amor da mãe pelo seu primogénito não era deste mundo. Nenhuma delas o podia substituir, nem sequer Afonso ou Pedro teriam alguma vez essa possibilidade. Como se consola alguém que perdeu tudo? Os soluços de Catarina voltaram a baloiçar-lhe o peito, as lágrimas silenciosas de Joana caíam.
Teriam ficado assim para sempre, se não fossem infantas, se o protocolo de uma casa real não triturasse os seus membros, não os vergasse e obrigasse a regerem-se sempre por um bem maior, que não tinha espaço, nem complacência para com sentimentos individuais. À morte seguia-se sempre a vida...
Catarina podia dizer quantos botões tinha o seu vestido preto de veludo, porque a cada um que a criada apertava sentia que o coração ia rebentar. De resto não se lembrava de mais nada. Mas sabia, podia jurá-lo, que Filomena abotoara 77 botões forrados.
Na primeira ila da Sé de Lisboa, as raparigas ladeavam o pai. Afonso, já com 10 anos e vestido pela primeira vez com a armadura de um príncipe herdeiro, estava à direita da mãe, com Pedro no último lugar, perto da ala principal, a capa longa e preta, a sua gola de mil folhos que mal o deixava respirar, mas marcava o dia e a hora em que deixara, de vez, os aposentos das crianças, o quarto dos brinquedos. No altar, bispos, cónegos e padres, num mar de paramentos coloridos, faziam o seu papel. Frei Pedro, discreto a um canto, a ouvir outros a falar e elogiar um Teodósio que desconheciam.
A catedral estava cheia e o povo apinhava-se no adro, nas escadas e pelas ruas abaixo e acima, nas varandas e nas portas, capas pretas nas janelas, flores para uma última homenagem.
Mas os olhos de todos estavam postos apenas numa pessoa: na rainha, na mulher que todas as mães sabiam sofrer a maior das dores possíveis. D. Luísa de Gusmão, magní ica num vestido de seda negro, a cara tapada por um véu, era uma igura tão digna e hirta como sempre. Ninguém seria capaz de penetrar naquela máscara, nem sequer de o tentar. Catarina e Joana olhavam-na com espanto e admiração. Como era possível esconder tudo, guardar tudo cá dentro, sem dar o direito a ninguém, nem aos ilhos, de esboçar um consolo que mais nada seria do que um atentado a uma dor que era um insulto insinuar ser capaz sequer de imaginar.
Catarina queria aprender, queria ser assim. Os seus olhos enormes, encarnados de chorar, iam da mãe, tão forte, para o pai, que não escondia nada, os ombros dobrados, os soluços silenciosos que lhe faziam subir e descer o peito frágil, que nem fardas nem galões conseguiam mascarar. Catarina encostou-se ao pai, que lhe passou um braço pelos ombros, absolutamente indiferente a se um rei deve permanecer intocado, para que o inimigo acredite não ter maneira nenhuma de o atingir. Qualquer pessoa, por mais comum e simples que fosse, sabia como destruir o rei, o duque, o homem que dedilhava nas teclas do cravo toda a sua dor.
As crianças não seguiram o enterro até ao Mosteiro dos Jerónimos. As aias receberam ordens de as levar de volta para o paço. Catarina recordava, com uma ternura imensa, a cara enrugada das mulheres dos pescadores e o seu sorriso solidário e triste. Eram tantas como os botões do seu vestido, mas muito menos do que todas aquelas pessoas que nos dias seguintes se debruçaram sobre a mão de D. Luísa, sua mãe, e lhe disseram palavras que não passavam de sons articulados mas sem sentido. Não a tocavam, nem de raspão, incapazes de quebrar o gelo que sentia por dentro, a armadura que vestira por fora. Não enchiam nem um bocadinho do imenso vazio que preenchera todos os espaços e espacinhos dentro de si. Não perdera um ilho, mas o ilho dos ilhos, que até era pecado dizê-lo. Simplesmente, não podia escondê-lo: sem Teodósio a vida não parecia fazer qualquer sentido. Por muito que frei Pedro lhe sussurrasse, no confessionário onde procurava refúgio e um momento de solidão, que Deus lhe daria as forças necessárias para continuar a cuidar dos seus meninos, do seu marido, do seu reino. Se ao menos fosse uma mulher comum, que se podia fechar em casa, saborear a dor amarga de cada momento de luto, ou refugiar-se num convento, mas ninguém lhe permitia sequer que fosse até à capela sozinha: era rainha de Portugal, um reino de equilíbrio ainda precário e que a morte do herdeiro do trono deixava novamente frágil.
Deus havia de lhe dar forças, murmurava para si baixinho, enquanto passava a mão pelo medalhão com a miniatura de Teodósio pintada, para depois correr a mão pelos cabelos crespos de Joana e Catarina, que a seguiam como ovelhinhas perdidas mas sem se atreverem a dizer fosse o que fosse, tal o terror de a magoar mais ainda. Nunca lhes passara sequer pela cabeça que pudessem substituir o irmão no coração da mãe, como estavam certas de que nem Afonso, nem mesmo Pedro poderiam ambicionar a fazê-lo, mas era duro, pensou Catarina, ter a impressão de que não contavam nada, de que não faziam diferença. Era duro sentir que uma mãe olhava para si, e pensava, ou pensaria se tivesse coragem para tal, «porque é que não morreste tu, em lugar dele?»
Nessa noite, mais uma vez através das traves do chão, Catarina ouviu a mãe soluçar, mas pior ainda, o pai chorar como uma criança pequena.
Pelo menos têm-se um ao outro, disse para si mesma baixinho, enquanto, com as costas da mão, enxugava as lágrimas que corriam pela sua própria face.
Um dia teria um ombro só seu, em que chorar as suas mágoas?
Se a família real e o povo se debatiam com a surpresa e o desgosto que a morte de um príncipe já homem provocava, já o Conselho de Estado, os conselheiros e os secretários se reuniam e tornavam a reunir, num ambiente pesado, não só pelo abalo sofrido, mas sobretudo pelo que o futuro parecia trazer... O que o futuro oferecia, em lugar do elegante, inteligente e culto Teodósio, era um príncipe que todos diziam à boca calada ser de iciente, e de quem professores e criados se queixavam do génio insuportável e da má educação. Por outras palavras, Afonso, se Deus o poupasse e as Cortes aprovassem o seu nome, seria um dia Afonso VI de Portugal.
João e Luísa raramente falavam daquele seu filho. Havia sempre a última gracinha de uma das meninas ou a história de um dos feitos do primogénito, ou mesmo a primeira palavra do «bebé», como lhe continuavam a chamar, embora já tivesse cinco anos, para que conseguissem, com êxito, evitar falar da sua maior angústia. Ouviam, em silêncio e sem comentários, as queixas dos seus tutores, e se João ingia que não entendia as insinuações dos validos que lhe relatavam, com a discrição possível, a última incursão do infante pelas ruas de Lisboa, com gente de uma laia indescritível, que acabara com pedras atiradas a janelas e con litos de rua, que envolviam murros e agressão ísica, Luísa, por seu lado, fazia ouvidos moucos às suas camareiras, que lhe pediam que agisse.
João sentia-se absolutamente perdido, escrevia ao padre António Vieira pedindo-lhe que enviasse conselho por escrito, ou melhor, viesse pessoalmente, porque depositava nele todas as suas esperanças: o ilho era novo, este encanto pelo mundo masculino, estes modos aparentemente pouco dignos, poderiam ainda ser corrigidos se o mestre dos mestres o tomasse sob a sua asa. Mas António Vieira, apesar do imenso desgosto que a notícia da morte de Teodósio lhe provocara, tinha acabado de ser nomeado superior dos Missionários da Companhia, lá na missão do Maranhão. Escrevia, e consolava o rei como podia, garantindo-lhe que talvez Afonso tivesse apenas uma forma diferente de manifestar a dor que lhe provocara a morte do irmão e, acima de tudo, a ansiedade das novas responsabilidades. Pedia ao rei que não se distanciasse dele, que lhe desse a atenção e a orientação de que o menino, que não passava muito disso, tanto ansiava, prometendo que quando pudesse viria à corte.
Mas João fugia de Afonso, porque não sabia o que fazer. Talvez fosse tudo exagero, talvez estivessem só a tentar envenenar a sua con iança no rapaz, desejassem substituí-lo porque o davam por incapaz, preferindo um bebé no trono, que era o que Pedro não deixava de ser. Como podia Afonso ser tão malcriado, tão prepotente e simultaneamente tão cobarde - diziam-lhe que quando as lutas se tornavam feias, o ilho era o primeiro a destapar a cara da máscara que trazia sempre e a fazer uso do seu estatuto de ilho do rei de Portugal para escapar ileso... Contudo, com ele Afonso era sempre delicadíssimo, e à sua frente nunca se dirigira a ninguém de forma menos respeitosa. Pelo contrário, sentia-o ligeiramente efeminado, preocupado com as roupas que vestia e os adereços que lhes punha em cima, e até as irmãs troçavam dele, o que parecia vexá-lo, fazendo o rubor subir-lhe às faces. Nesses momentos João normalmente acorria em seu socorro, pois nunca se esquecera do que sofrera por lhe dizerem que era estranho um homem preferir a música a tudo o resto. Não lhe passava despercebido, no entanto, o olhar de quase rancor com que Luísa o itava nas alturas em que João pegava no ilho, o tirava do meio da discussão e o levava consigo para a Sala da Música.
Nos momentos em que se via sozinho com o pai, livre da sombra omnipresente do irmão herói e da mãe autoritária e assustadora, Afonso tornava-se falador, contava histórias, e, apesar da sua igura ligeiramente disforme, o seu rosto acendia-se de animação e encanto.
Talvez a culpa fosse toda sua, pensou João, enquanto se lançava para cima do seu cadeirão favorito, o pé em cima de um banco por causa da gota que o incomodava tanto, a mão a sustentar-lhe os rins que constantemente o atormentavam. Talvez a culpa fosse sua, porque quantas vezes jurara a si mesmo, nessas alturas em que percebera como era realmente o ilho, que lhe daria mais tempo, mais atenção, que prestaria mais cuidado aos seus estudos académicos e militares, que, apesar da idade, não o excluiria dos conselhos. Prometia a si mesmo combater aquela sensação de que naquele palácio coexistiam duas famílias, a que nascera em Vila Viçosa e a que tivera origem já depois de ser rei, dos nascidos aqui neste palácio enorme, entre intrigas e protocolos, neste paço (neste cargo...) de que já há muito se cansara.
Luísa sentia remorsos, mas não do mesmo tipo: a mãe culpava-se por não ter ouvido os mestres e permitido que fossem mais duros com o seu filho. Desprezava-se por o ter tratado como um menino doente, e tudo porque se esquecera que Deus dá e tira, quando entende fazê--lo. Nunca, mas nunca mesmo, nem naquele dia em que Teodósio fugira para a frente de batalha, acreditara que o seu bem-amado menino lhe fosse roubado. E à medida que os anos passavam, as pequenas doenças eram conquistadas e a vitalidade do rapaz se revelava todos os dias ao raiar do sol, mais se convencera de que não valia a pena investir nos mais novos, pelo menos não antes de ter casado as irmãs, não antes de o filho ter assumido o trono- e o pensamento só não era traição porque sabia que a intenção do marido era passar o poder ao herdeiro na primeira oportunidade.
Torreão dos Filipes, 25 de Junho de 1653
atarina subiu as escadas a correr e entrou ofegante na salinha de
estudo do torreão filipino. Pedro estava a um canto, numa mesa pequena, entretido com carvão colorido, a última novidade chegada da China, e Afonso displicentemente deitado na cadeira, enquanto os dedos das mãos se entretinham a enrolar bolinhas de papel que se preparava para atirar ao novo mestre, que ainda não tivera tempo de se despedir. Mas quando viu a irmã pôs-se imediatamente de pé e, para espanto do professor, debruçou-se sobre a mão de Catarina, beijando--a. Catarina estava tão ansiosa por lhe dar as notícias que trazia que nem reparou na boa educação do irmão.
- Afonso, as Cortes acabam de dar o aval ao teu nome: és o príncipe herdeiro. Um dia, e que venha longe, que não quero que aconteça nada ao paizinho - apressou-se a dizer, enquanto se benzia -, vais ser Afonso VI de Portugal.
O professor virou a cara para uma das janelas que abria sobre o rio, sem querer demonstrar a preocupação que a notícia lhe causava, mas Afonso teve um gesto inesperado: pegou na irmã pela cintura, tão delicada e pequenina, e rodou-a no ar.
- Obrigada, Catarina. Nunca me vou esquecer que me deste a notícia com alegria, coisa que deve ser di ícil para ti atendendo à dedicação que tinhas a Teodósio, e isso revela que és boa pessoa, mesmo até ao fundo. Não me vou esquecer disso...
Atrás de si, Catarina ouviu a tosse, que já começava a tornar-se habitual, de Joana. Voltou-se, a lita, e percebeu que a irmã considerava este entusiasmo uma traição ao irmão que morrera há tão pouco tempo.
Catarina apertou as bochechas a ferver contra as suas mãos pequenas e delicadas e olhou de um para outro dos seus irmãos. Parecia que ia icar sem fala, ou fugir pela escada por onde tinha subido, mas, para espanto de ambos, e de si mesma, virou-se para Joana e a voz saiu-lhe alterada. Catarina zangada, o espectáculo iria valer a pena, pensou Afonso.
Catarina estava mesmo zangada:
- Joana, não admito que questiones a minha lealdade para com o nosso querido Teodósio, que Deus o tenha, mas Afonso não tem culpa. Não tem culpa da morte do nosso irmão, não tem culpa que o façam herdeiro, nem tem culpa se um dia tiver de governar, que, a avaliar pela forma como o nosso pai envelheceu, deve ser tudo menos coisa que alguém ambicione fazer. Ele merece os parabéns e saber por alguém da família que a sua vida a partir de hoje vai mudar, e que pode contar connosco.
Joana virou-lhe as costas e desceu as escadas, a tossir. A tosse, sempre aquela tosse.
Afonso continuava calado, meio espantado pela defesa da irmã, talvez pela primeira vez confundido por aquilo que em sonhos sempre tinha desejado mas que, colocado nos termos em que Catarina o fazia, parecia bem menos aliciante: o peso do lugar, o pai de olheiras carregadas, rodeado de conselheiros que lhe diziam coisas contraditórias, o povo a clamar na rua contra os impostos, as fronteiras a necessitarem de defesa, os espanhóis, sempre os espanhóis, tão próximos e tão desejosos de apanharem pela frente um monarca fraco que os deixasse voltar a entrar por ali adentro.
Por segundos, Afonso desejou com todas as forças que os pulmões do irmão mais velho tivessem sido mais fortes. Seria como ele, pensou. Depois encolheu os ombros, como fazia desde pequenino: nunca teria a persistência e a paciência para suportar protocolos sem im, de colocar os desejos dos outros à frente dos seus.
Agradeceu baixinho a Catarina, pediu-lhe licença para sair e começou a descer as escadas, mas um impulso fê-lo voltar. Intempestivamente abraçou Catarina, passou-lhe a mão pelo cabelo num gesto paternal - já era mais alto do que ela -, prometeu, como que numa oração, que a protegeria até à morte, e voltou a sair disparado.
O professor virou-se en im, como se aquilo que há tanto tempo lhe atraía a atenção sobre as águas do Tejo tivesse desaparecido, e olhou para a princesa carinhosamente. Grande pequenina Catarina. Era bem mais provável que fosse Catarina a cumprir a promessa de Afonso. Seria ela, certamente, a proteger Afonso. E, a não ser que a responsabilidade do lugar provocasse no seu carácter uma mutação de 180 graus, descon iava que teria muito que proteger.
Pedro não dissera uma palavra, não emitira um som. Era estranho este infante mais novo. Firme, determinado, parecia alimentado a outro leite. Não desatara a chorar com a zanga das irmãs, não correra a agarrar-se às suas saias, mas também fora incapaz de dar os parabéns a Afonso. Era impossível saber exactamente o que pensava.
Catarina fez uma ligeira vénia ao mestre, e pareceu reparar pela primeira vez no silêncio de Pedro:
- Pedro, não dizes nada? 0 mano vai um dia ser rei.
O infante voltou o olhar para os papéis que tinha à frente, e ficou calado.
Paço Real de Sintra, 10 de Agosto de 1653
inalmente a mãe permitira-lhe sair de casa. O luto de Teodósio
obrigara-os a ficar ainda mais confinados do que nunca ao Paço da Ribeira, mas Catarina sonhava sair dali. Não podia confessá-lo, mas estava cansada de missas e procissões, de lanchinhos de damas, de gente a chorar-lhe lágrimas de crocodilo no ombro, e nem as incursões à Quinta de Alcântara distraíam o espírito, porque também ali tinha estado Teodósio. Além do mais, nem a mãe nem o pai eram companhia que desanuviasse o peso que descera sobre aquela casa. O pai passava todas as horas que não estava com os conselheiros fechado na sala do cravo. O tempo para o cravo crescia, enquanto decrescia a paciência para os longos e eternos debates sobre como angariar dinheiro, encher os cofres do reino e ganhar, lá fora, as bata- lhas diplomáticas que permitissem a independência de Portugal e a conservação dos territórios conquistados pelo Mundo fora.
Além do mais, Lisboa era insuportavelmente quente e malcheirosa nos meses quentes do Verão e por isso estavam eternamente agradecidas ao médico que Luísa chamara para ver Joana com aquela tosse que não a largava, de noite ou de dia, por este ter indicado a urgência de saírem da capital. Porque não o Paço da Rainha, em Sintra, sugerira, cúmplice, lembrando que todos os reis, antes de Suas Altezas, trocavam durante os meses do Verão as fétidas e doentias ruas da cidade pela verdura da serra.
Durante dois dias até deu a impressão de que Joana se queixava menos dos pulmões, tal o entusiasmo de fazerem as malas e partir. Tinham sido escolhidas Ana, Maria do Rosário e Maria do Carmo, as aias favoritas, para lhes fazerem companhia, e entre elas trocavam risinhos ao tentar adivinhar, olhando pelas janelas que davam para a cocheira, quais seriam os estribeiros e os cavaleiros enviados para as escoltar. Dona Leonor de Meneses, a camareira, bem tentava serenar--lhes o entusiasmo, impedindo conversas que não considerava compatíveis com a obrigação de orações constantes, mas as adolescentes estavam enfeitiçadas, inalmente, pela Primavera tardia, e queriam falar de amores e não ladainhas intermináveis. Para dizer a verdade, achava que estavam a precisar de respirar outro ar, depois de um ano tão dramático, que deixara marcas na tez pálida de Joana - preocupava-a tanto, esta menina - e tornara Catarina ainda mais pensativa.
Afonso e Pedro não iriam com eles. Afonso izera uma das suas birras quando descobrira que estava impedido de partir nas «férias no campo» das irmãs mais velhas. Embora tentassem sossegar a fúria, explicando-lhe que era importante de mais para o reino para poder sair assim de Lisboa, agora que o seu estatuto era o de príncipe herdeiro, recusara-se a ser levado por cantigas. Sabia bem porque não o deixavam ir, não queriam que fosse caçar com os amigos, nem izesse montarias com eles, porque lhes metera na cabeça que haviam de ser eles a escolher com quem se dava, gritava a plenos pulmões. Só a ironia fria de frei Pedro, ao dizer alto que podiam estar todos descansados, que pelo menos dos pulmões este infante não sofria, o fez calar. O frade já tinha entendido que João passara a pasta a Luísa, tendo--lhe entregado a gestão da educação de Afonso. O rei confessara-lhe, mesmo, que sabia que era uma posição cobarde, até porque admirava a força da rebeldia daquele seu ilho. A mulher dizia que era doença, e talvez fosse, mas então talvez sofresse da mesma doença, porque, se fosse sincero, tinha de admitir que também ele sentia, muitas vezes, vontade de se atirar para o chão e protestar como o ilho contra a mão-de-ferro com que a mulher parecia governar a vontade de tudo e todos.
Até Luísa soltou duas ou três gargalhadas, som que não se ouvia na Ribeira há longos meses, quando as suas queridas filhas, com cestos de piquenique nas mãos, a abraçaram, os olhos brilhantes de excitação. Iam partir, as carruagens estavam prontas, as malas feitas. Nem teve tempo de lhes ordenar que se comportassem como infantas de Portugal, porque durante segundos os seus olhos turvaram-se. De saudades, de nostalgia dos tempos em que em San Lucar partia com o rancho de amigas das melhores famílias da região até às praias da costa, onde brincavam ao sol e comiam o marisco fresco que os pescadores lhes traziam. Nesses dias, o brilho nos seus olhos escuros era tal qual o das suas meninas, mas o coração tão mais leve do que agora, tão, tão mais seguro e feliz, o coração de uma filha única e mimada, entre dois irmãos rapazes, com direito a uma infância despreocupada. Aquela que Joana e Catarina nunca tinham conhecido, coitadinhas, arrastadas de Vila Viçosa e enclausuradas neste paço. Diria hoje, como naquele mês de Novembro, que mais valia rainha um dia do que duquesa toda a vida? Luísa travou o pensamento. Bateu com o pé ligeiramente no chão e, voltando ao sorriso, como naqueles dias em que faz sol e chuva ao mesmo tempo, disse-lhes:
- Meninas, corridas pelo corredor, saltos, gritinhos, mas o que é que vos deu, parece que nunca saíram à rua, e sobretudo que são umas fedelhas sem educação. Vamos a endireitar as costas, a dizer adeus à mãe com respeito, e não se esqueçam da missa diária e das orações, que Portugal bem precisa delas.
Dizendo isto, abraçou primeiro Joana, com a força de quem não suportava perdê-la, e depois Catarina, como quem se despedia daquela que, embora ainda nem tivesse 15 anos, era, todos os dias, o barómetro das suas atitudes. Sabia ler no olhar da ilha a aprovação e o descontentamento, como se visse a sua alma ao espelho, tantas vezes desamparada e sozinha.
Em Sintra, as torres do Paço da Rainha brilhavam contra o azul--intenso do céu e, no entanto, como suspirava Joana, aqui o ar já era respirável, e a brisa e a sombra das árvores ao longo do caminho contrastavam de forma deliciosa com as ruas apinhadas de casas que rodeavam a Ribeira.
As criadas tinham cumprido todas as ordens de D. Leonor de Meneses, e a tijoleira do chão e os azulejos verdes e brancos das paredes do Paço de Sintra re lectiam o sol, polidos e limpos. As infantas e as aias foram colocadas em quartos contíguos, tendo sido a Sala dos Cisnes reservada para as lições, e a capela, que encantava sempre Catarina, para as orações diárias.
Depressa se instalou uma rotina, mas que «sabia tudo a coisa completamente diferente», como dizia Maria do Rosário, perante os protestos de Joana, que procurava, em vão, emendar-lhe o português. Português à parte, a verdade é que o sabor destes dias era diferente, os primeiros, desde a morte de Teodósio, em que Joana, em segredo, não se angustiava com o medo de que a sua tosse fosse igual à do irmão, e de que também a ela não restasse muito tempo de vida. Curiosamente, mais ninguém parecia fazer esta associação, o que a levava a sentir-se mais tranquila, pelo menos até à crise seguinte.
Mas em Sintra não falaram nem de mortes, nem de doenças, mas só, e apenas, de amores e paixões, de traições e bastardos, de como cada uma delas seria amada.
Deitadas sobre as camas, de camisas de noite já vestidas, e na total con iança das suas duas aias, as infantas falavam do futuro. Joana sabia pouco das diligências que os embaixadores dos pais faziam pelo Mundo, mas estava certa que mais dia, menos dia, lhe comunicariam quem era o feliz contemplado, e teria de partir para um país desconhecido, uma corte hostil, e gerar ilhos de um homem que, com sorte, não lhe desagradaria demasiado.
- Não és lá muito ambiciosa - protestava Catarina. Porque é que não há-de ser um príncipe lindo de morrer, que te ame profundamente e esteja disposto a defender a tua honra e felicidade com a espada?
A conversa entusiasmava-a tanto que se punha de joelhos em cima do colchão e gesticulava sem fim, como se as mãos desenhassem o futuro.
Joana aconchegava-se mais aos cobertores e, rindo, dizia:
- Porque esses só existem nos livros que lês às escondidas da mãe e de Leonor e que te metem essas ideias tontas na cabeça.
- Românticas? O pai e a mãe não são felizes, como nos livros?
As duas damas não se atreveram a comentar a pergunta, mas Joana respondeu por elas:
- Casaram por vontade dos pais, nunca se tinham visto antes do dia do casamento, em que a mãe não se cansa de dizer que choveu a potes, e conta, entrelinhas, que chorou sem parar...
- Estás a desconversar. O que tem isso que ver com o amor entre eles, com os ilhos que tiveram, com o facto de se apoiarem sempre, mesmo quando nem sempre concordam um com o outro?
- Se esse é o teu amor romântico, concedo, a mãe e o pai são felizes. Mas não tens medo de partir para um outro país, onde toda a gente te vai detestar?
- Detestar? - perguntou Catarina, espantada. - Detestar-me a mim, mas porquê? Aqui ninguém me detesta. Acho eu.
- Porque detestam as rainhas que vêm de fora e há sempre intrigas entre as mulheres do país que queriam caçar o rei, ou já o caçaram, e se vêem impedidas de subir ao trono por uma princesa vinda sabe--se lá de onde - comentou Maria do Rosário.
- Além do mais, a minha mãe diz-me que as cortes francesa e inglesa estão cheias de gente desbragada, bárbaros, que nem sequer rezam ao nosso Deus ou dobram o joelho a Roma - acrescentou Maria do Carmo.
- Não baralhes tudo - irritou-se Joana, que tinha secretas esperanças de que talvez o seu casamento fosse para os lados de França, e toda a gente sabia que a corte francesa era luxuosa e rica e Joana gostava de brilho e de pompa. - Em Inglaterra vai ser diferente. Charles vai fazer a diferença -interrompeu Catarina.
- Já o trata por Charles, Charles à portuguesa não ica bem? - perguntou, sempre trocista, Maria do Carmo.
Catarina corou, e os olhos icaram ainda mais brilhantes. Estúpida, falara de mais. Há anos que guardava dentro de si esta esperança, que a mãe alimentava sempre que podia. Charles continuava a procurar reconquistar o trono de Inglaterra, mas até agora sem sucesso. A mãe dissera-lhe, poucos dias antes desta vinda para Sintra, que o seu rei sem trono estava agora na Holanda com a irmã, mas que tudo se preparava para que, em breve, se tentasse nova invasão. Ou que talvez Cromwell fosse derrotado pelo povo desejoso de uma monarquia que sempre o regera, chamando de novo o príncipe que lutara ao lado do seu pai, e que aos 15 anos o vira ser decapitado por este homem odioso, enquanto a mãe e as irmãs fugiam para França. Príncipe que no momento da morte do pai passara objectivamente a ser rei.
- A mãe de Charles - disse Catarina - é católica, irmã do rei de França, e, depois de tantos anos a viver na Europa, a minha mãe diz que tem a certeza de que quando Charles - e acentuou o Charles - tomar o trono, será uma Inglaterra católica aquela que governará.
- Não gosto lá muito dele, que me desculpe Catarina, mas parece--me um doidivanas - murmurou Maria do Rosário.
Catarina, rápida como um dos falcões da sua Vila Viçosa, percebeu que a amiga não falava de cor. Desesperava-a que a mãe só lhe contasse as coisas boas acerca de Charles, enquanto toda a corte conhecia as mais arrojadas e as mais picantes. Por isso insistiu:
- Diz-se o quê de Charles?
Maria do Rosário atirou-lhe com uma almofada e riu:
- Que só pensa em mulheres, que já casou e tem um filho!
Catarina icou instantaneamente pálida e escorregou para dentro dos lençóis. Não, não podia ser. Mas, sobretudo, não podia dar parte de fraca perante as três amigas que dividiam consigo o quarto. Voltou, corajosa e com o coração do tamanho da cabeça de um alfinete, a sentar-se direita:
- Boatos, conversas, sabem lá em Lisboa com quem é que ele dorme na Holanda... - E para si própria murmurou: «E agora, agora como é que conseguirei saber mais pormenores, sem dar parte de interessada?»
- Não são nada boatos - respondeu Maria do Rosário, sem perceber sequer que Catarina levava o seu imaginário compromisso com o príncipe inglês tão a sério.
- Se não são rumores, então conta - disparou, em tom de desa io, Catarina.
Joana olhava a irmã, pasmada - nem a ironia nem o desa io faziam parte da Catarina que conhecia. A mãe devia ter feito mesmo um bom trabalho, porque agora podia pedir à ilha que se atirasse de uma ponte pelo príncipe que ela o faria de bom grado! Percebendo, no entanto, que Catarina queria assumir, perante as outras, um ar ligeiro e desprendido, decidiu acorrer em seu auxílio.
- Conta lá, Rosário...
- O meu tio acompanhou um embaixador em Haia, e foi ele que disse à minha mãe... ouvi-o a falar com ela, sentados no braseiro, quando fui a casa pela Pascoela.
- Mulher, pedimos detalhes, queremos lá saber onde se sentava o teu tio- exclamou Maria do Carmo.
- Pronto, foi isso o que ouvi. Que Charles tem um caso com uma tal Lúcia qualquer coisa, e que casaram em segredo e da relação nasceu um ilho. A criança foi entregue para criar a um grande amigo da família...
O «seu» Charles com outra mulher? Casado em segredo? Catarina sentia-se dividida. Um príncipe que tem a coragem de casar em segredo, contra a vontade dos pais, era para ela um herói, por muito que se quisesse convencer do pecado da desobediência e rotular o seu comportamento com o nome de outros tantos pecados. Por outro lado, e se fosse verdade, se ele a amasse a sério, e quando reconquistasse o trono fizesse finca-pé em torná-la rainha? E aí onde ficava ela, Catarina?
Joana decidiu acabar a conversa:
- Deixem-se dessas conversas bárbaras. Quantos homens não têm filhos de mulheres que não são suas aos olhos de Deus, é da natureza masculina, o padre está constantemente a dizê-lo, e não é coisa a que se deva dar importância.
E depois submergiu a um imenso ataque de tosse, e Catarina esqueceu tudo, na ânsia de lhe trazer o remédio, chamar a criada para lhe fazer um chá, e sentar a irmã mais direita nas almofadas, para que respirasse melhor.
- Joana, temos de chamar o médico - proferiu, irme. Charles bem podia esperar.
Paço da Ribeira, 17 de Novembro de 1653
dia nasceu cinzento e triste. Afonso sentara-se na cadeira de verga
junto da cama de Joana e segurava-lhe na mão gelada. Catarina despachara a criada e tratava ela de fazer a irmã beber uma infusão. Estavam ali os dois contra todas as ordens dos médicos e físicos da família real e dos da corte, que desta vez Luísa tinha juntado todas as cabeças que conseguira encontrar, porque não desejava confiar apenas no saber de um. Deixaram bem claro que não queriam nenhum dos infantes no quarto da princesa, bastava ver as semelhanças entre os seus sintomas e os do irmão Teodósio para perceber que estavam perante uma doença contagiosa. O facto de só Joana parecer ter sido atingida por ela não significava que não surgissem, entretanto, novas vítimas.
Afonso sentira-se importante quando o doutor Fortunato lhe viera dizer que era fundamental que ele, o herdeiro, se mantivesse resguardado. Gostou de ouvir aquele «a bem da família real e de Portugal», mas, depois da satisfação instantânea do seu ego, voltou a ser quem era: irmão de Joana, a sua irmã que estava a morrer...
Frei Pedro bateu suavemente à porta, e ao «entre» da infanta mais nova esgueirou-se pela porta, com um ramo de lores de laranjeira, que pousou nas mãos de Joana.
- Laranjeira lá de casa - agradeceu, excitada, Joana.
- Laranjeira lá de casa, sim, senhora D. Joana, que não a enganaria com outras apanhadas por aí - repetiu num tom sério o frade, comovido com o facto de a princesa continuar a chamar «casa» à terra onde ambos tinham nascido.
Catarina estendeu-lhe a mão, que frei Pedro apertou com força, numa mensagem silenciosa mas que a enchia de coragem, enquanto estendia a outra a Afonso, que efusivamente a prendeu entre as suas. Era como se o frade, que nunca se deixara contagiar pelos modos da corte, servisse para unir aqueles irmãos, e o herdeiro não se enganava quando icava com a impressão que frei Pedro era dos poucos que o olhavam a direito e viam para lá das suas deformidades, da sua corcunda que se acentuava de dia para dia, da boca puxada ligeiramente para um lado, resultado da doença que lhe mudara a vida.
- Além da laranjeira, traz-me o que lhe pedi? - perguntou Catarina.
Joana virou a cabeça, curiosa, e Afonso hesitou por momentos, antes de se deixar cair de novo na cadeira:
- Sim, a água benta das irmãs de Nossa Senhora da Conceição.
Depois mais baixo:
- Conseguiu ir a Mourão?
Frei Pedro tirou de dentro do hábito um pequenino frasco preso por uma corrente ao pescoço, e Joana desfez-se em lágrimas:
- Já nada me vai curar, frei Pedro, mas agradeço-lhe do fundo do coração que me faça uma unção com a água benta da Padroeira de Portugal, porque assim estou certa de que a Senhora me levará mais depressa para junto do meu irmão Teodósio.
Frei Pedro olhou instintivamente para Afonso, mas Afonso dobrava os ombros de forma ainda mais acentuada e escondia o rosto nas mãos. Pobre Afonso, pensaram frei Pedro e Catarina, que, além do desgosto de perder os irmãos, icava sempre com a cruz dos seus deveres e obrigações, ele que tanto desejava ver-se longe do juízo alheio, viver longe dos olhos ferozes da mãe, que o faziam sentir-se ainda mais diminuído e mais zangado.
Mas, por momentos, o futuro desapareceu de vista, as paredes do quarto pareciam abater-se sobre eles, e as vozes ruidosas que chegavam sempre directas do terreiro perderam-se entre as paredes grossas: Catarina e Afonso, e a ama de Joana, que permanecia há dias tão quieta na sombra que ninguém dava por ela, ajoelharam-se em oração, enquanto frei Pedro molhava os dedos na água benta da Senhora da Conceição e das Candeias e fazia o sinal da cruz na testa, na boca e no peito de Joana. As mãos da infanta, que fizera há tão pouco tempo 18 anos, cruzavam-se serenas sobre a colcha ricamente bordada, e quando a pequena cerimónia terminou já adormecera num sono sereno.
Alguém, naquela corte onde a cada buraco de fechadura correspondia um coscuvilheiro, terá avisado o rei e a rainha do ritual, porque as portas abriram-se de par em par, seguras pelo reposteiro-mor, e ambos entraram no quarto.
Catarina só teve tempo de colocar o dedo frente à boca, pedindo silêncio, e Afonso apontou para o leito da irmã, que depois de dias de insónia dormia como um anjo.
- Um pequeno milagre - murmurou João, os olhos imediatamente cheios de lágrimas.
- Um milagre da Virgem da Conceição. Mas um milagre que não chega -gemeu, em súbito desespero, Luísa. Depois virou as costas à família e precipitou-se a passo rápido pelo corredor, os sapatos batendo com força na madeira do soalho.
Nessa mesma noite Joana adormeceu para sempre.
Catarina acreditava em Deus, obviamente. E o pequeno milagre que tinha sentido acontecer com Joana tinha-a ajudado a manter a fé numa altura em que por dentro, no seu lado mais pequenino, frágil, menos protector e com muito menos fé, tudo gritava e gemia de ódio e de revolta. Joana, a sua querida irmã? A que lhe ia ensinar tudo sobre os homens, sobre o amor, sobre o casamento e as obrigações, a única pessoa na corte com quem ela nunca tinha de ser mais do que uma criança, uma irmã mais nova e nunca infanta? Não havia resposta possível, e Catarina, embora tenha seguido todos os protocolos de luto, embora ouvisse as palavras de todos os padres, sabia que mesmo que houvesse uma resposta divina, mesmo sabendo que os dois irmãos se encontravam bem, no Céu junto de Deus, nunca se lhe tiraria a ideia de que estariam muito melhor junto dela. De todas as mortes futuras que Catarina, mesmo sem o saber, teria de suportar, nenhumas se comparariam às de Teodósio e Joana.
Dias depois, quando Catarina conseguiu escapar-se ao regime de ferro e luto que caíra de novo sobre a Casa de Bragança, e fugiu sozinha para visitar o túmulo da irmã, no silêncio majestoso do Mosteiro dos Jerónimos, não se espantou quando, por cima da pedra gravada com o nome de Joana Medina-Sidónia de Bragança, Princesa da Beira, encontrou um ramo de laranjeira em lor. Secando as lágrimas, conseguiu sorrir e, olhando para o tecto trabalhado do mosteiro, teve a certeza: Joana fora levada para junto de Teodósio e de Deus Nosso Senhor. Naquele momento, brincavam os dois no jardim dos buxos, o som da água na fonte, no ar o perfume das flores, as laranjeiras já carregadinhas de fruta. Era preciso dar a notícia à mãe.