Catarina de Bragança

Isabel Stilwell · Capítulo 2 de 12 · parte 2/3

Páginas do PDF

Catarina de Bragança

D. João, provocara a euforia da família,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

As irmãs sentaram-se nos degraus frios de mármore, num daqueles corredores longos e gelados, até que a ama as veio encontrar. Furiosa, protestou:

- Não acredito, princesa Joana, que me fuja assim do quarto aquecido e fique aqui ao frio, logo hoje que está constipada. Quer ficar pior?

Sem cerimónias, arrastou-as de volta para o quarto, onde as duas se sentaram nos banquinhos da janela, de onde se via o rio até perder de vista.

- Consegues vê-los? Têm a bandeira inglesa, é encarnada e azul, vês? -perguntava Joana, que olhava o rio através de um óculo potente que Teodósio lhe dera nos anos.

- Joana, dá-me isso, não consigo ver. Como é que queres que veja só com os meus olhos?

Mas Joana não lhos passava de maneira nenhuma. A princesa da Beira queria puxar por todos os galões. Se o que estava em causa eram príncipes ingleses, convinha então não esquecer que era ela a ilha primogénita dos Bragança.

- Então se não me deixas ver, ica aí a vigiar tudo, que eu, como não estou doente, e sou pequenina e ninguém dá por mim, vou ver se encontro o Teodósio, o padre António ou o frei Pedro, ou alguém que me explique alguma coisa - disse, enquanto saía do quarto a correr.

Voltando um segundo para trás, gritou:

- Joana, procura a bandeira do pirata, do pirata Blake! Se a vires, avisa o pai!

Joana virou-se, surpreendida, a olhar para a irmã, que de repente se tinha transformado de um pintarroxo-de-peito-vermelho, como lhe chamava a mãe nos momentos de ternura, numa ave de rapina!

Catarina andou pelos corredores e aproximou-se o quanto pôde da sala dos conselheiros, mas acabou por se sentar desanimada num sofá, onde D. Fernando de Meneses, que fora chamado de urgência para a reunião, a encontrou.

Divertido, pegou-lhe ao colo, atirou-a ao ar e perguntou-lhe o que fazia ali. «Enviado do Céu», pensou a infanta, deliciada com o colo do conde da Ericeira, sabendo que ele não a desiludiria:

- Que bom tornar a vê-lo. Espero e desespero aqui, porque me disseram que os príncipes ingleses pediram abrigo ao meu pai, o rei, mas não sei se ele o concedeu ou não.

O conde, homem de armas e muito corajoso que apoiara D. João IV desde o primeiro instante, não lhe metia medo. Catarina sabia que ele podia ser muito meigo e divertido. Sorrindo, perguntou:

- A menina infanta transformou-se agora em embaixadora da coroa inglesa?

Catarina corou. Certamente que D. Fernando, que era casado com D. Leonor Filipa de Noronha, dama da rainha D. Luísa, estava farto de saber que a sua mãe há muito tinha decidido casá-la com Charles, e julgá-la-ia uma criança apaixonada. Mas o conde considerou que a infanta merecia uma resposta porque, além do mais, a estas horas já não era segredo para mais ninguém.

- Sua Alteza Real, apesar do perigo que a decisão acarreta, decidiu acolher os dois príncipes e os seus homens.

- E Blake, D. Fernando?

- Blake? D. Catarina tem a quem sair, é verdade - e o seu suspiro era um misto de admiração por Luísa e de preocupação -, mas declaro que me espanto. Falam-lhe de Blake no convento?

Catarina acenou que não, agora de pé em cima do sofá, a força do seu olhar expectante fazendo esquecer o seu corpo pequeno e frágil.

- Blake há-de vir, e não vai ser fácil, mas um rei deve fazer o que a consciência lhe ordena, os princípios têm de valer mais do que as conveniências, e é preciso ser iel, muito iel ao nosso reino, aos valores desta dinastia, doa a quem doer.

Catarina bebeu avidamente as palavras do conde da Ericeira, que a colocou cuidadosamente no chão e a empurrou em direcção às escadas:

- Agora, Catarina, volte para a ama e para os seus bordados, que se a apanham aqui ainda a põem de castigo.

Bordados? Com os príncipes à porta e piratas a chegar, D. Fernando falava-lhe de agulhas e linhas? Catarina correu para a sala da costura, mas apenas para se lançar com as melhores amigas numa especulação sem fim.

 

Dias depois, Catarina, Joana e as aias da corte foram apresentadas aos dois príncipes. D. João não lhes dava guarida no paço, para não tornar a situação diplomática mais grave, e os príncipes compreendiam perfeitamente a situação, defendendo que o seu lugar era a bordo, junto dos seus homens. O facto de não serem hóspedes do palácio não os impedia de serem convidados de D. João, D. Luísa, e sua família, sobretudo agora que o Natal se aproximava, e toda a gente sabia que o Natal num barco, sem pátria, era uma situação no mínimo dolorosa.

Catarina achou graça àqueles estranhos que falavam de forma tão estranha. Mas não mostrava o entusiasmo de Joana, que estava totalmente encantada.

Quando se preparavam para deitar, a mais nova perguntou:

- Joana, achas que Charles é parecido com eles? Achei-os desajeitados, e não gostei muito daqueles risinhos. Parecia que se julgavam superiores a nós, não os achei muito cavalheiros...

Joana encolheu os ombros enquanto a criada lhe escovava o cabelo, que tinha de ser penteado cem vezes antes de se deitar, segundo um ritual que a princesa inventara e de que não prescindia:

- Disseram-me que lá em Inglaterra os homens e as mulheres se envolvem em preparos que aqui nem de gente casada aceitaríamos em público.

- Preparos? O que fazem? - perguntou Catarina, subitamente curiosa, pois tudo o que conhecia do contacto ísico, de beijos e de outras coisas dessa natureza era aquilo que percebia entre criadas e estribeiros, ou daqueles que apanhava furtivamente entre as árvores do jardim e que fugiam, as mãos a taparem-lhes a cara para não serem reconhecidos.

- Pergunta aqui à Adélia, que já tem namorado - incitou Joana, fazendo com que a criada se engasgasse e sem querer puxasse a escova com mais força.

Joana deu um grito:

- Cuidado, Adélia, não te vingues em mim! Só dei uma ideia.

Catarina teve pena de Adélia, mas não resistiu:

- Adélia, não cores, não fiques zangada, conta-me lá. É bom beijar? Se não fores tu a ensinar-nos essas coisas, como é que havemos de aprender, logo nesta corte de solteironas, ou viúvas que já nem se recordam do que fizeram em novas?

Adélia parou o que fazia, a conselho de Catarina sentou-se junto da lareira que crepitava, e falou do amor, da paixão, dos beijos, do cuidado que uma moça tinha de ter para não se deixar levar em cantigas, porque era pecado, porque, o que lhe parecia bem pior, a mulher engravidava e o homem podia afastar-se dela, desprezando-a, ainda por cima.

Catarina e Joana ouviam de boca aberta. Tinham ouvido bocadinhos de histórias, escândalos sussurrados, mas nunca ninguém lhes falara tão francamente sobre essa coisa ísica entre maridos e mulheres, que já tinham entendido que dava a origem, se essa fosse a vontade de Deus, a um filho.

- Lembras-te de Genoveva, que foi devolvida a casa dos pais, e Gustavo, um dos validos do pai, subitamente alistado no exército? - quis saber a princesa.

Adélia acenou com a cabeça a irmativamente - como o assunto fora comentado nas cozinhas! Catarina acrescentou:

- Disseram-me que estava à espera de criança, e que nasceu às escondidas, e depois a entregaram a uma ama para que cuidasse dela. Puseram-lhe outro apelido e não deixaram que Genoveva icasse com ela. A seguir casaram-na com um nobre da terra, que estava sem dinheiro e precisava do dinheiro da família dela.

Joana deu um salto do seu banquinho, chocada com a quantidade de informação que a irmãzinha recolhera:

-já chega. Vamos casar de branco, virgens, beijar apenas o homem que nos levar ao altar. Quando se é temente a Deus, o caminho está traçado. Quanto a ti, Catarina, vê lá se tapas os ouvidos mais vezes, que isso são tentações do demónio. Adélia, obrigada, mas podes ir...

Catarina icou espantada com o volte-face: se estas coisas aconteciam, porque escondê-las?

Nessa noite sonhou pela primeira vez que Charles a segurava nos braços, a despia e a beijava ardentemente. Acordou assustada e, apesar do frio, saltou da cama, ajoelhou-se frente ao pequeno altar onde ficava sempre a sua Senhora de Mourão e pediu-lhe:

- Perdoa-me e ilumina-me sempre, sem me deixar cair em tentação. Se foi um milagre teu que me permitiu ver, conduz os meus olhos para que vejam apenas aquilo que é belo, e os feche perante o que ofende Deus Nosso Pai.

Suspeitava que teria de fechá-los muitas vezes, suspirou, enquanto se voltava a aconchegar na cama.

Paço da Ribeira, 20 de Março de 1650

 

eodósio veio acordá-las com a notícia. Trazia um documento

escondido na casaca, desdobrou-o e leu-o às irmãs. Dizia que 15 navios de Cromwell tinham chegado à barra. Só que desta vez eram do inimigo.

- Sim, mana, comandados por Blake - interrompeu a leitura para responder a Catarina, que se empoleirava no seu ombro para tentar ler mais depressa.

- Teodósio, isso é uma convocatória, o pai manda chamar tropas do país inteiro. O pai acredita mesmo que vamos ter de lutar contra eles?

- Tu não vais, pois não? - perguntou Joana, ansiosa.

Teodósio encolheu os ombros, irritado:

- Achas? Ninguém me deixa sair daqui com medo que apanhe um tiro ou uma constipação. O Conselho de Guerra já mandou a ixar editais destes em todas as igrejas, e estão a mandar os homens vir para Lisboa, para o que der e vier.

- Gente que nunca andou num barco? - insistiu Joana, sempre prática.

- O que diz aqui é que primeiro vamos ingir que não os vimos, e depois reagir, apenas se reagirem. Mas eu aposto em dar-lhes luta. A sério, manas, acho que a Catarina é que vai ter razão e o «seu» Charles vai voltar ao poder. Estes parlamentares não vão conseguir nada, numa nação tão antiga como Inglaterra. Temos de apostar nos príncipes, e na gratidão que se segue...

Os dias seguintes foram agitados. Rupert e Maurice sentiam-se perigosos e em perigo. Mas acima de tudo não queriam colocar Lisboa em risco, abusando da hospitalidade do rei, que já tinha sarilhos que lhe chegassem.

Anunciaram assim a sua partida imediata, o rei protestou apenas o su iciente para não ser indelicado, acabando por aceitar que se fossem embora, com um alívio que se lia na transparência do seu rosto. Num súbito acesso de remorsos, no entanto, ordenou que uma frota de 13 barcos portugueses acompanhasse os 15 barcos ingleses até à saída da barra, para os ajudar a conseguir uma distância razoável de Blake e dos seus homens. Simplesmente, o tempo não estava de feição, um temporal imenso impediu que a frota inglesa monárquica escapasse ao «pirata inglês», como vociferava Catarina - Maurice, Rupert e a sua armada voltaram a procurar refúgio no Tejo. Blake, por seu lado, decidiu atacar onde sabia que mais dores de cabeça provocaria a D. João: apresou nove dos barcos portugueses que chegavam do Brasil, alistando-os à sua frota e

icando com tudo o que continham. Quando, inalmente, os príncipes

conseguiram partir, o rei e a rainha suspiraram de alívio.

- Teodósio, sabes se chegaram bem à baía de Cádis? - perguntou um dia Catarina, ao jantar.

O silêncio à mesa deixou-a rapidamente entender que a fuga não correra bem.

O irmão, muito sério, respondeu-lhe:

- Os únicos dois barcos que escaparam foram os comandados pelo príncipe Rupert e pelo príncipe Maurice.

- O pirata apanhou todos os outros?

Teodósio acenou tristemente com a cabeça. O que não lhe disseram é que, entretanto, o embaixador português em Londres assinara um acordo com o Parlamento inglês - aquele que diziam abominar - de que nunca mais daríamos guarida aos membros da família real deposta.

- Com o feitio de Catarina, é melhor mantê-la na ignorância. Se um dia os voltar a encontrar, não se sentirá na obrigação de se justi icar - fora o comentário da rainha. Talvez ela tivesse razão, pensou o rei.

23

 

Clausura de Carnide, 25 de Março de 1650

 

fonso já tinha sete anos e zangava-se por ser continuamente

tratado como um bebé pelos três irmãos mais velhos, sempre juntos, sempre aos segredinhos, convencidos de que ele tinha de ficar no quarto de brinquedos com Pedro, esse, sim, uma criança sem graça nenhuma, que só lhe sabia estragar os jogos e esborratar os cadernos.

Os pais não o tinham esquecido, mas Catarina percebia que estavam divididos. Por um lado, era visível a sua angústia com os sinais de debilidade que o ilho continuava a revelar; por outro, estavam decididos a educá-lo como o possível príncipe herdeiro, como mandava o bom senso. Ninguém pensava, por um minuto, na hipótese real de Teodósio não ocupar o lugar de herdeiro. Ninguém, excepto Luísa nos pesadelos das noites mais escuras...

O rei andava preocupado com outras coisas. Sempre que podia fugia para a «Casa Nova», como chamara ao espaço que criara junto da Torre do Relógio e onde reinstalara agora a sua biblioteca. Quando se sentia mais angustiado, entretinha-se a ordenar os livros por autores, nos seus 40 armários, que forravam até ao tecto todas as paredes daquela grande sala. Catarina arranjava sempre maneira de, pé ante pé, entrar naquele santuário e sentar-se num dos escadotes com que o pai acedia às prateleiras mais altas. Quando pensava nisso, sorria com ternura: desde que se conhecia que seguia o pai de «santuário livresco» em «santuário livresco».

Num desses dias, em que o observava a trabalhar, começou a pensar que nunca mais ouvira falar de Maria. Sabia da sua existência, mas onde estaria agora? Será que o pai continuava a ver a outra mulher, a dar-se com a criança? Havia mais a preocupá-la: e se Charles, ou fosse qual fosse o marido que os pais lhe encontrassem, um dia a traísse? Se o pai, aquele paz-de-alma, aquele homem de família, fora capaz de se deixar seduzir por uma mulher que não a sua - e Catarina nunca, nem por um momento, se imaginava parecida com a sua mãe toda-poderosa -, como é que ela poderia esperar que o homem da sua vida não se cansasse dela? Não era parva, sabia que havia homens que tinham ilhos de outras mulheres, havia quem lhe explicasse mesmo que era essa a sua natureza, mas nunca acreditara que o seu próprio pai, temente a Deus como ele era, o rei que dedicara o reino à Virgem, fosse capaz de tanto.

Vendo bem, não era estranho que estes pensamentos a assaltassem, porque há dias que ouvia murmurar que aquele dia era uma data especial: Maria ia entrar para um convento de clausura, o Convento de Carnide. Nas vésperas de completar sete anos, como combinado, deixaria a casa de António Cavide, trocaria o seu quarto, onde fora tratada com todo o amor e veneração, por uma cela ou um dormitório. Uma vida para sempre diferente da dos seus irmãos, embora o pai izesse questão que se soubesse que era uma Bragança, tal como eles. Um convento, uma cela, para que o rei de Portugal pudesse esconder o seu erro do mundo. Catarina não estava sequer certa de que o pai se sentisse arrependido.

Catarina fora educada a calar as perguntas, e aceitava a maioria das coisas com naturalidade. Mas nunca tinha visto esta Maria de Bragança, e a curiosidade roía-a por dentro: seria morena como ela, ou loira como os irmãos?

- Pai, podemos ir? - perguntou baixinho, os olhos no tapete, as mãos num novelo nervoso.

João pousou o grande livro de partituras que se preparava para arrumar e olhou a filha, surpreendido:

- Ir onde, filha?

- Aos votos de Maria, à cerimónia, à missa, não sei, ela só tem menos quatro anos, menos cinco anos do que eu, nunca a vi e talvez nunca mais a veja, pai...

João pareceu atingido por um raio. Mas não conseguia encarar Maria como uma ilha bastarda, nem jurar que se tratara de um acidente de percurso, nem sequer renegar-lhe a mãe ou, o que seria fácil, dizer-se vítima de uma emboscada de uma mulher sem escrúpu los. Porque João amara (amava?) aquela de quem não podia dizer o nome, amara (amava?) as suas palavras doces, os seus gestos suaves, o facto de o fazer sentir mais esperto, mais inteligente, mais capaz... Ela amara-o (amava-o?) por quem era, e se a relação fora curta devia--se apenas aos remorsos do rei, que não se sentia capaz de manter uma relação extraconjugal contra Deus, contra a sua Igreja, a sua família e os seus ilhos legítimos. E agora esta criança, quase tão pequena como aquela que entrava hoje para um convento, vinha pedirlhe para tratar a irmã como uma igual, sem o recriminar, sem lhe pedir contas.

Os olhos encheram-se de lágrimas, e em silêncio estendeu-lhe os braços. Catarina era uma menina desejosa por um colo, e não podia perder a oportunidade. Aconchegou-se entre os folhos da casaca do pai e trouxe-lhe um imenso conforto aquela sensação da seda contra a sua pele suave.

- Não estou orgulhoso do que aconteceu, Catarina, mas a Maria não tem culpa. Quero que a tratem bem, vou assegurar que tenha terras, dinheiro, talvez até um bom casamento, sim, talvez até um casamento. Mas estou orgulhoso de ti, Catarina, do teu coração grande, mesmo sabendo que tudo isto te dói, que te custa pensar que magoei a mãe.

Catarina não suportava ver o pai assim, e tentou animá-lo:

- Pai, leve-nos a todos. Leve-nos à missa, a mãe não o vai impedir.

João sentiu-se ferido com a forma tão natural como Catarina proferia este «a mãe não o vai impedir». A inal, não era ele o rei? A irritação funcionou como um gatilho. Levantou-se, pousou Catarina no chão e disse:

- É isso mesmo que vai acontecer.

Ao cair da noite, a família real subiu para o coro e assistiu à missa destinada a celebrar a chegada de Maria, uma pequenina sombra ao longe, que a grade que os separava da igreja não deixava ver com nitidez. Luísa estava com eles, preferindo que nada fosse feito nas suas costas. Bastava o que bastava, e preferia dar a impressão de controlar a situação. Maria, para todos os efeitos, era meia-irmã dos seus ilhos. Teodósio era de todos o que tinha reagido pior, e era impossível não ver os traços pesados da sua expressão, habitualmente tão leves e generosos. A inal, o pai desta criança era o seu pai, que traíra a mulher que mais admirava no Mundo.

Évora, 2 de Novembro de 1651

 

pesadelo estava para continuar. Espanha, um pouco mais liberta

da sua guerra de estimação com a Catalunha, não tinha deixado, no entanto, que estes 11 anos passados a fizessem esquecer o despeito e o rancor. Sentiam-se poderosos, senhores na Europa, Filipe não queria deixar que o seu nome ficasse para a História como o do rei que deixara fugir Portugal, o homem cujo trono fora roubado por um primo.

Catarina, inteligente e curiosa, estava cada vez mais a par do que se passava no seu país. Sabia que o exército português estava cansado e que só com esforço se mantinham as guarnições nas fronteiras decisivas, e Évora era uma delas.

Nunca lhe passaria pela cabeça ter inveja de Teodósio, primogénito e sucessor no trono, como Deus e todos abaixo Dele tinham escolhido, mas a verdade é que quando espreitava pela porta, ou quando o padre António Vieira a deixava assistir a alguma das aulas do irmão, sentia a mesma emoção de Teodósio enquanto este andava de um lado para o outro, sugeria estratégias, dava ideias. Tinha de se controlar para não discordar, dar as suas ideias e expor as suas convicções. Sabia que o pai e a mãe tinham uma veneração e uma admiração in indável pelo ilho mais velho. E percebia porquê. Com a sua perspicácia percebia também que Teodósio ultrapassava o seu pai em determinação e coragem, facto que nunca admitiria a ninguém.

Mas agora, sentada em frente do cravo do pai, a dedilhar algumas melodias que acabara de aprender, pensava na discussão acesa que ouvira entre Teodósio e o seu tutor. O irmão estava revoltado com a «clausura» imposta. Sentia-se determinado a lutar. Catarina conhecia-o bem e sabia que não eram palavras vãs, mas intenções verdadeiras. Foi por isso que, quando ouviu a mãe a gritar num castelhano descontrolado, percebeu que Teodósio tinha fugido. A princesa correu para a sala onde os pais se encontravam com os seus conselheiros e sentou-se no chão a ouvir atrás da porta...

- Fugiu para onde? D. Luísa de Gusmão, acalme-se, por favor.

Do outro lado da porta, Luísa, branca e direita, encostou-se à janela e, procurando regular a respiração e estabilizar a voz, respondeu:

- Juntou-se aos teus homens na fronteira de Évora, foi como conde de Vimioso, outro como ele! Diz que tem dezoito anos, é maior, está cansado de estar preso e protegido entre as paredes de um paço enquanto os soldados morrem pelo reino. Morrem, João, morrem, foi essa a palavra que ele usou no bilhete que me deixou - e a voz entaramelava-se num chorrilho de que nada se entendia.

João suspirou de alívio. Dando-lhe a mão e levando-a para a salinha do lado, disse-lhe:

- Luísa, por amor de Deus, não me voltes a pregar um susto destes. Partiu, é um jovem soldado, está farto de estar quieto e parado, não é nenhum drama. Levou consigo os seus validos, está protegido, os meus homens nunca o deixarão correr perigo. Agora é só explicar--lhe que assim não ajuda ninguém, porque não há dinheiro para sustentar um príncipe herdeiro à frente de um exército. Agora é só mandá-lo regressar -acrescentou com um toque de amargura na voz, porque se teria sentido mil vezes mais digno caso tivesse dinheiro para permitir que o ilho fosse general dos seus exércitos e exercesse o seu papel, em lugar de parecer que se escondia por baixo das saias da mãe. Como compreendia Teodósio!

Catarina ouviu os passos apressados da mãe, sentiu-a a abrir a porta, e aconchegou os braços contra os joelhos, icando uma bola discreta que a mãe, por entre as lágrimas que lhe corriam pela cara, nem viu. Conhecia D. Luísa o su iciente para saber que escreveria a Teodósio e sabia também que o padre António Vieira não ia escapar à angústia da mãe, que rapidamente se transformaria em raiva, porque quando Teodósio era a matéria em discussão esquecia-se completamente do seu papel de rainha.

Durante muito tempo, Teodósio guardou as cartas da mãe e do pai, recebidas no mesmo dia. Formas tão diferentes de se exprimirem, mas como diziam tanto de quem as escrevia, daquilo que eram como família.

A caligrafia do pai era certinha e bem desenhada, de um homem habituado a escrever música numa pauta.

Filho,

Até agora não me deu lugar o sentimento de vos poder escrever sobre a resolução que tomastes em partir para essa fronteira, agora o faço dizendo-vos o que vos convém. Os ilhos nunca erram fazendo a vontade dos seus pais, porque como são ilhos e súbditos devem obedecer ainda que, nas coisas em que não tiverem tanta razão como eles. Se convinha à vossa ida razão, era que a executásseis sabendo eu, mas se ela não convinha não era razão pô-la em execução. Pudera ser conveniente entender-se que iríeis às minhas escondidas por escusar alguns gastos, mas devia estar prevenido primeiro tudo o que se devia fazer, e saber se tínhamos cabedal bastante para isso. A renda da Casa de Bragança gasta-se nessa fronteira. Se dela se fiar o vosso gasto se há-de tirar aos soldados.

Teu pai,

o Rei

Teodósio não queria pensar nisso agora, numa das primeiras noites passadas numa tenda, num campo militar, o uniforme e as botas a brilharem de tanto polimento.

Enrolou a carta do pai e começou a da mãe, procurando ir traduzindo o castelhano a que, palavra sim, palavra não, a mãe recorria.

Meu filho,

Em tudo me falta o que a ti sempre te sobra e agora mais do que nunca o constato, pois tendo tu tanto ânimo eu me sinto com total falta dele, que nem para fazer isto estava.

E para mim se acabou o gosto, viverei por costume, mas não será vida. O meu descanso acabou. Agora as minhas penas serão sentidas em silêncio e começo desde agora porque és a maior que tive.

Peço-te que cuides muito de ti e me avises do que gostas. Que Deus te guarde. Os teus irmãos estão sentidíssimos com a tua ausência, em particular Catarina, que está uma lástima.

De Lisboa e fora de mim,

A tua mãe que te adora,

Rainha

«Catarina, que está uma lástima.» Curiosamente, era a frase que ficava, a frase que o comovia. Tinha de escrever a todos, mas começaria pela irmã mais nova, até porque não sabia bem o que dizer aos pais, não tinha vontade nenhuma de pedir desculpa, e menos ainda de marcar uma data de regresso.

Escrever a Catarina era fácil, o coração abria-se, sabia que não faria alarde do que lhe contasse, e que a cumplicidade construída entre eles serviria nesse momento para contar com uma aliada, se necessário fosse. A irmã era doce e suave, mas batia-se pelas suas convicções: Teodósio só tinha de a levar a perceber que ele precisava de estar na fronteira, com os seus soldados, que já não suportava manter-se de braços cruzados enquanto os seus homens morriam por ele. Quando selou a carta icou sereno, Catarina acalmaria os pais, sabia-o. Como gostaria de a proteger sempre, mas, pensando bem, talvez a irmã não precisasse de guarda. Nessa noite, fechou os olhos a pensar que bem arranjado estava quem se

iasse apenas nos olhos grandes, nas pestanas negras e longas de Catarina

e se esquecesse do que podia a determinação.

Paço da Ribeira, 20 de Novembro de 1651

 

atarina tinha aprendido que quando a mãe estava tão ansiosa

como nesse momento, era preciso contorná-la devagarinho e falar apenas no momento certo. Parecia-lhe uma tarefa fácil, e de cada vez que via Joana ou Afonso a dizer a coisa errada na altura errada antecipava logo as reacções da mãe, que barafustava imediatamente em castelhano.

Foi num desses dias sensíveis, entre reuniões e ordens aos criados, que Catarina descobriu a mãe no quarto, virada para a janela. Não conseguia ver-lhe a cara, mas sabia que estava a chorar.

- Mãe - disse Catarina como se falasse com um bebé -, o Teodósio vai voltar. O Teodósio vai escrever - insistiu com firmeza.

Catarina não estava a tentar convencer-se a si mesma, tinha a certeza de que o irmão daria notícias. Sabia-o impulsivo e determinado, mas nunca descuidado com a família nem com o sofrimento dos pais.

- Como podes dizer isso, luz dos meus olhos?

Os olhos de Catarina encheram-se de lágrimas - podia ter o dom de ler os pensamentos da mãe, mas não tinha maneira de lhe apaziguar o coração. Re lectiu durante um momento antes de falar. Não queria parecer falsa, desejava muito que a mãe acreditasse nela:

- Teodósio reagiu como um futuro rei, mas sei que à sua carta responderá como seu sempre querido filho.

Luísa virou-se e as lágrimas secaram. As palavras de Catarina tocaram-na. Não eram palavras de consolo, falavam a verdade sobre Teodósio. Se tinha tanto orgulho nestas qualidades do ilho, era preciso con iar nelas agora.

Luísa sorriu a Catarina, sem que mais nada precisasse de ser dito, e saiu enquanto a infanta suspirava de alívio. Conseguira.

 

Tinham passado quase duas semanas desde que Teodósio saíra de casa. Quando abriu a porta para dar um passeio no jardim esbarrou contra Luís, o mensageiro pessoal do pai.

- Dona Catarina, tenho um recado do seu irmão. Esta carta é para si.

- E a do pai e a da mãe? - perguntou Catarina, a lita. Queria notícias do irmão, mas não queria ser a única a recebê-las.

- Estão aqui, mas deram-me ordens para entregar a sua antes das outras, e longe da vista de todos. Foi o que D. Teodósio me disse que fizesse.

Catarina abriu um largo sorriso enquanto escondia a carta nas dobras do vestido.

- Despache-se, por favor, leve essas cartas aos meus pais!

Catarina esperou até ouvir o grito da mãe a chamar o pai e, depois, correu para fora disparada, sentando-se debaixo de uma árvore. Enquanto rasgava o sobrescrito, pensava em que aventuras Teodósio lhe contaria, que novidades lhe daria. Voltaria? Foi com uma mistura de admiração e de medo que desdobrou a sua primeira carta secreta.

Querida Catarina,

Escrevo-te primeiro porque sei que me compreendes. Embora estejas preocupada comigo e possas estar surpreendida por este meu impulso, no fundo percebes que tinha de ser assim. Não só para provar ao pai e à mãe que consigo e estou preparado para sair de casa, mas também para mostrar ao povo que não lhe pedimos para lutar por nós, mas que lute ao nosso lado. Lembras-te da aula em que o padre António Vieira nos falou do moral das tropas nas guerras? Sinto que é nesse sentido que as posso ajudar! Não me sinto em perigo, mana, estou bem, e sei que tenho de voltar, mas penso que só ter vindo já valeu a pena. Enquanto te escrevo vejo as estrelas e, embora saiba que são as mesmas que via aí no paço, parecem-me diferentes. O Mundo parece-me todo diferente... maior! Se Deus quiser, serei rei, Catarina, rei! De um país que até agora me era desconhecido. Sabes, encontrei aqui um soldado...

Catarina continuou a ler as aventuras do irmão, num misto de inveja e de alívio por o saber bem, e por o ver tão seguro de si. Não. Teodósio sabia o que estava a fazer e porquê. Catarina riu-se sozinha, sentia-se orgulhosa da carta que tinha na mão. Sabia que quando a angústia se desvanecesse com as cartas recebidas só restaria orgulho por este ilho tão corajoso e adorado.

 

Teodósio voltou ao paço pouco depois do Natal. Ligeiramente preocupado com a reacção dos pais mas cheio de saudades. João tentou recebê-lo com alguma distância, Luísa nem procurou disfarçar a emoção, e chorou como uma mulher do povo, com os braços em redor do seu Teodósio. Catarina e Joana pareciam ter dado um salto em altura, tão senhoras, e a cada uma delas trouxe um pequeno presente. Quanto àquele jovem alto de cabelos loiros, jurou que estava tão grande e tão bonito que quase não o reconhecia: Afonso agradeceu-lhe com um dos seus sorrisos mais encantadores e Teodósio prometeu a si próprio ser mais generoso e dar-lhe mais oportunidades. Mas a maior surpresa estava para vir: no dia seguinte ao regresso, o pai nomeou-o governador-geral das Armas. D. Luísa sorriu com a euforia de Teodósio. Catarina, no entanto, percebeu que Afonso reagira mal, e mais preocupada icou quando o ouviu dizer, entre risinhos idiotas, a um dos novos validos do rei, qualquer coisa como «Pelos vistos, na Casa Real dos Bragança a desobediência compensa!» Que vontade tinha de lhe puxar as orelhas!

Paço da Ribeira, 10 de Maio de 1653

 

atarina não saía da cabeceira de Teodósio, contrariando todos os

pedidos e até as ameaças da mãe, que de qualquer forma estava demasiado perturbada para se importar se lhe obedeciam ou não.

Teodósio, o Teodósio que sempre se levantara antes de os sinos tocarem as matinas, estava há mais de uma semana deitado na cama, ou melhor, sentado, com almofadas atrás das costas para o ajudarem a respirar, que os pulmões, diziam os ísicos que o tratavam, tinham «mirrado» com esta estranha doença que lhe queria tirar o ar. Que lhe queria tirar a vida.

De um momento para o outro os irmãos, a família, a corte e o reino tinham tomado consciência de como aquele príncipe representava o repositório de todas as esperanças. De como o seu temperamento suave, determinado, e mesmo mágico, derrotava o pessimismo e fazia acreditar que não importava quando, nem como, mas um dia Portugal seria definitivamente um reino livre e despreocupado.

Catarina tinha raiva a todos os que estavam para lá daquela porta fechada, conselheiros e embaixadores, aias e damas, nobres que vinham oferecer os seus préstimos, comerciantes solícitos que surgiam com novas drogas que prometiam milagres, padres e bispos ansiosos por meter o nariz onde não eram chamados. Teodósio era seu, pertencia-lhe a ela, a Joana, a Afonso e a Pedro, ao pai e à mãe, à ama, Maria do Carmo, e a frei Pedro, e a mais ninguém, e a mais ninguém, dizia ela, batendo com o punho cerrado em cima do colchão da cama do irmão, que, apesar das febres e da tosse, se conseguia rir com estes ataques de fúria da sua fera disfarçada, como lhe chamava.

Não abandonaria nunca a sua beira, a mãe e os médicos que se desenganassem, da mesma forma que o irmão nunca a tinha deixado sozinha frente às zangas de Luísa, aos raspanetes das mestras, e insistira sempre em que ela e Joana aprendessem a montar a cavalo, a pegar num arco, a manejar uma espada; e nunca troçara dos seus conselhos, nem das suas opiniões, e sempre a ouvira com o maior respeito e interesse. Era o seu herói, e só isso é que lhe importava. Não podia morrer, não podia. Precisava tanto dele, não saberia o que fazer sem ele - quem a levaria a Inglaterra, se um dia chegasse o dia, quem a tiraria de lá se o marido a maltratasse?

- Teodósio, não podes morrer - saiu-lhe de repente alto.

O irmão abriu os olhos, pisados de noites mal dormidas, e deu uma gargalhada que acabou num ataque de tosse incontrolável:

- Garanto-te que se me pedirem a opinião, digo-lhes que tu me proibiste de passar para o outro lado!

- Cala-te, meu parvo, não sabes que não podes falar - disse logo Catarina, colocando-lhe uma nova compressa quente e húmida no peito.

- Se não dissesses disparates era mais fácil! - insistiu Teodósio, provocando mais um ataque de falta de ar.

Catarina cantou-lhe para o embalar, e o irmão, exausto, acabou por adormecer.

Sentada para trás na cadeira, por momentos a infanta fechou os olhos. As imagens passavam depressa: via Teodósio, há uma semana no jardim dos buxos, a ensinar-lhe a manejar o arco e as setas. Tossia já muito, deveria ter insistido para que viesse para dentro consultar o médico, mas quem é que pensava em tosses quando tem um alvo em frente e quer provar ao irmão mais velho que se é digna de con iança? Além disso, lembrou-se Catarina, rindo, não era assim tão ingénua e percebera logo que Teodósio aproveitava o pretexto das aulas à irmã mais nova para arrastar para o jardim dos buxos a sua amiga e aia Maria do Rosário, por quem estava loucamente apaixonado.

Catarina suspirou: era melhor ao vivo do que lido nos livros que conseguia roubar às aias e damas, que os liam em segredo. Maria do Rosário seria a mulher ideal para Teodósio, linda, esperta, ilha do melhor sangue, porque é que não o deixavam, pelo menos a ele, casar por amor? Como um dia seria ela a fazer com Charles... Toda esta história a divertiu, o que não escapou ao enfermo, que já abrira os olhos e a contemplava em silêncio:

- Ris de quê, Catarina? Olha que para a semana, quando estiver de novo de pé, quero ver se te ris na minha cara com esse descaramento - disse numa voz entrecortada.

Catarina disfarçou a sua a lição ao ver o irmão tão ofegante e respondeu-lhe:

- De como as irmãs são um bom pretexto para se levar amigas a passear... e a propósito, a mãezinha é que não a deixou entrar, porque ela esteve aqui vezes sem conta a pedir para te ver.

Teodósio olhou para a mãe que dormitava na cadeira e respondeu baixinho:

- Podias combinar com ela uma hora em que a mãe não estivesse, quando fosse à missa, por exemplo...

- Estás mesmo de amores por ela? O que é que sentes? - perguntou Catarina, com as maçãs do rosto in lamadas pela vergonha e a língua desatada pela curiosidade.

Teodósio desatou a rir e acabou numa enorme falta de ar que acordou imediatamente a mãe e trouxe até à beira da cama a criada com o xarope que o médico deixara.

Enquanto tossia, abanava com as mãos em sinal de protesto, não era nenhum bebé, não precisava de tanta gente à volta dele, e a conversa com a irmã estava a interessá-lo mais do que colheres de remédio, bolas de bezoar e rezas que o punham nervoso.

- Deixem-me. Está aqui a Catarina, ela dá-me essa purga, se a tenho mesmo de tomar.

Catarina pediu à mãe que a deixasse ser ela a dar-lhe o medicamento, e que aproveitassem todos para descansar, porque tencionava icar por ali toda a tarde.

- Mãe, vá dormir uma sesta, que depois são horas da missa - disse--lhe, empurrando-a com jeitinho para a porta. Teodósio nem se atrevia a falar, com medo de que um novo ataque de tosse impedisse aquele mulherio todo de arredar pé, mas abanava que sim com a cabeça com toda a convicção.

Quando ficaram sozinhos, Catarina voltou a perguntar:

- Diz lá, Teodósio, baixinho, para não te cansares, o que é que se sente quando se está apaixonado?

Teodósio não fez troça. Concentrou o olhar nas pinturas do tecto e começou a falar devagarinho:

- Catarina, parece tudo ridículo quando se explica por palavras, mas ao ver a Rosário o coração bate mais depressa, olha, como quando estava em Elvas à frente do meu batalhão.

- Não podias arranjar um exemplo mais romântico? - perguntou a irmã, que andava a ensaiar com o pai cânticos românticos ao cravo.

- Mas são essas as minhas paixões: o exército e as mulheres. Quer dizer, não é as mulheres nesse sentido, és tu, é a mãe, e é agora a Rosarinho...

- Ai, meu Deus, já lhe chamaste mesmo assim, Rosarinho? - perguntou, com um risinho histérico, Catarina.

Teodósio ignorou o comentário e continuou a explicar:

- Querias saber ou não querias? É olhar para ela e achar que não há nenhuma tão bonita, que mais nenhuma fala com uma voz tão suave, que diga as coisas com tanta graça, que te comova tanto, que dê uma vontade imensa de tocar, de lhe pegar na mão, e de a entrelaçar na nossa...

- É mais ou menos o que sinto pelo Charles - disse Catarina, pensativa.

- Mana, tem juízo! Não conheces o Charles, viste uma miniatura do senhor, e eu ainda não decidi se é homem para ti, descon io que andando a monte tantos anos, entre soldadesca e bandidos, deve ser bruto como as casas, e pouco digno de te ter como mulher...

Catarina voltou a corar. Não contava a mais ninguém, nem mesmo a Joana, este seu amor, mas vê-lo assim ridicularizado pela única pessoa a quem confiara magoava.

Teodósio notou imediatamente que fora demasiado duro:

- Desculpa, princesinha, és ainda tão pequenina, com apenas catorze anos, que jurei proteger-te. É o meu amor por ti que me cega, sabes, nenhum irmão gosta de ver a irmã casar, está nos livros...

- Quando icares melhor vais procurar Charles, avaliar o seu carácter? -perguntou Catarina, cheia de uma ingenuidade infantil que não punha sequer em causa que o irmão estivesse bom dali a dias, tanto mais que rezava por ele todos os dias, a todas as horas, e já o encomendara à sua Senhora de Mourão.

Frei Pedro entrara devagarinho e ouvira, comovido, o apelo da princesa. Fez-lhe uma vénia, ela beijou-lhe as mãos e deu-lhe a cadeira onde se sentava, para que icasse mais perto do irmão, mudando-se para o fundo da cama, onde se sentou aconchegada num dos cobertores.

- E onde vai, D. Teodósio?

Catarina corou, Teodósio tossiu, mas não traiu os segredos da irmã:

- Catarina pedia-me recados, para quando voltasse a poder montar.

Depois mais baixinho, para que só o frade ouvisse:

- Por favor, não lhe diga que a morte está aí em breve para me levar.

Embora falasse baixo, Catarina ouviu e deu um salto para o chão, acompanhado de um grito, quase tropeçando nas saias e saiotes que, para mal dos seus pecados, já a obrigavam a usar:

- Frei Pedro, cale o meu irmão. A morte? Teodósio, estás com tosse, passa com infusão de laranja, não podes morrer. Não podes mesmo, eras um egoísta se me deixasses aqui, se deixasses os paizinhos, se abandonasses o teu povo - gritava, exaltada.

A mão segura de frei Pedro no braço sossegou-a. Teodósio, muito branco, não dizia nada: seria egoísmo morrer? Porque é que Deus o queria morto, se tinha um reino para governar? Mas estava tão cansado, tão fraco, tão frágil, tão diferente do que sempre fora, que só podia ser a morte.

Frei Pedro sentiu a tensão no ar e com a sua voz muito calma, o seu sotaque alentejano que os fazia regressar à infância, sossegou-os:

- D. Catarina, Sua Alteza, como é que rezam todos os dias o Pai--Nosso, para depois se porem com estas conversas? Comece a D. Catarina...

A adolescente, com a voz embargada pelas lágrimas, recitou:

- Pai Nosso que estais no Céu, Santificado seja o Vosso Nome.

- Agora o príncipe...

- Venha a nós o Vosso reino - e a voz parecia mais irme, levando Catarina a olhá-lo com admiração, sempre a mesma incondicional admiração.

- É só isso, é só nisto que precisamos de acreditar, que Ele sabe, que Ele não permite que um cabelo caia das nossas cabeças sem que essa seja a Sua vontade.

Continuar: parte 3 de 3