Cenas da Aldeia
Capítulo IX
Estava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo a melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, começa a vestir-se de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, só inspiravam tristeza, começam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e tenra, e os passaritos, passeando d'umas para as outras, chilreando, cantando, juntam a sua alegria á alegria da natureza, parecem inebriados com tanta doçura.
Era num dia limpido da primavera, ás sete horas da manhã—uma manhã de agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de vida e sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da atmosphera d'uma extrema limpidez—uma d'estas manhãs cheia de vida que, gosadas na aldeia, teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um desvairado o gosto pela vida de que estivesse prestes a desfazer-se.
O tio José da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com um sorriso de amargura e satisfação. Contempla as arvores rejuvenescendo de encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas por seus paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados, recordando, com amarga saudade, esses tempos ditosos que foram para nunca mais voltar, e, na sua profunda abstracção, estremece á voz d'um homem que, por detraz de si, o chama.{94}
—Viva, sr. José! Está gosando a frescura da manhã, hein?
Elle voltou-se, e viu na sua frente o filho da sr.ª Quiteria de Jesus, de arma ao hombro, trajo de caçador, chapéu molle derrubado e cheio de orvalho.
—É verdade, sr. Joaquim Velloso. (O Velloso, tomou-o elle por lhe parecer um nome pomposo que se casava bem com a sua situação). Então anda caçando, logo de manhã?
—Saí a dar um passeio matutino, eram cinco horas. Dei uma volta alli pelas Chans, e matei dois melros, que trago aqui na bolsa. Apenas para me entreter e gosar a manhã que está muito linda, e fazer vontade ao almoço. Entrei por aqui dentro sem pedir licença...
—Ora essa! Não precisa! Quando quizer, não só o meu aido está ás suas ordens para passear, mas tambem a minha casa está sempre aberta para o receber.
—Muito obrigado! Muito obrigado!
—Olhe: vamos até lá e descança um pouco. Entretanto faz-se o almoço e...
—Oh! sr. José! Muito obrigado pela franqueza!
—Obrigado pela franqueza! Essa não é má! Nem pelo almoço eu quero que me fique obrigado...
—Mas deve comprehender que tambem devo ter o meu á espera em casa, e...
—Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...
—Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoçar duas vezes...
—Olhe que não faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz de almoçar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe fallo...{95}
—Oh! nem nisso se deve fallar. E já que assim quer, terei hoje o prazer de almoçar na sua amavel companhia.
—Vamos lá. Se estamos com ceremonias, não saimos d'aqui hoje.
E o velho, travando-lhe do braço, encaminhou-o para casa, que ficava a cerca de cem metros.
Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da agricultura d'aquelle anno, que promettia não ser fecundo, de pouca novidade, pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um anno de fome; applicou o adagio «se não chover em março e abril, venderá el-rei o carro e o carril».
—Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz «em março queimou a velha o maço; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a queimou; e ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho».
O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas considerações sobre a agricultura, de que não percebia nada, com monosyllabos, acênos de cabeça e breves repetições do que ia ouvindo. Por fim, a conversa incidiu sobre coisas de que já podia fallar, e, como quasi todos os individuos que, tendo nascido na lama, se vêem um dia deitados em leitos fôfos e voluptuosos e gostam de alardear os seus haveres, elle fallou dos seus negocios, das transacções dos seus capitaes, dos seus projectos da vida futura que tencionava passar, na aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade ao Lopes, onde andava já a construir uma casa, etc., etc.
Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.
—Helena! chamou o velho ao chegar a casa. O{96} sr. Velloso almoça hoje comnosco. Prepara-lhe o almoço.
Helena viera lesta ao chamamento do pae e recebeu com um encantador sorriso o seu hospede que, levando a mão ao chapeu, a cumprimentou com uma mesura envolvendo-a num olhar de sympathia.
O tio Alameda conduziu-o á sala, onde conversaram emquanto Helena, coadjuvada por Julia, prepara um succulento fricassé com ovos e linguiça.
Ás oito e meia chegavam João e Paulo do trabalho, jaqueta ao hombro, as calças empoeiradas.
—Helenasinha, perguntou João entrando alegremente na cosinha; está prompto o almoço?
—Sim senhor.—E acrescentou a meia voz: temos cá hoje um hospede para almoçar.
—Um hospede? E quem é?
—O brazileiro, o sr. Velloso.
—O sr. Velloso?! E a que proposito vem esse homem almoçar hoje cá?!
—Oh! parece que não ficaste contente! respondeu contristada. Estás zangado com elle, João? perguntou com visivel anciedade.
—Não, não estou. Mas parece que tu... parece que te preoccupas muito com elle?
—Ora! Isto é geito meu, respondeu com um sorriso; e, para occultar uma leve vermelhidão que lhe tingiu as faces, o que não passou despercebido ao irmão, affastou-se, dizendo:
—Ah! que já me ia esquecendo o estrugido!
Entretanto, Julia ia estendendo sobre a mesa a toalha, sorrindo angelicamente para Paulo que a contemplava apaixonadamente com o rosto entre as mãos e os cotovellhos apoiados sobre a meza.........
Terminado o almoço, o sr. Velloso despedindo-se{97} cortezmente e muito reconhecido pelas deferencias com que aquella excellente gente o tractara, e intimamente jubiloso pela retribuição de olhares ternos com que galanteara disfarçadamente Helena prometteu voltar uma vez por outra, fazendo ao mesmo tempo com antecipação o convite para irem egualmente á sua casa nova, logo que estivesse concluida.
—Isso ainda leva uns mêzitos, dizia o tio José. Segundo dizem, vae ficar uma obra bôa, e...
—Tambem me custa a modica quantia de tres ou quatro contos!
—Meu amigo! Trabalhou, para agora gozar. É porque Deus lhe achou merecimentos para isso.
O sr. Velloso encolheu ou com modestia ou com desdem os hombros, e, estendendo a mão ao velho, cumprimentou com uma venia a familia.
—Pois faz-me um grande favor em vir por aqui bastantes vezes para me entreter, dizia-lhe o velho, apertando na sua mão rugosa a mão macia do brazileiro. Um velho como eu, que já não pode ir trabalhar, estima sempre que lhe façam companhia, mórmente pessoas delicadas como o sr. Velloso.
—Afinal, continuou, voltando para dentro depois que o brazileiro partiu—dizem que é muito cheio de presumpção e vaidade. Não acho! Parece-me até muito boa pessoa! Muito cortez, delicado e parece ter muito bom coração. Parece muito bom sujeito.
—Parece muito bom sujeito, parece! repetiu quasi machinalmente, como num echo, Helena.
Paulo e Julia, a quem não passaram de todo despercebidos os olhares incendiados que o sr. Velloso deitava a Helena, trocaram um sorriso; e João, pegando no casaco, pôl-o ao hombro, e pondo-se a caminho, precedido de Paulo, murmurava comsigo:{98}
—Será muito boa pessoa, será! Pode até ser um santo! Mas... não vae á minha missa! Aquelle olhar não indica coisa boa!... E então a lôrpa da minha irmã a modos de... Isto de mulheres!... Ora faça elle alguma, e verá quanto peza um marmelleiro!... Pensa talvez que ainda está no Brazil? Experimenta! Experimenta, que o cacete t'o dirá!...
E caminhando alguns momentos silencioso, continuou, monologando, num intelligivel crescendo:
—Vêm para ahi com uns poucos de contos, ganhos sabe Deus como, e, sem se lembrarem que já foram uns pelintras, uns miseraveis, fazem-se então uns pedaços d'asnos que pensam terem o rei na barriga!... Ora vem para cá com as tuas basófias, que eu te ensino como se bate um lombo!... Tem então lá um palerma d'um visinho, mais chapado que um portão de ferro, que—Ah! Ah! Ah! até dá vontade de rir!—me vem dizer «que tome conta na Maria Luiza, que anda tôla pelo bisnaga! Que era só elle fazer um gesto, que a rapariga era d'elle! Que Deus me livrasse de elle tomar a peito fazer-me alguma desfeita!» Que grande bruto me saiste, Francisquinho das Neves! Que se livre mas é elle! Ah! Ah! Ah! A Maria Luiza! Que dois brutos me sairam o bisnaga e o Neves! Este, embruteceu com o dinheiro; o outro, embruteceu talvez pela grande vontade d'elle! Ah! Ah! Ah!
—Ó patrão! Então o tio Francisco das Neves disse-lhe essas coisas?!
—Pois tu vinhas ahi, rapaz?!... Diabo! Nem me lembrava de ti, homem. Não digas do que ouviste, percebes?
—Sim senhor.
—Tudo aquillo que eu vinha a dizer, é como se ninguem o ouvisse...
—Não ha duvida, patrão.{99}