Cenas da Aldeia

A. Augusto de Miranda · Capítulo 11 de 19

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Cenas da Aldeia

Capítulo X

 

O Francisco da Neves tornou-se o confidente do filho da sr.ª Quiteria de Jesus.

Com uma dedicação quasi servil que, geralmente, todos os imbecis prestam áquelles que, graças á plutocracia, têm o dom de os fascinar como um individuo, com o poder soporifero, hypnotisa a sua victima, o filho da tia Maria das Neves passou, por assim dizer, a exercer as funcções d'um cão fiel, prompto a defendel-o na primeira arremetida que lhe fizessem. Com uma differença, porém: o cão serve seu amo a troco do alimento que lhe dá, e o Neves dedicou-se ao Velloso de corpo e alma, imbecilmente, com a dedicação dos espiritos boçaes que se inclinam, sem mesmo saberem nem procurarem saber o motivo, a uma causa.

Confidente dos seus mais importantes negocios, elle estava ao facto das ninharias mais abjectas da vida intima do brazileiro.

—Francisco, disse-lhe este apenas chegou de casa do tio Alameda, após o que foi logo procurar o visinho—parece-me que estou apaixonado pela filha do Alameda.

—Vossa senhoria falla serio?! Onde a viu?

—Estive lá em casa esta manhã, e até me deram de almoçar. O velho é um bello homem, coitado. Mas o filho é que me parece pouco de brincadeiras! E é por isso que venho prevenir-te para que haja toda a cautela no negocio.{100}

—Pois então vossa senhoria, gostando assim, como acaba de dizer, da rapariga, ainda tem coragem de...

—És pateta! Mais motivos ha para desviar o rapaz. Eu gosto da irmã a valer. Sou até capaz de casar com ella: por isso tenho a obrigação de pugnar pela honra da minha futura noiva. Percebes?

—Perfeitamente. Diz vossa senhoria que...

—Digo que vou empregar os esforços para que o filho do Alameda deixe a tal Maria Luiza. Mas agora é preciso tento no jogo! —E, fallando mais confidencialmente, continuou—Eu vou, primeiro que tudo, vêr se engano a Helena. Não sei se me comprehendes...

—Muito bem. Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria sempre tem uma arte!

—Entretanto, vae vendo se despersuades o rapaz do que lhe disseste. Dize-lhe agora que fizeste aquillo, sómente para o rallar, que é para elle não andar de pé atraz commigo.

—Percebo muito bem.

—Depois... eu te direi, quando as coisas estiverem em bom caminho, o que has-de fazer.—E ajuntou com um sorriso malicioso: —E é mais uma sôpa que se molha... Porque a Maria Luiza ainda não é má de todo!...

—Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria tem uma arte! Tem uma arte!... É capaz de as levar todas a fio!...

—Pois tu não sabes, homem, que o dinheiro faz tudo? Acaso serei mais bonito do que os outros? Não! Ha até por ahi caras muito melhores do que a minha. Mas... bem vês que hoje o mundo não olha a formosuras... Isto em questões d'esta ordem. Mas, como te ia dizendo, tu, agora, nem mais um pio dás sobre{101} o caso: só dizes ao filho do Alameda que aquillo foi um gracejo da tua parte...

—Sei muito bem.

—Que é para eu cá dispôr as coisas á minha vontade.

—Já está mais que percebido.

—Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo lá a casa do Alameda, e a rapariga, que não parece desgostar de me lá vêr, ir-me-ha assim ganhando uma certa amizade... um certo amôr... até que...

—Vossa senhoria lá arranja! E, quando fôr preciso farejar...

Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia—ou talvez o dissesse instinctivamente!—a cathegoria do seu baixo mister.{102}