Cenas da Aldeia

A. Augusto de Miranda · Capítulo 7 de 19

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Cenas da Aldeia

Capítulo VI

 

Natal, eu te saúdo!

Quer a tempestade ruja lá fóra com indomavel fúria ameaçando prostrar as oliveiras tristes e a chuva fustigue e amarelleça as brancas e innocentes camelias do meu jardim; quer um sol claro e resplandecente e benefico paire no firmamento alegrando a natureza durante o dia, e á noite um docél azul marchetado de meigas estrellas se desenrole por sobre a minha fronte—eu amo-te, óh! Natal!

Amo-te, quer rias como uma creança loira perseguindo uma borbolêta que saltita de flôr em flôr, quer chores como um velhinho, acabrunhado pelos annos e de dorso curvado, chorando, sobre o netinho que acaricia no regaço, lagrimas de saudade!

És bello quando ris; mas o teu sorrir é forçado porque a tua alma é triste: e a tristeza encanta-me. Por isso eu amo-te.

És meigo e terno quando choras, porque as tuas lagrimas são sinceras, são o desabafo de mil amarguras, de mil saudades. E as lagrimas são uma doçura tão intima, e tão celeste! Por isso eu adoro-te.

Amo-te nas aguas frias do Vouga que corre melancholicamente lá em baixo por entre os salgueiros entristecidos; amo-te nas arvores despidas de folhagem destas collinas; na monotonia destas varzeas e destas lezirias, e na atmosphera tépida da cosinha do bom lavrador que olha com carinho a familia reunida em volta da lareira; amo-te, finalmente, em{56} tudo o que, inspirando tristeza e melancholia, segreda á minha alma attribulada mil poêmas de amôr, mil recordações da minha infancia!

Viver de esperanças é um viver de incertezas e de decepções; cada dia que desponta é um sorrir velhaco e traiçoeiro cuja hypocrisia a nossa alma incauta e offegante não vê.

Viver de saudades e um viver mais suave, mais santo; é um viver, por assim dizer, morto, porque a nossa alma, com o ultimo golpe, já não tem alento para novas esperanças e decepções; o sol já não tem aquella expressão pérfida que nos ludibriava, e cada dia que passa é uma conta do rozario das nossas recordações que a nossa alma alanceada percorre orando e offerece ao Creador.

E tu vives de recordações e de saudades. Oh! Natal! Viver santo, viver celeste!

Ha mil novecentos e oito annos que uma creança, tenra e mimosa como os nenuphares do poetico Jordão, veio lançar sobre a humanidade obcecada os raios da luz vivissima que jorrava de seus olhos celestes. Nas miseras palhas onde nasceu essa creança—tão pobre como a mais pobre de todas as creanças, podendo, se quizesse, ser a mais opulenta—tu nasceste tambem: tiveste o mesmo leito, e o recem-nascido bafejou-te com o halito vivificante da sua bocca divina.

E desde esse momento, não obstante o rolar dos seculos, conservaste sempre a frescura innata que recebeste d'esse halito sacrosanto. O teu nome, envolvido duma auréola fulgente de luz divina, é proferido com amôr por todos que têm no peito um coração que soffre.

E tu viverás sempre, oh! Natal! emquanto no mundo houver uma mãe que beije com ternura o{57} pimpolho fecundado no seu ventre e existir um infeliz; que chore uma lagrima!

*

* *

O dia de Natal amanhecera triste e soturno.

Atravez da escuridão que desapparecia lentamente, o vulto d'um casarão se desenhava ao fundo do adro, semelhante a um gigante enorme, muito velho já, com uma das mãos levantada para o ceu, numa attitude de misericordia.

Era a egreja com a sua torre.

Que velhinha! Que velhinha!...

Nas suas paredes, cobertas de lichens, ella está recordando com mágoa as innumeras intempéries que têm zurzido o seu dorso, e, extenuada, profundamente abatida, parece impetrar do céu a piedade que dos homens ingratos não tem conseguido obter...

O dia amanheceu triste e sombrio, ia eu a dizer.

Durante a noite tinham caido grandes e consecutivas bátegas de agua, e o ceu, como que cançado, apresentava um aspecto soturno.

Ao longe, para o oriente, a serra do Caramulo, na negrura das nuvens que sobre ella se encastellavam num espesso e elevado nimbo, parecia elevar-se muito alta.

Os eucalyptos da alameda contigua ao adro eram encrespados pelo soprar, em pequenas lufadas, do vento do sul, e por sobre a aldeia repercutiam-se, com maior intensidade para o norte, as ondulações sonoras que partiam do sino que chamava os fieis para a missa da manhã.

Á esquina do adro, o Facca, abrindo uma das{58} portas da loja, olhou sombrio para o ceu pardacento e resmungou:

—Hum!... Temos mais môlho!...

Uma mulher, encafuada num mantelête, conduzia uma pacifica vacca que puxava a uma carroça. Acampou no adro e, depois de ministrar á vacca uma ração de pasto, affastou uma das extremidades do tolde que cobria a carroça, deixando a descoberto uma parte da sua mercadoria, que consistia em hortaliças.

Á entrada do recinto que cerca a egreja, uma outra mulher, collocando no chão um cêsto de castanhas cosidas e uma ceira de figos, sentou-se num pedregulho, á espera de freguezes.

O sachristão abriu a porta principal da egreja, e d'ahi a pouco tempo, embrulhadas em chales pretos, duas beatas, semelhantes a duas almas penadas, depois de, ao passarem pelas vendedeiras da hortaliça e dos figos, mastigarem, numa linguagem cantarolada, um «Deus vos dê muito bom dia!», entraram, benzendo-se seraphicamente, com o pé direito na egreja.

Dentro d'esta, encantadoramente recostado num presepio collocado num dos altares do lado direito, o Menino Jesus sorria, pequenino e nú, com um sorriso infinitamente bom e amavel. Deitada graciosamente num presepio todo engalanado e alumiado, essa pequenina estatua divina estendia os braços, n'uma alvura de jaspe, como querendo abraçar a humanidade inteira num amplexo de amôr divino e paternal.

Ao lado do altar estava um grande cesto destinado a receber as offertas de pequeno lóte.

Os fieis começaram a affluir ao templo.

O velho prior...

—Que bom homem que elle{59} era! Que candura d'alma se reflectia sempre naquellas pupillas que se fixavam nos nossos olhos cheias de amôr e affabilidade! Com que bondade me pousava a mão na cabeça, era eu pequeno, afagando-me com palavras de indizivel doçura que só as sabe pronunciar quem tem uma alma predestinada que encontra o bello ideal na contemplação das tres perfeições naturaes—creanças, musica e flores!

Elle appareceu, com a expressão jovial de sempre, envolvendo num olhar carinhoso todo o ambito da egreja com as pessoas que já lá estavam, e ajoelhou na escada do altar-mór, inclinando humilde e religiosamente a cabeça encanecida.

Assim permaneceu um quarto d'hora; depois, o capellão veio, já a egreja estava cheia de gente, paramentado e abrindo alas docemente por entre o povo que enchia a capella-mór.

Depois da missa, elle revestiu-se d'um pluvial e dirigiu-se para o altar onde o Menino Jesus estava reclinado no seu presepio.

O sachristão abriu a umbella emquanto o sacerdote pegava no Menino, e o povo começou a entoar o Bemdito.

Todos então, homens e mulheres, affluiam a depositar um osculo de amôr, acompanhada d'uma genuflexão, nos pésinhos, que pareciam pinhões, d'essa pequenina estatua que o padre segurava cautelosamente e com respeito nas mãos, acompanhando cada genuflexão que faziam d'um «Natus est nobis».

Finda a adoração, que durou cerca de meia hora, o adro regorgitava de gente que aguardava o leilão das offertas.

Um homem dos seus quarenta annos, de aspecto agradavel, subiu para uma das extremidades do{60} muro que veda o recinto em volta da egreja, e, pegando numa abóbora, exclamou, sorridente:

—Vale bem sete vintens! Para mais, e não para menos!... É massiça e deve ter pouca pevide! Isto para filhoses, é de estalo!

—O dia das filhoses foi hontem.

—Todos os dias e todas as noites se fazem filhoses. Eia! Está em sete vintens!...

—Oito! gritou um do lado.

—Oito vintens! repetiu o pregoeiro. Oito! Oito! Oito! quem dá mais?... Oito!...

—Nove!

—Nove vintens! Não ha coisa mais barata! Eu não a fazia nem por nove mil reis!

—Mas comial-a de graça, mesmo assim crúa!

—Coma-a você. Não sou seu irmão. Nove vintens!... Nove!... Nove... uma. Nove... duas. No...

—Cento e oitenta reis! gritou um, meio chocarreiro.

—Cento e oit...—Vá p'r'ó diabo! São os mesmos nove vintens. Quem dá mais? Nove... uma. Nove... duas. Nove...

—Abóboras?

—...tres!—Vá p'rá missa.—Assentem alli ao snr. Manuel da Silveira.

Vieram depois mais aboboras, cujo leilão decorreu sempre no meio de inoffensivas zombarias do mesmo theor.

Cebôlas, borôas, garrafas de vinho fino, pés de porco, tudo appareceu no leilão.

—Ora até uma gallinha cá appareceu! Cinco tostões! Se ninguem a comprar fico eu com ella.

—Para comer, ainda hoje, mais a sua Francisca, hein?...{61}

—Tomaria você que eu o convidasse tambem. Cinco tostões!

—Seis!

—Seis tostões! Está pezadinha. Seis tostões e meio a mim!

—Sete tostões.

—Sete! Mau! Já não fico com a gallinha!

—Veja se tem ovo. Se tiver, dou mais dez reis.

—Não metto o dedo onde você costuma metter o nariz. Sete tostões! Sete! Sete tostões, uma. Sete... duas. Sete... sete... tres! Acolá ao tio Manuel Joaquim.

Chegou a voz ás quinquilharias e brinquedos. Appareceu um caixinha coberta de setim, fechada.

—Que linda caixinha! dizia o pregoeiro mirando-a por todos os lados. Parece que foi feita por mãos de fada! Não vale menos de cinco tostões. Está fechada e deve ter qualquer coisa bôa cá dentro!

—Abra! Abra! Queremos saber o que tem dentro!

—Querem saber?! Comprem-na! Vale bem cinco tostões e... e... tres—vá lá!—pelo que tiver.

—Nove tostões! gritou de longe uma rapariga.

—Ah! Estás com o olho nella? Não que ella é bonita, lá isso é! Nove tostões!... Nove tostões!...

—E meio, disse o snr. Silveira.

—Nove tostões e meio! Só o setim vale o dinheiro. Depois, isto cheira a... cheira a não sei ao quê que tem cá dentro...

—Dez tostões! repetiu a mesma rapariga.

—Estás morta por ella, diabo! Deixa estar, que se a não comprares, hei-de dar-te uma caixinha mais linda que esta. Dez tostões!

—Mais um vintem, disse o snr. Silveira.{62}

—Dez tostões e um vintem! berrava o pregoeiro, mostrando a caixa para todos os lados.

—Onze tostões! gritou de novo a rapariga.

—Estás desesperada! Onze tostões!...

—E meio!

—Onze tostões e meio!

—Mil cento e cincoenta! gritou outro zombeteiramente.

—Falle claro, se quizer que o entenda. Onze tostões e meio! Eh! rapariga? Então tu?

—Um quartinho! disse ella.

—Um quartinho. Vá lá! Um quartinho! Quem mais dá? Isto deve ter amendoas dentro. Pelo cheiro... com certeza. Um quartinho! Um quartinho, uma. Um quartinho... duas! Que linda! Que linda! Até é uma pena ir para as tuas mãos, rapariga! Um quartinho...

—Tres!

—...tres!—Não preciso cá de ponto.—Acolá para aquella cachópa.

A linda caixinha passou de mão em mão até á compradora.

Todos admiravam as côres garridas do setim que a cobria, e apinhavam-se em volta da rapariga, anciosos por saber o que encerraria a caixa.

Presa a uma fita estava uma chave que foi applicada á fechadura. Todos, em bicos de pés, aguardavam a surpreza.

A chave deu volta... A rapariga levantou a tampa e de dentro saltou uma coisa que poz em murmurinho todos os que se apinhavam em redor.

Era um rato.{63}

*

* *

Retrocedamos á vespera do Natal, á noite da conçoada—a noite tradicional da confraternisação de todos os corações que, ligados pelo sangue e pelo amor, se reunem para, na santa simplicidade aldeã, offerecerem em holocausto a Deus, concretisado na pessoa d'um infante prestes a descer á terra, o que de mais puro e sincero ha nos seus corações transbordando do mais acendrado amôr divino.

Penetremos em casa do tio José da Alameda.

Antes de passarmos á cosinha, detenhamo-nos alguns momentos na sala, para contemplarmos um pequeno altar, profusamente allumiado, com um presepio onde um Menino Jesus parece estar suspenso numa nuvem de camelias brancas, tão brancas, tão puras, como pura era a alma de quem com tanto carinho e desvelo as collocou alli.

Fôra Julia quem se encarregára da confecção do altar, em que gastou duas horas.

Colhêra, no pequeno jardim que estava entregue aos seus cuidados, as camelias mais brancas e menos damnificadas pela frieza das chuvas, e alli, naquelle altar, as collocára uma por uma, pacientemente, com um angelico sorriso nos labios e nos olhos uma ternura em que se traduzia a candura da sua alma.

Ao terminar a sua tarefa, corrêra, cheia de contentamento, a chamar todos os da casa para verem a sua obra.

—Muito lindo! Está muito lindo! dizia-lhe o tio José, passando-lhe paternalmente a mão pela cabecita loira. Dou-te os meus parabens por teres tanta habilidade.{64}

—Logo, depois de ceia, vimos para aqui fazer serão? perguntou, radiante, Julia.

—Decerto! Havemos de vir fazer companhia ao Menino Jesus até á meia noite, que é para elle ser sempre muito nosso amigo! Agora vamos para a cosinha, emquanto a ceia se faz.

E ella deitou a correr aos saltinhos, adeante d'elle.

O coração sempre é um grande artista! Aquella creança, ha tres mezes ainda, tão triste, tão pensativa... Oh! o amôr! o amôr!...

É que Paulo e Julia amam-se.

Lançadas no berço da orphandade, essas duas almas, como dois infelizes que se encontram no mesmo caminho, contaram as suas maguas, compadeceram-se mutuamente, comprehenderam-se, deram-se as mãos, acalentaram-se, amaram-se e proseguiram juntas, não já pelo caminho agreste que as martyrisava, mas por uma vereda em que os espinhos tem a suavidade das rosas, em que já não ha agruras, onde tudo são madresilvas e violetas rescendendo um aroma inebriante. Esqueceram as desditas passadas para gozarem, juntos, os beneficios d'esta nova phase que a Providencia lhes deparou; e, junto d'esses dois lyrios, transportados d'uma encosta arida para a beira d'um fresco arroio, nasceu uma trepadeira de flores odoriferas, que os enleou, ás quaes flores um anjo, transformado em uma abelha, vem diariamente haurir o dôce nectar e o leva ao seio de Deus...

Paulo e Julia amam-se com um amôr todo ideal; amam-se com aquelle amôr dos corações predestinados que amam uma só vez na vida.

Occultando, o mais possivel, aos olhares estranhos a impulsão que os anima um para o outro, esses{65} corações, quando sós, estudam-se mutuamente, em conversas banaes, conversas de creanças apaixonadas que não se atrevem a manifestar-se o seu amôr; mas nesse natural retrahimento, nessa timidez que os retem muitas vezes em silencio sem ousarem quebrar o encanto que sentem na contemplação mutua das suas almas, durante esse silencio em que cada um d'elles só ouve o ruido do pulsar do seu coração, as suas almas fallam, entendem-se, estudam-se, amam-se cada vez mais...

Penetremos tambem na cosinha.

A formosa Helena prepara, sobre a meza tôsca, a massa para as filhoses; com as mangas do vestido arregaçadas deixando vêr os seus bem torneados braços até ao cotovello, falla e ri com a sua peculiar jovialidade.

Na lareira, em volta d'uma fogueira onde arde um grande cepo, estão sentados o tio José, Julia, João, e, na extremidade do banco, Paulo.

O tio José entretem a familia com historias alegres que fazem rir todos, excepto o João que, com o olhar fito num ponto do brazido, parece alheio ao que se passa em volta de si. De vez em quando, despertando da sua abstracção, olha para o pae, passeia o olhar em roda, e volta a mergulhar-se nas suas reflexões.

—Ó paesinho! diz Helena ao pae, que acaba a narração d'um conto; isto está quasi prompto: agora é preparar a certã e fazêl-as. Mas, emquanto as faço, o pae ha-de contar aquella historia tão engraçada que nos contou o anno passado.

—Que historia?... Eu já me não lembro do que contei hontem...

—Aquella de um demonio que andava ás almas na noite do Natal e que, tendo ido a casa d'umas{66} pessoas que eram muito bôa gente, teve de fugir, porque se arriscava a ficar na certã das filhoses mais rilhado que um torresmo. Lembra-se?

—Ah! Ah! Ah! Bem sei! Bem sei! Essa historia ouviu-a eu contar á minha avó, era eu pequeno. Ha que tempo lá vae isso!... Mas como era o principio? Lembras-te?

—Tambem já não sei! Tu sábel-o, ó João?

O João pareceu despertar d'um sonho.

—O quê?!...

—Em que estavas tu para ahi a scismar, homem? perguntou o pae, risonho e bondoso.

—Eu?... Estava a pensar em... que... Esava a vêr o que amanhã hei-de levar ao Menino Jesus—disse elle sorrindo, admirado da sua inspiração.

—Ora! O que lhe has-de levar? Leva-lhe uma abobora menina e duas ou tres linguiças. Têm muito bôa venda no leilão.

—Eu é que arranjei uma caixinha linda para lhe dar; acrescentou Julia. Não é bonita, Helena?

—Gosto muito d'ella. Mas olha que é preciso metter-lhe qualquer coisa dentro. Amêndoas, por exemplo.

—Ah! É verdade! Não me lembrava!

—Esperem! Eu encarrego-me de arranjar uma coisa para lhe metter, disse do canto Paulo.

—O que é? O que é? perguntou com curiosidade Julia.

—A caixa é muito linda, ou é assim, assim?

—Oh! é toda coberta a setim de duas côres! E com fitas de seda muito chics! Helena que diga.

—A caixinha até é mal empregada no leilão, disse Helena, porque póde ir parar ás mãos de quem a não saiba apreciar e a não estime.

—Bom! disse Paulo com resolução. Pois nesse{67} caso mais graça tem a brincadeira. É uma coisa que vou metter dentro da caixa amanhã de manhã, e que vae fazer rir ás bandeiras despregadas toda a gente que estiver no leilão. Porque, indo fechada, hão-de ter a curiosidade de vêr o que vae dentro. Ella tem chave?

—Tem; vae presa a uma fita. Mas o que é, Paulo?

—É um rato!

—Ah! Ah! Ah! Tiveste bôa lembrança, e...

Na porta da cosinha soaram duas pancadas surdas, e uma voz um tanto aldrabada chamou de fóra:

—Ó tio Alameda! Você não dá um caldo e dormida ao Belbuth?

—Ah! o Belbuth! exclamou Julia batendo as palmas, e erguendo-se pressurosa a abrir-lhe a porta.

Elle entrou, tartamudeando umas «boas noites» e todos o acolheram jubilosamente.

Deixemos o Belbuth conçoando com esta bôa gente e alegrando-a com narrações de episodios da sua longa vida de miseravel, e entremos na casinha modesta da Maria Luiza, que está triste e pensativa...

Triste e pensativa?! A Maria Luiza de ha tres mezes?!

Sim. Essa mesma rapariga, desembaraçada e alegre, que, no arraial do Santo Estevam, supplantara o João da Alameda, o cantador invencivel; a mesma da desfolhada, em que ella gosara o exclusivo do seu abraço, goso momentaneo que foi a origem de mil dissabores.

Na lareira da sua cosinha arde uma pequena fogueira, a cuja claridade a Maria Luiza costura debruçada: e a mãe, já velha, talvez de mais de sessenta annos, com uma roca a tira-colo, faz ainda girar o fuso entre os dedos com facilidade.{68}

As telhas, denegridas do fumo, e as paredes, de egual aspecto, dão um tom de tristeza áquella mansão de paz e socego.

No poste da chaminé, está dependurada uma candeia de lata, cuja luz, nos estertores da agonia, bruxoleante, augmenta a taciturnidade do aposento.

—Vae deitar petróleo naquella candeia, Maria, disse a mãe.

Ella levantou-se, deitou um olhar para a porta, ministrou á candeia o almejado liquido que fez soluçar a luz, tornou a olhar com olhos de anciedade para a porta da cosinha, e voltou á sua costura, dando um suspiro.

Porque olha ella tão insistentemente, perguntará lá para si o leitor, para a entrada do seu tugurio, e porque toma ás vezes no peito tanto ar, que ao expelil-o, semelha a aragem da tarde a agitar brandamente, em suave murmurinho, as espigas maduras d'uma ceára?

E porque é que tu, leitor ou leitora, vaes algumas vezes, em noites serenas, para a tua varanda ou para o aido, sósinho, a contemplar as estrellas, procurando espalhar, na immensidade do infinito, as mágoas que suffocam o teu peito?

Impressiona-te a concentração do espirito d'essa rapariga que, outrora, sempre de expressão radiante, espalhava em volta de si a alegria, como uma flôr odorifera espalha o aroma pelo ambiente dum jardim?

Segredos do coração.

Sim: o coração, pequeno como é, pratica obras estupendas. Fazer de Maria Luiza de ha tres mezes a Maria Luiza de hoje, é uma obra que eu colloco na ordem dos impossiveis.

Pois o impossivel realisa-se?

Realisa. É um exclusivo do coração.{69}

O pae severo impõe as mais terminantes ordens de reclusão á filha enamorada. Fecha-a na alcôva, e volta com a chave, que colloca, juntamente com a do portão, debaixo da sua cabeceira.

Dorme descançado, porque a janella é alta e, a dar-se a evasão, o gradeamento, difficil de transpôr, torna impossivel a fuga.

O sol, de manhãsinha, ergue-se sorridente de sarcasmo no horisonte e penetra, pelas portadas entre-abertas da janella, na alcova do pae que accorda e leva a mão ao sitio onde guardara, na vespera, a chave do seu thesouro.

—Cá estão! monologa somnolento e carrancudo.

—E ella? a tua andorinha?..., murmura-lhe ao ouvido um raio mais chocarreiro do sol.

Elle despreza a chufa e volta-se para o outro lado, a saborear, descançado, o somno da manhã.

Quando accorda, já o sol vae alto, esfrega os olhos, levanta-se pezado de avareza e vae abrir a porta á sua andorinha...

Oh! decepção cruel! A linda andorinha voou de noite, atravez da escuridão, por esses ares fóra!

É que o coração vôa quando quer. Não tem elle azas?

É um grande artista. Os maiores prodigios que têm assombrado a humanidade são obra sua.

Pegar numa pedra muito tosca e muito dura, desbastal-a a cinzel, dar-lhe a fórma de um homem, polil-a e collocal-a num altar, tornando-a de penedo tantas vezes maltratado em um santo que se venéra, é possivel a qualquer artista.

Polir uma alma... só o coração.

A Maria Luiza d'outr'ora e a Maria Luiza d'hoje, differem entre si como a peccadora de Magdalo{70} differe da penitente que está osculando e orvalhando de lagrimas os pés do Nazareno.

Mas... quem espera ella?

O João do tio Alameda. Aquelle que, num rasgo de generosidade e de amôr, se compadeceu d'ella; porque, desde a noite d'aquella desfolhada em que ella tivera o privilegio de ser abraçada por elle na presença das companheiras que tentaram disfarçar a inveja que lhes causára, a Maria Luiza começou de ser envolvida numa mephitica atmosphera de maledicencia. Esta nasceu da inveja, e a inveja começa por sua vez quando se tem o reconhecimento da inaptidão ou da inferioridade.

Se se podesse obter de um invejoso resposta á pergunta «porque invejas?» elle diria inevitavelmente «invejo porque valho menos».

Mas o invejoso não fica por aqui.

Dado o primeiro passo na senda das depravações, prosegue.

Assim como uma alma cultivada na pratica da virtude e por ella purificada, sente um ineffavel e celeste prazer em praticar novas e consecutivas virtudes, assim um espirito maligno, um coração embotado pelas acções vis, sente um infernal prazer em percorrer a escala das depravações.

Abyssus abyssum invocat.

Imagine-se um vaso cheio de agua pura, em que se lhe deitam algumas gôttas d'um liquido venenoso. A agua crystallina, que até então poderia dar a vida a quem se debatesse nas ardencias da sêde, affectou-se das propriedades mortiferas da peçonha que, de mollecula em mollecula, foi affectar, com o seu terrivel contacto, o puro liquido.

Meia duzia de linguas depravadas infectaram tambem com a peçonha da maledicencia as linguas{71} restantes da freguezia; e a honestidade da Maria Luiza, como a flôr branca da açucena açoutada pelo vento cortante da tempestade que não consegue prostral-a no lodaçal que ameaça conspurcar as suas petalas de pura cambraia, foi maltratada pelo vento cortante d'essa maledicencia.

João comprehendeu a situação de Maria, e não hesitou em collocar ao abrigo do seu peito essa flôr que, por sua causa, tinha sido exposta ao rigôr das intempéries.

—Maria—disse-lhe a mãe depois de um muito prolongado silencio; são horas de deitar. O João não vem cá hoje decerto, o pae talvez o não deixe sair, porque, nesta noite, todos os paes querem a familia reunida em volta de si.

—Mas vá a mãe deitar-se, que eu espero ainda um pouco. Falta-me além d'isso ainda aqui uma bainha, e entretanto acabo-a. Talvez não falte...

Como deve ser ditoso ter esperança num coração que nos ama!

Deve ser tão ditoso esperarmos num coração que nos estremece, como penosa deve ser a deseperança num coração que idolatramos.

João amava Maria Luiza; ella bem o sabia, porque não ha ninguem que melhor leia nos olhos do homem apaixonado do que a mulher amada. E a mulher sabe, por instincto, que um homem não tem a habilidade com que ella finge um sentimento que está longe de possuir.

O João não havia, pois, de faltar. Não tinha elle sido sempre pontual em vir ministrar ao seu coração o alento de que tanto necessitava para não desesperar de viver?

Que significavam tres mezes de constantes provas de amôr, de tantas promessas e juramentos que{72} no auge da sua paixão, elle lhe fizera, traduzindo no olhar incendiado todo o fogo que lhe devorava o peito?...

Uma lufada mais forte de vento soprando nas arvores da rua arrancou-a á sua profunda meditação e fel-a olhar para a porta. Olhando depois em volta, viu-se só. Engolfada nos seus dôces pensamentos, nem notara a retirada de sua mãe.

O vento continuava sussurrando lá fóra, semelhante ao gemer do mar, e a porta já gasta da choupana rangia ao embate de cada rajada mais forte.

No sino da egreja de Eirol soaram onze longinquas e monótonas badaladas que Maria Luiza contou em crescente anciedade do seu coração impaciente.

—Onze horas!... Já tão tarde!... E elle sem vir!...

Ficou perplexa, a olhar para o sobrado, e estremeceu ao som de tres leves pancadas na porta.

Com certeza que não era o bater de João que ella tão bem conhecia, porque o coração começou a pulsar-lhe violentamente e ella, sem se levantar, perguntou, entre admirada e sobresaltada:

—Quem bate a esta hora?!

Em resposta, ouviu o ruido de uma bastonada applicada talvez á cabeça d'um homem, a seguir um gemido, e após isso a fuga de duas pessoas que se perseguem.

E nada mais ouviu, que as pulsações agitadas do seu coração sobresaltado e o sussurro do vento a soprar nas arvores do caminho e nos salgueiros sobranceiros ao Vouga.{73}