Cenas da Aldeia

A. Augusto de Miranda · Capítulo 6 de 19

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Cenas da Aldeia

Capítulo V

 

Na vasta eira do tio José da Alameda haviam-se despejado quatro enormes carradas de milho para ser desfolhado numa bella noite, cheia de luar, dos fins de setembro.

O Paulo tinha sido encarregado de convidar as raparigas, do que se saiu optimamente, pois que affluiu alli o que de melhor havia no genero no logar.

Eram oito horas, e já uma boa duzia de alegres moças estavam a contas com o monte, numa satisfação propria da mocidade em occasiões de folguedo.

Alguns rapazes iam chegando tambem, chamados pelas gargalhadas das raparigas.

Não é uso convidal-os. «Elles cá virão ter» é a phrase consagrada. Effectivamente, elles, de ouvido á escuta, collocam-se nas encruzilhadas. Ouvindo cantar ou chegando-lhes ao ouvido o alarido das vozes nas desfolhadas, ahi vão como o cão de caça farejando o rasto do coelho até lhe dar com a cama.

—Eia! vamos lá a isto! gritava o João da Alameda, alapardando-se entre a Maria Luiza e a Joanna Mulata. Isto é dar-lhe! Isto é dar-lhe! Em uma ou duas horas está tudo prompto! Havemos de bailar ahi hoje até ao sol fóra!

—Viva o rei dos cantadores da nossa terra! gritou um que chegou nesse momento encafuado num gabão.

—Viva! gritaram todos.

—Obrigado! obrigado! dizia com bondade o{45} João. Mas olha lá, ó tu do gabão! Nós aqui não queremos caras encobertas. Tira o capuz da cabeça e senta-te p'rahi como os outros. Já todos sabem que aqui, ás nossas desfolhadas, só se vem de cara descoberta.

—E se eu não quizer? perguntou com falla ventriloqua o disfarçado.

—Se não quizeres, replicou o João meio azedo, vaes já pelo caminho por onde vieste.

Todas as vozes se haviam calado, e o individuo retrucou, meio insolente:

—Ah! Ah! Ah! Sempre gostava de vêr isso!

O João da Alameda levantou-se colerico sem attender aos rogos dos circumstantes nem ao gesto da Maria Luiza que, a tremer, lhe puxou pela jaqueta.

Os rapazes imitaram-no levantando-se promptamente, e seguiram-no dispostos a expulsar o insolente para evitar algum dissabôr maior.

O João dirigiu-se ao atrevido e este, na occasião em que elle estava a dois passos, atirou o gabão ao chão, dizendo risonho:

—Olá, patrão?

O João da Alameda, vendo na sua frente Paulo, deteve-se como se uma visão lhe houvesse de repente apparecido.

Ficou-se a olhar para elle, e todos com palmas, gargalhadas e motejos inoffensivos, o decidiram a voltar para o seu logar.

—Boa partida! Ah! Ah! Ah! gritavam de todos os lados.

—Olha o espertalhão do rapaz!

O Paulo ria-se e foi-se sentar junto do monte de milho, contente com a sua brincadeira que fez «ir á serra» o filho de seu amo.{46}

O alarido restabelecera-se, e o João, fuzilado pelas chufas das raparigas, continuou alegremente a sua tarefa.

O numero dos desfolhadores, augmentado pelos que iam affluindo ao local, elevava-se já a algumas dezenas.

O montão de milho, ripado de todos os lados por aquellas dezenas de mãos, desapparecia a olhos vistos.

—Ora Deus vos ajude, disse uma voz pausada e trémula.

Era o tio José que chegava, acompanhado de Helena e da sua pupilla, trazendo numa das mãos uma tripeça.

—Viva, sr. José!

—Então tambem vem tomar parte na desfolhada ao pé da gente nova, hein?

—Com'assim!... É para me recordar dos meus tempos passados.

Entretanto ia-se ageitando na tripeça, entre Helena e Julia que ficara junto a Paulo, e proseguiu, puxando por um pé de milho:

—Porque um homem, quando chega á minha edade, que outra coisa póde fazer, para se não entristecer e não pensar na morte que se approxima, do que alimentar o seu espirito com recordações dos tempos passados, fingindo-se ainda nesses tempos que foram e não voltam?... E será este o ultimo, quem sabe?...—ajuntou num tom contristado, dando um suspiro.

—Ahi vem o pae com coisas tristes! disse do lado, estouvadamente, Helena. Não se quer cá tristezas! Quer-se alegria! Ora tapa a boquinha alli ao pae com uma cantiga das tuas, ó João!

Todos approvaram a ideia de Helena, e o tio José, sorrindo bondosamente, submeteu-se.{47}

—Sim, sim! Uma cantiga! diziam.

—Muitas cantigas, muitas, ó João!

—Haja animação! Viva a mocidade! Eh! rei dos cantadores! Sae-te com uma das tuas!

O bondoso rapaz, encolhendo os hombros em signal de resignação, preparou-se para cantar.

Todos se calaram. Só se ouvia o murmurio produzido pelo rasgar simultaneo das camisas de dezenas de espigas e o som monotono d'estas a cair nos cestos de vime.

O João pegou num pé de milho, deitou um olhar de soslaio á Maria Luiza, e cantou na sua voz sonora:

 

—De tantas estrellas que ha

Por'hi além nesses ceus,

Eu não encontro nenhuma

Comparada aos olhos teus.

 

E todos, unindo as suas vozes, d'entre as quaes sobresaía uma esganiçada em falsete, repetiram em côro, que se repercutia de valle era valle, os dois ultimos versos da quadra:

 

Eu não encontro nenhuma

Comparada aos olhos teus.

 

Elle continuou:

 

—Ás ondas dos teus cabellos

Gostava de me atirar;

Teus olhos, faróes de esp'rança,

Haviam de me salvar.

 

E o côro repetiu:

 

Teus olhos, faroes de esp'rança,

Haviam de me salvar.{48}

 

—Isto é com a Maria Luiza, cochichou uma á sua visinha da direita.

—É, é! Se fosse de dia, havias de vêr a cara de malaguêta com que ella deve estar.

 

—E do que morrer amando

Se não ha nada mais bello,

Queria amando morrer

Nas ondas do teu cabello.

Queria amando morrer

Nas ondas do teu cabello.

—Amei um dia uma estrella

Que vi lá no ceu brilhar:

—Serei tua, me disse ella,

Mas has-de vir-me abraçar.

Serei tua, me disse ella,

Mas has-de vir-me abraçar.

 

—Dia de Natal hei-de ir

Ao menino perguntar

Qual será a rapariga

Com quem eu hei-de casar.

Qual será a rapariga

Com quem eu hei-de casar.

 

—E se não me responder,

Pedirei a S. Joaquim

Me dê a Maria Luiza

Tão babadinha por mim.

 

O ultimo verso foi quasi abafado por palmas e gargalhadas e dictos dos circumstantes. A Maria Luiza baixou a cabeça, e, com effeito, se fosse á luz do dia, vêr-se-lhe-ia o rosto tingir-se de uma côr purpurina.{49}

Na mesma occasião, um bando de rapazes que, ao approximarem-se do local da desfolhada, se occultaram a ouvir o cantador, aguardando o final dos seus improvisos para o acclamarem, sairam do seu esconderijo e appareceram juntando ao alarido as suas exclamações e motejos inoffensivos dirigidos á Maria Luiza que, na opinião d'elles, encavacara.

—Ora deixem-se d'isso! deixem-se d'isso! Dizia o tio Alameda. Quero que se divirtam, cantem e riam, mas nada de fazer «ir á serra» a ninguem.

Os recem-chegados dispozeram-se todos em volta do monte que já estava reduzido a metade.

No meio da confusão d'aquellas vozes em que sohresaiam as estridulas gargalhadas das raparigas, entre tantos corações jovens que, pondo de parte todas as preoccupações, só cuidavam de dar curso ás catadupas do ardor que d'elles dimanava, havia um coração joven, um coração de quinze annos, amavel como o de um anjo e puro e sensivel como uma camelia de cambraia fina.

Julia, desde o principio da desfolhada, parecera estar alheia a todo o enthusiasmo que reinava em volta de si.

Paulo notou essa abstracção e, pondo de parte as attenções ao seu genio folgazão, perguntou a Julia, com voz terna e compassiva.

—Então a menina para que está sempre assim triste? Nem ao menos agora se alegra? Ha já mais de um mez que está nesta casa, e ainda não houve um dia em que estivesse alegre!

Julia respondeu ás palavras compassivas e ternas de Paulo com um olhar agradecido e ao mesmo tempo tão dôce, que elle, sentindo na sua alma umas vibrações extranhas e no coração umas palpitações que jámais sentira, baixou os olhos como uma creança{50} envergonhada. Á luz da lua, que dera em cheio no rosto de Julia, elle vira-lhe nos olhos duas lagrimas, e nos labios brincar um sorriso candido de reconhecimento; e na expressão desse rosto, no conjuncto das lagrimas com o sorriso angelico desse rosto encantador, Paulo esqueceu-se de si, do logar onde estava, do mundo onde entrara pela porta da infelicidade, e julgou ouvir dentro de si uma musica celeste, de harmonias extranhas; pareceu-lhe que, num sonho, vagueava sem saber por onde, talvez pelas nuvens, e que só via deante de si esse rosto...

Despertou do seu curto êxtase, e olhou para Julia, que sorria para elle, muito mais bella do que d'antes, com os seus cabellos loiros brilhando como fios d'oiro e com os seus olhos azues que pareciam dois ceus pequeninos toldados de nevoas.

—Oh! a menina chora?... pôde elle articular.

—Você, Paulo, parece ter muito bom coração; por isso deve entender que tenho razão para estar triste, quando todos aqui riem e cantam. Você ainda tem pae e mãe?

—Não sei!... murmurou elle quasi imperceptivelmente e profundamente triste.

—Não sabe?!... disse ella verdadeiramente admirada.

—Não, porque nunca os conheci... Julia, intrigada, ficou a olhar para elle. Julgou que estaria gracejando com ella, mas, vendo a sua expressão de verdadeiro pezar, perguntou:

—Então é porque lhe morreram quando você era pequeno?

—Não sei!...

—Você quando para aqui veio que edade tinha?

—Doze annos.

—E até então onde esteve?{51}

—Estive em casa da mulher que me criou. Essa é que me disse que meus paes me tinham abandonado quando nasci...

—Abandonaram-n'o?!... Que corações tão duros! E você não chorou quando ella lhe disse isso?

—Não, porque nunca os tinha conhecido. A ella me habituei a chamar mãe e outra não conheço.

—E você gostava de conhecer seus paes?

—Gostava!... disse elle num murmurio, tão intimamente triste, que Julia não se atreveu a fazer-lhe mais perguntas.

A animação em volta d'elles continuava. Passados momentos, Paulo tomou uma expressão resoluta e disse:

—Já vê a menina que eu tenho mais motivos para chorar, porque sou mais infeliz, e comtudo não choro!

—É verdade, Paulo. Você tem razão. Não torno a chorar! Hei-de agora esforçar-me por ser alegre como você.

—Ena! cá está uma! gritou, vibrante, a voz de João que, em pé, empunhava uma espiga vermelha. Um abraço! Vou já dar um abraço a cada uma!

Fôra a Maria Luiza que atirara, a occultas das suas companheiras, uma maçaroca ás mãos do João.

Este dispunha-se a abraçal-as e ellas, com intenso gaudio intimo, preparavam-se para receber o seu abraço.

Porque, afinal, não havia alli nenhuma que não sentisse o seu fraco pelo João do tio Alameda. Pois se elle era um rapaz forte que nem um tirante e com um coração como o de uma pomba! E que bem elle cantava! Depois, juntava a todos estes dotes um bom par de geiras que já herdara da mãe e outras tantas que o pae lhe havia de deixar.{52}

Ora, um rapaz assim não era mal empregado na Maria Luiza, uma pobretona, sem um palmo de terra? As outras assim pensavam, e com alguma razão.

As leis da attracção da riqueza são as mesmas dos corpos celestes. «A materia attrae a materia na razão directa das massas e na inversa do quadrado das distancias» disse Newton. Esta lei rege as riquezas, com a differença porém, que na gravitação universal não ha excepção alguma do que resultaria algum cataclysmo que nos dava que contar; e na lei das riquezas ha as suas excepções, de quando em quando.

Antes as não houvesse, porque se evitariam grande desgraças. O pobre, embora inspire paixão ao rico, nunca este o olha como um ser egual a si. Nas mulheres, pelo menos, que é onde a vaidade humana se concentrou mais impetuosa, o amôr pelo pobre não é mais que um passatempo ephemero, um capricho que se evola ao embate das primeiras reflexões em que a vaidade serviu de juiz.

Póde ella, em virtude duma mais pronunciada sensibilidade do coração, submetter-se a esse capricho. Mas um coração d'esses é tão difficil de encontrar como as perolas no oceano Atlantico.

Não admira, pois, que a affeição do João pela Maria Luiza não inspirasse ciumes ás suas companheiras. Ellas riam-se no seu intimo da illusão em que a rapariga parecia andar, e, maliciosamente, occultavam-lhe os seus pensamentos, aguardando a desillusão da sua doidice, como lhe chamavam.

Todas com intenso gaudio intimo, se preparavam para receber o abraço do João da Alameda, disse eu.

Elle dirigiu-se á Maria Luiza, emquanto ia dizendo:{53}

—Começo por ti, rapariga, já que estás aqui mais perto. As outras que vão esperando.

E depois cantarolou:

 

—Chuchem agora no dedo,

Mas é tudo sem maldade:

São apenas brincadeiras,

Tudo proprio d'esta edade.

 

E voltou para o seu logar.

Os rapazes acclamaram e bateram palmas.

—«Bella partida!» diziam de todos os lados. Ellas, encolhendo os hombros desdenhosamente, ruminavam o seu despeito, fingindo não darem importancia ao caso.

No rosto de algumas deslisou um sorriso contrafeito, e, entretanto, a desfolhada terminou.

*

* *

O sol, no hemispherio opposto, tinha já brilhado no zenit dos nossos antipodas quando começou a retirada dos nossos personagens.

Na eira, desoccupada com presteza depois da desfolhada, dançara-se alegremente na mais dôce expansão d'aquellas almas inflammadas do ardor da mocidade.

A lua, recolhendo ao seu leito, convidou o nosso jovial bando a seguir-lhe o exemplo.

Na retirada, formaram-se varios grupos alguns dos quaes foram cantando pela estrada fóra; outros, cedendo o logar do enthusiasmo da mocidade á maledicencia, ventilavam, atravez o fôsco prisma da inveja, o caso da Maria Luiza.{54}

—E que vos parece?! dizia, contraindo os labios em signal de surpresa e admiração, ás suas tres companheiras a Joanna Mulata, que, tão proxima do João como a Maria Luiza, não podera levar em paciencia que elle preferisse esta a si. E a lambisgoia d'aquella Maria Luiza, hein? Um mocetão d'aquelles, gostar d'uma delambida assim!

—Ora! Vocês tambem fiam-se em boas!

—Pois decerto! dizia a terceira. Que pretende ella d'elle?

—O que pretendeu, segundo ouvi dizer, inventou a quarta.

—Sim?!

—É verdade! E vocês não viram, inventou ella de novo, aquella grande descarada dar-lhe um beijo quando elle a abraçou?

—Sério?!

—Deu! Eu vi! Não admira, pois, que, segundo as famas que correm, elle se mostre assim para com ella. São rapazes! o que querem é...

—Pois decerto!

—E faz elle muito bem! Quando ellas são assim, é bem feito!

—Que grande descarada!

—Cara sem vergonha!{55}