Cenas da Aldeia

A. Augusto de Miranda · Capítulo 15 de 19

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Cenas da Aldeia

Capítulo XIV

 

 

No mesmo dia, á tardinha, no campo, o João da Alamêda gradava uma terra que, durante o dia, tinha lavrado. Lançara-lhe a semente e procedia, com a grade, á cobertura dos grãos.

Á frente do gado andava Paulo, de aguilhada ao hombro, com a sóga numa das mãos.

O tempo continuava claro e sereno.

O immenso tapete de flôres que se estendia no campo apresentava já, de onde a onde, uma interrupção: aqui e alli, uma terra, resolvida, sobresaía no meio d'aquella superficie florida como no azul do ceu uma ou outra nuvem pardacenta.

É neste mez que o campo se despe do seu variegado tapete de flôres: mas, em substituição, cobre-se d'uma camada de milho verde que, agitado pelas brizas, nos dá a ideia d'um extenso e placidissimo lago mansamente encrespado pelo vento brando. E no meio d'esse pittoresco lago de verdura—permittam-me a expressão —apparecem, de onde a onde, como bandos de cysnes, ranchos alegres de rapazes e raparigas; elles, despidos dos casacos, com as camisas brancas a lusir entre o verde dos milharaes; ellas, de lenços garridos amarrados graciosamente em volta da nuca fluctuando ao sopro da aragem; todos cantando, sacham o milho pequenino e tenro, desde o despontar do sol até ao crepusculo da tarde. Á hora da sesta, depois da refeição do meio dia sorvida á sombra deliciosa dos salgueiraes, uns estiram-se{124} para dormitar sobre a relva mimosa, outros, collocando-se em circulo, jogam qualquer jogo de regaço, sempre em alegria e folgança honesta; e ainda outros, mais irrequietos e folgazões, saltam para um d'esses bateis que se encontram a cada passo atracados ás margens do Vouga, e vão passear pelo rio.

O João da Alamêda terminou a sua tarefa ao pôr do sol. Collocaram a charrúa e a grade sobre o carro, jungiram as vaccas, e pozéram-se a caminho de casa, Paulo á frente, guiando o carro, e João atraz.

Ao passar á porta da Maria Luiza, João olhou para a janella onde ella, todas as tardes, costumava estar, e não a viu.

—Está talvez lá para o quintal, pensou. Pois vou fazer-lhe uma surpreza!

E, com um sorriso do satisfação, metteu por uma cancella contigua á casa, pé ante pé, esperando encontral-a e rir-se de a vêr surprehendida.

Espreitou para dentro e não viu ninguem. Machinalmente, entrou no pequeno quintal, e parou. Viu a porta, que dava para a cozinha, aberta, e dispunha-se a entrar, quando lhe pareceu ouvir um sussurro de vozes vindo d'um pequeno alpendre que estava ao lado do quintal.

—Ah! Está ali mais a mãe. Pois vou metter-lhes um sustosinho.

E dirigiu-se para lá, com precaução, para não ser presentido.

O alpendre era constituido por um telheiro formado de duas paredes: a do fundo, e a lateral, que era a mesma da cozinha, e no angulo opposto ao formado por estas duas paredes havia um pilar construido de lages. Os vãos entre o pilar e as paredes estavam vedados por taipaes de madeira. Num destes{125} havia uma porta, e João ficou um tanto surprehendido ao vel-a fechada, devendo ser mãe e filha que lá estavam. Mas, de subito, percebeu que uma das vozes era de homem, ao mesmo tempo que o seu coração começou a pulsar precipitadamente.

Avançou até junto da porta, e escutou.

Ouviu a voz de Maria Luiza, compungida, que dizia:

—Sr. Velloso! Que Deus me perdôe o passo que dei! D'hontem para cá, tenho chorado talvez mais lagrimas que em todo o resto da vida. Eu não devia fazer o que fiz. O remorso pesa-me na consciencia duma maneira que não me deixa socegar o espirito.

João da Alamêda agarrou-se com uma das mãos a um barrote, e com a outra esfregou os olhos, como querendo certificar-se de que realmente não sonhava. Livido, os labios tremulos, conservou-se no seu posto a ouvir a mesma voz que proseguia:

—Deve comprehender a infelicidade que me espera, se acaso não tiver piedade de mim, se não cumprir o juramento que me fez!

—Nada mais prezo neste mundo que a minha palavra, Maria, respondeu a outra voz, a do brazileiro.

—Infames! murmurou, com os punhos cerrados, o João, luctando no seu intimo contra a tentação de arrombar aquella porta. Homem infame, e infame mulher! E, voltando-se, desvairado, com os punhos apertando a cabeça, cambaleando, murmurava:

—É assim que pagas tantos sacrificios que fiz por ti, mulher ingrata?! Tanta dedicação, tanto amôr?!...

E, chorando como uma creança, olhou mais uma vez para o alpendre. Depois, como tomando uma resolução, continuou:

—Não! Não quero manchar as mãos no sangue{126} d'um bandido! Que ganho com isso? E, como um ébrio, voltou pelo caminho que tinha tomado.

Era quasi noite, e perto da casa de Maria passou pela mãe d'esta, cuja saudação não ouviu.

Alguns homens que, de volta do trabalho, recolhiam a casa, e algumas mulheres, de cantaro á cabeça, davam-lhe as boas noites, que elle não retribuia.

Tinha sempre, para cada saudação, um dito gracioso acompanhado d'um sorriso; e d'aquella vez passava como um desvairado, o passo vacillante e apressado.

Ficavam-se a olhar para elle por momentos; depois, encolhendo os hombros, continuavam o seu caminho.

João, quando chegou a casa, não tratou de vêr, como era seu costume, se o gado estava recolhido e os utensilios de lavoura que tinham servido nesse dia estavam acondicionados. Entrou na cozinha, deu sorumbaticamente as boas noites, pediu que lhe levassem ao quarto uma escudella de agua mórna para lavar os pés, e, allegando uma violenta dôr de cabeça, despediu-se do pae e recolheu á alcova.

—Queres que te traga a ceia, João? perguntou-lhe Helena quando lhe foi levar a agua.

—Não; não quero. Não me appetece comer.

—Eu não sei o que tens, João! O Paulo diz que não te tinhas queixado no campo de incommodo nenhum. Diz que só se foi que te désse pelo caminho: que ficaste atraz...

—Pois foi no caminho. Olha, vou dizer-te uma coisa, que talvez te não seja muito agradavel, embora pretendas negal-o...

—Que é? perguntou Helena com anciedade.

—É o seguinte: mas digo-to só a ti, para não causar barulho, porque és tu só quem pode fazer o que te peço.{127}

E, esforçando-se por dar serenidade á voz que lhe tremia, proseguiu:

—Esse brazileiro, esse maldito brazileiro que ahi costuma vir, que nunca mais aqui appareça!

—Ah! pois tu...—perguntou Helena, meia aterrada. Não queres que...

—Sim! Que não volte cá mais, para evitar alguma desgraça!

—Ó João! Mas... dize lá: como o soubeste?!—E, entre a anciedade e a surpreza, repetiu—Como o soubeste?!

—Como o soube?! Oh! Essa é boa! Então, pelo que vejo, tu sabial-o, e...

—Então vistel-o sair?!...

—Diabo! Estás a modos... Mas se eu vi o quê?!

—O sr. Velloso... Como não queres que elle cá volte, para evitar alguma desgraça...

—Pois vi! E tu sabial-o, e não m'o tinhas dito!

—Se eu o sabia?! Mas eu não te percebo nem tu percebes a mim!

—Tambem me parece. Mas tu perguntaste-me se eu o tinha visto sair. D'onde?

—D'alli, do alpendre. Pois tu ainda agora disseste tambem que sabias tudo e que tinhas visto...

—Sim... Era isso o que eu queria dizer... E, abafando a colera que, contra o brazileiro, a revelação da irmã lhe suscitara, disse:

—E é por isso que eu não quero que elle aqui volte mais. Vae-te embora, que não paro da cabeça.

—Passa bem a noite, João. Até ámanhã.

—Até ámanhã. E não digas nada disto a ninguem.

—Descança.

João, ao ficar só, sentiu que tinha febre.

Atravez das suas ideias em desordem, só dois{128} vultos divisava distinctos: Velloso e Maria Luisa. Elle, o ladrão da sua noiva, o roubador da felicidade do seu coração, e, para epilogo de tanta malvadez, o pretendente roubador da... O Pretendente?! Quem sabe?! E esta ultima observação saiu-lhe distinctamente expressa por palavras, tal foi o abalo que sentiu dentro em si.

—Ah! Infame! Não! Tu não has-de ficar impune! Hei-de castigar-te de tanta malvadez! Miseravel!...

E, fazendo depois incidir o pensamento sobre a ingrata que calcara tão desapiedadamente aos pés o seu verdadeiro amôr, a sua dedicação extrema, atirou-se, soluçando convulsivamente, sobre a cama, chorando como uma creança.

*

* *

Nessa noite, Helena prevenia o brazileiro de que era preciso muita cautella com o irmão, que o tinha visto sair d'alli.

—Temo até que elle venha por ahi ainda hoje, Joaquim! Diz que está com uma forte dôr de cabeça; mas, ainda assim...

E o sr. Velloso, que vinha disposto a relatar a Helena os acontecimentos que, desde a véspera, tanto o apoquentavam, achou mais conveniente addiar a confidencia.

—Mas quando hei-de voltar, Helena?

—Não sei... É melhor deixarmos passar dias... O melhor, até, Joaquim, era tu chegares ao pé de meu irmão e dizer-lhe: «descança, João, que a tua irmã vae ser minha mulher». Oh! Joaquim! Quanto eu seria feliz!{129}

—Por estes dias, não, Helena. O motivo, depois t'o direi. Mas confia em Deus, e pede-lhe que nos auxilie para alcançarmos a felicidade.

—Pedir a Deus? Pois Deus póde lá oppôr-se á nossa felicidade, Joaquim? Deus deseja-o, e por isso não precisa que lhe peçam! Só se fôr para metteres a mão na tua consciencia, e...

—És louquiuha, meu anjo. Jureit'o. E que Deus me auxilie no cumprimento do meu juramento.

—Sim. Juraste-me que me havias de dar a felicidade. Queres então que peça a Deus para que te auxilie no cumprimento de tal juramento?

—Quero.

—Pois bem: pedir-lhe-hei... O coração, porém, annuncia-me coisas tão tristes!... Parece-me que nuuca serei feliz a teu lado, Joaquim!

—Se Deus o consentir, has-de ser!

—Mas eu não comprehendo bem as tuas palavras!...

—Não disseste tu que era conveniente que eu me retirasse por causa de teu irmão?

—Sim; mas...

—Mas é que o que te quero dizer, só poderei dizert'o com mais socêgo. Ámanhã, venho cá e...

—Não venhas... Ou antes: esconde-te ahi pela rua, ao largo, e só te approximas se eu abrir a portaria. Então, é porque meu irmão não saiu.

—Bem. Boa noite, Helena.

—Adeus, Joaquim! Até... quando Deus quizer!{130}