Cenas da Aldeia
Capítulo XIII
Maio florido, maio encantador e poetico, porque foste traidor?!...
Um sol cheio de vida espalhava-se por estas collinas verdejantes bafejadas por uma briza fagueira e meiga, semelhante ao halito da bôcca d'um anjo. Cada despontar do sol era precedido de uma longa e pittoresca symphonia executada por milhares de gargantas de passarinhos chilreantes, alegres como creanças. Estes outeiros, elevando-se garbosamente em ondulações suaves, eram tablados do mais colorido e pittoresco scenario—o magnificente scenario pintado pela mão da natureza, ao ar livre, com ramagens reaes e pujantes de seiva e frescura, debaixo d'um ceu offuscante de belleza.
Tudo era poesia, tudo era amôr.
O proprio Vouga, correndo por entre duas alas de salgueiros viçosos que se bamboleavam donairosos retratando-se cheios de vaidade na superficie polida das aguas, sorria-se para elles, com um sorriso amargo de despedida, beijando ternamente as franjas da sua ramagem verde que sobre elle se debruçava com carinho.
E tu, maio risonho, deixaste que um branco e puro lyrio que embellezava o teu jardim, roçasse as suas pétalas mimosas na terra negra e immunda!
Maio florido, maio risonho e poetico, porque foste traidor?!...{117}
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O coração humano e, em especial, o coração da mulher, é uma fonte de enygmas.
Maria Luiza, a flôr predilecta do jardim do amôr do João da Alamêda, o anjo tutelar dos sonhos doirados d'esse mancebo que nem talvez por pensamentos lhe tivesse profanado a candura, essa mulher que alcançara d'um coração bondoso quanto amôr se pode dedicar a um ideal e quanta dedicação se pode prestar a um ente que vê deante de si o cháos horripilante da desgraça e da miseria— Maria Luiza cedeu ás insidias do brazileiro, vergou á logica revoltante das suas palavras maleficas como a tenra açucena da encosta vergada ao sopro do Aquilão.
Desde então, parece que até a sua casa ficou com um aspecto tristonho, que o rouxinol que, de madrugada e á tardinha, ia cantar para defronte da sua janella, já não sabia canções alegres, e que os cordeirinhos, balando em volta das mães que pastam no campo, já não retoiçam como costumavam.
O triumpho, porém, que o sr. Velloso alcançou, longe de o contentar, foi contra a sua espectativa e contra a nossa, leitor, porque de noite, ao chegar a casa, o sr. Velloso encommendava ao diabo tal triumpho mais a lembrança que o visinho Neves teve quando lhe aconselhou tal coisa.
Nessa noite, ás horas do costume, compareceu á entrevista com Helena, a quem continuava a acalentar com a esperança de dias felizes passados na sua casa nova.
Nessa noite, porém, a demora foi curta.
Allegando uma forte enxaqueca que o tinha apoquentado todo o dia, retirou-se e recolheu a casa{118} onde, fincando os cotovellos sobre a meza, metteu a cabeça entre as mãos, e scismou mais de uma hora.
Parece que não tirou resultado da sua meditação—que era antes uma catadupa de pensamentos que se amontoavam no seu cerebro —porque, levantando-se mal humorado, pôz-se a passear agitado na sua sala de pavimento terreo.
Outra hora assim passou n'estes curtos passeios que, ligados, dariam para cima de uma boa legua, até que resolveu deitar-se.
Se dormiu ou não, é que ainda não sei. Elle o dirá ámanhã ao seu amigo Neves.
—Diabos te levem, dizia elle entrando, logo de manhã cêdo, no alpendre do visinho que, ao vêl-o entrar assim esbafurido, ficou com o machado, com que escavacava uma acha, levantado no ar— diabos te levem mais a lembrança que tu tiveste!
O filho da tia Maria das Neves poisou o machado no chão, e, appoiando sobre o cabo as mãos, ficou a olhar para o brazileiro, sem pestanejar, como quem não comprehendia nada do que ouvia; até que, passados momentos, perguntou, meio parvo, ao brazileiro que passeava apressado d'um lado para o outro no alpendre, retorcendo com uma das mãos o bigode:
—Que lembrança?!
O brazileiro parou, e, olhando para o Neves, respondeu mal humorado.
—Essa lembrança maldita que tu tiveste de eu ir perseguir essa rapariga que, afinal, estava mais pura que a tua lingua e as de toda essa canalha que dizia mal d'ella!
E continuou a passear agitado d'um lado para o outro.
O Neves abriu os olhos e a bocca de espantado, meio aparvalhado, e, depois de seguir machinalmente{119} com a vista, durante um bom meio minuto, os movimentos do brazileiro, gaguejou:
—Mas... Vossa senhoria falla sério?!...
—Antes não fallasse! resmungou o sr. Velloso, como fallando comsigo, e collocando, sem interromper a sua marcha, as mãos atraz das costas.
Seguiu-se um silencio egual, em que apenas se ouvia o ruido dos passos do brazileiro caminhando no pavimento terreo do alpendre.
O Neves tornou a interromper o silencio, perguntando:
—De maneira que a rapariga... não...
—A rapariga estava honrada como as mais honradas! É o que é!
Novo silencio. Foi ainda o Neves quem o interrompeu, dizendo n'uma especie de lamuria, muito pausado e sentencioso:
—Ora vejam vocês como ás vezes uma pessoa padece injustamente!... Quem havia de dizer!... Que ella tinha sido esta, tinha sido aquella, que se portava assim, se portava assado!... Já me não torno a fiar em nada que se diga!
—Pois se tu assim tivesses feito!...
O Neves calou-se áquella observação, feita á maneira de censura.
«Effectivamente, pensava elle comsigo, eu é que fiz mal em o metter em contradanças! Mas... sêbo! Eu não sabia! Nem tenho culpa do que se dizia! Sou culpado e não sou!... Mas... que raio de historia! Que diabo de mal tem isso?»
Foi sob a influencia d'esta ultima reflexão, que quebrou de novo o silencio, dizendo resoluto:
—Afinal... vossa senhoria está para ahi com uns taes incommodos por causa d'uma coisa que não presta para nada! Deshonrou a rapariga, acabou-se!{120} Uma coisa muito natural! Vossa senhoria tambem ficou deshonrado?
O sr. Velloso parou, e, olhando para o visinho, retrucou:
—Tu é que não sabes as coisas. Não é a deshonra que me incommoda! Já não é a primeira, nem a segunda, nem... eu sei lá! O diabo é que a nenhuma fiz promessa, sob minha palavra d'honra, de casar, caso a encontrasse pura, senão a esta. E eu, o que mais prezo neste mundo, é a minha palavra. Depois, ainda que não fosse isto, bastava só o remorso de lançar no desespero esse bello rapaz, sem necessidade nenhuma. Tudo por causa d'essas malditas linguas, que precisavam ser arrancadas, todas as vezes que se põem a fallar da vida alheia!
—Oh! senhor! Mas então...
—Então, o quê?
—Quero eu dizer que...—replicou o Neves coçando na cabeça, contrariado—que, se não quer faltar á sua palavra...
—Sim: e a outra?
E voltou a passear.
—A outra?! Tambem lhe deu a palavra d'honra?
—Não lhe dei a palavra d'honra, mas jurei-lhe por Deus que lhe havia de dar a felicidade, respondeu o brazileiro com voz abafada, sem se deter no seu passeio. E accrescentou—Além d'isso, a essa amo-a devéras!
O Neves, perplexo, olhava para o chão, sempre com as mãos appoiadas no cabo do machado.
—Na verdade, foi uma dos diabos!... E agora, que tenciona vossa senhoria fazer?
—Eu sei lá! Tenho dado voltas á mioleira, que nem sei como não endoideci. Esta noite, quasi que{121} nem preguei ôlho. Se pudesse casar com ellas ambas, casava.
—Mas o melhor é chamal-as a um accôrdo, e não casar com nenhuma...
—Qual accôrdo, nem meio accôrdo! És pateta, homem! Bem se vê que não tens pratica nenhuma de mulheres. Engalfinhavam-se uma na outra, que era o cabo dos trabalhos.
—Que diabo! Se se pudesse chamar essa gente toda a um accôrdo... Contar-lhe tudo, a bôa intenção que vossa senhoria tinha de salvar o rapaz da deshonra... finalmente, um accôrdo é que servia. Vossa senhoria está contra isso, mas é cá a minha ideia, e talvez désse resultado. Porque, combinadas as coisas, tudo ficava em casa, e...
O sr. Velloso parou, e reflectiu; depois respondeu:
—Parece que dizes bem. Contarei primeiramente á Helena o succedido. É uma facada que lhe dou no coração, mas que se ha-de fazer? O diabo é para o contar ao irmão. É capaz de matar a outra.
—Levando-o por bem, não faz nada. É um pobre diabo!
—Bem. Não ha remedio senão fazer isso. Esta só pelos demonios!
—Não foi das melhores, não, sr. Velloso.
—Porque afinal, mesmo que eu deixasse a Maria Luiza, o rapaz, vindo a saber depois a traição d'ella, levava-se dos diabos! Bom: vou até casa. Foste o culpado de tudo isto; mas, como foi na tua ignorancia, perdôo-te. Senão, tinhas de desemaranhar a meada.
—Oh! senhor! Pois eu... estava convencido, porque era tudo cheio! E ainda estou a pensar num caso: como diabo é que o João da Alamêda se conteve,{122} indo lá a casa todas as noites... Tareco impossivel! Mas... ó senhor Velloso! Vossa senhoria não se enganaria?
O brazileiro sorriu-se como um individuo que, perito num assumpto, ouve uma objecção; e, retirando-se, observou:
—Pensas que nasci hontem...
O Neves riu-se por sua vez; e, já sósinho, monologou, respondendo á observação do Velloso:
—Sim... Deves estar mais pratico nessas coisas do que eu...
E, levantando o machado, continuou a sua tarefa.{123}