Cenas da Aldeia

A. Augusto de Miranda · Capítulo 4 de 19

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Cenas da Aldeia

Capítulo III

 

O tio José da Alameda era uma bom velhote de perto de setenta annos.

Curvado pela dureza do trabalho de mais de meio seculo, dentro do seu peito rijo existia um coração sempre jovial e bondoso, cuja ternura se derramava em obras caridosas com que accudia aos infelizes, e uma alma candida que logo se manifestava na ternura do olhar com que a todos envolvia.

Enviuvara antes dos sessenta annos e possuia dois filhos: o mais velho, mocetão de vinte e quatro annos, era um rapaz cheio de vida, alegre e bondoso, a flôr dos mancebos da freguezia. O segundo filho era uma rapariga de dezoito annos—o terceiro filho do casamento do tio Alameda com a sr.ª Maria das Dôres—chamada Helena, possuidora de uns olhos que—não é por eu gostar de olhos escuros em rosto moreno—lhe diziam tão bem, naquelle seu troso trigueiro e encantador, que não havia rapaz nenhum na aldeia que não desejasse andar toda a vida perdido na escuridão d'aquelles olhos. E quando ria, deixava vêr, por detraz de dois labios nacarados que deviam ser dôces como favos de mel, duas filas de dentes brancos como a neve pura.

A familia do tio Alameda, além d'elle e dos dois filhos, compunha-se de um creado, rapazote de 17 annos, chamado Paulo, fallador e alegre, que para alli tinha ido aos doze annos; e de uma rapariga de quinze, uma pupilla que, orphã de pae e de mãe, encontrara nos braços do tio Alameda os carinhos paternaes que tão cedo lhe faltaram.{34}

Chamava-se Julia. Tendo ficado sem mãe aos cinco annos, a infelicidade vibrara-lhe novo e mais profundo golpe arrebatando-lhe, no principio da adolescencia, o pae que a estremecia e que era o seu unico amparo.

Foi então que a misericordia do tio Alameda se patenteou devéras; porque o moribundo, reconhecendo que a sua pobre Julia não podia ficar só no mundo, mandou, na hora extrema, chamar o tio Alameda e disse-lhe numa voz apagada e apertando nas suas mãos febris as do bondoso velho:

—Tio José... esse anjo, que ahi está a chorar... vae ficar sem ninguem no mundo...

—Descança, João; dizia-lhe o tio Alameda com as lagrimas nos olhos e limpando-lhe o suor que escorria da fronte ardente; descança, que a tua Julia fica na minha companhia.

O moribundo, em agradecimento, apertou-lhe a mão que segurava na sua que caiu pezada sobre o leito, e duas grossas lagrimas rolaram-lhe pelas faces mortalmente pallidas.

Desde esse dia, Julia ficou fazendo parte da familia do tio Alameda.

—Olha o que te digo, pequena—dizia-lhe elle carinhosamente uns dias depois da morte do pae. Tu agora és minha filha. Deus levou uma que eu tinha e mandou-te a ti em seu logar: voltei a ter tres filhos. Mas tu não has-de andar sempre a chorar! Isso são saudades, é certo, e as saudades dos paes nunca se acabam. Mas faze-me a vontade; eu não posso vêr ninguem a chorar.

E o bom velho passava-lhe com carinho a mão pela cabecita loira.

—Sabes? Eu tambem chorei quando era novo, quando não conhecia ainda o mundo. Mas depois{35} que comecei a tomar conhecimento d'este mundo todo de enganos, deixei-me d'isso. Se fosse a chorar todas as vezes que tinha motivo para isso, então não fazia outra vida.

A contradizer as suas palavras, duas lagrimas lhe assomaram aos olhos.

—Olha: vem para a cozinha. Vem para junto da Helena que está a fazer a ceia, e espairecer.

E pegando-lhe docemente na mão, obrigou-a a seguil-o.

—Helena? chamou elle ao transpor a porta da cozinha; é preciso que o Belbuth venha cá hoje. Quando os rapazes voltarem do trabalho, o Paulo que vá vêr se o encontra. Precisamos de nos rir um pouco com as suas chalaças, para distrahir esta pequena, que não faz senão chorar.

Quem não conheceu o Belbuth, em toda a freguezia, ainda não ha muitos annos?

Quem ha ahi que se não recorde d'esse velho, rijo como um pêro, e que contava cerca de cem annos quando morreu?

Apparecia em todas as casas onde lhe podessem dar uma côdea e uma tigella de caldo, ou um ninho no palheiro para passar a noite, em troca de reduzir a achas o tronco duma arvore, sempre com aquella physionomia austera e encarquilhada debaixo d'um chapeu velho que cobria dois ou tres barretes sobrepostos e enterrados na cabeça.

Chamavam-lhe tolo. Eu direi que era um «tolo com juizo». Sim; porque trabalhava. Um homem que, para receber uma esmola, offerece o braço, embora vacillante pela decrepitude, ao seu bemfeitor, tem o instincto de uma boa acção. E que melhor acção pode haver que o trabalho?

O Belbuth não era, pois, um tolo na verdadeira{36} significação da palavra. Não fazia diabruras. Não se ria frequentemente e sem motivo, como succede tantas vezes com quem se arroga de ter a massa encephalica em equilibrio. Os garotos atiravam-lhe pedras; eu tambem lhe atirei algumas. E elle que lhes fazia? Por instincto de defeza e de conservação, pegava tambem numa pedra ou num pau, e atirava-o, com phrenesi, pela estrada adeante, não reparando nos estragos que podia causar se viesse algum incauto. Era o unico indicio vago de loucura que lhe conheci.

Os garotos, em regra, embirram com os velhos. Se estes dão sorte têm para pêras. Era o que se dava com o Belbuth.

Tirado d'isso, era um velho austero que devia gosar, porque a merecia, a estima de toda a gente, em vista da sua edade avançada, e era, além d'isso, uma testemunha das guerras peninsulares, em algumas das quaes tomou parte.

Era para estes homens que os governos deviam tambem estabelecer pensões. Dando frequentemente um ordenado supérfluo a um glutão, que passa a vida regaladamente, em paga de meia duzia de assignaturas semanaes—e ás vezes nem isso!—, deixam morrer na miseria, depois de em vida serem escarnecidos— sómente porque eram pobres—homens que, outrora, no vigor da mocidade, perderam, por amor da patria, o amor ao sangue que lhes corria nas veias.

O Belbuth era apenas um miseravel, sem eira nem beira, possuidor dos farrapos que o cobriam e ganhos a trabalhar, tendo muitas vezes por habitação o ceu estrellado, sob o qual dormia, muitas outras vezes, entre dois lençoes de neve.

Limitando o campo da sua vida de vagabundo{37} á área d'esta aldeia, o Belbuth era um typo popular de genio differente do de Luiz de Paus—um outro vagabundo de espirito irrequieto, que vagueava ao acaso por esse mundo como um cometa errando no espaço, apparecendo de tempos a tempos no logar de Paus, d'onde era natural.

Sobre este contam-se vários episodios, alguns com bastante originalidade, revelando o mau instincto do seu agente.

Conta-se que o Luiz de Paus apparecia com frequencia, quando soffria crise o combustivel do seu apparelho digestivo, pelo quartel de cavallaria 10 em Aveiro, onde era muito conhecido dos soldados, que lhe matavam a fome com uma parcella que cada um tirava á sua lata de rancho.

Um dia passou por uma guarita onde um soldado estava de sentinella. O Luiz de Paus approximou-se, e, vendo a arma encostada—pois a sentinella estava a dormir—pegou nella e apresentou-se no quartel, tendo o pobre soldado do responder a um conselho de guerra.

Desde esse dia o Luiz de Paus nunca mais tornou a ter entrada no quartel.

Uma outra occasião, foi elle tocar os sinos a rebate numa freguezia qualquer, alvoroçando o povo todo.................

 

—Olha lá, ó Belbuth! Tu namoraste alguma vez?

—Se eu namorei alguma vez? O quê?

—O quê! Uma mulher! Pois que havia de ser, homem?

—Nada! Tive sempre mêdo desses demonios!

—Porquê? Fizeram-te algum mal?

—A mim não, porque eu nunca lhes dei confiança.{38} Depois que vi o que succedeu a alguns companheiros meus por causa de taes mafarricos, nunca as pude vêr. Quer saber, tio José, o que succedeu um dia a um camarada meu por causa d'uma rapariga?

—Conta lá.

—Aquillo, andam de combinação com o demonio! Um companheiro do meu regimento arranjou conhecimento lá com um d'esses demonios qualquer; quando veio ordem para o regimento partir outra vez contra os francêses, acolá para uma terra que já me não lembra, o rapaz desappareceu. Logo ordem para ser procurado antes do regimento partir, por esses campos e montes. Partiram umas poucas de patrulhas para diversos lados, e eu fiz parte d'uma.

«No segundo dia, foi a minha patrulha encontral-o num pinhal, alli para os lados de S. Pedro do Sul. Nós iamos perguntando se tinham visto um homem assim, assim: até que uma mulher, que andava a guardar umas cabras nos apontou um pinhal. Quando viu que não havia meio de nos escapar, poz-se de joelhos deante de nós, a chorar tanto, que era uma dôr d'alma!

«Prendémol-o e trouxemol-o, e elle contou-nos então pelo caminho que a tal desavergonhada é que tinha feito com que elle desertasse.

—«E então que é d'ella? perguntamos-lhe nós.

—«Essa maldita, como eu tinha de andar escondido, emquanto andasse em terras de Portugal, para me não conhecerem, enfastiou-se de tal vida e abandonou-me.

«Pediu-nos então elle que o deixassemos vir á vontade, jurando que nos não fugiria.

«Fizemos-lhe a vontade, e, na verdade, não nos{39} fugiu; mas, quando passavamos por uma ponte, atirou-se abaixo, e já o não tornamos a apanhar senão morto.

«Tivemos de dizer que o encontramos já assim, para não sermos castigados.

«E agora, diga lá, tio Alameda; eu, depois de uma coisa assim, podia lá olhar com bons olhos uma mulher?

—Mas ellas não hão-de ser todas assim! disse, a rir, Helena.

—Pois sim: não serão todas. Mas, como a gente vê caras e não vê corações, devemos jogar sempre pelo seguro; e quando se trata de mulheres, perde-se quasi sempre!....................................

 

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