Cenas da Aldeia
Capítulo IV
Era em setembro, num domingo em que se festejava o santo Estevam, cuja capella, assente na lomba do cabeço que se designa pelo nome do mesmo santo, domina, para o sul e nascente, um panorama gracioso entrecortado pela encosta de Travassô—uma encosta de aspecto taciturno, que olha com melancholia toda a região opposta simetricamente, sobre a qual se estende, beijada desde a manhã á tarde pelos raios do sol, a alegre Alquerubim.
D'essa lomba vê-se espreitar, por uma clareira entre Alumiar e a ponte da Rata, a região paludosa de que faz parte a magnifica e extensa páteira de Fermentellos. E para a esquerda, estendendo a vista por sobre o extenso planalto onde poisa a branca Mourisca, vê-se ao longe, desenhando-se nitidamente sobre o fundo azul celeste, a serra do Caramulo, com punhados de casinhas brancas a luzir no pardacento do sopé.
Nesse dia, o cabeço do Santo Estevam apresentava-se galhardamente revestido de alegres bandeiras que fluctuavam á viração da tarde como um bando de pombas.
O sol, declinando no horisonte, despedia-se, atirando, como ternos beijos, raios de calôr frouxo sobre o arraial onde a musica de S. João, disposta em circulo, lançava aos ares harmonias que eram levadas, por sobre montes e valles, a uma grande distancia.
Junto á capella, um rapaz de 24 annos, uma{41} viola a tiracolo, encostado a um varapau, ria e conversava alegremente com um grupo de moças.
Era o João do tio Alameda, o rei dos cantadores d'estes sitios.
Causava gosto vêl-o chegar a um arraial, viola em punho, encostar-se ao seu bordão, e, depois de passar levemente o dedo pollegar da mão direita pelas cordas da viola e ter dado tres ou quatro puxões numa ou noutra caravêlha para afinar o instrumento, começar a dedilhar um acompanhamento de fado. Punha-se a cantar e, entretanto, já cercado de curiosos, não tardava que uma voz feminina lhe respondesse de entre o circulo que o rodeava, e que logo se quebrava para dar passagem á atrevida cantadeira. Porque, na verdade, era um atrevimento bater-se com o João do tio Alameda.
A derrota era certa. Só havia uma que algumas vezes o levara de vencida: era uma rapariga tronchuda, com um palmo de cara regular, muito alegre e expansiva. Era a Maria Luiza.
Havia quem dissesse que o João se deixava algumas vezes vencer por ella; e com certo fundamento se dizia isto, porque, no olhar com que a envolvia, tão differente do que lançava ás outras, via-se claramente—porque o amôr não pode estar em segredo— que ella não lhe era indifferente.
—Olhae! lá acabou a musica! exclamou elle desandando para o meio do arraial.
Arrimou-se ao cajado, collocou a viola em attitude, dedilhou as cordas uma por uma, e, dando uma ultima demão á afinação, tirou um accorde.
Entretanto, uma compacta massa de espectadores o rodeavam— homens e mulheres, novos e velhos, anciosos todos por presenciarem o debate do «rei dos cantadores» com a Maria Luiza, a sua rival...{42} Porque ella lá estava, fresca como uma alface e risonha e purpúrea como uma papoila, em frente d'elle que a envolvia num olhar todo affectuso e terno:
—Se tu soubesses, menina,
Quantas 'strellas ha no ceu,
Saberias quantos suspiros
Dá por ti o peito meu.
A sua voz era sonora e forte e elle cantava moderadamente, de maneira a ser ouvido pelo grupo todo.
A Maria Luiza, fitando nelle um olhar de victoria, respondeu-lhe sorridente:
—Que importa o que diz um louco,
Se falla sem sentimento?
Cartas d'amor são papeis,
Palavras leva-as o vento.
—Bravo! exclamaram do grupo.
—Sim, senhor!
—Responde-lhe agora, ó João!
—Essa chegou p'ra ti! Hein?
Elle sorria, como congratulando-se com a victoria do adversario.
—P'ra que vaes, pois, ao sermão,
Ouvir o padre prégar!
Palavras leva-as o vento,
Acabaste de o affirmar.
—Ah! Ah! Ah! Salvou-se, o maganão!
Mas ella não se atemorisou, e replicou, sempre no mesmo tom:
—Palavras santas, eu ouço-as
Com amôr e devoção;
As que Satanaz profere
Não me entram na coração.
{43}
Quando terminou o debate, já o luar inundava o cabeço de Santo Estevam.
O arraial limitava-se ao grupo de curiosos, dos quaes muitos tinham retirado, que rodeava os nossos joviaes contendores.
O João da Alameda rendeu-se mais uma vez, isto é, Maria Luiza alcançou mais uma victoria sobre o invencivel cantador que, no seu intimo, exultava com estas derrotas que, se lhe faziam perder terreno quanto á sua reputação de eximio cantador, lh'o faziam ganhar por outro lado.
Quando todos se retiraram, aos bandos, cantando, em alegre expansão do ardôr da mocidade, o cabeço lá ficou, na solidão da noite, triste, com as bandeiras esmorecidas e a capella branca a luzir no alto, allumiado pelo frouxo luar que parecia querer minorar-lhe as saudades d'aquelle ditoso dia que só se repetiria d'ahi a um anno...{44}