Cenas da Aldeia

A. Augusto de Miranda · Capítulo 16 de 19

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Cenas da Aldeia

Capítulo XV

 

 

No dia seguinte, ao toque das almas, João da Alamêda envergava o seu capote e, pegando no marmeleiro—seu inseparavel companheiro nocturno—saiu de casa. Deu a volta á Herdade, no que gastou cerca de um quarto d'hora, e, na volta, na estrada dos eucalyptos, se se tivesse affirmado bem para um ponto do escuro das arvores, teria notado uma negrura mais densa. Fôra o Velloso que escolhera aquelle ponto para seu posto de observação, donde se descortinava, atravez da negrura daquella noite sem luar, o vulto da casa de Helena, divisando-se no seguimento da estrada esbranquiçada e sobre o fundo do ceu allumiado pelas estrellas.

João passou e, proximo de sua casa, coseu-se com a escuridão do cômoro fronteiro.

O brazileiro, no seu posto, não ousava respirar mais fortemente.

Um silencio sepulchral se seguiu. Nem um sussuro de vento se ouvia nas folhas das arvores.

Passou-se meia hora, e mais outra. As dez horas soaram, lentas e quasi imperceptiveis, na torre de Eiról.

Ás dez e meia, João saía do seu esconderijo e mettia-se em casa.

Um quarto d'hora depois, o brazileiro punha-se tambem a caminho, e nada mais se ouviu na estrada deserta.{131}

*

* *

O sr. Velloso, com a preoccupação de espirito que lhe causaram estes acontecimentos imprevistos, e consummido no seu intimo por não saber que resolução havia de tomar, pois, emquanto não entrevistasse Helena acerca do succedido, nada poderia resolvêr, faltou á entrevista na tarde do dia seguinte a Maria Luiza.

Esta que, no dia antecedente, occultava a sua mãe as lagrimas que o remorso lhe fazia verter, chorava agora com ella as suas infelicidades, attribuindo a causa das suas lagrimas á ausencia de João, cuja causa não comprehendia.

Sua mãe acalentava-a, insuflando-lhe esperança no amôr de João que, se faltara um dia, algum incommodo lhe sobreviera, porque na vespera, á hora das Ave-Marias, encontrara-o proximo d'alli, quando elle voltava do campo, e não respondera á sua salvação.

—Sentia-se talvez incommodado..., accrescentava.

—A mãe que diz?! Encontrou-o...

—Encontrei-o alli acima.

—Hontem?! E a que horas?... perguntou Maria com expressão de terrivel anciedade.

—Ao toque das Ave-Marias.

E Maria, alanceada por uma suspeita que lhe opprimiu dolorosamente o coração, occultou o rosto nas mãos, debulhando-se em lagrimas.

A esse dia seguiu-se outro de crescente anciedade e soffrimento para Maria Luiza, durante o qual nem fallar ouvia de Velloso, nem de João, de quem se recordava com o coração amargurado e a alma mortificada pelo remorso.{132}

Sua mãe, que ignorava por completo a traição que sua filha perpetrara a João, attribuia as lagrimas de Maria ao soffrimento que lhe devia causar a ausencia de quem não tinha a menor noticia, porque não ousava interrogar ninguem a seu respeito, para se não expor a algum riso ironico; e, não achando outro remedio que pudesse alliviar a afflicção em que a via, resolveu, sem o communicar á filha, ir a casa do tio Alamêda saber da saude de João, pois outro motivo não podia haver que o impedisse de sair, senão a doença.

Custava-lhe muito isso, mas, como João tinha já dito que seu pae não oppunha obstaculo algum á affeição do seu coração, encheu-se de animo, e foi no mais firme proposito de expôr ao tio Alamêda as razões imperiosas que obrigavam o seu coração de mãe a dar aquelle passo, que ao terceiro dia, se dirigiu para lá, eram dez horas da manhã.

Encontrou o velho sentado no alpendre a aparar um pedaço de páu de sobreiro para uma chavêlha.

—Sr. José, Deus vos dê muito bom dia!

—Muito bom dia, sr.ª Rita.

—Deve admirar-se de me vêr por aqui, não é verdade?

—Com effeito, é uma novidade. Ha que annos vocemecê cá não vem! E ha que tempos tambem que a não vejo!

—Não admira... Eu, passo a vida lá em baixo, quasi nunca venho cá para cima...

—E, nem que viesse, tambem me não veria facilmente. Eu não saio do meu aido, porque já não posso, estou velho.

—Está acabado. Velho não. Mas ao menos tem a consolação de viver em socêgo, com os filhos ao pé de si, que lhe querem muito. {133}

—Pois elles, coitados, não têm motivo para me quererem mal. Fiz por elles o que pude...

—Decerto. Foi sempre bom pae para elles. E elles, tambem, têm sido uns bons filhos.

—Graças a Deus... Não sairam dos peores, não senhora.

—Olhe, sr. José: com'assim, para o não estar a maçar mais, vou dizer-lhe o motivo que me trouxe aqui...

—Dirá...

—Sei que o sr. José não é desconhecedor da affeição do seu filho João pela minha filha, e da grande generosidade que elle tem praticado para comnosco, que Deus sabe o que seriamos agora se não fosse o seu bom coração...

—Sei. Elle, coitado, tem um bom coração, lá isso tem! Mas admitto-lhe isso, porque, emfim, parece que a sua filha não é nenhuma ingrata que não reconheça a dedicação d'elle, e não deixa de ser digna d'isso, apezar do que para ahi diziam...

—Linguas do mundo, sr. José! Linguas do mundo! Sabe como é o mundo, e por isso...

—Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se é um rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado é. Emquanto que um pobre...

—Pois é isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou uma grande affeição á minha Maria, e, até hoje, ha já sete mezes, faltou só tres vezes á noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de Natal—na noite de ceia—e hontem e ante-hontem. Como faltou estes dois ultimos dias sem nós sabermos o motivo, a rapariga tem-se lá desfeito em chorar, que até me retalha o coração.{134}

—Pois olhe que eu não sei o motivo...

—Então elle não está doente?!

—Não. Ante-hontem á noite é que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas fortes dôres de cabeça, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de manhã, levantou-se e foi para o trabalho.

—Sim?!

—É verdade.

E a mãe de Maria Luiza teve de retirar-se, mais preoccupada ainda do que viera, não comtudo sem pedir ao velho que expozésse ao filho a anciedade de sua filha, que não podia adivinhar a causa de tal procedimento.

Quando, ao meio dia, João e Paulo chegaram, de enxada ao hombro, do trabalho, o pae chamou João ao alpendre e participou-lhe que a mãe de Maria Luiza tinha ido havia pouco tempo d'alli, onde tinha vindo, muito contristada, saber a razão porque ha dois dias elle não dava parte de si á filha que outra vida não fazia senão chorar.

—Sim? perguntou, ironicamente João. Coitada! Pois que chore, que quanto mais chorar menos urina! A mãe quer saber a razão porque lá não vou? Pois que o pergunte á filha, que o sabe tão bem, ou melhor, que eu!

—Vê lá, João! Não sejas injusto. Deixar-te-hias agora por ultimo levar por contos...

—Não, meu pae. Tenho muita razão para assim proceder, e outro, no meu logar, procederia d'outra fórma.

E o tio José, por sua vez, ficou tambem impressionado com as palavras do filho, sem outra conclusão ter tirado que a suspeita de qualquer acontecimento grave que viesse transtornar a felicidade d'aquelles dois seres que tanto se amavam.{135}

Nesse dia, á tardinha, um mendigo entregava occultamente uma carta a Helena.

Esta, em virtude dos acontecimentos que a impediam ha tres dias de fallar com Velloso, e preoccupada, além d'isso, com as palavras d'elle, cuja significação não alcançava e traziam o seu coração amargurado por uma terrivel angustia, tinha emmagrecido.

O corpo resente-se do soffrimento da alma. Recalcando no seu intimo a dôr que a pungia, esse esforço ia a pouco e pouco affectando-a phisicamente. Uma unica consolação encontrara para a mágua: as lagrimas—esse terno confidente dos infelizes—que vertia a sós na reclusão da sua alcova, que lhe alliviavam as amarguras do coração mas lhe desbotavam as côres do rosto e tarjavam de roxo as cavidades dos olhos.

Foi num mal dissimulado alvoroço intimo que recebeu das mãos do mendigo a carta, vinda da parte de Velloso.

Correu ao seu quarto e leu:

«Minha querida Helena: Ha tres dias que passo uma vida tão cheia de tristezas, que não podes imaginar. Na esperança de te fallar, todas as noites vou pôr-me á espreita da tua casa, a vêr se vejo abrir-se essa portaria que é para mim a porta do ceu. Em vez, porém, de te vêr apparecer como o meu anjo salvador, vejo teu irmão, que me espia, esconder-se na escuridão do muro fronteiro, e, depois de, durante cerca de duas horas de cruel espectativa, me conservar no meu posto de observação, vejo-o retirar-se.

Á minha tristeza motivada por te não vêr, junta-se a anciedade que tenho de te communicar um segredo. Este é de tanta importancia, minha Helena, e vae, com certeza, ferir de tal modo o teu coração{136} bondoso, que até receio de o confiar a uma carta. Mas farei as diligencias para que esta chegue ao seu destino; e, visto que não tenho outro meio de communicar-t'o, principio, pedindo-te que conserves a maior presença de espirito e confies em Deus para que não te faça desanimar á vista do que vaes lêr.

Quando cheguei do Brazil a esta terra, corriam por ahi uns boatos a respeito de teu irmão que se apaixonara por uma rapariga chamada Maria Luiza, que eu não conhecia. Dizia-se que ella fôra uma mulher leviana, e que por isso não era digna da dedicação de teu irmão, um rapaz querido e estimado de toda a freguezia; que este perdia muito no seu conceito se casava com ella, segundo constava. Como não me interessava com o caso, apenas lamentei a sorte de teu irmão, com quem eu não tinha relações.

Depois, porém, que te conheci, que te comecei a amar com este amôr louco que te dedico, pensei no caso, e achei que era necessario, para honra d'elle e minha, porque era irmão da minha noiva, affastal-o do caminho errado que trilhava. Resolvi eu proprio ser o seu anjo salvador. Convencido como estava, pelos boatos que corriam, de que Maria Luiza tinha sido uma fraca mulher, e que agora se mostrava outra para conservar teu irmão na illusão em que andava, resolvi que ella resvalasse ao lodoçal d'outrora, para que teu irmão, abrindo os olhos, visse a desgraça que estivera imminente de si.

Consegui, com effeito, graças ás minhas promessas, o meu intento. Jurei-lhe até que casaria com ella, se ella estivesse isenta das manchas de que a accusavam. E... cruel decepção! Maria Luiza estava pura, tão pura como tu, minha Helena, quando...»

Helena, que com difficuldade levara a leitura da carta até este ponto, sentiu uma nuvem toldar-lhe{137} a vista e, amarfanhando a carta, caiu de bruços sobre o leito num chôro convulsivo, murmurando em delirio, a voz cada vez mais apagada:

—A lua estava tão triste!... Um môcho, a piar mais triste, fez-me calafrios... E elle jurou-me que eu havia de ser feliz, muito feliz!...............

Quando voltou a si, o medico, com a sua peculiar expressão de bondade, tacteava-lhe o pulso, e ella, deitada no leito, olhou em roda, com olhar ancioso, e perguntou ao pae, sentado á cabeceira da sua cama:

—Pae?... A carta?...

—Está aqui, minha filha. Socéga. A agitação faz-te mal; não é verdade, sr. doutor?

—É verdade. Ella quer muito socêgo de espirito. É o unico remedio que lhe receito.

—É coisa de cuidado, sr. doutor? perguntou, profundamente commovido, o velho.

—Não. Não vale de nada. Ámanhã pode levantar-se. Mas has-de estar muito socegadinha hoje, ouviste?

Quando o medico se retirou, Helena perguntou ao pae:

—Leu essa carta, meu pae?

—Filha da minha alma, não ouviste o que disse o senhor doutor? Não te preoccupes com a carta, porque te faz mal. Socéga...

—Estou boa, meu pae. Alem d'isso estou resignada. Pareceu-me ouvir em sonhos uma voz que me animava e que me dizia que ia ser muito feliz: mas que era preciso abandonar o mundo, porque a verdadeira felicidade não é aqui. Já vê que não agito o espirito a modos de me fazer mal.{138}

—Mas não falles mais n'isso. Ámanhã fallaremos e...

—O pae leu a carta toda?

—Li... Quiz saber o motivo do teu desmaio... e até quem a leu foi o João.

—O João?! E que disse?!

—O João está socegado. Está na cozinha. Mas peço-te por amôr de Deus que não falles mais nisso hoje.

E, pegando-lhe numa das mãos, acariciou-lh'a, emquanto, com as lagrimas nos olhos, dizia:

—Faz-me a vontade, sim, filha?...

Helena prometteu: mas pediu-lhe ainda que queimasse a carta, cuja leitura não queria terminar. O pae fez-lhe a vontade.{139}