Cenas da Aldeia

A. Augusto de Miranda · Capítulo 12 de 19

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Cenas da Aldeia

Capítulo XI

 

Fins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de chuva, decorria garbosa e sorridente como uma creança.

Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das estrellas.

Um socêgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco adeantada da noite—eram nove e meia.

Na aldeia, os homens têm por norma a natureza: levantar com o sol e recolher com elle. Não ha o bulicio nocturno confuso e ás vezes estonteante dos grandes centros, com os seus pontos de reunião e cavaqueira nos cafés, casinos e theatros. Chegada a noite, cada lar é um cenaculo de alegria, paz e amôr, e sómente ás vezes, quando nas noites longas de inverno podem dispôr de algum tempo de distracção, juntam-se, até ao toque das almas, meia duzia de homens numa ou noutra loja, onde ouvem lêr o jornal que o lojista assigna. «As noites dão para tudo», dizem então. É ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao sabbado, que se estabelecem os principaes pontos de reunião—os nucleos da ingenua cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos que mais impressionaram a curiosidade publica.

Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as folhas das arvores. A amplidão do ceu, recamado de myriades de estrellas, parecia um immenso campo cheio de flôres. {103}

A portaria do alpendre da casa do tio José da Alamêda abriu-se cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na sombra.

Em seguida um outro vulto—o vulto d'um homem encapotado—se deslocou do escuro do cômoro fronteiro, e approximou-se.

—Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao approximar-se.

—Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dôce de Helena.

—Não sabe, não pode calcular a satisfação que me dá, accedendo aos desejos do meu coração, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que ha tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o apoquenta e que só tenho podido exprimir por olhares!

—Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo á gravidade do passo que dei comparecendo á entrevista que prometti, que o meu coração não é insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me parece ter lido nos seus olhos: a não ser que eu me engane, porque não tenho experiencia do mundo...

—Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que da sua parte houvesse para commigo egual affecto!

—Ha! Talvez mais...

—Oh! Não diga isso!—E, tomando-lhe as mãos, continuou com ardor crescente—É fazer uma injustiça ao meu amôr por si, que não tem limites!...

—Será o que diz... não duvido. Mas deve attender a que, para eu dar este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do coração com a razão, em que esta ficou vencida por aquelle...

—Sim: comprehendo isso, e oxalá que eu tenha{104} a felicidade de poder mostrar-lhe o meu reconhecimento de forma que possa satisfazer as aspirações do meu coração!

—Isso, senhor, só depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez sente o perfume das flôres do amôr que o calôr dos seus olhos teve o poder de fazer desabrochar, outra coisa não desejo que a minha felicidade, que consiste em gozar, na companhia do ente por quem o meu coração suspira, a vida inteira.

—É esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas agora, Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si só!

—Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas essas...

—Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha transformação. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!

E, com as mãos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco, transmittindo-lhe o calôr que o inflammava, aquelle anjo tão bello e tão candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava nos ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo sensações até ahi desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.

—Não acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mãos febris as mãos tremulas d'ella.

—Acredito. Eu tambem o amo muito...

—Oh! muito!... muito!... Vós, as mulheres, sabeis tão bem fingir um sentimento que não tendes, que não sei se a hei-de acreditar!

—Pode acreditar. Por Deus lhe juro que o amo.{105} Mas peço-lhe que falle mais baixo, porque Deus me livre que alguem ouvisse!

—Não tinha duvida! Que me importa o mundo? Helena hade ser a minha mulher, em breve o mundo o verá! Sim! Nesse caso, que importa que nos vissem?

—Falle mais baixo, senhor. Pode vir meu irmão, e pensar... Deus nos livre que elle viesse dar comnosco a estas horas a fallar!

—Sim. Tem razão. Podia formar máus juizos e seria perigoso.—E, baixando a voz e approximando do rosto d'ella o seu, murmurava-lhe palavras ternas ao ouvido, que ella ouvia como num cicio dulcissimo.—Helena, meu amôr! Dizes que me amas! Isso dar-me-ia tanta felicidade, que o julgo quasi impossivel! Se eu fosse pobre, talvez acreditasse no que dizes. Ahi está para que serve o dinheiro! Para nos lançar o coração no desespero! Helena! Juras que me amas?

—Juro!...

A sua voz era trémula; e elle, tendo-lhe lançado um braço á roda do pescoço, com os labios collocados ao ouvido d'ella, murmurava-lhe com meiguice:

—E juras amar-me sempre?

—Sempre!...

—E muito? Tanto como eu a ti?

—Sim! respondia ella com a voz apagada, completamente dominada por aquelle braço que lhe paralisava as forças d'animo e as physicas.

Elle então depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um salpico de lama que caisse numa das pétalas dum alvissimo lyrio.

E nada mais se ouviu, senão o arrastar surdo e quasi imperceptivel da portaria que se fechava occultando{106} á exigua claridade da estrada as sombras unidas d'aquelles dois seres apaixonados—um, com um sentimento todo ideal, todo celeste; outro, com um sentimento todo terreno, todo lubrico.......

 

A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.

Helena estremeceu, e, apertando fortemente o braço de Joaquim, exclamou:

—O luar não te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha, Joaquim?!

—Tontinha! Até me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Está-nos annunciando um paraiso de felicidades.

—Deus te ouça. Mas parece-me vêr no rosto da lua uma expressão de tamanha melancholia!

—Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa—a nossa casa!—d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos lá juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro, á tardinha; e havemos de ir, á noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de mandar fazer, vêr nascer a lua a sorrir-se para nós.

—Oxalá que sim! Deus te ouça! E juras-me que farás a minha felicidade?

—Helena! Juro-te, pelo Deus que me protegeu durante muitos annos por esse mundo além, que hei-de fazer a tua felicidade!

E, depositando-lhe um beijo na fronte, disse:

—Adeus. Até ámanhã.

—Adeus Joaquim!

Helena conservou-se á porta até ver desapparecer{107} o vulto do seu bem-amado numa curva da estrada.

Suspirou, olhou outra vez para a lua, e, ao voltar para dentro, ouviu o piar lugubre d'uma ave nocturna.

Estremeceu, e, fechando a portaria, murmurou estarrecida:

—Jesus! Não sei o que o coração me adivinha!...{108}