Cenas da Aldeia

A. Augusto de Miranda · Capítulo 3 de 19

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Cenas da Aldeia

Capítulo II

 

O anno passado, n'uma manhã serena e fresca de maio, fui ao campo para vêr nascer o sol.

Uma tenue claridade, precursôra do dia, innundava já o ambiente da aldeia. O ar, sem um movimento, sem a mais leve aragem, conservava as arvores em completo repouso.

O mez de maio é um bouquet formado de trinta e uma flores. Este dia era uma d'essas flores, das mais formosas, de petalas mais coloridas e frescas. Desabrochava garbosamente, acariciado pelo dôce orvalho da madrugada.

Em frente das ruinas d'uma casa pequena, envolvida n'um massiço de heras, cantava um rouxinol, pousado n'um sabugueiro. Parei, a ouvir os seus trinados.

Nos requebros das suas melodias, nas inflexões dos seus variados garganteios, havia um tão expressivo influxo de dôce sensibilidade, um tão grande sentimento, que, sob a poderosa influencia d'aquelle silencio—apenas entrecortado pela voz do rouxinol—que pairava em volta de mim, eu, em frente d'aquellas paredes derruidas pelas quaes trepava um massiço de verdes heras, sentia-me infinitamente pequeno—mais pequeno que o rouxinol.

Absorvido na audição d'aquellas melodias que arrancavam á minha alma vibrações d'uma indizivel doçura, e contemplando as ruinas d'aquella casa que, talvez, outr'ora, tivesse sido uma mansão ditosa de{25} felicidade e amôr ou, quem sabe? de expiação para uma alma desditosa e amargurada, debaixo da ascendencia que sobre a minha alma exercia a voz do rouxinol, eu tive o desejo de saber a historia d'aquella casa; porque, com um rouxinol ao pé a cantar melopêas tão sentimentaes que pareciam repassadas de pungente saudade, a entoar canções tão tristes como a solidão em que aquellas paredes estavam mergulhadas, ella devia ter a sua historia, como a casa da Menina dos Rouxinoes de Almeida Garrett.

Parece que o acaso capricha em deixar ao abandono, para não serem profanados, os santuarios onde uma alma apaixonada, ou edificada na pratica da virtude, passou as horas tristes da soledade na mais santa das resignações, palpitou-me que aquella casa devia tambem ter sido um d'esses santuarios, e o rouxinol o musico, o cantor incumbido pelo destino de acompanhar e realçar com as suas melodias sentimentaes aquelle quadro de saudade...

Fui arrancado á minha meditação pelo ruido do rodar pesado d'um carro de bois.

O dia aclarava progressivamente; por detraz da serra do Caramulo estendia-se já uma faixa afogueada, que cada vez se ia alastrando mais.

Era a «bellissima aurora, coroada de resplendores e lirios», na phrase de Vieira.

O rouxinol interrompeu a sua melopêa e fugiu do arbusto.

O carro approximou-se: trazia um arado e uma grade.

Um homem, que reconheci ser o tio Luiz da Nóra, vinha dentro d'elle, arrimado a uma aguilhada. Ao pé de si vinham dois rapazes: um, dos seus 14 annos, encostado ao timão do arado; o outro, ainda creança de não mais de 7 annos, encostado á sebe{26} de vimes, as mãositas mettidas profundamente nos bolsos do casaco que devia ter sido do irmão, pois não era cortado segundo as dimensões do seu corpo.

—Eh! Tio Luiz! Bom dia.

—Olá! Bom dia, sr. Antonio. Então por aqui já, tão cedo?—Oh! Pára ahi, loura! Oh! castanha!—Isso é que foi madrugar, hein?

—Que quer? Eu gosto muito de respirar este ar fresco e puro da madrugada.

—Ah! é bom, lá isso é. Pois nós vamos alli abaixo lavrar uma terra para semear milho. Vamos assim cêdo, que é para fugir ao calôr; porque ahi por volta das dez horas, elle já apoquenta bastante quem anda no trabalho. Lá os senhores, é como o outro que diz «se tenho frio vou-me aquecer, se tenho calôr vou p'rá sombra!» e não sabem o que é andar a puxar pelo corpo debaixo d'um calôr de rachar!

—Não sei, mas calculo. Mas, meu amigo, você não sabe que todos os modos de vida têm os seus espinhos? Olhe que a vida do lavrador, apesar de laboriosa, é a melhor que ha! Diga...

—Ai! ai! ai! Se vamos...

—Espere! Diga-me lá uma coisa: você faz lá uma pequena ideia do que é uma pessôa levantar-se ao nascer do sol e dizer lá comsigo: «vamos agora a vêr que tal está o milho d'aquella terra que eu semeei ha tantos dias; preciso agora de fazer isto, fazer aquillo», etc., e, á noite, fatigado mas contente, dando graças a Deus por lhe ter feito nascer o milho, as ervilhas ou a herva muito bem, deitar-se socegado do espirito—do espirito, que é o melhor socêgo!—e dormir a somno solto a noite inteira! Você sabe lá quanto isso vale?

—Tambem não sei, mas calculo... Mas, se{27} quer que lhe falle com franqueza, eu trocava com todo o gosto esta vida, que vocemecê está pr'áhi a elogiar, por um emprêgosito que me desse cinco ou seis tostões por dia, sem precisar de calejar as mãos nem me vêr obrigado ás vezes a levantar cêdo com um frio de rachar as pedras. Isso! Isso ó que é uma vida bôa! Mas, com'assim, quem nasceu p'ra isto, d'isto não póde sair. E vae a gente assim vivendo n'esta vida tão regalada, como vocemecê lhe chama...

—Vê? Pois n'isso é que consiste a felicidade: não nos importarmos nem ambicionar coisa nenhuma. Vive você resignado com a sua sorte, e não aspira a outra melhor, partindo do principio que foi Deus ou o destino que assim determinou...

—Pois é isso mesmo. Deus quer, não ha remedio senão sugeitar-se a gente...

—Ora suppônha o meu amigo que lhe davam um emprego de quatro ou cinco tostões diarios. Você, ao cabo de algumas semanas, começava logo a olhar com olhos de cubiça o emprego d'um seu collega que ganhasse um ou dois tostões mais; punha-se a metter empenhos, incommodava-se a pedir a uns e a outros influentes politicos, arranjava o emprego, e, chegadas as eleições, lá tinha de ir dar o seu voto pelo individuo que o favoreceu. Depois, quando tivesse adquirido uma certa convivencia com essa gente fidalga, como vocês lhe chamam cá, o seu ordenado tinha de ser muito bem governado para chegar para as despezas caseiras e despezas de vestuario, etc., para você se apresentar decentemente em publico. Entretanto ia já deitando o olho a um logar mais vantajoso, isto é, mais rendoso; supponhamos que o conseguia, e você talvez não saiba que os empregos publicos, em regra, quanto mais bem pagos são, menos trabalho dão. Você ia-se{28} habituando a ganhar cada vez mais, e a trabalhar cada vez menos. Começava o seu corpo a resentir-se do torpôr resultante da inacção physica, e ahi estava o meu amigo e senhor Luiz atacado da mesma doença que ataca quasi toda essa gente que só come borôa por desfastio. La tinha de andar com trinta mil cuidados com o seu corpo, não apanhar uma corrente de ar frio ou um boccado de sol, não comer de mais nem d'isto, nem d'aquillo, etc., etc., mil trapalhadas!

—Mas ao menos, ganhava dinheiro que chegasse para tudo isso...

—Podia ganhar e podia não ganhar. Olhe, meu caro: não ha vida como a de lavrador. Creia! Olhe que eu digo isto com franqueza.

—Mas então porque é que o sr. não tomou esta vida?

A pergunta do tio Luiz deixou-me um pouco embaraçado, e pude tartamudear:

—É que... bem vê, o mundo é assim... Nós vamos para onde nos encaminham...

—Ah! Ah! Ah! Será melhor mudar de conversa; vou-me á minha vida, que está o sol quasi a nascer. Para esta vida—acrescentou elle, rindo-se zombeteiro ainda do meu enleio—de que o sr. tanto gosta! Ah! Ah! Ah! Venha d'ahi no carro até alli abaixo, quer vir?

—É verdade. Já o pudera ter feito, escusava você de estar a perder o seu tempo.

—Ora essa! A grande coisa! Suba! Suba! Eu é que me devia de ter lembrado d'este offerecimento ha mais tempo.

Saltei para cima do carro, segurei-me com uma das mãos á sebe e o tio Luiz, tocando levemente com a extremidade da aguilhada no lombo das vacas,{29} exclamou, na palavra consagrada para pôr o gado bovino em andamento:

—Eixe!

O carro poz-se em movimento.

—Diga-me cá uma coisa, ó tio Luiz: de quem foi ou quem viveu nesta casa, que alli está em ruinas?

—Esta casa? Aqui foi onde viveu, em solteira, aquella brasileira, ou, por outra, a mulher do brasileiro que móra acolá em cima na Herdade.

—Ah! Bem sei! Por signal que até a vida d'essa mulher em solteira é muito interessante.

—Coitada! Foi infeliz e causou bastantes infelicidades. Mas arrependeu-se, e depois o que soffreu e fez soffrer foi bem descontado.

—Mas o que acho esquisito é eu ter aqui passado tantas vezes e nunca reparar para a casa senão hoje. E estou meio impressionado. Diabo! Estou capaz de escrever a historia da casa. Você que diz, ó tio Luiz?

-Ah! Ah! Ah! A historia da Maria Luiza, que morou nella! Faz muito bem, e olhe que é uma historia bem bôa, além de ser verdadeira, que é o principal!

—Pois está dito. Não descansarei emquanto a não escrever. Mal ou bem, depressa ou devagar, ella ha-de sair!

—Ó senhor Antonio! olhe que eu depois quero tambem...

—Descance, que ha-de ser você talvez a primeira pessôa que nesta freguesia ha-de têl-a.

—E isso levará muito tempo, ó sr. Antonio?

—Leva, leva! Vê que a minha vida não me permitte dispôr de muito tempo para isso. Com certeza que antes de tres ou quatro mezes não a escrevo. Depois...{30}

—Sim, sim! É preciso tambem depois imprensal-a, e tudo leva tempo.

—Pois é isso. Antes de meio anno ou mais, você não a vê.

—Seja lá quando fôr! Mas que Deus não me mate sem a ouvir lêr. E olhe que ha-de ser vocemecê que m'a ha-de lêr, ouviu?

—Está dito.

O carro seguia por entre duas alas de salgueiros viçosos, cheios de orvalho, que rolava das suas folhas verdes como perolas da mais fina transparencia.

O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas semelhantes a dous grossos cordões que tarjavam o seu leito, os passaritos, esvoaçando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a alvorada.

Numa encosta proxima, a vidraça duma janella reflectiu um clarão —era o sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.

O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:

—Agora vamos á nossa lida.

Emquanto saltei, respondi:

—Vão, vão; que se não fosse eu, já vocês tinham um bom par de leiras lavradas.

—Que tem lá isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de pôr as vaccas á charrua!

—Olhe lá! Que vem cá fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno que, lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; não podia ter ficado a dormir?

—Quer vir, deixal-o vir! É para se ir acostumando. Como já chega a uma prateleira que lá tenho na cozinha, diz que já é um homem. Que quer que lhe faça?{31}

*

* *

Quando me retirei—já o sol ia alto—o tio Luiz lá andava a revolver a terra, agarrado á rabiça do arado, o dorso meio curvado pelo esforço.

Preparava a terra para lhe lançar os grãos, cada um dos quaes se multiplicou em dezenas d'elles.

Semeado naquella manhã formosissima de maio, o milho nasceu, passados alguns dias, lindo e verde: lançou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi sachado, mondado, arrendado e, por fim, cortado.

Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e caricias verdadeiramente filiaes.

Trabalhos e fadigas, chuva e calôr, tudo soffreu resignado, sempre na sua fronte estampada a alegria e no seu coração a esperança...—A esperança de quê?

Nem elle o sabe, o lavrador.

Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambições, idolatrando os torrões que seus paes regaram com o suor da sua fronte, colhendo os fructos das arvores que elles plantaram, e plantando outras de que seus filhos depois colherão os fructos.

E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano com instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupação de espirito, no dôce convivio da familia reunida em volta da lareira nas noites amenas do outomno.

Todos os dias, á hora crepuscular da tarde, quando um socêgo religioso repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Avè-Marias, a sua cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma robusta fogueira, transforma-se em um cenaculo{32} onde reina a paz e o amôr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeição da noite sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha de estopa, senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do Nazareno na noite da ultima ceia.

Entretanto, cá fóra, cortando o socêgo da noite allumiada pelo meigo luar ou pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja começa a dobrar ás almas, segundo o tradicional costume da aldeia, repercutindo-se o som de valle em valle, pelos campos além, penetrando os limites da freguezia visinha, até se perder na solidão da noite...{33}