Cenas da Aldeia

A. Augusto de Miranda · Capítulo 18 de 19

Páginas do PDF

Cenas da Aldeia

Conclusão

 

 

Tres annos depois erguia-se, no sopé d'um outeiro de suave declive, uma casa de apparencia sumptuosa, dominando, como uma rainha, a planicie que, semeada de casinhas pobres de lavradores, se estendia na sua frente.

O outeiro era revestido em toda a volta do seu sopé por pampanos verdes de vides que o engrinaldavam como uma immensa corôa de verdura que estremecia sob o sopro da viração; e no seu planalto estendia-se um pinheiral de pinheiros miudos e distanciados que cresciam por entre um tapete de urzes floridas, dando, visto de longe, a ideia de um jardim suspenso de Babylonia.

Edificada na face oriental da falda, aquella casa, afagada logo de manhã pelos raios alegres do sol despontando ao longe por detraz da serra do Caramulo, bafejada pela amenidade da natureza sorridente que a cercava, parecia uma d'aquellas vivendas phantasticas que nós, quando fomos pequenos, anteviamos atravez da nossa imaginação infantil, excitada pela narração d'um conto de fadas ou de princezas encantadas que nossa avó nos contava ao serão.

Todos os dias, á tardinha, quando o ceu era claro e a atmosphera limpida, e o sol pendia esmorecendo para o ocaso, um casal saía d'aquella vivenda e ia passear pelas veredas do outeiro, contemplando, ditoso, as varzeas sorridentes por onde serpéa o poetico Vouga.{145}

Ao passar por elle, os aldeãos descobriam-se respeitosos e cheios de acatamento, envolvendo-o n'um olhar dôce de sympathia e veneração, e ás vezes ficavam-se a contemplal-o com expressão de intimo jubilo até o verem desapparecer na curva de um atalho.

Nunca um mendigo se lhes approximava que não voltasse com aspecto sorridente, pronunciando palavras de agradecimento.

—São uns santos! São uns santos! murmuravam sempre ao affastarem-se. Deus lhes pague no ceu o bem que fazem, cá no mundo!

Egualmente a porta da casa se conservava sempre aberta para mitigar a fome, a sede ou o frio dos necessitados, e muitas vezes, depois que a noite estendia o seu manto negro sobre a aldeia, uma mão esmoler e caritativa saía a ministrar o alento aos infelizes que, por vergonha ou impossibilidade, não ousavam sair do seu tugurio onde se debatiam com os horrores da miseria.

Essa mão que se estendia misericordiosa a acalentar o infortunio dos infelizes e se subtraía modesta aos ósculos de gratidão, era de Maria Luiza, a esposa do dôno d'aquella casa, tão rico como caritativo, que distribuia santamente os rendimentos da sua riqueza.

O tempo passou uma esponja sobre os acontecimentos que, tres annos antes, circulando em volta d'aquelles dois sêres, tanto emocionaram a alma popular, e o sr. Velloso é agora a caridade personificada, amado dos infelizes, respeitado por todos os que o conhecem.

Um velho, alquebrado e arrimando-se a um cajado, de andar pezado e de cabeça calva, com o olhar velado por uma tristeza profunda, vem quasi todos os dias passar alguns momentos com elles.{146}

Esse velho é o tio Alamêda, que nos ultimos tres annos envelheceu mais que em todo o resto da vida.

Privado dos affagos dos filhos que a infelicidade arrebatou da sua companhia, minora o seu soffrimento com os carinhos que lhe prestam esses dois seres—Paulo e Julia—que a Providencia lhe atirara pela porta dentro, para encontrarem no seu coração o que tão cêdo lhes faltara.

Seus filhos, ao partirem, tinham-lhe dito, como Cristo, da cruz, á sua Mãe: «ahi lhe ficam os seus filhos. São dignos do seu amôr; por isso, conserve-os na sua companhia».

E o tio Alamêda, amando, aquelles entes como seus filhos, sentiu a necessidade dessa companhia. Resolveu, no seu intimo, casal-os.

Chamou um dia Paulo á parte, tinha elle já desenove annos, e perguntou-lhe:

—Paulo, eu amo-te como a um filho. Amo tambem Julia como se egualmente fosse minha filha. A separação dos meus verdadeiros filhos da minha companhia abriu-me a sepultura, e a vossa separação agora atirar-me-hia para ella. Convém que vós vos não separeis de mim nos ultimos dias da minha vida. Vou perfilhar Julia; a ti talvez não, porque tenho uma ideia que, se concordares com ella, dispensa isso. Queres casar com Julia?

O pobre rapaz, como não querendo acreditar no que ouvia, abriu os olhos, sem poder responder á pergunta que o velho lhe fazia.

—Responde. Parece que ficaste espantado? Queres ou não casar com Julia?

—Se quero!...

Nestas palavras, proferidas quasi instinctivamente, traduziu toda a paixão da sua alma, manifestou{147} quanto amôr occultara durante dois annos no seu peito.

—Bem! disse o tio Alamêda cheio de contentamento. Pela tua resposta, vejo que gostas d'ella a valer, não é verdade? Não sabes quanto estou contente com isso. É preciso agora saber se é do gosto d'ella casar comtigo. Vae chamal-a.

E Paulo, não cabendo em si de alegre, correu a chamar Julia.

Esta veio, e perguntou, fitando nos olhos do velho os seus olhos azues cheios de doçura e de submissão:

—Que quer, pae?

—Perguntar-te simplesmente uma coisa: se eu quizesse que casasses com Paulo, fazias-me a vontade?

Julia fitou os olhos no chão, ruborisada, dando naquelle silencio a resposta mais eloquente que lhe podia dictar o seu coração apaixonado.

O velho, comprehendendo então nesse momento que o seu desejo era a unica felicidade que aquellas duas almas anhelavam, sorriu-se jubiloso, e poisando paternalmente a mão na cabeça loira da creança, disse com extrema bondade, pondo-se em pé:

—E tiveste a coragem de me não revelares esse segredo, hein? Vejo que o amas a valer, e não me tinhas dito nada, minha másinha?

Julia levantou para elle os olhos castos, depois olhou para Paulo que a contemplava apaixonadamente, e, tornando a baixar os olhos, sorriu com candura.

—Está bem; continuou o tio Alamêda. Quando o nosso João vier, o que não ha-de tardar, segundo elle diz, nenhum anno, ha-de festejar-se a sua chegada com o vosso casamento; e...

O som d'uma buzina fez olhar todos para a portaria,{148} onde estava um homem, com uma porção de cartas numa das mãos e um sacco de couro a tiracóllo.

—Ill.mo senhor José Nunes da Alamêda!

E estendeu um braço com uma carta na mão.

Julia correu ao alpendre; e, ao receber a carta tarjada de luto, estremeceu. Olhou para o sello, e reconhecendo que provinha do Brazil, occultou o rosto no avental, soluçando.

O velho, por sua vez, estremeceu, e perguntou com a voz trémula:

—Que é, Julia?! Alguma nova desgraça que nos sobreveio?!...

Julia tirou o avental de deante do rosto, e approximou-se, as faces banhadas de lagrimas, estendendo a carta para o velho.

—Seja o que Deus quizer! Lê, filha, lê. Estou resignado com a vontade de Deus!

E, appoiando-se, curvado, sobre o bastão que segurava com ambas as mãos, meneava dolorosamente a cabeça.

Julia, em frente d'elle, pallida como um cadaver, rasgou o enveloppe e desdobrou a carta.

Paulo tinha-se approximado, egualmente pállido, e, sem proferir uma palavra, collocou-se ao lado esquerdo de Julia, encostando a sua cabeça á d'ella e olhando, machinalmente, numa enorme anciedade, para as lettras que não entendia, porque não sabia lêr.

Julia lêu para si a primeira linha, a participação do óbito de João, e, deixando cair os braços, olhou, banhada em pranto, para o velho.

Este ergueu os olhos para o ceu, e exclamou com indiscriptivel cummoção:

—Meu Deus! Levastes-me os filhos. Seja feita a vossa vontade. {149}

E, estendendo as mãos para os jovens, que estavam na sua frente semelhando os conjuges em frente do padre, disse:

—Levou-me os filhos, e deixou-me a vós. Sois os meus pupillos, e d'ora avante sereis meus filhos.

Abraçou-os n'um demorado amplexo, continuando com a voz entrecortada pelos soluços:

—E que Deus abençoe o vosso amôr, como eu o abençôo!