Continuarei Aqui
Capítulo 7: Um olho no gato, outro no peixe
eu Deus, Paloma! Onde você se enfiou?
Quando a mamãe e eu abrimos a porta da casa da vovó Selma, parecia reunião da minha escolinha de tanta gente que tinha na sala. A vovó Selma e o namorado, a tia Mel, o tio Ricky, a vovó Ana, o vovô José, a Tia Carmen, todos os titios irmãos do papito e meus priminhos. Todos começaram a falar ao mesmo tempo, eu não estava entendendo nada, me agarrei na perna da mamusca e fiquei esperando que ela começasse a chorar, porque até eu estava com vontade de tanta bronca que ela levava.
— O que você tem na cabeça? Como desaparece assim, sem dar notícias? — Tia Mel perguntou.
— E ainda aparece com essa cara deslavada, como se tivesse ido ali na esquina? Eu não sei se te dou umas palmadas ou um abraço de alívio. — Vovó Selma me pegou no colo procurando machucados.
— Nossa, maninha, você terá que me pagar umas aplicações de Botox, pois devo estar cheio de rugas por sua causa. — Tio Ricky declarou.
— Mi corazón no suportar tantos sustos. — Vovó Ana falou tudo enrolado, ela era tão dramática. Papai me disse uma vez que na terra dele todos eram assim.
— Sua sogra não está acostumada com seus sustos ainda. — Vovô José, sempre tão calmo, me pegou do colo da vovó Selma, mesmo depois de ela tê-lo fuzilado com os olhos.
— Ah, você não viu nada, Ana! Meu coração deve ser de ferro, porque, se não enfartei até hoje com uma sobrinha dessas, nada mais me derruba. — Vovó Selma disse, ela ainda está bem nervosa.
Aí todo mundo começou a falar novamente. Era uma bagunça só, eu não estava entendendo nadinha. Foi até engraçada a confusão, a mamusca parecia ter virado pedra, me observando passar de colo em colo, sem falar nada. Também, coitadinha, ninguém a deixou explicar que a gente só foi comer uns bolinhos e visitar a bisa legal.
De repente, ouvimos um berro:
— Ordem! Não consigo nem ouvir meus pensamentos com tanto falatório. Vocês querem ou não saber o que aconteceu com a Paloma dessa vez? — Foi tia Mel quem tentou pôr ordem na bagunça, mas só conseguiu fazer todos voltarem a falar.
— Chega! — Todos os olhos ficaram espantados quando perceberam que o berro alto veio da mamusca. — Eu sei que vocês só querem o meu bem e que também se preocupam com o bem-estar da Aninha, mas preciso de um tempo, preciso aprender a me virar sozinha e ser responsável por minhas atitudes.
— Então comece explicando o motivo de ter desaparecido sem ao menos ter deixado um recado. — A vovó Selma parecia querer dar umas palmadas no bumbum da mamusca.
— Eu me desesperei com a possibilidade de perder a guarda de minha filha e fugi para a casa de minha avó em Piracicaba. Não pensei muito no que estava fazendo, achei que estivesse protegendo a Ana com minha atitude. Vocês conseguem imaginar ser o responsável por sua filha ir parar em um abrigo? — Meus parentes ficaram em silêncio pensando. Eu nem tinha medo de isso acontecer, queria ver alguém me pegar, ia me esconder embaixo da cama, trancar a porta e só sair de lá quando essa tia má fosse embora.
De novo, foi a vovó Selma bem brava quem quebrou o silêncio:
— E como você quer que a gente deixe tudo por sua conta? Acaso não percebe que poderia ter piorado todo o processo com essa fuga maluca? E ainda sem me deixar um recado ao menos.
— Sim, percebi, por isso retornei. Porém esse tempo que passei fora foi importante para eu refletir.
— E o que essa cabeça oca imaginou dessa vez? — Vovó Selma continuava nervosa com a mamusca, parecia nem ligar que todos estavam assistindo à briga delas.
— Percebi que vivo com medo de fazer algo errado, além de me cobrar 24 horas por minhas ações, passo muito tempo pisando em ovos com receio de desapontar alguém. — Mamusca deu um suspiro cansado. — Se eu vou cuidar da minha filha, aparece um batalhão me vigiando; se tento cuidar de minha casa ou quero realizar algo sozinha, esse mesmo batalhão está sempre me rondando. No trabalho, estão sempre me revisando. Meu marido tem que se virar com seus dois empregos, correr para casa para cuidar de nosso lar, porque sou uma péssima dona de casa, e de uns tempos pra cá, sinto que tem alguém me seguindo. Sei de meu histórico, mas não posso simplesmente continuar vivendo me sentindo uma total incapaz.
— Nossa, Paloma, não sabia que você se sentia assim. Se tomamos tanto cuidado e nos preocupamos é porque te amamos. — Tia Mel que falou.
— Eu sei que vocês me amam e só querem o meu bem, por isso tantos cuidados comigo e, principalmente, com a Aninha, quando deveria ser meu esse papel. Mas eu preciso tirar esse peso das minhas costas e tomar as rédeas de minha vida para me sentir bem e feliz novamente.
— Eu não tenho mais saúde, minha sobrinha, para deixar tudo em suas mãos, prometi à sua mãe que cuidaria bem de você, mas se torna impossível cumprir minha promessa com você aprontando o tempo todo!
— Mas vocês precisam. Eu preciso dessa confiança para resgatar aquela Paloma alegre que já fui um dia.
— Mas que nunca conseguiu se manter sobre dois pés. — Puxa vida, a vovó não estava facilitando.
Eu parei a brincadeira com meus priminhos, estava lá fingindo brincar em vez de estar prestando atenção em conversa de adultos. Eu olhei para a mamãe, ela estava de cabeça baixa, tão triste… Fui até ela, dei minha mão para ela segurar, ela levantou o rosto surpresa.
— Eu confio em você, mamãe — falei para ela, que abriu um sorriso bonito para mim. Então a mágica aconteceu, o tio Rick veio e colocou sua mão também e repetiu:
— Eu sempre confiei em você, maninha.
Depois foi a vez da tia Mel:
— Eu confio em você, minha irmã do coração.
Então todos começaram a vir, um a um, segurar a mão dela também, repetindo “Eu confio em você”. Estava tão bonito de ver aquelas várias mãos unidas dando apoio à mamãe. Só faltava a vovó Selma, que olhava para nós desconfiada, com cara de emburrada.
Ela acabou desistindo e se uniu a nós, colocando sua mão por cima de todas, um amor tão grande com tantas mãos unidas demonstrando carinho.
— Eu vou te apoiar e devo estar ficando maluca, confio e sempre confiei em você, apesar de não parecer. Eu estava tentando ser a mãe que minha irmã seria, mas juro, Paloma, que se você aprontar algo, vou fazê-la descascar um quilo de cebolas por dia, até a Aninha completar quinze anos! — Vovó Selma não podia perder a oportunidade de dar uma bronca na mamusca, fazendo todos darem risadas com sua ameaça.
Foi uma tarde muito boa com minha família, a tristeza só voltava quando alguém comentava algo sobre o papai. A mamãe mentia para mim dizendo que logo, logo ele iria voltar para casa, mas eu era muito esperta, e mais uma vez ouvi outra conversa proibida de adultos, na qual o vovô José se dizia muito preocupado com a evolução do quadro da infecção dele, e como os médicos estavam cuidando tão bem do meu papai, só que nada fazia o efeito desejado. Eu nunca imaginei que umas pintinhas na pele poderiam ser tão perigosas, até fiz uma promessa, fui lá para o quartinho que eu tinha na casa da vovó, ajoelhei e pedi ao Papai do céu para curar meu papai, além de ter jurado que nunca mais iria chorar quando fosse tomar vacinas e ainda contar para todos os meus amiguinhos que nunca, nunquinha nenhum de nós pode ficar sem se vacinar, mesmo com medo da agulha.
— “Amém”!
Ouvi a campainha tocar. Nossa será que meu pedido já foi atendido? Corri para a sala e era a dona Bina. Ela piscou para mim, e então eu soube que meu recadinho tinha chegado lá no céu.