Continuarei Aqui

Daya Alves · Capítulo 8 de 16

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Capítulo 6: De anjo e louco todo mundo tem um pouco

Ata da reunião/2018 – AAGC

 

 

eclaro aberta a reunião extraordinária do Conselho

Administrativo dos Anjos da Guarda Celestiais de número 38. Requerente: Ordem Gerencial de Conduta Protetora.

— Abro esta sessão expondo o motivo dessa reunião. Recebi um relatório sobre a má conduta do anjo da guarda da menina Ana Rosa Ayres, que terminou perdendo sua protegida.

Ouve-se um “ohhhhh!” no recinto.

— Eu não a perdi. Estava tudo sob controle até vocês me trazerem de volta!

— A solicitação foi feita pelo órgão já citado, vossa senhoria nega as acusações?

— Sim, nego.

— Meu relatório traz informações preocupantes, aqui diz que vossa senhoria usou poderes proibidos de serenidade, roubou uma moto, dirigiu em alta velocidade, agrediu um trabalhador, hipnotizou um cachorro, sem contar o fato de ter perdido sua pupila de vista.

— Ohhh! — Os conselheiros se espantam causando murmúrios no ambiente.

— As ações foram tomadas em uma situação drástica, eu precisava agir rapidamente. Me leve de volta, pois estou perdendo tempo nessa reunião de futriqueiros. — Bina se exalta, pois sabe da importância do tempo para os humanos.

Todas as vozes se levantam novamente, falando ao mesmo tempo.

— Silêncio, silêncio no recinto! Eu não interrompi minhas férias pelos anéis de Saturno para ouvir um bando de anjos maritacas. — É o chefe dos conselheiros quem adverte.

— Não estou dizendo… O tempo é precioso na Terra para perdê-lo aqui. Me transporte de volta imediatamente.

— Sim, vossa senhoria retornará assim que terminar o curso de reciclagem para anjos da guarda infratores.

“Ohhh!”

— Quietos, suas maritacas! Quem irá tutelar minha protegida enquanto vou para a reciclagem? — Bina se mostra preocupada.

— Quem entre os presentes se habilita para a função? — O chefe dos conselheiros pergunta.

Silêncio total no recinto.

— Me deixe ao menos me defender, já que esses covardes não têm coragem de proteger uma criança tão indefesa.

— Nós temos é amor por nossas asas. Aquelas duas juntas são pura confusão. — Um dos presentes alega, fazendo os burburinhos voltarem.

— Está vendo? Só resta a mim, peço clemência. Não posso ficar tanto tempo afastada, a menina está passando por uma situação delicada.

— Claro, com uma mãe daquelas nem a guarda celestial imperial daria conta. — Outro anjo diz.

Risadas.

— Vamos votar… Alguém presente no recinto se declara contra a execução da Penalidade?

— Eu me declaro! — Um anjo muito conhecido por todos se apresenta.

“Ohhh!”

— Vossa Senhoria? Mas tu és um anjo cupido.

— Sim, e o anjo em questão não pode ser julgado pelas leis dos anjos da guarda, porque é um Querubim. Então as penalidades não se aplicam à situação.

— Falou o anjo infrator maior de todos. — Um dos conselheiros desdenha.

— E eu posso saber com que autoridade Vossa Senhoria se declara advogado da ré? — O conselheiro chefe questiona.

— Com a autoridade Dele! “Ele” me enviou em missão de salvaguardar um de seus filhos.

“Ohhhhhhh!”

— Então o senhor alega que está a mando “Dele”? — O conselheiro questiona apontando o dedo para cima.

— Sim. Ou Vossa Excelência acredita que um pai abandonaria um de seus filhos, logo em um momento de aflição? Aquela jovem está sofrendo muito e, no momento em que ela se ajoelhou clamando por uma interferência divina, foi ouvida!

— Mas a diligência de hoje diz respeito às infrações do Querubim presente.

— E quem nunca agiu em nome do Amor? Garanto que todas as infrações foram feitas para um bem maior. Eu posso dizer com consistência, aquela moça é dona de um dos corações mais puros da humanidade, é impossível não se apegar.

Todos riem.

— O amor dura até ela quebrar a asa de um de nós! — Um dos presentes faz piada.

— E ainda assim continuaremos a amando, afinal, essa é a primeira lição dada a nós: “Amai-vos”. Quem aqui nunca tentou parar um carro desgovernado, se jogou em águas turbulentas, amparou um sofredor ou segurou a mão de alguém prestes a dar cabo da própria existência? Os humanos carregam nos ombros o peso do relógio da vida, tantas perdas e sofrimentos que somos incapazes de mensurar o tamanho da dor, mas conseguimos entender o pedido silencioso de seus olhos, o clamor de suas orações e a angústia das lágrimas… Porém, no fim, mesmo em meio à dor, eles sempre conseguem enxergar a esperança. E é por isso que intercedo em nome dessa protetora que somente se deixou levar pelo mais nobre dos sentimentos… o Amor!

Aplausos efusivos se ouvem no ambiente após o discurso do Anjo Cupido Advogado.

— Vossa Querubim gostaria de acrescentar algo em seu favor?

— O que mais eu poderia acrescentar depois de tão belas palavras? O que eu posso fazer é prometer que me empenharei mais do que nunca em cumprir minha missão.

— Então, pelo poder a mim concedido, declaro suspensa a ordem de reciclagem e punição e devolvo seus direitos de anjo da guarda protetor da criança Ana Rosa Ayres. E seja o que “Ele” quiser. Só espero não ter perdido o cometa de volta para minhas férias.

— Obrigada, meu amigo, ficarei te devendo essa — Querubim Bina diz ao anjo salvador.

— Imagina, tenho grande apreço pela menina Paloma e continuarei zelando por seus passos, até mesmo quando ela tropeçar!

 

Acordar na casa da bisa depois de ter dormido coladinha com a mamãe foi muito bom. Se meu papai estivesse aqui, seria perfeito.

Acordei com o cheirinho delicioso do café dela, minha rabiga já estava roncando. Juro que tentei não ouvir conversa de adulto, mas minha mamãe parecia outra pessoa, estava tão bonita com a luz do sol batendo em seus cabelos, e estava sorrindo, fazia um tempão que eu não via mais seu sorriso tão lindo. O colinho da vovó fez muito bem para ela.

— Sabe, você se parece tanto com sua mãe.

— Quem me dera ter um pouquinho da força que ela tinha.

— E você tem, só não descobriu ainda. Lembro-me de quando seu pai me apresentou a Ana, ela parecia tão frágil. Logo eles se apaixonaram, e sua mãe parecia sempre insegura com relação a si própria e ao relacionamento deles. Depois que se casaram, passei muitas noites conversando com ela, da mesma forma que estou fazendo com você, e aos poucos ela foi desabrochando, tornando-se uma mulher madura. Quando engravidou, ficou ainda mais bela, sua alegria parecia exalar pelos poros.

— Mas aí veio a doença.

— Sim, veio, e ela nunca se entregou, lutou com toda a garra, se agarrou a um fio de esperança para vê-la crescer, e de alguma forma conseguiu marcar presença em sua memória.

— Eu penso nela, todos os dias. Tem hora que sinto sua presença tão próxima a mim. Acredito e tenho fé que minha mãe sempre esteve presente me guiando.

— Com certeza, minha neta, ela e todos que te amam. Você só precisa acreditar!

— Obrigada por tudo. — Mamãe respondeu emocionada para sua vovó.

— Que é isso, Paloma? Não fiz nada além de ajudá-la a enxergar a mulher maravilhosa que você é. Está em suas mãos a sua felicidade, não se cobre tanto, deixe esse barquinho viajar por aí.

— Vou sim, vovó, deixei o medo me dominar. E de tanto ter medo de errar, acabei errando e me tornando uma pessoa triste.

— Você ainda terá momentos de fraqueza, e como todo ser humano, algumas vezes irá ganhar; outras, perder. O importante é saber que sempre haverá novas oportunidades para aqueles de coração bom, que só buscam ser felizes.

— Sabe, vovó, sempre projetei minha felicidade nos outros. Primeiro no traste do Cadu, depois no Enrico, e mesmo ele me fazendo descobrir minha autoestima, ainda não aprendi a me amar. E eu preciso, de algum jeito, parar com isso.

— E quando você conseguir, o que era fraqueza vai virar uma força incrível à medida que aumentar a confiança de que é capaz de tomar as rédeas de sua vida, sem depender de mais ninguém além de você.

Eu me aproximei da mamusca e sentei em seu colo, encostei minha cabeça perto do seu coração, ouvindo o tum-tum bem mansinho. Mamãe me abraçou de volta, com a outra mão, pegou a mão da Bisa e disse:

— Prometo que, de hoje em diante, serei mais confiante em mim, ninguém mais me colocará em dúvida de que sou capaz.

— Eu não quero outra mamãe, você é a melhor mamusca do mundo! Mesmo não sabendo fazer bolinhos.

Elas deram risada do som alto da minha rabiguinha roncando e nos abraçamos. Ai, ai… como era bom ser amada, ainda mais quando se tinha leitinho morno e bolinho de chocolate.