Continuarei Aqui
Capítulo 3: Lar doce lar
Enrico
stava contando as horas para ver minha maluquinha e a Ana Rosa,
havia vários dias que não as via. A temporada em minha terra natal acabou se estendendo mais do que o previsto. Ao chegar em Isla Margarita, para buscar mi madre, me deparei com um cenário desolador. Faltava desde o básico, como alimentos, até produtos de higiene e medicamentos, todos os suprimentos que levei não foram suficientes nem para o começo. Ver minha família, amigos de infância e vizinhos passando tantas necessidades aflorou meu lado mais humanitário e precisei prolongar minha estadia por lá. Mi madre já havia transformado seu lar em uma espécie de base comunitária com a ajuda de meu irmão Paolo, recém-formado em medicina, mas desempregado. Aliás, emprego, que sempre foi difícil, tornou-se escasso. Eles estavam sobrevivendo à base do escambo e da comunhão, essa parte foi bonita de ver, como uma comunidade consegue se apoiar em tempos de crise.
Passei dias ajudando em plantações que surgiram para suprir a fome e cuidando dos muitos doentes. Tive que aprender com uma tribo indígena os mais diversos tipos de infusões e emplastros devido à escassez dos medicamentos. Foi uma luta conseguir convencer mi madre a abandonar seu lar, mas a situação se tornou insustentável, não podíamos mais deixá-la sozinha em sua terra ou privar toda a nossa família de tentar ganhar a vida de forma honesta. Como os negócios de meu pai eram no Brasil, meus irmãos, suas esposas e filhos conseguiram embarcar antes do fechamento do aeroporto internacional. José acabou ficando preso na cidade, preocupado em deixar Ana sozinha, assim como eu. Tivemos que viajar quilômetros e mais quilômetros de carro para conseguirmos chegar à fronteira com o Brasil. Outra dificuldade foi encontrar um carro grande o bastante para caber Ana, José, Paolo, sua noiva, a mãe dela, a irmã pequena e ainda todas as coisas de Madrecita.
Consegui, com alguns amigos de infância, uma Kombi caindo aos pedaços, e foi um verdadeiro rally andar pelas estradas malconservadas com um carro velho carregado de gente e pertences. Se não fosse pelo conhecimento de José, também teríamos ficado presos na fronteira com o Brasil, tamanho o número de pessoas tentando sair da Venezuela em busca de melhores condições de vida. Durante o trajeto, tive que passar por cima da vontade de ajudar tantas pessoas necessitadas pelo caminho, caso contrário, nunca chegaríamos a Roraima, pois nossas reservas já estavam acabando.
Em terras brasileiras, a ansiedade associada ao cansaço, à fome e à saudade estava incontrolável, esperar por um voo com destino a São Paulo foi uma verdadeira tortura. Na última vez em que falei com Paloma, ela parecia exausta. Tentava esconder dizendo que estava tudo bem, mas há algum tempo eu vinha percebendo seu distanciamento e medo de fazer algo errado em relação à nossa filha, mesmo sendo a melhor mãe que uma criança poderia ter. Assim que chegasse em nosso lar, primeiro mataria essa saudade que me corroía e a encheria de amor, e depois a convenceria a procurar uma terapeuta para buscar entendimento do que pudesse estar acontecendo com seus sentimentos, pois minha maluquinha era perfeita do jeito que era.
As quatro horas que passei dentro do avião poderiam ter sido usadas para, enfim, descansar da cansativa viagem, mas a mãe e a irmã de Nina não paravam de chorar de medo, ficaram agitadas, e para piorar a tripulação não entendia o linguajar rústico delas, o que causou o maior alvoroço desde o momento em que decolamos até a aterrissagem. Em terras paulistas, não conseguimos contato com meus irmãos porque todos nós estávamos com os celulares descarregados, e arrumar um táxi para casa com tantas malas e pessoas tornou-se quase tão difícil quanto nossa viagem pela Venezuela. Já era madrugada quando finalmente cheguei ao meu lar, depois de deixá-los na casa de meu pai, sob protestos de mi madre, que dizia estar tarde e que estávamos em um lugar perigoso. Vai entender as mães, quase tive que arrancá-la à força de um país que estava enfrentando todo tipo de violência, e ela com medo que um homem maduro, como eu, andasse por São Paulo.
O porteiro cochilava e nem me viu passar pela portaria. O elevador nunca me pareceu tão lento enquanto subia ao sexto andar, onde moro com minha esposa e a riqueza de minha filha. Não sabia dizer qual necessidade era maior, se a fome, o cansaço, a sede, a vontade de me enfiar embaixo de um chuveiro ou de ter minha mulher em meus braços. Somente quando estamos à mercê de viver sob tamanhas necessidades nos damos conta do quanto devemos valorizar as pequenas coisas. Se todo ser humano soubesse como existiam pessoas sofrendo ao redor do mundo, não faltaria compaixão.
A porta do elevador se abriu e um frio subiu pela minha espinha ao ver uma fita amarela e preta isolando a porta de minha casa. Avancei e a arranquei com o coração na boca, não sei como consegui colocar a chave na fechadura de tanto que minhas mãos tremiam. Ao abrir a porta, me deparei com um cenário de guerra, todo nosso apartamento estava muito bagunçado. A cozinha com uma sujeira gosmenta grudada em todas as partes, no lugar onde o micro-ondas ficava tinha um buraco e o cheiro de fumaça estava muito forte. Saí à procura de minha esposa pelos cômodos, em total desespero, e não as encontrei em lugar algum. Um medo aterrorizante tomou conta de mim, minha cabeça desenhava os piores cenários. Enquanto socorrista do SAMU, já havia presenciado muitas vidas se perderem por causa de fogo ou inalação de fumaça, imaginar o que poderia ter acontecido com elas me apavorava.
Desci os seis lances de escada correndo, tamanha a impaciência por notícias delas. O porteiro acordou em um pulo quando o puxei pelo colarinho buscando respostas. Para meu desespero, ele nada sabia e ainda teve a audácia de dizer que minha esposa foi a culpada por quase ter colocado fogo no prédio inteiro e que, na última vez em que a tinha visto, ela estava sob os cuidados dos bombeiros. Bati de porta em porta no prédio, sem me importar com o avanço das horas, atrás de alguém que soubesse de alguma notícia do paradeiro delas. Só recebi xingos e reclamações e ainda tive que me segurar para não socar a cara de meia dúzia de pessoas, que culpavam minha Paloma de ser um desastre ambulante.
Sem sucesso, resolvi ligar para Selma, mas o telefone tocava e ninguém atendia. Meu pavor se tornou ainda maior, resolvi ir diretamente até lá, não tinha táxi e muito menos condução àquela hora da noite, e quem me visse correndo como um louco pelas ruas do bairro haveria de pensar que eu estava maluco. Foi o que a Selma pensou quando me viu invadir sua casa à procura de minha família, e ela acabou se juntando ao meu desespero depois de saber do ocorrido e imaginar o que poderia ter acontecido à sua sobrinha e à neta, já que não tinha noção de onde estavam.
Na mesma hora ela pegou o telefone, ligou para seu namorado policial e, em menos de vinte minutos, uma viatura chegou para tentar me ajudar a procurá-las.
Procuramos em hotéis, hospitais, rodeamos todas as ruas do bairro, ligamos para todos os amigos e familiares… e nem sinal delas.
Pela manhã, após percorrer toda uma madrugada, voltei para a casa da Selma, que parecia uma central de notícias. Mi madre chorava copiosamente abraçada ao meu pai, meus irmãos e suas esposas confabulavam sobre o que poderia ter ocorrido, Selma ameaçava todos os policiais cada vez que um chegava sem notícias, os sócios de Paloma vasculhavam a internet em busca de alguma notícia e o Ricky tentava controlar a todos. A casa estava uma cacofonia de vozes e idiomas difícil de suportar.
— Mas você já tentou no celular dela? — Era Ricky quem perguntava, pela quinta vez em meia hora, nem ânimo para responder eu tinha mais.
— E você acha que já não tentamos? O Enrico já respondeu que só dá caixa postal! Pergunte isso novamente e farei você engolir uma cebola roxa! — Selma estava mais nervosa a cada minuto que passava.
— Não é possível, ninguém desaparece assim do nada! Será que não a sequestraram? — Foi o senhor José, meu pai, quem falou dessa vez, me levando a desabar em um canto e me entregar à exaustão por não saber mais o que pensar.
Ana Rosa
Acordei mamãe, que estava babando e roncando no sofá. Tadinha, devia estar muito cansada mesmo. Eu a escutei chorando baixinho de noite outra vez, devia ser de saudade do Papito.
Dona Bina foi tão boazinha com a gente, sempre que eu chegava perto dela, parecia que via um monte de luzinhas ao seu redor e me sentia tão feliz, mamusca também. Por isso, depois de comer os bolinhos deliciosos dela no café da manhã, não resisti e perguntei se poderia ir visitá-la todos os dias, e ela disse que sim, ninguém resistia aos meus encantos, mesmo que eu tenha quebrado a saboneteira, manchado seu sofá com Nescau e puxado o rabo do gato dela.
— Vamos, Aninha, até a casa da tia Selma buscar umas roupas, já que nosso apartamento está interditado. — Uau, que palavra legal!
— O que é interditado, mamusca?
— Significa que está proibido entrar lá.
— Eu quero a minha popó e minhas bonecas. — Comecei a chorar, imaginando todos os meus bonecos sozinhos lá para sempre.
— Não chore, minha pequena, é só por um tempo. Logo, logo voltaremos para nosso lar.
— Mas, mamãe, como o papito vai achar a gente quando voltar de viagem, se a casa está interditada? — Fiquei muito preocupada de meu pai se perder da gente, e também, agora que aprendi esta palavra vou usá-la toda hora.
— Com sorte, o Enrico chegará somente depois de eu ter consertado toda essa confusão.
E por falar em confusão… Oh, oh!
Na porta da casa da vovó Selma tinha três carros da Polícia e uma ambulância igualzinha à do trabalho do papito. Os vizinhos iam olhando para nós desconfiados, e quando abrimos a porta da casa da vovó… Oh, oh!
Tinha um montão de gente, todo mundo correu para me pegar no colo, uns gritavam com a mamãe, outros choravam, tinha até um povo falando a língua da Vó Ana. E de novo, mamãe começou a chorar.
— Parem! Com certeza a Paloma tem uma explicação para tudo isso, não a deixem mais nervosa. — Foi papito que veio ao nosso encontro, bem mais magro, e parecia cansado. Ele abraçou a mamãe, deu um beijo tão gostoso na minha cabeça e ficou dengando a gente.
— O que aconteceu, mi amor? Eu fiquei desesperado, não sabia mais o que pensar.
— Interditado! — Resolvi falar minha nova palavra preferida e consegui a atenção de todo mundo. — A culpa não foi da mamusca, ela tava conversando, eu fui fazer o papá sozinha e… pummm! Foi tudão pelos ares. Os homens de vermelho chegaram e falaram “Tá interditado.” — imitei a voz grossa deles e comecei a rir sozinha. — Depois fomos para uma casa cheia de luzes, de uma senhora que a gente nem conhecia. Ela fez chá com bolinhos para mim, enquanto a mamãe dormia feito uma pedra no sofá. Oh, oh… — Eles estavam com a boca aberta olhando para mim, e a mamãe chorando de novo. Acho que falei demais.