Continuarei Aqui
Capítulo 11: Continue a nada
a terceira vez que eu assisto ao filme Dory só nesse dia. Ana
descobriu o desenho, deixando finalmente a Masha e o Urso para trás. Fiquei tão feliz que ela se encantou com o desenho desde que o assistiu pela primeira vez, pensei comigo: “Ufa, me livrei!”. Mal sabia eu que iria assistir ao filme três vezes por dia e teria que imitar a Dory o tempo todo. Foram tantos acontecimentos nos últimos dias que frase “continue a nadar” se tornou o meu lema predileto.
Estou tirando um período de férias, cheguei ao ponto em que preciso dar um tempo para recarregar minhas energias. Eu amo o meu ofício, mesmo com as noivas inventado os casamentos mais mirabolantes a cada personalidade que se casa, mas o volume de serviço, juntamente com a cobrança que eu mesma me imponho, tornou sufocante o que era prazeroso.
Quando finalmente tivemos alta do hospital e voltamos para nosso lar, já liberado pelos bombeiros, me sentei com o meu marido e tivemos uma conversa bem produtiva. Enrico me fez enxergar o quanto eu estava encontrando caraminholas onde não havia. Ele estava preocupado com uma possível depressão, mas, na verdade, eu só estava sufocada, querendo ser perfeita quando ninguém esperava isso de mim, se todos os meus familiares viviam me cercando, era por me amar e não por me achar incapaz de cuidar da minha própria vida ou de uma criança.
Ui, dá até calor só de me lembrar das palavras do pedaço de mau caminho que tenho como esposo:
“Yo te amo, mesmo com seus dois pés esquerdos, sendo uma terrível cozinheira e com toda a sua insegurança, porque é isso que te faz única. Seu riso fácil me vinha todos os dias à lembrança enquanto eu passava por dificuldades na minha terra, a esperança de vê-la novamente era o que recarregava minhas forças para voltar para seus braços. Você, minha maluquinha, transformou minha vida em plena alegria, me deu uma família linda, motivos para sorrir e um amor que arrebatou meu coração e minha alma. Não pense jamais ser menos especial do que é, Yo te amo, Yo te quiero, para siempre.”
Não preciso nem dizer como acabou essa declaração. Eu já havia virado gelatina, antes mesmo de ele apertar a tecla SAP. Nossa noite de amor foi tão linda e repleta de saudades que os cometas que avistei nem passavam em nossa órbita.
Por incrível que pareça, a Ana anda calminha. Acredito que ela aprontava tanto para chamar minha atenção, pois eu, de fato, andava muito abatida com tantos acontecimentos ameaçando o bem-estar de minha família.
A Bina tem sido uma amiga e tanto, ela tem o dom de aparecer sempre, quando menos espero, para me ajudar com a Ana, cuidando dela como se fosse sua neta. Também acalma titia, sempre nervosa, e me dá os melhores conselhos, o que mata um pouco a minha saudade do senhor Ângelo, mesmo eu tendo certeza de que realmente me encontrei com ele quando estava apagadona, depois de meu último acidente.
E quando digo último, foi e será mesmo, pois agora, que ando mais desencanada, parece que parei de atrair confusão e problemas. Sabe, tirei um peso enorme das minhas costas por não ter sido a responsável pelo acidente em meu apartamento. Eu posso ser o desastre em pessoa e até sofrer bullying por causa disso, mas, no momento em que uma possível atrapalhada atingiu minha filha, tudo começou a tomar uma proporção descontrolada. Eu me deixei levar e me entreguei ao abatimento.
Agora tudo voltou ao normal. Para minha sorte, a Bina fez o que eu nem imaginava, gravou toda a conversa do Cadu com a Marlene. Não sei onde ela arrumou um celular, mas foi providencial para salvar minha pele, principalmente pelo processo de agressão que ambos tentaram abrir contra mim. Fala sério se não são dois caras de pau? Tive que controlar o Enrico, que queria de todo jeito terminar o serviço que comecei. Sabe como é sangue latino, não é? A sorte do Cadu foi que ele ficou vários dias hospitalizado, mas acho que era para fugir dos federais que estavam atrás dele pelo desvio de verbas em sua função de Deputado.
Durante a fase de investigação, a Fabiana, com raiva do caso dele com a vizinha do 501, entregou todas as contas em paraísos fiscais, provas de lavagem de dinheiro, fazendo a casa dele desabar. Ele foi do hospital direto para a prisão, foi um escândalo daqueles! Com isso a questão da falsa denúncia de maus tratos acabou sendo pequena mediante toda a confusão na qual, dessa vez, ele se meteu. E olha, nem precisei fazer nada. O castigo veio de avião!
Já a Marlene foi pega tentando fugir do país com joias, fruto da lavagem de dinheiro de seu amante. Foi outro escândalo! Saiu do aeroporto e foi direto para uma penitenciária no interior da cidade, se escondendo da mídia, ao contrário da esposa oficial, a Fabiana, que está feliz estampando as capas de revistas e jornais, mesmo que seja as de crítica política ou policial, além de estar se aproveitando da história de mulher traída para se lançar candidata a vereadora. Graças aos céus, ela acabou se mudando para uma cobertura em um bairro nobre.
A paz voltou a reinar em meu lar, não existe mais risco algum de eu perder a guarda de minha filha. Todos os materiais elétricos em meu apartamento foram revisados, a fim de evitar qualquer sabotagem feita por aqueles dois, e, finalmente, pudemos dormir tranquilos. A angústia pela qual eu estava passando se dissipou, dando lugar à autoconfiança e, agora, já consigo olhar para o futuro com esperança.
Enrico tem chegado tarde da noite do hospital, ele vem trabalhando bastante para compensar o período de sua licença para buscar os pais. Todo o tempo que passamos juntos ainda não foi suficiente para matar nossa saudade. Mesmo chegando cansado, ele sempre separa um momento para mimar a filha e amar a mãe, por isso não vejo a hora de colocar a Ana para dormir, que briga com o sono esperando pelo pai. Ela não dorme de jeito nenhum sem ouvi-lo cantar uma musiquinha de ninar. Muitas vezes a música a faz ficar mais acordada, mas Enrico tem todo um jeitinho com ela, mesmo que às vezes quem durma primeiro seja eu.
Sento-me na beirada da cama, admirando Enrico contar sobre as belezas de sua terra natal. Estou quase adormecendo quando meu marido e filha pulam em mim fazendo cócegas. Eu não aguento.
— Ai, parem, por favor!
— O que você acha, Ana? Paramos?
— Só se ela cantar a musiquinha.
— Ai, não, sou péssima cantora.
Em resposta, recebo mais cócegas, já estou me contorcendo de tanto rir.
— Só paramos quando você cantar! E tem que ser nossa musiquinha da alegria.
— Tá bom, eu me rendo! — respondo entre risos e começo a cantar a plenos pulmões, explodindo de alegria e grata por toda a benção que é minha família:
“Eu sou um bolinho de feijão
De feijão!
Meus amigos me chamam de peidão
De peidão!
O de arroz quando me vê começa a rir
Começa a rir!
Mas pelo menos tenho boquinha pra sorrir
Por quê? Por quê?
Eu sou um bolinho de feijão!”
A Ana dormiu cansada de tanto rir e eu não consigo tirar o sorriso do rosto, principalmente porque já estou no meu quarto, em minha cama, e vendo o Enrico sair do chuveiro com gotas de água escorregando por seu corpo moreno, prontinho para me amar.
Ai, ai, estrelinhas, aí vou eu!
Ops! Será que eu tomei o remédio?
Enrico está deixando uma trilha de beijos da extensão da minha nuca até o lóbulo de minha orelha. Resmungo algo que nem eu mesma sei o que é.
— Disse algo, senhorita? — Ele me pergunta antes de capturar meus lábios em um beijo caliente, depois disso, não sei mais nem em que planeta estou.
Com licença, minhas amigas, vou ali em Marte e depois volto para contar como será o aniversário de sete anos da Ana.