Continuarei Aqui
Capítulo 2: Estarei Aqui
al cheguei e já me deparei com uma tremenda confusão. O
alarme de perigo de minha protegida não parou de tocar um segundo sequer enquanto eu fazia minha viagem para o plano terrestre, achei que chegaria tarde demais, e por mais um segundo tudo estaria perdido. Foi só o tempo de eu dar um susto na menina para fazê-la correr, um empurrão na mãe, que parecia ter entrado em estado de choque, e ajudar muitas senhoras idosas que tentavam correr pelas escadarias do prédio.
Não tinha planos de usar minha forma humana tão cedo, mas, ao ver tantas pessoas atacando a moça enquanto ela chorava desprotegida, acabei por infringir mais uma das regras celestiais e parti em sua ajuda.
— Posso ajudar, mocinha? — perguntei para a menina Ana assim que ela indagou sobre quem iria ajudá-las. Ao me ver, arregalou seus olhinhos castanhos de forma perspicaz, analisando se poderia confiar em mim. Pelo jeito, em sua intuição infantil, sua avaliação era positiva, pois logo chamava sua mãe, levantando o rosto dela de forma carinhosa com suas mãozinhas gorduchas.
— Obrigada, minha senhora, mas o dia hoje não está nada fácil e não há nada que a senhora possa fazer para nos ajudar. — A mãe da menina respondeu tristemente, em seu semblante caído, e fez minha determinação vir à tona.
— Olha… não há nada que um chá com bolinhos não resolva. — Peguei-me respondendo e infringindo mais uma regra.
— Vamos, mamãe, minha barriguinha não aguenta mais de fome — Ana pediu, deixando sua mãe sem a opção de negar. Ela me olhou, ainda em dúvida se deveria confiar na inesperada ajuda, e acabou aceitando, talvez, por falta de opção.
A casa providenciada ficava bem ao lado do prédio onde elas moravam. Uma casinha de cor amarela, bem simples e acolhedora, com um pequeno quintal florido na frente.
— Eu sempre tive curiosidade de saber quem morava nessa casa, parece com as casinhas da cidade onde nasci.
— Eu acabei de alugar. Cheguei de fora há pouco tempo.
— Fora do Brasil? — Paloma perguntou, me deixando numa enrascada, pois, devido à urgência da chamada, não tive tempo para elaborar um plano de ação.
— Digamos que sim.
— Você vem da América Latina? Que máximo! Meu marido Enrico é da Venezuela, ele está por lá neste momento.
— O que seu marido foi fazer lá? Não é o país que enfrenta uma grave crise econômica? — Sabia bem a resposta, mas encontrei um jeito de desviar do assunto “de onde eu vim”.
— Justamente, ele foi ajudar o pai a trazer todos aqui para o Brasil. Minha sogra Ana não queria abandonar o seu lar, mas estava muito difícil até de conseguir comida, mesmo com toda a ajuda que nós mandamos.
— Que pena, um país tão lindo.
— Sim, uma pena, conheci um pouco antes de ter a Ana, foi inesquecível para mim. Foi lá que fui pedida em casamento.
— Me conte mais, adoro ouvir histórias de amor… Espere nem me apresentei… me chamo Bina — informei, enquanto as convidava para se sentarem à pequena mesa da cozinha.
— Prazer, me chamo Paloma, e essa é minha filha, Ana Rosa. Ana, diga oi para a dona Bina.
— Oi. Cadê os bolinhos?
— Que modos são esses, Ana?
— É que minha rabiga está roncando.
— Barriga, Ana!
— Tudo bem, ela deve estar cansada mesmo, e faminta. Vou providenciar o lanche e já volto — disse, achando graça do jeito da criança.
Enquanto preparava o chá e os bolinhos, Paloma embalava a filha no colo, brincando de forma carinhosa, distraindo a garotinha que não parava de reclamar de fome. Era bonito assistir tanto carinho, apesar da tristeza que sentia pesar sobre os ombros daquela mãe.
— Ela sempre troca as palavras? — perguntei quando me aproximei com o chá, tentando aliviar a tensão dela.
— Não, só de vez em quando, a fluência dela é ótima para a idade, acredito que já nasceu falando. Mas, às vezes, quando ela está ansiosa, troca algumas palavras.
— Mas agora vou ficar bem quietinha comendo esse bolinho que parece estar uma delícia. — A menina disse, arrancando risadas nossas, mas ainda levou uma pequena reprimenda da mãe, dizendo que ela deveria lavar as mãos antes e esperar a anfitriã oferecer.
Um pequeno barulho acompanhado de um “oh, oh” veio do lavabo aonde Ana foi. Ela voltou chorosa com o frasco de sabonete líquido quebrado pingando por todo o caminho.
— Me desculpa, tia, foi sem querer.
— Mas, Ana, o que você aprontou agora? — Paloma se levantou para socorrer a menina, temendo que ela se cortasse com o frasco.
— Tudo bem. — Eu interrompi. — Não se preocupe, é só um sabonete, deixe que eu resolvo enquanto vocês se alimentam.
A menina estava realmente faminta, devorou tudo o que coloquei na mesa. Notei que sua mãe só beliscava os alimentos. Algo muito errado estava acontecendo com ela.
— O lanche não está de seu agrado? Quer que eu prepare algo diferente?
— Não, de forma alguma! Está tudo uma delícia. Eu estou sem fome mesmo, deve ter sido pela tensão do dia.
— Sim, não deve ter sido um dia fácil, mas barriga vazia não a ajudará a resolver seus problemas.
— Humpft. — Foi a resposta dela, um suspiro cansado, como se o mundo estivesse pesado demais para ela.
Aproximei-me, toquei suas costas.
— Você quer conversar?
— Obrigada, mas não quero te incomodar com meus problemas, a senhora já fez muito por nós hoje.
— Minha filha, falar ajuda, e não fiz nada de mais, além de ceder um pouco de meu tempo. Sabe, desde que cheguei nesta cidade, não fiz amizades. Estou adorando conhecer você e sua pequena. — A menina, após comer três bolinhos e tomar uma xícara de leite, estava adormecida no colo da mãe.
— Sou muito grata pelo que a senhora fez por nós hoje. É tão difícil encontrar pessoas dispostas a ajudar nesses dias de tanto egoísmo. Principalmente com a minha má fama.
— Como assim? Uma moça tão amorosa e simpática. Todos ao seu redor devem amá-la e se preocupar com você.
— Sim, tenho a melhor família e amigos que uma pessoa pode ter, mas, ainda sim, me sinto perdida. Às vezes me sinto um barquinho de papel à deriva no mar durante em uma tempestade.
— A pressão tem sido demais para você?
— Não, ninguém me pressiona, eu que me cobro o tempo todo. Eu tenho tudo o que sempre almejei na vida: um marido maravilhoso que me ajuda e apoia, uma filha linda e saudável, sucesso profissional… Além de pessoas muito importantes ao meu lado.
— Então eu não consigo entender onde está seu problema.
— O problema está em mim mesma, na minha cobrança em ser perfeita, em não decepcionar ninguém. Vivo pisando em ovos para não me enfiar em nenhuma encrenca, e, quando percebo, já fui a responsável por um desastre total.
— Você não foi a responsável pelo que aconteceu hoje, não se martirize desta forma.
— Não diretamente, mas sou responsável por minha filha. Ela ficou sozinha, tantas coisas poderiam ter acontecido… eu não posso me perdoar. Imagina quando minha família souber de tudo… Como vou explicar? Sempre sou culpada por diversas confusões, ninguém vai acreditar em mim.
— Não se julgue tanto, minha querida, as mulheres dos dias modernos têm muitas atribuições e tentam sempre dar o seu melhor, mas são somente humanas e imperfeitas, e caso ache que a demanda está demais, peça ajuda, converse. Quem a ama irá compreender.
— Meu marido me ajuda demais, tenho o apoio de minha tia, meus amigos e até meus sócios entendem. A questão é que todos colaboram por medo do que eu possa fazer, sou um desastre total, e eles ficam se antecipando para nada acontecer. E eu me sinto péssima por isso, queria ser uma mãe exemplar para minha filha, dar conta da demanda que uma criança exige, sem correr riscos. Meu marido também merece uma esposa à altura dele, ele seria o homem perfeito se não fosse a teimosia em pessoa. Me sinto tão inferior a ele, e a última coisa que quero é ser trocada por alguém que não apronte tanto.
— Minha menina, garanto que todos querem o seu bem. Fazem o que fazem por amor, não se cobre tanto, deixe esse barquinho fluir remando a favor das ondas. — Aproveitei e segurei sua mão transmitindo apoio e carinho.
— Obrigada. Sabe, suas palavras me fizeram lembrar de um amigo muito querido que partiu há um tempo.
— Como se chamava o seu amigo?
— Senhor Ângelo, sinto tanto a falta dele.
— O que aconteceu com ele?
— Ele partiu para um lugar muito distante. — Percebi que ela não queria se explicar mais e não a forcei, afinal de contas, todos temos segredos.
— Bem, se quiser me aceitar como sua nova amiga, sempre estarei aqui, ao seu dispor.
E estaria mesmo, afinal, era a guardiã de sua filha e agora acabara de infringir mais uma regra celestial me apegando a essa moça Paloma. Não sabia se fora sua vulnerabilidade, seu carisma, mas era impossível não a amar, e por isso me sentia ainda mais determinada em ajudar.
Ao fundo tocavam trombetas celestiais e o mais puro amor invadia aquele lar. Paloma se sentia mais leve e um sorriso lindo aflorou em sua face. Aninha dormia como um anjinho e também sorria parecendo sonhar com o paraíso. Amanhã o dia seria diferente!