Continuarei Aqui

Daya Alves · Capítulo 6 de 16

Páginas do PDF

Continuarei Aqui

Capítulo 4: Molho de Tomate

ronto, agora vocês já sabem que foi apenas mais uma

trapalhada de minha sobrinha, e elas estão bem, bora trabalhar e cuidar de suas vidas. — Vi Vó Selma esbravejar e colocar todo mundo para correr.

Fiquei quietinha, afinal, era muito esperta…, enquanto observava vovó se aproximar. Achei que ela fosse dar a maior bronca, mas vovó abraçou a minha mamusca, beijou a bochecha dela e disse com sua voz grossa: — Se eu não estivesse tão feliz agora por não ter acontecido nada com vocês, iria te colocar de castigo, descascando todas as batatas para a festa de amanhã! — Arghh, ninguém merece esse castigo! Vovó se afastou prometendo que na hora certa cobraria caro pelo susto que levou.

Corri para o antigo quarto da mamusca e peguei uma boneca da coleção dela para brincar. Ela me deu uma bronca, dizendo para eu não estragar o que ela tinha guardado para mim por tantos anos.

— Cuidado com minhas bonecas!

— Mas se a senhora guardou pra mim, e eu já estou aqui, elas não seriam minhas? — Papai soltou uma gargalhada e veio me pegar no colo novamente.

— Como eu estava com saudades das suas artes. — Ele me deu outro beijo. — Mas você não pode responder a mamãe assim! Quando ela falar para você não mexer em algo, não desobedeça, ok? — Balancei a cabeça concordando, afinal, ele era igual a mim, ninguém resistia ao charme dele.

O restante do dia foi bem legal. Comi um montão, a Vovó Selma era a melhor cozinheira de todas, depois tirei uma sonequinha e sonhei que uma cegonha entregava um menino bem chato para minha mamãe. Acordei bem brava. Deixa só essa dona cegonha aparecer por aqui, que vou arrancar as penas dela!

Papai e mamãe estavam em um chamego só, eles eram tão lindos de se olhar. Peguei minha boneca… ops, a boneca da mamãe, que ela guardou para mim, mas que ainda não era minha, mas um dia seria, se eu não estivesse tão velhinha que não a quisesse mais! Viu só como esses adultos são confusos! Fiquei brincando com ela até depois do jantar, e finalmente tudo parecia calmo, mesmo estando com muita saudade do nosso lar. No dia seguinte, já poderíamos voltar para casa, se os bombeiros deixassem.

De noite, fomos dormir todos juntos no antigo quarto da mamãe. Eu adorava dormir com eles, principalmente quando percebia que eles estavam coladinhos, aí me enfiava bem no meio deles, para ficar de olho se eles ligariam para a Dona Cegonha, eu era realmente muito esperta.

Mas teve uma hora que me encostei no papai e ele estava muito, mas muito quente. Eu cutuquei sua barriga e ele não acordou, até gemeu baixinho. Chamei a mamãe, que não acordava e roncava do meu lado. Fui na pontinha dos pés chamar a vó Selma, que também não acordou e também roncava alto, então tive uma ideia. Liguei para o serviço do papai. Eu já tinha decorado o número, porque via toda hora no macacão laranja dele. Quando a tia atendeu, nem precisei explicar nada, a moça já falou: “Meu Deus! Confusão na casa da Paloma novamente! Ambulância a caminho”. Eu, hein, acho que a tia tinha uma bola de cristal lá.

Sentei na sala e fiquei esperando. Os amigos do papai chegaram rapidão, fui eu quem abriu a porta para eles.

— Meu papai tá lá no quarto, ele tá muuuito quente.

— Onde está sua mãe? — Os amigos de laranja do papai perguntaram.

— Tá do lado dele, mas parece que morreu, porque chamei, chamei… e ela não acordou. — Os homens saíram correndo na direção do quarto. Mamusca finalmente abriu os olhos, muito assustada, quando a equipe invadiu o quarto, foi até engraçado. Em seguida foi a vó Selma que, com o cabelo todo bagunçado, chegou já dando bronca em todo mundo, mas o papai continuava quieto.

— Enrico, meu amigo, acorde! — Um alvoroço se formou ao redor dele, os médicos pegaram alguns materiais na maleta e ficaram examinando o papai. Eu comecei a perceber que tinha algo muito sério acontecendo e fui para o colo da mamãe, que assistia a tudo já chorando, sem poder fazer nada, até a vovó estava quieta.

— A febre dele está muito alta, acho melhor levá-lo para o hospital. — Eu comecei a chorar também, o bombeiro se aproximou de mim. — Não chore, minha pequena, você foi muito esperta hoje, é uma heroína. Prometo que cuidarei bem do seu papai e logo ele estará de volta em casa. — Balancei a cabeça concordando enquanto via meu papito ser levado na ambulância em que ele trabalhava.

Mamãe se aproximou, me deu um beijinho, disse que cuidaria do papai, pediu para eu obedecer a tia Selma, disse que me amava e seguiu na ambulância.

Vó Selma me pegou no colo e me levou para dormir com ela, nem me deu bronca por eu ter ligado para o SAMU, fez carinho em mim e cantou uma música de ninar tão linda, até eu, finalmente depois de um dia de heroia, dormir com os anjos.

Mamusca chegou cansada e triste de manhãzinha, meu papito ficou internado, pois estava com Sarampo. Ela me explicou que no país dele ninguém toma essa vacina (Aiiii, como eu queria morar lá, detesto agulha!), explicou também que essa doença era muito grave em adultos, por isso ele teria que ficar por alguns dias no hospital, mas que logo, logo meu pai estaria de volta, me senti um pouco mais feliz. Depois do café, ela foi tomar um banho, dizendo estar suja de hospital. Fiquei imaginando que ela deve ter dormido no chão, né? Porque ela vivia me dizendo para eu não andar descalça, que o chão era sujo.

Vovó ligou a TV na Masha e o Urso e pediu para eu ficar quietinha enquanto ela ia para a cozinha preparar algumas comidinhas para o buffet dela. Tive até que aumentar o volume, pois o barulho da batedeira dela não me deixava ouvir nada. Foi quando a campainha tocou uma, duas, três. E como vovó não ouviu, resolvi abrir, porque sou muito esperta. Peguei de novo a cadeira, subi nela, alcancei o chaveiro com minha foto e peguei as chaves para destrancar a porta.

Apareceu uma mulher bem séria, de óculos, com roupa de ir para a igreja e um monte de pranchetas na mão.

— Bom dia! Você costuma atender sempre à porta de sua casa? — Ela perguntou com cara de brava, e para mostrar que sou muito esperta, resolvi mostrar a ela.

— Qual o seu nome? Minha mamusca disse que eu não devo conversar com estranhos.

— Me chamo Seleucia e preciso falar com a senhora Paloma Ayres. — Comecei a rir do nome engraçada dela, mas não iria chamar minha mamusca, pois ela precisava tirar a sujeira do corpo para não ficar doente também.

— Olha, minha mamãe não está.

— E você está sozinha em casa?

— Claro que não! Estou com minha vovó, que é muito brava, e é capaz de ela fazer picadinho de mim, igual ela disse para o homem que consertava o freezer dela, se eu for atrapalhar seu trabalho. — Ela me olhou espantada e anotou alguma coisa no caderno, eu fiquei rindo escondido da cara dela.

— Que horas eu posso falar com seus pais?

— Hum, não sei, meu papai e minha mamãe são muito ocupados.

— Então eu vou até o apartamento de vocês, tentar localizar seu pai.

— Nada disso, os bombeiros falaram que lá está interditado por causa do fogo que aconteceu ontem, quando eu fui fazer o papá!

— Você faz comida na sua casa? — Ela estava até com os olhos arregalados enquanto continuava anotando tudo no caderno.

— Não, né? Só ontem, porque eu estava com muita fome e minha mamãe estava brigando com a Fabiana Lambisgoia na porta, porque as gêmeas chatas dela puxam meu cabelo quando brincamos no parquinho do prédio.

— Você apanha de outras crianças?

— Não mais, porque a vovó Selma, que gosta de fazer picadinho com as pessoas, me ensinou a bater de volta, e agora eu mordo quando elas tentam me bater.

— Meu Deus! — Foi a última coisa que ouvi, antes de bater a porta na cara dela, quando o barulho da cozinha parou.

— Aninha, o que você está fazendo perto desta porta? — Vovó chegou com o avental todo sujo de vermelho, acho que era molho de tomate.

— Nada, titia, eu achei que a campainha estava tocando!

— Mas se tocar, você deve nos chamar, nunca atenda à porta.

Oh, oh… melhor eu ficar quietinha e obedecer. A campainha tocou novamente e a titia correu para abrir xingando, perguntando quem ousava perturbar naquela hora. Ela abriu a porta, a mulher com roupa de igreja estava lá ainda. Ela olhou para o corpo da titia todo vermelho, arregalou os olhos e saiu correndo.

Titia ainda gritou:

— Eu já avisei que não atendo fornecedores em minha casa, se quiser, tem que passar no meu escritório!

Mas acho que a mulher nem ouviu, ela correu tão rápido que saiu tropeçando nos saltos dos sapatos dela.

— Por que a senhora está nervosa agora, titia? — Mamusca perguntou depois de sair do banheiro, ainda secando os cabelos.

— Oras, já avisei que não recebo fornecedores aqui em casa, só no meu escritório!

— E a senhora por acaso tem um?

— Não, mas eles não precisam saber!

— Titia, já conversamos sobre isso, a senhora precisa se modernizar, não pode continuar trabalhando de forma amadora, precisa ampliar seu negócio!

Oh, oh! Vi até as fumacinhas saírem da cabeça da vovó.

— E eu já te falei que não preciso de modernidade nenhuma, eu já não dou conta de atender tantos clientes, imagina se ampliar alguma coisa. E minha clientela até hoje nunca reclamou de eu não ser moderna, e todos ainda seguem indicando meu serviço.

Elas começaram a falar sem parar, mamusca realmente não sabia ficar quieta. Quando a campainha voltou a tocar. Dessa vez, quem foi abri-la foi a mamãe.

— Dona Bina! — Saí correndo para abraçá-la.

— Que surpresa agradável, dona Bina! A senhora quer entrar? — Mamãe que perguntou.

— Eu não sabia que a senhora conhecia onde eu moro — falei para a dona Bina, que deu uma tossezinha quando eu perguntei.

— Foi o porteiro do prédio de vocês, disse a eles ser uma parente e ele me passou o endereço de vocês sem pestanejar.

— Eita, se o papito ficar sabendo, vai fazer picadinho dele!

— Ana! — Mamusca e vovó falaram ao mesmo tempo, espantadas com o que eu disse.

— Não se pode falar essas coisas, Ana, não é apropriado para uma criança — Mamãe me repreendeu de forma carinhosa.

— Entendi. Então só os adultos podem? Porque a vovó diz isso o tempo todo. — Mamãe olhou bem feio para a vovó, que fingiu estar espantando alguma mosca da sala, como se estivesse segurando o riso.

— Os adultos dizem isso no sentido figurado, é somente uma forma de expressão que não significa ser real. — Foi dona Bina quem me respondeu de forma educada, enquanto a vovó e a mamãe ficaram discutindo baixinho. — Mas me diga, menina, como estão? Estava preocupada e por isso resolvi vir até aqui. — Ela conseguiu a atenção de mamãe, que a convidou para entrar, finalmente, apresentando a vó Selma e também a chamando para um café.

— Dona Bina, eu estou muito triste. Meu papai está no hospital cheio de pintas, com uma doença muito séria que mata adultos, porque na terra dele ninguém toma vacina. — Hum, me lembrei de algo importante. — Mamãe, a gente pode morar lá?

— Deixar de tomar vacina, não é algo bom, menina, as pessoas podem ficar muito doentes pela falta dela. — Foi dona Bina quem me respondeu, enquanto minha mamãe parecia perdida em pensamentos.

— Sim, Ana, não tomar vacinas é muito ruim. Veja o caso de seu pai, internado por causa do Sarampo e as complicações da doença, quando ele poderia estar aqui conosco.

— Sarampo? Está muito grave? — Dona Bina perguntou.

— Não tenho muitas notícias, o acompanhei durante a noite e vim para casa tomar um banho. Logo votarei para conversar com os médicos, até lá os resultados de seus exames já devem ter ficado prontos. Aliás, não sei como me dividirei com todos os meus afazeres.

— Se quiser, posso ajudá-las. Não faço nada o dia todo, seria um prazer.

— Imagina, Bina, a senhora já dispôs muito do seu tempo noite passada.

— E posso dispor de mais, afinal, para que servem os amigos? Pode ir tranquila com sua tia visitá-lo, que ficarei aqui de guarda dessa menina fofa. — Dei uma risadinha, ninguém conseguia falar não para a dona Bina, e eu achava que sempre via umas luzinhas saindo dela.

— Agradeço muito então. Titia, vamos?

— Só mais uma coisa, ao chegar, trombei com uma senhora correndo assustada e achei esses papéis caídos em sua porta. — Dona Bina os entregou para a mamãe, que ficou olhando de boca aberta toda a papelada em sua mão e disse num tom bem desesperado.

— Primeira Vara da Infância e Juventude, Conselho tutelar, denúncia contra Senhora Paloma Ayres por exposição ao perigo, colocando a segurança da menor Ana Rosa Ayres em risco.

— Ana, você por acaso abriu a porta para alguém, antes de mim? — Vó Selma perguntou assustada, olhando os papéis também.

— Só um pouquinho, a moça nem chegou a entrar e falei para ela que a senhora faz picadinho das pessoas. Foi engraçado ela sair correndo quando a senhora abriu a porta toda suja de molho de tomate, parecia sangue.

Todas as três olharam para a roupa suja da Vó Selma e disseram juntas: “Meu Deus!”. Eu, hein, esses adultos não achavam nada engraçado.