Continuarei Aqui

Daya Alves · Capítulo 14 de 16

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Continuarei Aqui

Capítulo 12: Se você quer sorrir... é

i, voltei! Minha mamusca já falou demais por aqui. Vim contar

 

para vocês sobre minha festa de sete anos. Adivinhem qual personagem seria o tema. Se pensaram na Masha ou na Dory, erraram, agora minha mania preferida eram os unicórnios. Teria bolo de unicórnio, algodão doce e um montão de brigadeiros — a mamusca ficava brava quando eu dizia que era cocô de unicórnio. Mas era tão bom, e eu gostava do marronzinho, não queria colorido. Então qual seria a melhor forma de encaixar na decoração? Ia ser engraçado. A dona Bina prometeu que faria para mim, o dela era o melhor do mundo, mas não contem para a vó Selma.

Sabe, eu estava bem triste, porque ela andava dizendo que sua hora estava chegando. Eu até, sem querer querendo, quebrei todos os relógios para ela não ver essa tal hora chegar. Já pedi para ela ficar comigo, mas Dona Bina me explicou que tinha um trabalho muito importante para fazer em um lugar tão, tão distante, para um chefe muito importante. Por esse lado, fiquei feliz por alguém ainda dar trabalhos para uma vovó.

A mamusca e o papito também ficaram tristes com essa notícia, mas disseram conformados que a vida era assim mesmo, uns chegavam, outros partiam, e o que importava eram as amizades feitas pelo caminho, guardadas com carinho no coração. Eles andavam cheios de segredinhos, um chamego só. Minha mamãe estava até mais bonita, sorridente, não chorava mais escondida, até minha comidinha ela estava fazendo. O tio Ricky falou que seria a última vez que tentaria ensiná-la. E não é que ela aprendeu direitinho? Estava toda feliz. Só a tia Selma que continuava brava, reclamando de a mamãe não jantar mais lá. Agora minha mamusca voltou a trabalhar, mas ia, geralmente, quando meu papai não estava de plantão. Nós éramos uma equipe muito bacana.

Eu voltei a brincar no parquinho do prédio, as gêmeas chatas mudaram e não puxavam mais meu cabelo. E os vizinhos não cochichavam mais sobre a mamusca. Também, meu papai ameaçou processar todo mundo, ele era bem bravo às vezes!

— Ana, com quem você está falando? — Mamãe perguntou para mim.

— Com meus amigos!

— Que amigos? Vai se trocar para sua festa, seu vestido já está em cima da cama.

Bem, estava na hora de eu me arrumar, colocar meu vestido colorido de unicórnio para minha festa.

Daqui a pouco eu volto.

 

— Vocês já contaram para a Ana? — Escutei a voz grossa da vovó perguntar para minha mamãe e meu papai.

— Não, titia, estava esperando o resultado do exame de sangue, porque o da farmácia nem sempre está correto.

— Mas vocês pegaram o resultado há um mês, e ainda não conseguiram contar?

— Porque o resultado deu muito alterado e ficamos esperando para marcar o ultrassom.

— Que foi realizado ontem!

— Titia, hoje é o aniversário dela, por isso achei melhor esperar, pois não sabemos como ela irá reagir. Toda vez que abordamos o assunto, ela apronta alguma!

— Sei, sei… você não está com aquelas inseguranças bestas de novo, acreditando não dar conta de tudo, né?

— Essa fase passou, hoje me sinto mais preparada, estou consciente de que ninguém é perfeito e de que todos me amam do jeito que eu sou!

Meu papai, que só observava a conversa — nem ele era doido de interromper a vovó quando ela queria dar uma bronca —, se aproximou da mamãe e a abraçou, depois deu um beijão nela. Não consegui ouvir o que ele sussurrou no ouvido dela, mas ela ficou da cor de um tomate.

A vovó deu uma tossida interrompendo os dois e disse:

— Vocês têm que contar com jeitinho para minha netinha, ela passou muito tempo sendo filha única, é mimada por todos, é capaz de se sentir enciumada.

— É exatamente isso que estou tentando te explicar, tia Selma. Estamos esperando o momento certo e daremos um jeito de fazê-la participar de tudo. Com o tempo, ela irá se acostumar com a ideia.

Nossa, será que minha mamusca estava dodói? Eu fazia exame de sangue quando estava doente. Mesmo falando para as enfermeiras que meu papai era um médico muito bom, elas sempre me picavam de qualquer jeito. E o que será que eles estavam tentando me contar?

— Será que dessa vez é um menino? Seria o máximo. — Vovó parecia curiosa e empolgada.

— Vou amar ter um menino também, deve ser uma experiência diferente, mas só peço uma gravidez tranquila para mi amor. — Papai respondeu, deu um beijo na mamãe e depois outro na barriga dela. Ah… então era isso que eles cochichavam, minha mamãe estava esperando um bebê, que seria meu irmão. Isso não ia ficar assim!

Corri para me esconder e bolar um plano.

— Alguém sabe da Aninha? — Escutei do meu esconderijo secreto a mamãe perguntar.

Ela queria me contar sobre esse intruso que ia tomar meus papais de mim. Eu ia ficar escondida para sempre, assim ela não poderia me dizer nada.

Subi escondida para o sótão, de lá eu arrumaria um jeito de subir no telhado para ficar esperando a dona Cegonha passar. Eu tinha umas contas para acertar com ela. Onde já se viu trazer um bebê chorão para minha família?!

Levei comigo um estilingue que achei nas caixas do sótão da vovó Selma, muita sorte mesmo, era o que eu precisava para impedir essa traidora. Fiz um monte de bolinhas de papel, mas achei pouco, voltei e peguei as bolinhas de gude. Ah… isso, sim, seria bom. Mas tadinha da Cegonha, e se eu a machucasse? Já sei! Se isso acontecesse, eu a pegaria, levaria para meu papai cuidar, depois a deixaria voltar para sua casinha, em troca de ela não entregar nenhum bebezinho em minha casa. Eu era muito esperta mesmo!

— Ana, estão chegando os convidados, vem brincar! — Ouvi minha mamãe me chamando, eu tinha que ser rápida, antes que eles me achassem aqui.

Subi as escadas que davam para o telhado e fiquei esperando a Cegonha passar. Lá de cima vi minha festa, ficou tudo lindo. Minha mamãe caprichou na decoração e fez tudo o que eu pedi. O bolo de unicórnio na mesa toda colorida com doces e balões, atrás tinha um painel com nuvens, meus titios estavam dançando com suas esposas e filhos, a vovó Selma estava fazendo comidinhas e o tio Rick estava servindo a todos bem alegre, meu papai brincava com as crianças e a minha mãe estava procurando algo com a tia Mel, achei que fosse por mim. Mas só sairia daqui quando acertasse as minhas contas. Já pensou se fosse um menino? Deveria ser chato igual aos da escolinha, ou pior, se fosse parecido com o Heitor, que beijava todo mundo na bochecha com a boca melada de bala. Eca! Ou se fosse menina, então eu teria que dividir minhas bonecas, as roupas, isso sem contar o quarto. E ainda deixaria de ser o xodó das vovós, titios e titias.

Já estava cansada de esperar e perder minha festa, queria comer brigadeiros logo, estava ficando impaciente, já devia estar aqui há uns três minutos. Então eu vi um pássaro branco vindo na direção da casa. Ah… devia ser ela. Peguei o estilingue e subi no telhado para jogar a bolinha, aí ouvi alguém chamar meu nome, me distraí, escorreguei e caí.

Fechei bem os olhos, esperando a dor e com raiva de ter perdido a oportunidade. Mas estava em um colo bem macio, com cheirinho do perfume que eu ficava espirrando no banheiro — me falaram que se chamava lavanda. Abri os olhos devagar e me deparei com a dona Bina olhando para mim com a cara franzida. Fiquei bem quietinha, sabia que iria levar a maior bronca. Ela me abraçou, depois me colocou com delicadeza no chão. Ela estava diferente, era difícil de explicar, mas parecia um anjo.

— Você imagina o que poderia ter acontecido caso eu não chegasse a tempo?

— Eu me espatifaria lá no chão e perderia minha festa.

— Não somente isso, Ana, você poderia ter morrido.

— Igual à vozinha da minha amiguinha Júlia, que foi morar com o Papai do céu?

— Sim, imagina como todos ficariam tristes? Seus pais não aguentariam, você é a alegria deles.

— Ninguém ia ligar, agora tem um bebê novo, e todo mundo só vai dar atenção para ele!

— De onde você tirou essa ideia? Um bebê é uma dádiva, você vai ganhar um irmão.

— Uma davida…

— Dádiva! — Dona Bina me corrigiu.

— Sim, essa palavra difícil aí que eu teria de dividir tudo, desde as minhas coisas até a atenção da minha família.

— Agora entendi tudo, estava imaginando o motivo de você estar pendurada no telhado com um estilingue nas mãos.

— Eu ia acertar as contas com a enxerida da cegonha, para ela não entregar nenhum bebê chorão para meus pais.

— Ana, minha querida. — Ela se aproximou e me colocou no seu colo, fiquei tão calminha! Na minha mente, começaram a passar imagens de um monte de bebês fofinhos rindo, um deles fez gracinha para mim, outros me chamaram para brincar.

— Ter um irmão é ter, sim, alguém para dividir as coisas, mas não só isso, é ter uma companhia para todas as horas, alguém para brincar ou para te fazer rir, ou sorrir para você. É saber que nunca mais estará sozinha no mundo, pois, aconteça o que acontecer, uma dor ou até mesmo uma tristeza muito grande, terá um laço de união para sempre com outro ser que te amará incondicionalmente.

— Parecido com um amigo? — perguntei mais tranquila.

— Sim, como um amigo que tem o mesmo sangue, mora na mesma casa e estará sempre ali, do seu lado.

— Falando assim, parece até bonito, mas se meu papai e minha mamãe não derem mais atenção para mim, ou se gostarem mais do bebê do que de mim?

— Impossível, Ana, coração de pai e mãe é gigante, cabem todos os filhos dentro dele. Alguma vez já duvidou desse amor?

— Nunquinha, tenho os melhores pais do mundo!

— Então não há o que temer, seu irmão ou irmã será uma dádiva em sua vida. Acredita em mim?

Balancei a cabeça, concordando com uma alegria grande dentro do coração. Já até conseguia me imaginar brincando com um bebê super fofo.

— Será que meus papais vão me deixar escolher o nome?

— Claro, por que não? Em quais nomes você pensou?

— Hum… Se for menina, pode ser Barbie, Masha ou Dory. E se for menino, pode ser Nemo ou Spider! Não seria maneiro?

— Acho melhor deixar seus pais escolherem, a criança com um nome desses seria confundida com seus desenhos animados. — Ela deu uma gargalhada da minha resposta. Eu, hein? Achava esses nomes bonitos mesmo.

— Não quero que a senhora vá embora, vou sentir sua falta.

— Lembra que eu tenho um chefe muito poderoso que está precisando da minha ajuda?

Balancei a cabeça concordando.

— Então… Vou continuar meu trabalho com ele, mas saiba que pude aprender muitas coisas ao seu lado. Estarei longe dos seus olhos, mas sempre pertinho do seu coração!

Ganhei outro abraço bem gostoso, retribui com um beijinho na mão da dona Bina, me sentindo muito feliz!

— Vamos, Ana, hoje é a sua festa de sete anos, está ficando uma mocinha linda e inteligente que nunca mais vai aprontar, promete?

— Prometo! — respondi. Mas estava com os dedos cruzados nas costas. Não contem para ninguém, tá?