Continuarei Aqui
Capítulo 13: A vida é uma batata.
oltei para a festa com a dona Bina, toda feliz e imaginando como
seria meu irmãozinho ou irmãzinha. Ela ria achando graça dos nomes que eu escolhia, nem sei por que uma criança não podia ter o nome de nosso personagem de desenho animado preferido. Eu gostaria de chamar me Masha ou Dory, apesar de amar meu nome, que era igual aos de minhas vovós queridas.
— Ana, onde você estava? Seus amiguinhos estão chegando e te procurando.
Corri para o colo de minha mãe, dei um abraço bem gostoso nela, que retribuiu se agachando para ficar da minha altura e falando baixinho para mim.
— Minha menina linda, eu te amo tanto! Quando você chegou em minha vida, me encheu de alegria e me fez querer ser uma pessoa melhor, nunca se esqueça disso!
— Eu também te amo um montão, você é a melhor mamãe do mundo — respondi e dei outro abraço gostoso na mamusca; eu poderia ficar nele para sempre!
— Mi carinhos, também quero um abraço dos meus primeiros amores. — Ouvi a voz bonita do papito se aproximando.
Papai se agachou também, com os braços abertos esperando por nós. Corremos para abraçá-lo, as duas juntas, fazendo com que ele se estatelasse no chão, com nós duas em cima dele. Ele ficou lá caído, morrendo de rir.
— Ah, senhor, obrigada por me dar duas maluquinhas! Maluquinha mãe e maluquinha filha, que tristeza seria minha vida sem elas! — Todos na festa começaram a rir enquanto estávamos caídos, abraçados no chão.
— Posso interromper o momento família feliz no chão para apresentar seu novo primo, Ana? — Foi tio Rick quem nos chamou com um menininho do meu tamanho se escondendo atrás das pernas dele.
Levantamos e o tio Rick nos apresentou a um menino bem tímido, magrinho, com a cor do chocolate e com os cabelos enroladinhos.
— Esse é o Luiz. Ele será o novo membro de nossa família, meu filho. Entrei com o processo de adoção dele e estamos no período de adaptação. Diga olá para seus novos amigos. — Tio Rick pediu de forma carinhosa, mas ele nada disse e continuou se escondendo atrás das pernas dele parecendo assustado.
— Tio Rick, a cegonha trouxe para você um menino grande? Como ela conseguiu carregar no bico tanto peso? — Todos na festa começaram a rir de minha pergunta. Ué? Eu fiquei com dó dela mesmo.
— Meu amorzinho, o Luiz nasceu bebezinho como todos nós, só que perdeu os papais dele quando tinha três anos, então morou todo esse tempo em um abrigo, esperando alguém para adotá-lo, até eu ir fazer um trabalho voluntário e conhecê-lo. Houve uma conexão muito forte entre nós, é difícil até de explicar. No mesmo dia, entrei com o pedido de adoção dele. Na época, ele tinha quase cinco anos. O processo está quase no final, ele tem seis anos agora. Estivemos nos conhecendo por todo esse tempo, e ele logo será, oficialmente, meu filho.
— Uau, tio Rick, que legal! Quer dizer, é triste ele ter perdido os pais, mas foi muito bom ele ter te encontrado. Se você é o tio mais legal do mundo, imagina como papai.
— Eu vou chorar desse jeito, estou super emocionado hoje, nunca imaginei que poderia ter minha família e me sentir tão realizado!
— Ah, tio Rick, o senhor não precisa de desculpa para chorar. E eu adorei meu novo priminho!
Todos novamente deram risadas de minha resposta e mamãe também completou:
— Você é uma das melhores pessoas que conheço, será um excelente pai, Parabéns por esse ato de amor.
— Farei o possível para devolver a alegria para ele. — Tio Rick respondeu chorando de novo.
— Eu te ajudarei no que for preciso, e ai de alguém que ouse destratar meu netinho. E pare de chorar, seu bezerro desmamado! — Vovó Selma chegou dizendo com sua voz grossa, fazendo o Luiz se esconder ainda mais.
— Não sei se fico alegre ou preocupado com isso! — Tio Rick respondeu e já vi uma fumacinha sair da cabeça da vovó. Ela era a melhor vovó, mas era brava que só, e somente eu sabia o quanto ela era um amor e carinhosa com aqueles que amava. Resolvi chamar meu novo primo para brincar, antes que ele fizesse um buraco no chão para se enfiar.
— Oi, eu sou a Ana. Você quer brincar? — Luiz me observou ainda um pouco desconfiado, olhou para o tio Rick pedindo autorização, que balançou a cabeça concordando. Então ele pegou minha mão, que estava estendida esperando a dele, e me deu um sorriso tímido. Esse aniversário estava sendo o melhor de todos. Ganhei um irmão ou irmã e um primo no mesmo dia.
Só fiquei triste na hora que a dona Bina veio se despedir de mim.
— Menina Ana, já está na minha hora. — Que droga, a tal hora chegou e eu me esqueci de quebrar o relógio.
— A senhora não pode ficar? Eu não quero que você vá embora — respondi tentando segurar as lágrimas.
— Nem tudo na vida acontece da forma que queremos ou planejamos. Por isso devemos aproveitar e ser gratos por cada dia que ganhamos, levar no coração somente sentimentos bons e de gratidão. Eu adoraria ficar, mas tenho um trabalho importante a fazer.
Ela colocou em meu braço uma pulseira com um anjinho pendurado.
— Tenho uma nova missão pela frente, mas estarei sempre aqui e você no meu. — Ela apontou para nossos corações, me fazendo ficar bem tranquila. A tristeza sumiu, dando lugar a um sentimento bem quentinho dentro de mim. Retribui dando um abraço bem apertado nela, que murmurou: — Ah, então é assim que se sente o amor… Que sentimento mais nobre!
— A senhora nunca tinha sentido seu coração quentinho assim? — perguntei com dó dela.
— Não, sempre senti compaixão por todos, amor foi a primeira vez, desde que assumi esse trabalho tão importante.
— Então a senhora me ama como uma vovó?
— Amo, Ana, como uma vovó, e quero que se lembre para sempre de mim assim, porque onde eu estiver, até quando você acreditar não mais precisar, eu estarei olhando por ti.
Derramei uma lágrima de emoção, vovó Bina a secou carinhosamente e pediu para eu fechar meus olhos em uma oração, e assim eu fiz.
— Papai do céu, obrigada por ter me dado a melhor família do mundo. Cuida do meu papai e da minha mamãe, porque eles já cuidam muito bem de mim! Abençoe meu irmãozinho ou irmãzinha que está na barriga de minha mãe e, por favorzinho, que seja uma criança que não goste de brincar com minhas bonecas, mas, se for, me ajuda a achar um lugar bem difícil para esconder e ele não achar! Em nome do Senhor Jesus, amém!
Abri o olho bem devagar, já esperando levar uma bronca pelo meu pedido. Eu era uma menina mais boazinha agora, mas bonecas são bonecas, né?
Dona Bina não estava mais lá, deixando seu cheirinho de lavanda, parecia que tinha feito pluft. Olhei para o céu e vi um colorido diferente que me fez sentir aquele quentinho no coração de novo. Como eu era feliz, tinha tudo o que uma criança poderia querer.
Hummm… me lembrei de que ainda não tinha aberto meus presentes. Será que eu ganhei o kit de massinhas grandão? Minha mamusca falou que nunca mais ia comprar esse tipo de brinquedos para mim, só porque eu dei de comidinha para a gatinha do vizinho e colei nos quadros da sala. Eu, hein?! Mas ainda bem que existiam as vovós. Eu pedi para as duas. Elas faziam tudo que os netos pediam, até viravam anjos da guarda para cuidar de nós.
Viu como eu sou esperta!
Eu descobri nessa minha breve historinha, que a vida é igual uma batata, as vezes quente, ou assada e pode até ser frita. Mas, que fica mó legal quando fica doce, mais doce que doce de batata doce!
Ouvi uma música ao fundo, vi meu papai e minha mamãe dançando coladinhos com o papito alisando a barriga da mamusca. O tio Rick rodopiava meu priminho Luiz, que sorria feliz, e todos os meus titios dançavam com suas esposas e filhos. A lindona da tia Carmen segurava as mãos de minha vó Ana e do meu vovô José com um sorriso grande. A tia Mel, junto ao tio João, puxava o Thor para dançar. Ele já estava ficando adolescente e estava chato que só. Eu, hein?! Eu serei mó legal na adolescência. Até a vovó Selma se remexia como se tivesse em um concurso de dança. Viu só como eu tinha a família mais linda do mundo?
Agora me deixem ir balançar meu bumbunzinho com eles, porque a festa só está começando!
Quando cheguei, botei para quebrar, todos fizeram uma roda me deixando no meio, mandando ver no gingado. Papai e mamãe se juntaram a mim, unindo nossas mãos. Vi uma estrela bem forte no céu e senti de novo aquele quentinho no coração. Agradeci por ser a criança mais feliz do mundo e cantei o refrão com todos.
Quando você precisar de mim
Lembra que eu estou bem aqui
Perto do sol pra quando você
Se lembrar de mim 1
1 Música Para quando você se lembrar de mim, composição de Márcio Túlio Marques Buzelin, Marcos Túlio de Oliveira Lara, Paulo Alexandre Amado Fonseca, Paulo Roberto Diniz Júnior, Rogério Oliveira de Oliveira, Wilson da Silveira Oliveira Filho – álbum Pancadélico (2015).