Continuarei Aqui
Capítulo 8: Eu voltei, agora, pra ficar...
i, amigos. Como vocês estão? Acharam que eu não ia aparecer por
aqui, não é? Eu estava com tantas saudades, tenho tantas coisas para contar, afinal, na última vez que nos falamos, estava vivendo o melhor momento de minha vida.
Mas vida de adulto não é fácil, às vezes tenho até inveja da minha preciosa Aninha, tão inocente, aproveitando cada segundo de sua infância, nem imagina a grande enrascada em que a mãe dela se meteu dessa vez. Fala sério! Se vocês estivessem correndo o risco de perder a guarda de seus filhos, ficariam sentadas esperando? Com certeza, não. Agora pensem comigo: quem deve ter feito essa denúncia para o Conselho Tutelar? Eu até cheguei a pensar que tivesse sido a Fabiana Lambisgoia, porém, mesmo sendo tão frívola, ela também é mãe, e tenho certeza de que uma mãe nunca denunciaria outra por causa de uma mentira. Além do mais, ela só se preocupa com o aniversário das gêmeas e em sair bem nas fotos das revistas e redes sociais. Ah… nem contei. Lembram-se do traste do Cadu, meu ex-noivo? Virou deputado apadrinhado pelo sogro dele, pai da Fabiana. Bem a cara dele virar político, não é?
Bom, deixa esse encosto para lá, preciso concentrar minhas forças nessa denúncia sem cabimento para sair dela com minha família intacta. Preciso resolver tudo sozinha dessa vez, enquanto meu grande amor se recupera, porque eu não tenho a menor dúvida que o Enrico logo terá alta. Os amigos médicos dele me explicaram que o Sarampo em adultos pode trazer consequências graves e que a infecção se espalhou, mas tanto eles como eu sabemos quão forte e saudável o Enrico é, e por isso não vou mais chorar, vou confiar em Deus, e sei que Ele irá me ouvir.
Nunca imaginei o quanto poderia ser feliz ao lado de uma pessoa tão companheira. É claro que nem sempre é um mar de rosas. Enrico continua sendo um cabeça-dura, e eu, a insegurança em pessoa, mas nada que nós não resolvamos com uma boa conversa e depois uma linda noite de amor. Ai, ai… que saudades das estrelinhas! Já estávamos um tempo separados, pois ele foi buscar os pais na Venezuela, e vocês conhecem meu marido, ele, enquanto não visse seus familiares em segurança, não iria sossegar. É isso que mais amo nele, está sempre disposto a sair em socorro de alguém. Ai, meu Deus, chama o Samu! Lembrei-me dele vestido com aquele uniforme, fica uma tentação.
Ai, ai… desculpem o meu rompante, mas, realmente, meu marido é a tentação em pessoa. E aquele sotaque? Ui… olha eu desviando de novo. Bem, onde parei? Então, o Senhor Ângelo sumiu no mundo de verdade. Eu até acho que foi ele quem me ajudou quando cheguei perdida em Piracicaba. De vez em quando eu sinto a presença dele, porém quem sou eu para perguntar ou duvidar? Já fui tão abençoada com a ajuda de um anjo que não ouso nem pensar nessa possibilidade. Oi? Ah, não, não contei isso para ninguém, nem para o Enrico. Até hoje ele acredita ter sido uma brincadeira do Ângelo, e como ele é um bom cabeça-dura, está sempre o procurando por vários lugares.
A minha empresa está indo de vento em popa, apesar de eu selecionar melhor os eventos e as noivas. Tanto o Ed como eu estamos priorizando o tempo junto à família, que é o bem mais valioso de uma pessoa.
A tia Selma vocês viram, é ainda a rabugenta mais protetora do mundo. Ela finge ser aquela general, mas só eu sei o tamanho de seu coração. Ah, e continua no maior chamego com o policial dela, brigando com todos os fornecedores e bombando seu buffet do jeito mais simples possível.
O Rick e a Mel também estão bem, obrigada. Ela, autoritária como sempre, e seu filho, a coisa mais fofa e inteligente do mundo. O Rick finalmente sossegou e até está pensando em adotar uma criança com seu companheiro. Alguém tem dúvida do excelente pai que ele será?
E eu, ah… eu sou a mesma pessoa mais desastrada do mundo, insegura, banana e apaixonada por meu gato moreno e minha filhinha linda. Bem, já fiquei muito tempo de papo e preciso resolver minha vida, agora que descobri que sou eu a responsável pelas rédeas dela.
Ding dong!
A campainha está tocando, só falta ser a mulher do Conselho Tutelar, ela ficou de vir hoje ao meu apartamento para ver as condições em que a Ana vive e se realmente possuo sanidade para criar uma criança, já que na denúncia falaram que eu sou doida de pedra. Eu, hein?! Pessoa mais mentirosa.
Para minha surpresa é a dona Bina, ela se tornou uma amiga muito solidária e vem me ajudando bastante, não só em relação a Aninha, e também me estimulando e sempre me mostrando que estou no caminho certo.
— É hoje a visita da conselheira? — inquire assim que a convido para entrar.
— Sim, e eu não tenho mais unhas para roer.
— Fique tranquila, Paloma, dará tudo certo.
— Não sei… Já limpei a casa umas três vezes, organizei e revisei tudo, coloquei a melhor roupa na Ana, olhei cabelo, orelha e unha, até enchi de frutas e legumes a dispensa.
— Não é necessário tanta apreensão, apenas seja você e tudo dará certo.
— Sei não, eu sou o desastre em pessoa. Confusão é meu sobrenome. — Bina abana as mãos, minimizando a situação.
— Cadê a Ana?
— Está no quarto dela. Ana, venha aqui.
— Anaaa?
— Ana, cadê você?
— Aí, meu Deus, cadê essa menina?
Não dá tempo nem de pensar no que fazer, a campainha toca, eu olho para o relógio e vejo que é exatamente a hora marcada com a assistente social.
— Atenda à porta enquanto eu procuro essa fujona.
Obedeço ao comando da dona Bina e vou atender à porta meio que no piloto automático, já imaginando uma nova rota de fuga. Isso lá é hora de essa menina resolver brincar de esconde-esconde?
Uma senhora carrancuda está à porta, já impaciente.
— Boa tarde — digo ao abrir a porta, mas a simpatia nem se dá o trabalho de responder.
— Senhora Paloma Ayres, sou a senhora Marta da regional que irá apurar a denúncia feita ao Conselho Tutelar da cidade de São Paulo, minha agenda está lotada hoje e preciso iniciar o quanto antes minha avaliação. — Ela diz com um tom de voz imponente olhando para mim por cima dos óculos. Um frio sobe por minha espinha, minhas pernas tremem tanto que mal consigo sair da frente da porta para ela entrar, já com uma prancheta em mãos observando e anotando tudo.
A Bina não aparece com a Aninha e uma crise de ansiedade toma conta de mim. Começo a apertar tanto os dentes que dá para eu ouvir os estalos em minha mente. Um suador se instala e começo a fazer um mantra mentalmente, repetindo várias vezes enquanto a conselheira inspeciona minha casa: “Não posso decepcionar quem confia em mim”.
— Aqui na ficha consta que a senhora é casada. Onde está seu marido?
— Ele está internado em estado grave — respondo de forma sincera, como fui instruída pelo advogado amigo do Rick.
— E posso saber por qual doença?
— Sarampo.
— Sarampo? Como assim? Vocês não são imunizados? A sua filha está imunizada?
— Minha filha tomou todas as vacinas, pode comprovar na caderneta de vacinação que entreguei com todos os documentos solicitados. A questão é que meu marido é venezuelano e em seu país essas vacinas não são ofertadas. — Ela continua olhando para mim com cara de quem chupou algo azedo.
— Então seu marido é um refugiado? Ele está aqui legalmente?
— Ele veio para o Brasil muito antes de a crise estourar em seu país, sua função como médico também está nos documentos em anexo. — Ela folheia a papelada para conferir se estou falando a verdade. Ai, Jesus! Cadê essas duas?
— Aqui diz que você assessora noivas. Isso, por acaso, é uma profissão?
Conto até dez mentalmente para não lhe dar uma resposta malcriada.
— Sim, é uma profissão, e por sinal minha empresa é uma das mais requisitadas no ramo.
— Isso significa que a senhora tem muito trabalho?
— Sim, muito. Às vezes viramos o final de semana. — Ela me olha com cara de que me pegou no pulo.
— Então… se você trabalha muito como disse, na empresa mais requisitada, e seu marido é médico socorrista e plantonista, quem cuida da filha de vocês? — A assistente questiona conferindo nos documentos.
Não tenho tempo de responder, um mini furacão passa correndo, invadindo a sala com a dona Bina correndo esbaforida atrás.
— Quem é essa senhora? — Sra. Marta pergunta, medindo uma dona Bina assustada.
— Sou a babá da Aninha, estávamos brincando de esconde-esconde.
Bina sussurra para mim que achou a Ana escondida embaixo da cama, com um canetão na mão, fazendo pintinhas na pele, e quando tentou tomar dela, a Ana saiu correndo para a sala.
— Meu Deus, essa menina está com sarampo também! — Percebendo que alcançou seu objetivo, Aninha começa a tossir na direção da senhora, que tenta se proteger enquanto eu não sei se rio ou choro.
— Olhe, é apenas canetinha. — Dona Bina tenta ajudar, já que parece que o gato comeu minha língua.
— E a senhora acha que isso ameniza a situação? Eles não dão conta de olhar a filha e ainda contratam uma babá idosa, que não consegue controlar uma criança!
Ficamos só observando a assistente anotar enfurecidamente nos papéis em sua prancheta, até dizer um “passar bem” seco e ir embora do mesmo jeito que entrou.
Olho para Ana, que está dando pulinhos no ar acreditando ter sido bem-sucedida, depois para dona Bina, com cara de derrotada, e uma determinação toma conta da nova Paloma modelo 3.2. Não serei derrotada assim tão fácil!