Continuarei Aqui

Daya Alves · Capítulo 7 de 16

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Continuarei Aqui

Capítulo 5: Velocidade Máxima

inha algo muito errado acontecendo. Os adultos cochichavam, e

quando eu chegava perto, fingiam que não estavam conversando sobre coisas de gente grande. Mamusca, antes de ir visitar o papai, pediu para eu obedecer a tia Bina e também para eu não me preocupar, que ninguém iria separar a gente. Nossa, ela estava muito preocupada com o papai mesmo, pois estava toda chorosa e me abraçando tão forte que até doeu minha rabiguinha. Não, birraguinha. Ah, esse negócio fofinho, que tem um furo no meio. Eu, hein?! Palavra difícil.

Tia Selma também pediu para eu não aprontar nadica enquanto ela ia entregar algumas comidinhas do buffet. Fiquei em casa com a tia Bina. Ela era tão boazinha, eu me sentia tão calma ao lado dela quando ela contava histórias para mim. Brincamos bastante e assistimos ao desenho da Masha, comi bolinhos e nada de a mamãe chegar. Eu adorei porque não fui para a escolinha de novo. Eu até gostava de lá, mas ficar em casa vendo desenho e comendo bolinho era muito melhor.

Vó Selma voltou para casa toda rabugenta e preocupada, ligou para o namorado da polícia e depois me disse que precisava sair de novo. Fiquei sozinha com a tia Bina de novo, que cochilava o tempo todo no sofá, devia estar cansada, tadinha. Eu a fiz brincar comigo de Masha, e ela era o Urso, e de Peppa Pig como Papai Pig, também a fiz dançar a música do galo Carijó, contar os números com a Mariana e ainda brincar de casinha. Quando a mamãe chegou, ela deu um pulo do sofá já cantando “Mariana conta um”, foi muito engraçado, até minha mamãe deu risada da cena. Ela pediu para a tia Bina esperar mais um pouco, porque ela ia tirar a sujeira do hospital e já voltava para cuidar de mim.

Estava com muita saudade do meu papai e comecei a chorar, tia Bina se aproximou, me deu colo, cantou uma música de ninar e, com a calma de sua voz, eu finalmente dormi, sonhando com um monte de anjinhos brincando comigo.

 

Depois de contar com a Mariana um monte de vezes, pular poças imitando a Peppa e cuidar do galo Carijó, consegui por fim fazer com que a Ana Rosa dormisse, utilizando alguns artifícios especiais. Nunca pensei que seria tão cansativo ser anjo da guarda de uma criança, estava exausta e acabei me entregando ao sono dos justos.

Acordei num pulo novamente, com meu alerta tocando. Olhei ao redor, ainda estava na sala da Selma, e a casa permanecia no maior silêncio. Não encontrei a menina nem sua mãe em cômodo algum. Meu alarme começou a tocar mais alto e, da janela, vi Paloma entrar em um táxi, olhando para todos os lados. Será que ela estaria voltando para seu apartamento? Mas, se fosse isso, meu alarme de perigo não estaria soando tão insistentemente.

Tentei alcançá-la, mas na forma humana de uma senhora idosa era impossível acompanhar o táxi, que saiu em disparada. Que Deus me perdoe, porém situações drásticas mereciam ações rápidas. Vi um dos entregadores do buffet se aproximar em uma moto e me joguei em sua frente, ele desviou com tudo para o lado, caindo na rua. Levantei-me ignorando minha recém-descoberta — como era sentir a dor de um joelho ralado — e roubei a moto, torcendo para encontrar o táxi branco na próxima avenida. Por sorte, minha memória ainda estava boa e decorei a placa. Sem considerar meu alarme, que tocava cada vez mais alto conforme Paloma se distanciava, fui ultrapassando os carros, seguindo a intuição, levava um monte de buzinadas e xingamentos. Quando percebiam que a piloto era uma idosa, se espantavam e alguns até se benziam.

Avistei ao longe o táxi entrar em uma rodoviária, mas fui barrada ao tentar entrar com a moto. Larguei-a no canteiro, dizendo que ia fazer uma entrega e corri em disparada enquanto o segurança assustado tentava me explicar que a entrada para entregadores era em outro portão.

Novamente, não tive tempo de pensar. Quando vi a Paloma entrar em um ônibus de viagem com sua filha, pensei: “O que essa maluca está fazendo?”. Tentei entrar no ônibus, mas fui barrada por um fiscal mal-humorado, que pedia meu tíquete de embarque. Sem opção, em um momento de distração dele, me enfiei no bagageiro e me escondi nos fundos, torcendo que não ficasse lotado. Ledo engano, as malas foram se amontoando e me espremendo, e ainda colocaram um cachorro dentro de uma caixa transportadora, que começou a rosnar para mim quando sentiu minha presença, a dona dele apareceu toda brava dizendo ser contra os direitos dos animais e conseguiu levar a fera consigo, me livrando pelo menos desse infortúnio e de ser descoberta.

Resultado: três horas mais tarde, depois de ser chacoalhada, espremida e ameaçada por um cachorro raivoso, o ônibus parou.

Tive que sair de fininho, entre uma mala e outra, sem que ninguém me visse. Procurei pela Paloma e a filha dentro do ônibus, e nada delas. E agora, o que eu faria? Meu alarme estava me deixando maluca, outra dor recém-descoberta me atormentava, na coluna, por ter viajado toda torta em um espaço pequeno e ainda perdi de vista minha pupila.

A rodoviária ficava bem no centro de uma pequena cidade, não seria difícil encontrar uma mulher e uma criança em fuga.

Rodei a cidade perguntando a todos se as tinham visto. Não as encontrei e fiquei me perguntando como havia conseguido me distrair a ponto de perdê-las de vista. O que teria motivado essa ação da Paloma? Esperava sinceramente que não se tratasse de mais uma de suas trapalhadas, porque eu estava encrencada por deixar minha pupila desprotegida e fiquei muito preocupada quando meu alarme parou de tocar.

 

Ana Rosa

 

— Mamãe, quem era aquele senhor bonzinho que buscou a gente na rodoviária?

— Era um amigo, não o via há muito tempo.

— Ah… Ele parece ser tão bonzinho. Igual a tia Bina.

— Ele é um anjo, sim, minha querida, estava sentindo muito a falta dele.

— Mas por que ele não pôde esperar para conhecer a vovó?

— Ele é uma pessoa muito ocupada, tinha que voltar para sua cidade, que fica muito longe.

Minha bisa abriu a porta e ficou surpresa quando viu a gente parada bem ali na sua frente. Ela morava em uma cidade com um nome muito engraçado, Piracicaba. Eu morreria se tivesse que escrever tudo isso no caderno de caligrafia da escolinha. Minha mamusca não sabe, mas só escrevo Ana, porque é bem mais fácil. Eu também queria entender o motivo de escrever meu nome toda vez, já que a professora sabe como me chamo de cor, tanto que sempre fala: “Ana Rosa, pare de falar”, “Ana Rosa, sente na cadeira”. Eu, hein?! A escolinha às vezes era muito chata.

— Que surpresa agradável, minha neta. Entre.

Minha bisa era a pessoa mais legal do mundo. Ela me deu um abraço tão gostoso. Ela tinha cheiro de bolo de chocolate e seu cabelo parecia algodão doce.

— Seu pai já sabe de sua chegada aqui? Outro dia mesmo ele estava dizendo que estava morto de saudades e já planejava ir até São Paulo te visitar.

Ownnn… Como que alguém morto poderia sentir saudades? Eu, hein?!

— Não falei com ninguém, vó, na verdade, não avisei sobre minha viagem.

— O que está acontecendo, minha menina? — A bisona perguntou para minha mamãe. Ela me olhou para ver se eu estava prestando atenção à conversa, mas como sou muita esperta, fingi estar brincando com a gatinha fofa da bisa.

— Eu saí apressada, trouxe poucas roupas até. Além de vir buscar o seu colo, preciso da sua sabedoria para decidir o que fazer com o desastre de minha vida. — Mamãe respondeu baixinho.

— Minha neta, você sempre foi tão alegre. O que aconteceu para te deixar tão triste?

— Tudo! Eu sabia que não daria conta de ser esposa, mãe e profissional. De alguma forma, eu estragaria as coisas.

— Acho que está se cobrando demais, garanto que tem feito o seu melhor. Sua filha está linda e saudável, pelo que sei sua empresa é um sucesso e seu marido, sempre que o vejo, parece mais apaixonado do que nunca.

— Mas, vó, eu não consigo ficar longe de uma trapalhada sequer. E dessa vez foi a maior de todas. Eu quase coloquei fogo no prédio, porque deixei a Ana sem supervisão e ela resolveu me ajudar a fazer comida, explodindo o micro-ondas. Olha o risco que ela correu por minha incapacidade.

— Paloma, crianças são arteiras e imprevisíveis, não vi onde você teve culpa. E mesmo que tivesse, todo ser humano é passível de erros, ninguém é perfeito.

— Mas, vó, por causa disso tem uma assistente social querendo tirar a guarda da Ana de nós. Como conseguirei provar que sou capaz de cuidar de uma criança tão indefesa?

— Com amor, minha neta, e isso eu tenho certeza de que você tem de sobra para dar. É impossível ninguém reconhecer seu coração puro.

— A assistente social está atrás da Aninha, querendo provar minha incapacidade de cuidar dela, e o Enrico está muito doente. Eu simplesmente não consigo sem ele, muito menos vê-lo tão vulnerável. Por isso fugi, vó, me deixe ficar aqui com a senhora, só assim não irão tirar minha filha de mim.

— Olha, Paloma, eu iria amar ter minha neta e minha bisneta morando aqui comigo, mas não posso compactuar com esse temor seu, mesmo sendo verdadeiro, tenho certeza que não ocorrerá. Você vai passar a noite aqui comigo, vou cuidar de você da forma que está precisando, mas amanhã irá retornar para seu lar e provar para si mesma o que não está conseguindo enxergar por seu autojulgamento, talvez por cansaço ou excesso de cobrança.

— Ah, vovó, a senhora me superestima.

— Sim, e é exatamente o que você está precisando enxergar. Seu valor é inestimável.

A bisa se aproximou da mamãe e deu um abraço nela, que ficou chorando baixinho. Eu fiquei com dó também, parei de fingir minha brincadeira e segurei as mãos das duas. Mamãe levantou a cabeça me olhando e secou suas lágrimas.

— Eu prometo que irei consertar toda essa bagunça, não vou chorar mais, e juntas iremos cuidar do papai. — Mamãe me disse, parecendo melhor. Como era bom ter colinho de vez em quando.

 

Enquanto isso, em lugar muito distante dali…