Continuarei Aqui

Daya Alves · Capítulo 11 de 16

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Continuarei Aqui

Capítulo 9: Paloma Balboa

na, mais tarde iremos conversar direitinho sobre essa arte

 

nova sua.

Ela abandona os pulinhos, fazendo cara de choro, mas eu não vou me deixar levar.

— Dona Bina, eu preciso sair!

— Ai, meu Deus, você não pensa em fugir novamente?

— Não, de forma alguma. Só preciso ir até a casa de titia conversar com o namorado dela. Tem algo estranho nessa história toda.

— Sabe que estou com esse pressentimento também? Vou te acompanhar, talvez exista algo em que eu possa ajudar — Bina se prontifica.

Pego uma blusa extra para a Ana, afinal, em São Paulo faz todas as temperaturas em um mesmo dia, a história que vocês ouvem de “coloca o casaco e tira o casaco” aqui é bem real. Saímos sob os protestos da Ana de que vai começar o desenho da Masha e o Urso e ela não pode perder. Não dou ouvidos, pois, de alguma forma, tenho que resolver toda essa situação.

Esperamos o elevador, que parece estar preso em algum andar, por um tempinho, e com a Ana ainda choramingando por perder o desenho. Resolvemos descer pela escada de emergência, antes que ela nos ganhe pelo cansaço.

Uma discussão acalorada vem de um dos andares acima. Mesmo com a curiosidade aguçada, ignoro o barulho, ansiosa por contar minhas desconfianças para o delegado. Mas Bina, em total alerta ouvindo a conversa, pede para nós fazermos silêncio. Acho muito mexerico da parte dela, só que uma voz e um nome, no caso o meu, me chama a atenção.

Subo na ponta dos pés, pedindo para as duas fazerem silêncio e me esperarem onde estão. Eu me sinto até mal por estar ouvindo a conversa dos outros, porém, conforme vou subindo, tudo vai se esclarecendo e um ódio primitivo vai me dominando.

— Como assim não tem nada que configure a perda da guarda? — A voz da vizinha vagaba do 501 martela no fundo do meu cérebro.

— Eu te avisei que isso não iria dar certo.

— Olha aqui, Cadu, você me prometeu que nós iríamos acabar com a alegria daqueles dois. Agora vem com essa historinha de que não há nada o que fazer?

— A conselheira indicada por meu sogro acabou de sair de lá e me ligou dizendo que não existe possibilidade de continuar com a ação, pois não foi constatado nenhum indício de maus tratos.

— Como isso pode ser possível? Aquela maluca, quase colocou fogo no prédio com a criança lá.

— Ora, nós dois sabemos que foi você quem pagou para aquele técnico mexer nos aparelhos da casa, quando o viu ser chamado para consertar a máquina de lavar deles. Sorte não ter acontecido nada mais grave!

— Não me venha com lição de moral. Você queria o dinheiro do seguro e estava torcendo para o prédio todo pegar fogo, para poder fugir para algum paraíso fiscal antes que fosse pego na operação “lava calçadas”!

— Eu queria o dinheiro para fugir com você, sua mal-agradecida. Todo o dinheiro que tenho é por causa da Fabiana, como poderia simplesmente fugir sem um real aqui no Brasil?

— Me desculpe, meu Amor, é porque fico cega de ciúmes. E como sua esposa sempre acusa, ainda acho que você é apaixonado por essa maluca. Já basta ela ter me roubado o meu boy latino.

— Aquele lá é carta fora, fiquei sabendo que está hospitalizado em estado grave.

— Uma pena, queria ver a cara dele quando a filhinha insuportável fosse parar em um abrigo!

Eu não sei dizer como aguentei ficar quieta por tanto tempo enquanto ouvia aqueles dois tramando contra minha família. Como eles podem ser capazes de manipular contra uma criança? Estava tudo explicado agora, o Cadu se juntou com a vagaba do 501, ex do Enrico, para destruir minha família. E ainda são amantes, tramando colocar fogo no prédio para receber o dinheiro do seguro e fugir para algum paraíso fiscal. Agora tudo faz sentido! Que nojo!

— Faz o seguinte, benzinho, oferece dinheiro para essa assistente. Ela, com certeza, vai aceitar o suborno.

— E de onde eu vou tirar mais dinheiro?

— Ah, sei lá. Tira da poupança das catarrentas das suas filhas.

Ao ouvir que eles ainda pretendiam continuar com a tramoia, não dou por mim e saio gritando para acertá-los, eles vão ver quem é a maluca e que não se mexe com uma mãe. Eles levam um baita susto por serem flagrados. O covarde se esconde atrás da amante e ainda a usa de escudo enquanto eu, furiosa, arranco os apliques dos cabelos dela. Eu quero mesmo é deixar as marcas de minhas unhas na cara engomadinha do Cadu, só que ele se protege, empurrando a própria aliada contra mim. Eu, ensandecida como estou, a xingo e a chuto sendo observada pelas pessoas que começaram a chegar com o meu repentino momento de fúria. Até que ela resolve reagir e tenta se livrar do meu ataque, empurrando o Cadu para cima de mim e mandando-o me dar jeito. Ele se desequilibra ao tentar ficar entre nós e desaba o corpo sobre o meu. Eu já estava me virando para partir em uma tentativa de me acalmar, quando sinto o baque de seu peso me empurrando para escadaria abaixo. Apago quando sinto o pé dele acertar minha cabeça ao cair do último degrau.

Abro os olhos com muita dificuldade e com uma dor latejante na nuca, dessa vez, estou encrencada de verdade. Não quero nem ver quando a tia Selma descobrir que me engalfinhei com a vagaba do 501. Mas que eu lavei minha alma, eu lavei! Eu até tentei ficar imparcial por todo o tempo que ela falava de mim, porém meu sangue subiu quando ela ofendeu a Ana. Já não bastava toda a tramoia para mandar minha filha para um abrigo?

Tento me levantar, mas minha cabeça gira sem parar. Busco o som de sirenes, já estou até acostumada com elas, porém o silêncio chega a ser assustador. Ai, meu Deus, a Ana! Na última vez em que a vi ela estava com a Bina. Será que ela viu a mãe brigar feito um moleque de rua?

De novo, faço outra tentativa de me levantar, mas a vertigem não deixa. Uma mão cálida me toca, acalmando meus sentidos. A voz que ouço a seguir me assusta e também me acalenta.

— Minha adorável menina, sempre agindo impetuosamente!

— Senhor Ângelo, quantas saudades! — Eu me levanto com dificuldade para abraçá-lo, mas ele parece não ser real, parece apenas um vulto.

— Ah, menina, não fique triste, estamos a uma distância do toque, porém próximos do coração.

— Eu sei, o senhor é um anjo. Ai, meu Deus, o senhor é um anjo!

— Acho que ambos já sabemos disso.

— Sim, mas se você é um anjo e eu estou aqui conversando com o senhor, significa que eu morri?

— A morte é algo relativo, depende do ponto de vista de quem observa, pois às vezes o corpo se finda para se permitir viver em eternidade.

— Ah, vovozinho, não faça isso comigo, não consigo entender essas parábolas. Puxa vida, minha vida é uma confusão, mas não posso simplesmente morrer agora!

— Acredito que não somos nós quem decidimos nosso tempo na Terra, caso contrário, muitas vidas seriam eternas e outras mais breves do que devem.

— Então, a minha está no meio… Tem a Ana, o Enrico doente, minha empresa, além da titia, que vai me matar se eu simplesmente morrer assim! Se bem que não se mata um morto, né?

Ele riu.

— Minha menina nunca perde o humor. Mas eu te pergunto: nessa escala de prioridades, onde você entra?

— Mas eu tenho que pensar primeiro neles. É por eles que todos os dias eu continuo tentando não tropeçar nos meus calcanhares.

— Sim, você deve pensar neles! Mas se eu te pedir para listar todas as coisas que ama, quanto tempo você irá demorar para se citar?

Penso, penso… e, realmente, eu nunca me colocaria nessa lista.

— Está vendo, minha doce menina? Sei que tens passado por dificuldades, e até por um período de reflexão, mas no momento em que você se colocar como prioridade, renascerá para uma nova vida, em que todo esse amor que destinas aos outros virará amor-próprio e nunca mais você colocará em dúvida a mulher maravilhosa que se tornou.

— Ah, vovozinho, o senhor sempre tem o dom de falar palavras tão bonitas que quero até ser mesmo essa mulher aí.

— Você é, minha menina, basta acreditar!

— Então eu não morri?

— Não, minha menina, você só está desacordada! E lembre-se: eu sempre estarei aqui.

Ouço o barulho familiar das sirenes da ambulância do Samu, agora sei que tudo finalmente ficará bem!