Continuarei Aqui

Daya Alves · Capítulo 3 de 16

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Continuarei Aqui

Capítulo 1: Filha de Peixe... peixinho é.

E tudo começou por causa da

 

Galinha Pintadinha.

 

u estava em casa, depois de chegar da escolinha, sentada em frente à

televisão, assistindo ao meu canal de desenho preferido, quando apareceu aquele monte de bichinhos dançando na TV, me deixando encantada com seu colorido, eu simplesmente adoro a música do Galo Carijó. Corri até meu quartinho e peguei minha popó para dançar comigo. Minha mamusca estava fazendo mil coisas ao mesmo tempo — desde que meu papito viajou para buscar minha vovó lá lonjão, ela vivia triste e cansada. Quem me buscava na creche era sempre o meu papai, enquanto minha mamãe trabalhava com as noivas, um montão delas. O titio Ricky me contou que a empresa dela é a melhor do mundo. Eu adorava ver as noivas quando ela me levava junto, achava os vestidos tão bonitos, pareciam princesas, quando eu crescer vou querer um vestido da cor do arco-íris.

Mamusca estava só me observando enquanto pensava no que fazer para minha comidinha. Era meu papai quem fazia essa parte também, ele dizia que a mamãe e o fogão não se entendiam. Eu, hein?! Quem precisaria se entender com um objeto? Mas eu nem ligava. Quando o papai estava dormindo no emprego, que era muito importante — ele me explicou que salvava um montão de gente dodói —, íamos para a casa da vó Selma e jantávamos lá. A comida da vovó era a melhor do mundo, igual à empresa da mamusca. Só que hoje, quando chegamos lá, já escutamos do portão os gritos dela com o técnico do freezer, que vivia quebrando.

— Quebrou de novo, tia? — Escutei mamãe perguntar.

— Humpt — foi a resposta da vovó, ela estava muito nervosa. Quando eu percebo, já fico quietinha, mas minha mamãe…

— Tia, a senhora tem que comprar um novo, esse freezer já quebrou pelo menos umas cinquenta vezes por não aguentar a quantidade de comida que a senhora estoca nele.

Vovó só olhou por cima dos óculos… oh, oh!

— Se esse moço não fosse tão incompetente e parasse de ficar colocando peças recondicionadas toda vez que ele quebra, eu não precisaria consertar novamente.

— Se a senhora comprar um novo, também não.

Consegui até ver o foguinho saindo das ventas da vovó.

— Olha, Paloma, só não vou responder porque minha netinha linda está do seu lado, mas, para o bem dos ouvidos dela, eu recomendo que você volte numa hora em que eu esteja mais calma, e não querendo enfiar a cabeça de alguém dentro do meu freezer com as comidas estragadas.

Ufa! Mamãe, enfim, percebeu que a coisa era séria, pegou minha mão e saímos, com ela cabisbaixa. Tadinha da mamusca… Era sempre tão incompreendida. Nunca entendi por que a vovó falava que o sobrenome dela era confusão. Ela me olhou e sorriu fingindo estar tudo bem.

Nem chegamos ao portão e o técnico passou por nós correndo, muito assustado, enquanto um monte de comidas caía dele. A vovó apareceu na porta, gritando:

— Volta aqui, que eu vou te fazer engolir esses repolhos podres pra você aprender a consertar um freezer direito!

Nós olhamos e rimos com a cara de espanto do rapaz, mas saímos dali rapidinho também.

Peguei minha popó no quarto, voltei para a sala e fiquei em frente à TV, balançando meu bumbunzinho. Mamusca olhou para mim e sorriu, aí foi que mandei ver no rebolado, o sorriso dela era a coisa mais linda, mas, na parte “Os pintinhos foram correndo pra chamar o seu doutor”, comecei a chorar, porque me lembrei do meu papai. Nessa parte, ele adorava brincar comigo. Mamusca percebeu, correu para me abraçar e também começou a chorar.

Fiquei coladinha nela até a saudade passar, as musiquinhas iam tocando e mamãe começou a dançar comigo, imitando todos os sons dos bichinhos. Estava muito divertido e eu ri bastante, mas então ela parou de repente, olhou no relógio e se assustou.

— Ai, meu Deus! Já está tarde, e eu não faço a mínima ideia do que vou te dar para jantar — mamãe falou e resolveu ir atrás do celular. — Acho melhor eu não inventar de fazer nada, se acontecer algo com seu pai viajando, tia Selma vai fazer picadinho de mim. Mas aonde será que foi parar meu celular? — Enquanto ela procurava o aparelho, que vivia sumindo ou quebrado, eu fiquei quietinha imaginando como a vovó faria esse picadinho da minha mamãe.

A campainha tocou, e quando a minha mãe abriu a porta, era a Fabiana Lambisgoia. Achava muito engraçado o nome dela, e a mamusca me dava bronca toda vez que eu dizia essa palavra difícil. Ela dizia que crianças não devem pronunciar essas coisas, eu realmente não conseguia entender esses adultos.

Eles se mudaram para o nosso prédio quando as gêmeas deles nasceram, eu ainda era bebezinha, mas sabia que meu papai e a mamusca não gostavam deles, e eu também não gostava de brincar com as meninas no parquinho do prédio, elas ficavam puxando meu cabelo e a mamãe ficava muito brava.

— Fabiana? Boa noite — mamãe disse, surpresa.

— Eu vim te fazer uma proposta — a Fabiana já foi dizendo, sem responder ao boa-noite.

— Pode ser outra hora? Está tarde e eu estou muito ocupada com o jantar da Aninha.

— É rápido, eu quero que você organize a festa de aniversário de três anos das gêmeas.

— Aniversário? Mas eu organizo casamentos e não aniversários.

— Que seja, festa é festa.

— Sim, Fabiana, e contatos de empresas da área, decoração, etc. E eu não tenho nada disso.

— Mas você organiza todas as festas da sua filha. Por que não pode organizar a das minhas filhas?

— Simples, porque as festas da minha filha eu faço do meu jeito, e sempre são festas de família. Além do mais, estou sem tempo, minha agenda está cheia.

— Bem que eu falei para o Cadu que você não iria aceitar, tinha certeza de que ainda guarda mágoas por ter sido trocada.

— Não é nada disso, estou muito bem casada e feliz, não sinto nada por vocês, nem amizade.

— Você não tem coração? A organizadora me abandonou, e o aniversário da Leopoldina e da Domitila será no próximo mês, e eu simplesmente não posso perder meu tempo com coisas banais.

Nossa, isso ia longe… Mamusca tentou fechar a porta, dizendo estar preocupada com minha janta, e a Fabiana continuou apelando.

Foi aí que tive uma ideia genial para ajudar minha mamãe. Eu fui preparar o jantar. Quando ela conseguisse se livrar da mãe chata das gêmeas, meu papá já estaria pronto.

Abri a geladeira e vi um monte de verdinho, cenourinha, maçã e uva. Humm… ia ficar uma delícia.

Tentei alcançar o aparelho que rodava e que tinha um vidro na porta, mas, não consegui. Fui até o banheiro, peguei o meu banquinho que uso para escovar meus dentinhos e o arrastei para nossa cozinha. Mamãe ainda estava tentando fechar a porta. Minha popó estava caída no chão, e então tive a melhor ideia de todas. Eu faria comida igual à vovó Selma. Peguei uma vasilha de plástico, joguei dentro dela tudo que peguei na geladeira, coloquei água, sal, açúcar, Nescau e, para finalizar, a minha popó. Fiquei com um pouco de dó dela, porque eu gostava bastantão da minha boneca, mas, se fosse para deixar minha mamusca feliz, valeria a pena. Depois eu pediria para a vovó Ana costurar minha popó para mim.

A vasilha ficou bem pesada, quase derrubei tudo enquanto subia no banquinho para colocar o papá no micro-ondas. Fechei a porta e nada. Vi um botão redondo, grande, e o apertei contando os números que aprendi na escolinha: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez. Pronto, a luz acendeu de repente e o prato começou a girar. Era engraçado ver minha popó rodando lá dentro. Eu era muito esperta mesmo.

A música do Galo Carijó começou de novo e eu corri para a sala. Estava ansiosa para a surpresa que faria à mamãe, ela continuava na porta discutindo com a mãe das gêmeas, mas aí um barulho muito estranho começou a sair da cozinha. Fiquei com muito medo e fui até a porta para pedir colo à minha mamusca, que também se assustou com o barulho. Quando, de repente, “Bum!!!!”, um barulhão, fumaça e cheiro de queimado começaram a sair da nossa cozinha. Eu abri a boca para chorar, a Fabiana gritou “Fogo!” e foi aí que se iniciou a maior confusão.

Minha mamusca ficou perdidinha, coitada, sem saber o que fazer. Então, como todos do prédio saíram correndo pelas escadas, gritando socorro, ela me agarrou forte no colo e correu também.

Mamãe foi falando que estava tudo bem, mas eu não conseguia parar de chorar. Chegamos rapidão à rua, tinha um monte de gente desesperada, outras pessoas chorando, de pijama, de toalha e até a loira, de que a mamãe não gostava, só de calcinha e camiseta. Todos falavam ao mesmo tempo e não dava para entender nada. Até quando os bombeiros chegaram foi difícil de eles entenderem. Uns gritavam “Fogo!”, outros gritavam “Explosão!”, “Terremoto!”, e eu chorava mais ainda. Os bombeiros perguntaram onde tudo começou e os vizinhos apontaram para minha mamãe, que quase se escondeu atrás de mim. Ela falou o número do apartamento e depois os bombeiros correram para o interior do prédio.

Tadinha da minha mamãe, as pessoas eram muito chatas com ela. Ficavam apontando o dedo e dizendo que sabiam que um dia ela botaria fogo no prédio. Eu, hein?! Esses adultos eram mesmo muito estranhos.

Minha barriguinha já estava roncando quando os bombeiros desceram, dizendo que já estava tudo sob controle, que o fogo não se espalhou e que os moradores já podiam retornar para seus apartamentos.

— Menos a senhorita. — Escutei o bombeiro falar para minha mãe, que já estava a caminho do prédio.

— Minha filha está cansada e faminta, não posso ficar na rua.

— Foi encontrado um objeto não identificado na cozinha e tivemos que acionar a perícia para investigar a origem. Isso sem contar o cheiro forte que se encontra em seu apartamento. Então, para sua segurança e da menina, é melhor procurar a casa de algum parente por essa noite.

— Para a segurança de todos nós! — Alguém gritou antes de entrar no prédio.

— Ela deveria ser expulsa do condomínio! — Outra pessoa reclamou.

— Oh, oh!

Todos os moradores voltaram a reclamar ao mesmo tempo, apontando para minha mamusca. Aí vi os olhinhos dela se encherem de água, enquanto ela tentava segurar o choro sem conseguir.

E agora… quem poderia nos ajudar?