Continuarei Aqui

Daya Alves · Capítulo 12 de 16

Páginas do PDF

Continuarei Aqui

Capítulo 10: Água mole em pedra dura tanto bate até que fura

i amor, o que aconteceu dessa vez? A voz suave de Enrico

 

invade meus sentidos, me fazendo despertar. Abro os olhos devagar e me deparo com ele vestido com uma camisola cinza, de pé, em frente à minha maca.

— Eu morri? — balbucio achando ainda ser um sonho.

— Ao que me consta, não, minha maluquinha — Enrico responde carinhosamente.

— Achei que estava vendo outro anjo.

— Outro?

— Acabei de falar com senhor Ângelo.

Enrico examina minha cabeça e resmunga:

— Me falaram que você caiu e teve outra concussão cerebral, mas isso não significa ver coisas.

— Você nunca vai acreditar, né?

— Só acredito naquilo que meus olhos podem ver.

— Você é um cabeça-dura!

— E você, uma maluquinha de carteirinha. — Ele se aproxima e dá um beijo suave em meus lábios.

— Mas você nem imagina o que eu aprontei dessa vez! — respondo me sentindo culpada por ter agredido alguém na frente de nossa filha e ainda ir parar no hospital por causa disso.

— Já me contaram uma parte, levei um baita susto quando me avisaram da sua chegada aqui no hospital.

— Me desculpe, eu não consegui me equilibrar quando o Cadu caiu sobre mim.

— Nem me fale desse mau-caráter! Ainda bem que você fez todo o serviço, o mandando para o hospital. Caso contrário, seria eu mesmo a quebrar a cara dele!

— Meu Deus, ele se machucou também?

— Sim, Paloma e bastante. Na queda das escadarias, ele bateu as costas contra uma pilastra e foi socorrido gritando que não sentia as pernas.

Essa informação me assusta.

— Eu tive uma crise de fúria, mas não queria machucá-lo a tal ponto — respondo de forma sincera.

— Pelo que foi relatado a mim por meus amigos policiais, quem o empurrou foi a Marlene, sua amante… Que o fez desequilibrar e levar você junto escada abaixo. A sorte dele foi que não veio para cá ao ser socorrido. O engomadinho, mesmo gritando de dor, exigiu ser levado para um hospital particular, caso contrário, eu iria acabar com a raça daquele covarde, mesmo todo quebrado.

— Já te contaram o motivo de tudo? — pergunto ainda mais preocupada. Enrico não vai se controlar se souber que o Cadu e sua amante fizeram uma denúncia falsa ao Conselho Tutelar.

— Eu só sei que você deve ter tido um bom motivo para fazer o que fez, conheço mi amor e tenho certeza de que não teria uma reação tão destemperada por nada.

— Senti tanto sua falta — respondo com um alívio imenso por ele estar bem e por sua confiança em mim.

— Eu também estava morto de saudades. — Enrico pega minha mão livre, depositando beijos ternos.

— Sabe, eu tinha certeza de que você ficaria bem, mas ainda assim fiquei com muito medo de fazer algo errado ou irreversível em sua ausência. Aconteceram tantas coisas que o pavor de te decepcionar era até maior do que a saudade.

— Mi hermosa, quando você vai parar de se penitenciar? Acaso ainda não percebeu o quanto sou louco por você?

— Sim, eu não duvido de seu amor, mas você pode se cansar de tantas confusões nas quais me meto. Se você souber da última então…

— Isso nunca será possível, yo te amo exatamente do jeito que você é. Não imagino como seria sem graça minha vida sem você e a Ana para me trazer paz e alegria. Quando estou nos plantões, em meio a tantas tristezas, é a certeza de voltar para o aconchego de nosso lar que me repõe as forças.

— O que eu fiz para te merecer?

— Nasceu! Você é perfeita assim, nunca mais coloque isso em dúvida.

Tento me levantar, mas a vertigem me impede. Enrico encurta o caminho se aproximando.

Ele me olha profundamente, quase me esqueço de onde estou e de minha cabeça dolorida. Enrico deposita outro beijo suave em meus lábios, depois outro em minhas pálpebras inchadas, volta para meus lábios, tudo em gestos carinhosos, repleto de amor e carregado de saudades. Ai, ai… como é bom ser amada. Observo sua camisola e me assusto com algo bem desperto.

— Enrico do céu, você está andando pelo hospital todo solto assim? — Ele dá uma risada gostosa, alegando que estava internado e quietinho até descobrir sua adorável esposa hospitalizada também. Ele já nem se abala mais com todas as minhas artes.

— Pelo que vejo, você já está bem curado.

— Novinho em folha e pronto para outra.

— Não, nem me fale uma coisa dessas. Agora sei o motivo da rabugice da tia Selma, é muita preocupação ter uma pessoa hospitalizada, e neste quesito eu sou campeã.

— Se não fosse por isso, não teríamos nos encontrado. Agradeço todos os dias por você ter cortado seu dedo.

— E só de pensar que tudo começou por causa do Bon Jovi!

— Como assim? Não foi por causa do corte?

— É uma longa história, daria até um livro, mas te conto qualquer dia com calma.

— Quero saber direitinho mesmo. Onde está nossa Ana? — pergunta enquanto acarinha minha mão livre em gestos suaves.

— Ficou com a dona Bina. Ela é um anjo, viu? Cuida tão bem de nossa filha, como se fosse sua neta.

— Lá vem você de novo com essa história de anjo.

— Ah, não. Outro anjo de verdade em nossa vida seria pedir demais, quis dizer que ela é bondosa e solícita.

— Então descanse, mi amor, vou ligar para a Selma para saber notícias de casa e também para acalmá-la. Amanhã teremos alta para irmos, finalmente, juntos para nosso lar.

— Isso se os bombeiros liberarem nosso apartamento.

— Não importa, você é meu lar, ao seu lado eu vou para qualquer lugar — Enrico volta a me beijar de forma apaixonada, por um segundo, quase esqueço que estou em um hospital.

Ai, ai, minhas amigas… Quando a vida der limões a vocês façam uma, uma, uma… Eita, nem consigo pensar direito com ele perto de mim. Mas, basicamente, queria dizer que, se a vida tirou aquele encosto do seu caminho, talvez seja porque o melhor ainda está por vir.

— Eu preciso ir, antes que a paciência de nossa família por notícias se esgote.

— Por favor, pergunte notícias do traste. Mesmo querendo quebrar a cara dele, eu não lhe desejo mal.

— Só você mesmo, minha bondosa maluquinha!

Mal Enrico sai, uma avalanche invade a observação da enfermaria. Agora imaginem a cena a seguir comigo: vocês estão sentindo vertigem, com a cabeça dolorida, com raiva do nervosismo passado à toa, mas também com dor na consciência por seus atos, em cima de uma maca hospitalar, então, entram sua tia maluca gritando com todo mundo, seu irmão-amigo chorando, sua melhor amiga dando ordens, seu sogro e sua sogra desesperados. Não dá para entender uma única palavra coerente em meio ao falatório.

— Olha, francamente, Paloma, eu gostei que você arrebentou com aquele pamonha, mas precisava vir parar no hospital novamente? Não tenho mais saúde para outro susto. Da próxima vez, deixe que eu frito os bagos dele.

— Coitado, tia, ele está hospitalizado em estado grave!

— E é bom que fique para sempre dentro do hospital, porque, se ele sair, vou arrancar o couro dele e fritar junto com os bagos! Onde já se viu fazer uma denúncia falsa para o conselho tutelar?

— Verdade! Dessa vez, até eu ajudo. Ele me fez roer todas as minhas unhas de tanta preocupação. — É Rick quem fala.

— Nem me diga, nunca tive tanta vergonha em ser prima dele como agora, nem quando ele foi denunciado na operação Lava Calçadas — Mel diz inconformada.

— Mi corazón no hay de aguentar tanto nervoso. — Minha sogra responde em tom dramático.

— Ih, Ana, você nem viu nada ainda. Pinto meus cabelos desde antes dos 30 anos por causa dessa daí, que me deixa de cabelos brancos. Teve época em que até pensei em morar dentro de um hospital, pois já evitaria a correria.

— No és possível, desde que chegamos foram vários sustos. Minha pressão está lá nas alturas.

— Então te prepara que vai subir mais que foguete. — É o exagerado do Rick quem diz, arrancado gargalhadas de todos em plena enfermaria do hospital.

— Vocês vieram visitar a Paloma e nem ao menos perguntaram se ela está bem — José, meu sogro, fala de forma sensata.

— Imagina, viemos mesmo só para ter certeza de que ela está viva. Bem, ela está, e sempre ficará. Acho que ela deve ser algum tipo de mutante que se quebra todo e depois regenera. — Agora é Mel quem faz todos rirem.

Um enfermeiro chega dando bronca em minha família, dizendo estarmos em um hospital, não em uma sala de visitas. Ele os expulsa, que partem sem nem ao menos falar comigo.

Mesmo com a cabeça dolorida consigo sorrir. Agora eu tenho certeza de que tudo, finalmente, voltará ao seu lugar. E o meu, é do lado do meu boy latino moreno e da minha filhota linda.