Destemida
Capítulo 1
vento de 12 nós vindo do nordeste e nos empurrando com suavidade.
Foi mais um dia calmo, com nada além de água azul cintilante e céu azul.
Na noite passada, me ocupei desviando de alguns navios e ajustando
o piloto de vento da Fleming (que apelidei de Parker, alguém consegue
adivinhar por quê?)[1] quando o vento desapareceu. Estava muito
silencioso e o mar ficou tão parado por um tempo que levei meu
travesseiro ao cockpit para tirar um cochilo debaixo das estrelas.
Sinto que já estou entrando em uma rotina, dormindo um pouquinho
durante a noite e no início da manhã sempre que possível, mantendo
registro de minha posição, vasculhando os sacos de comida em busca
de refeições e fazendo as ligações programadas duas vezes por dia.
Sempre há algo a ser feito ou conferido. Trabalhei duro para comer todos
os doces e presentes levados à bordo minutos antes da partida. Sempre
que acho que terminei de comer tudo, descubro outro pacote escondido
em algum lugar!
Dormir no cockpit é mágico: o cobertor de estrelas acima de minha cabeça mais do que compensa o desconforto da ausência de um colchão. Os
chiados e tinidos que o Parker faz ao funcionar ao meu lado, os borrifos e
gorgolejos da água contra o casco e o tilintar na mastreação são
incrivelmente reconfortantes. Algumas pessoas compram carrilhões e os deixam ao vento pelo mesmo motivo.
Lembro de ter lido no livro de Kay Cottee que se incomodava muito com
os barulhos porque cava preocupada com o atrito e o desgaste do
equipamento e quando as coisas estavam silenciosas ela sabia que estavam funcionando suavemente.
Eu estava igualmente preocupada com o desgaste do barco e da
mastreação, então mantinha os ouvidos atentos a qualquer coisa fora do comum, mas para mim os barulhos signi cavam que a Ella’s Pink Lady estava em seu caminho. Mas independentemente disso, eu gostava de
dormir ao ar livre porque isso me deixava pronta para assumir o controle,
desviar nosso curso ou ajeitar uma vela no instante em que detectasse algo
de errado. Naqueles primeiros dias, enquanto me acostumava às coisas e singrava pelas áreas com maior trânsito de navios, quei um pouco
estressada. O som dos 34 pés da Ella’s Pink Lady raspando no Silver Yang, de
63.000 toneladas, é difícil de esquecer, e estar sempre pronta para qualquer
coisa era a melhor maneira de me sentir mais confortável e no controle para garantir que não acontecesse outro episódio semelhante.
Quinta-feira, 22 de outubro de 2009
No Mar da Tasmânia e enquanto durmo
...De modo geral, as coisas andam bem silenciosas, mas após termos
percorrido boas 155 milhas náuticas ontem o vento se recolheu outra vez
e agora nós (Ella’s Pink Lady e eu) estamos de novo nos arrastando
lentamente. Ou seja: estamos bem, e já no Mar da Tasmânia, próximas à
Ilha Lord Howe, com a Austrália bem para trás. A Ella’s Pink Lady está
com toda a vela mestra e com a genoa, seguindo a lentos (mas estáveis)
três nós por hora. O sol ainda está brilhando e a água está com um tom
ainda mais incrível de azul, mas o pôr-do-sol tem sido meu momento
favorito do dia – o mundo inteiro fica rosa! Nesta manhã, um bando de
golfinhos passou por nós, e um pássaro solitário também apareceu para
dar uma espiada.
Acho que manter a cabine organizada vai ser uma batalha
interminável. É só comigo, ou o trabalho de casa é sempre tão
demorado? E também tem a louça. Não tem ninguém se oferecendo para
revezar, então sempre fico empenhada ao término de cada refeição!
Todos estão intrigados com o que acontece na Ella’s Pink Lady
enquanto durmo e é um assunto sobre o qual pesquisamos durante
anos. É melhor eu começar do início para que todos entendam, e peço
desculpas aos que ficarem entediados com as partes mais básicas.
Em primeiro lugar, é claro que não posso ficar ao leme o tempo todo,
então a Ella’s Pink Lady tem três sistemas distintos de pilotos
automáticos: dois pilotos eletrônicos e o Parker, o piloto de vento da
Fleming instalado na popa. O piloto de vento é o meu favorito porque, ao
contrário dos outros dois, que sugam muita energia, Parker nos conduz
respondendo ao vento através de uma lâmina e às águas através de um
remo que fica solto na popa. Entrarei na questão da energia mais tarde.
Além disso, tenho quatro sistemas de detecção de navios e todos
disparam alarmes altos caso haja qualquer aproximação. As luzes de
navegação da Ella’s e o refletor de radar também nos tornam mais
visíveis para os outros navios à noite. Mas mesmo com tudo isso, jamais
encosto a cabeça e durmo uma noite inteira. Se as coisas estão
movimentadas, tiro cochilos de vinte minutos, erguendo a cabeça entre
um e outro para checar tudo antes de dormir outra vez. Se estão mais
calmas, durmo por quarenta minutos ou mais em cada bloco. É incrível
como já me acostumei aos movimentos da Ella’s Pink Lady. Se o vento
ganha um pouco de força, acordo com o barulho, e se desviamos do
curso o leme fica a barlavento e o barulho me desperta. Demora um
pouco para se acostumar, mas acho que assim poderei dormir todo o
necessário e acordar bem descansada.
Antes de dormir, programo dois alarmes distintos para não correr o
risco de não acordar. Vocês precisam ouvir como um deles é alto: dou
um pulo de susto sempre que toca.
É bem provável que todo esse equipamento pareça um pouco
exagerado, mas viajaremos por um bom tempo, e a colisão nos ensinou
que não há como ser cuidadosa demais!
Sei que os alarmes eram essenciais e tornavam minha vida mais fácil de diversas maneiras, mas vocês não têm ideia de como passei a odiá-los. Sim,
sei bem que a alternativa poderia ser muito pior, e sou grata pela tecnologia
que ajudava com minha segurança, mas ser arrancada do meu precioso sono
por aqueles guinchos de estourar os tímpanos era horrível. Os lamentos do alarme AIS, que avisa que há algum navio por perto, eram ainda piores. Ao
falar com meus pais ou Bruce no telefone, eu sempre brincava que voltaria
com problemas de audição. Podem ter certeza de que os alarmes eram altos
pra caramba!
Sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Devagarinho
Estamos seguindo ainda mais devagar, mas ultrapassamos o marco
das 500 milhas náuticas. Passamos a última noite em uma calmaria total
próxima à Ilha Lord Howe, à deriva e com velocidade inferior a um nó.
Mas quando finalmente conseguimos uma brisa leve ao nascer do sol, o
cenário foi lindo. O mar estava espelhado e refletia os primeiros raios.
Então, quando conseguimos um pouco de vento, foi como se
estivéssemos deslizando sobre um lençol de vidro.
Hoje foi um dia típico para mim: brinquei com as câmeras, dormi um
pouco, mantive o barco em movimento e monitorei com cuidado a
geração e o consumo de energia, me alimentei, organizei as coisas de
praxe, escutei música (não há ninguém para reclamar do meu gosto ou
do volume que prefiro!) e enviei alguns e-mails. Isso não deve soar muito
empolgante, mas é o suficiente para me deixar feliz, e continuo achando
que jamais ficarei entediada. Sempre há algo a fazer. Sem dúvida,
navegar ao redor do mundo não é apenas uma sequência de episódios
empolgantes, mas as leituras em dias tranquilos fazem parte do pacote.
Não vi muita vida selvagem hoje: fomos só a Ella’s Pink Lady, eu e
muito azul. O que mais se pode querer? Agora, já não estamos
avançando tão devagar, viajando a seis nós com a vela mestra, a genoa e
uma buja.
Desculpa, não vou poder escrever muito hoje porque preciso desligar
o rádio HF para uma das ligações programadas.
Hoje em dia, com toda a nova tecnologia via satélite, cada vez menos
pessoas se preocupam em ter um rádio HF, mas em situações críticas ele
pode ser a única coisa funcionando. Instalamos um no Ella’s Pink Lady e gostei daquela chance de manuseá-lo um pouco. Achei-o excelente para
noites em que o sinal estava ruim. Depois de termos problemas com a
estática ao tentarmos conversar, o operador de rádio da Tas Coast (a estação
para a qual eu estava fazendo as ligações programadas) muitas vezes desistia e dizia que ia “dar uma olhada no blog” para saber como estavam as coisas.
Impossível não amar a internet, né?
Na maior parte do tempo, quei bem surpresa com o quanto me sentia confortável, alegre e em casa. O telefone via satélite, o rádio HF e a internet
ajudavam muito, pois sempre havia alguém do outro lado da linha ou nos e-
mails com quem conversar. Desde que eu começara a sonhar com a viagem,
esperava que as primeiras semanas no mar fossem as mais difíceis. Todos os navegantes solitários com quem conversei me disseram várias vezes para
aguentar rme na primeira semana, pois tudo caria mais fácil depois que
eu me acostumasse com tudo. Continuei esperando pelo aperto, mas ele não
chegou... ao menos não naquela época.
As condições calmas e fáceis de navegação me ajudaram a manter o
sentimento de êxtase e eu estava mais contente do que nunca. Certamente,
não foi necessário “aguentar rme”. Não exagero ao dizer que estava vivendo
os melhores dias de minha vida e meu humor melhorou ainda mais porque senti que a ausência de um período “deprê” era uma conquista pessoal.
Não me entendam mal: eu sentia saudades de todo mundo. Quando
deixei Sydney Heads, foi como se houvesse deixado algo de que precisava
para trás. Sentia que havia algo faltando em um sentido físico, como se parte de mim houvesse desaparecido. Tá bom, sei que parece uma frase tirada de
um romance meloso, mas não consigo descrever melhor do que isso. Na
verdade, aquele sentimento nunca desapareceu, mas depois de um tempo
acabei me acostumando.
Sábado, 24 de outubro de 2009
Condições perfeitas e comida
Bem, “perfeito” é a palavra para descrever o dia de hoje. Estamos
fazendo 6.5 nós em um través folgado rumando para um ponto abaixo da
Ilha Norfolk. O vento estava passando dos 15 nós, então coloquei o
primeiro rizo na vela mestra hoje de manhã para deixar o movimento
confortável e facilitar o serviço do Parker.
O dia está tão bonito que passei a manhã sentada no convés,
observando a Ella’s Pink Lady navegar e escutando música. Hoje há umas
poucas manchas de espuma branca sobre as ondas, como se estivessem
aqui apenas para macular o azul! Imaginem só se todos os dias fossem
assim. Pensando bem, talvez as coisas ficassem um pouco entediantes.
Demorou um pouco, mas acho que hoje finalmente caiu a ficha da
imensidão dessa viagem e de tudo o que aconteceu durante os últimos
meses. O curioso é que isso não me deixou nem um pouco assustada,
apenas orgulhosa por todas as pessoas que nos trouxeram até aqui.
Também um pouco embasbacada porque, nossa, estamos mesmo aqui!
E é muito melhor do que jamais sonhei. Ainda há muito a ser feito, mas
sei que sou capaz. Um passo por vez. No momento, estou na metade do
caminho entre as ilhas Lord Howe e Norfolk.
... Hoje à noite, planejo comer pernil de cordeiro da Easyfood (são
deliciosos!) com Deb (purê de batatas) e aspargos.
... Vou sair para curtir o resto do dia e de repente tomar um banho de
balde no cockpit.
Aquele último banho longo e quentinho já era uma memória antiga no sétimo dia, mas transformei meus banhos de balde em uma arte. Eu pegava
tudo de que precisava e ajeitava os potes e sabonetes em diversos pontos do
cockpit. Em seguida, enchia um balde com água salgada, esfregava o corpo,
passava o xampu no cabelo duas vezes para fazer espuma com a água salgada e então enxaguava com um precioso copo de água fresca. Quando já estava limpa, eu sentava e escovava o cabelo ao vento (secador de cabelos
cem por cento natural!). Dependendo do dia e da temperatura do ar, eu
curtia a água ou me encolhia e guinchava durante todo o processo. De
qualquer forma, era um evento marcante de minha rotina diária. Todas as pequenas coisas (como banheiras ou chuveiros quentes) que damos por
garantidas quando estamos em terra se tornam relevantes no mar. Agora
que estou em casa, espero apreciar esses luxos que tenho a sorte de ter.
Minha maneira de lidar com toda a pressão de preparar o barco, administrar os pedidos da mídia, cumprir listas de tarefa e tudo o que
acontecera na semana anterior à minha partida foi tirar da cabeça a
grandiosidade do que eu estava prestes a fazer. Eu nem sequer pensava no
panorama geral: apenas focava nos primeiros passos que precisava dar para seguir em meu caminho. Sabia que a cha cairia em algum momento, mas
achei que seria melhor deixar que isso acontecesse depois que estivesse em
segurança no mar, longe de todos. Eu ainda estava esperando os momentos
ruins que todos haviam dito que acabariam aparecendo, mas não foi bem isso o que aconteceu.
Estava um dia perfeito e eu estava sentada na parte externa da cabine,
tomando banho de sol, quando nalmente fui atingida por uma onda de
emoções. Fiquei exaurida, mas não aterrorizada como esperava. Foi como se um pico de adrenalina percorresse o meu corpo e me deixasse em um estado
de excitação entorpecida pelo resto do dia. Como se eu nalmente
percebesse que meu sonho estava de fato acontecendo.
Domingo, 25 de outubro de 2009
Uma semana de viagem e a tripulação em terra
Bem, já faz uma semana que estamos aqui, e hoje começamos o dia
oito! Recém fiz as contas e cobrimos 740 milhas náuticas na primeira
semana. Dentro do que eu esperava, mas é um resultado excelente se
levarmos em conta os dias sem vento que tivemos. O trecho da primeira
semana nos deixa um pouco adiantadas, mas não quero dizer isso tão
cedo!
Estamos próximas à Ilha Norfolk, que parece ser bonita e interessante,
de modo que precisarei adicioná-la à lista de lugares em que vou parar
da próxima vez. Agora, não falta muito para deixarmos o Mar da
Tasmânia para trás e então nosso destino será a linha do equador. Vou
fazer algo que devia ter feito há muito tempo: apresentar a minha
tripulação em terra. Se querem saber, eles são incríveis, pois estão
resolvendo todas as situações complicadas lá em casa enquanto eu me
divirto por aqui! Essas são apenas algumas das pessoas de quem
dependo e com quem converso todos os dias – a equipe de apoio
completa é composta por ainda mais pessoas incríveis, com habilidades
de todos os tipos. Isso sem contar todos os que trabalharam no Ella’s
Pink Lady e nossos patrocinadores. É como se fossem uma extensão de
minha família. Se também contarmos todos vocês que estão aí pensando
em mim e na Ella’s Pink Lady, certamente não estou sozinha.
Em primeiro lugar, há Bruce, o Gerente de Projeto [sobre quem já
falei]. Bruce e sua esposa, Suzanne, trabalharam na viagem em tempo
integral durante quase todo o ano, me apoiaram muito antes disso e
foram uma grande inspiração. Adoro a abordagem calma de “podemos
fazer isso” que Bruce demonstra diante das mais diversas situações.
Converso com ele sobre o desempenho do barco, as condições do mar,
possíveis navios em nossa rota, etc.
Falo com meu pai (Roger) no telefone via satélite duas vezes por dia
nas ligações programadas oficiais. Ele é ótimo para falar sobre quaisquer
probleminhas e se mantém ocupado cuidando de detalhes de todos os
tipos.
Também há Scott e Andrew, que cuidam de muitas coisas além de
minha relação com a mídia. Scott está sempre disponível para me ajudar
pacientemente a mexer no sistema de câmeras e nos equipamentos de
comunicação via satélite. Andrew cuida do blog, dos patrocinadores e de
outras notícias.
Bob McDavitt (embaixador do serviço meteorológico da Nova
Zelândia) está fornecendo todas as previsões do tempo e nos ajudando a
contornar os piores climas imagináveis. Sinto-me muito mais confiante
tendo uma noção tão clara do que está por vir.
E por último, minha mãe (Julie) me mantém atualizada com notícias
do mundo externo, encaminhando e-mails e mandando quaisquer
informações que eu possa achar interessante. Ela também empacotou
toda a comida, então é a pessoa para quem ligo quando não consigo
encontrar alguma coisa!
É impossível fazer justiça à importância de ter uma equipe com pessoas
tão boas por trás de mim. Eu não teria chegado tão longe sem eles. Ter aquele apoio e saber que todos os conselhos e encorajamentos de que eu
precisasse estariam a uma ligação de distância via satélite me deixava muito
reconfortada. Tudo o que me disseram sobre a preparação ser a parte mais
importante da viagem estava absolutamente certo e toda a ajuda e encorajamento que recebi zeram uma grande diferença.
Mas não foram apenas as pessoas que mencionei que me ajudaram e me mantiveram rme. Logo antes de partir, houve uma onda de cobertura
positiva da mídia, e então a enxurrada de e-mails e comentários no blog
quando parti me deram a sensação de que a Austrália inteira estava me
apoiando. É um sentimento incrível. Foi uma barra quando todos estavam dizendo que eu não podia ou não devia fazer aquela viagem. Depois que
deixei Sydney para trás, tudo mudou. Embora eu tenha certeza de que ainda
havia muitos céticos por aí, eles já não pareciam ser a maioria. Ou talvez eu
apenas tivesse deixado de dar atenção a eles.
Durante quase todo o período que passei no mar, não me senti sozinha.
Claro, havia momentos assustadores, e em termos físicos tudo dependia de
mim, mas no blog eu sempre escrevia na terceira pessoa, e não me referia
apenas à Ella’s Pink Lady e a mim. Além da equipe de apoio, considero todos que trabalharam para deixar a Ella’s Pink Lady pronta (e então pronta uma
segunda vez) e todas as pessoas ao redor do mundo que estavam navegando
virtualmente comigo através do site eram parte da equipe. Pode parecer
estranho se pensarmos como eu estava longe de todos, mas tanta boa vontade fez diferença. Eu podia estar sozinha no veleiro, mas jamais me
sentia desacompanhada.
Devo ser honesta: houve momentos em que eu gostaria de estar
completamente desconectada e entrar no ritmo do mar, como Joshua Slocum teve que fazer, e testar mais a minha resiliência. Mas isso não era
muito frequente. Naquelas primeiras semanas, eu conversava com meus pais
e Bruce nas skeds de manhã e de noitezinha. Às vezes era apenas uma
ligação curta, em que eu repassava rapidamente as condições climáticas e dizia como estava, mas em outras tínhamos longas conversas.
Foi meu pai quem insistiu para que eu ligasse com mais frequência, e
depois de tudo o que ele e minha mãe haviam feito por mim, eu não tinha como recusar. Mas eu esperava poder reduzir o número de chamadas depois que tudo se ajeitasse. Sei que soa insensível, mas no comecinho eu muitas
vezes odiava aquelas conversas, pois se pareciam um pouco com um
interrogatório. Eu não estava longe a tempo su ciente para sentir muita
saudade das pessoas e o tipo de navegação não era muito diferente de algumas das minhas viagens anteriores. Assim, eu não me sentia fora da
zona de conforto. Não posso culpar meus pais nem ninguém por querer
saber exatamente como estavam as coisas, mas eu estava bem e não achava
que fosse necessário repassar tudo. Às vezes, eu não estava com vontade de conversar (eu sei, é bem o estereótipo de uma adolescente), e em outras eu
conversava por horas, escutando alegremente os detalhes da vida lá em casa.
Se meus pais se incomodaram com minha inconstância, nunca disseram.
Segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Lula no convés
Quando o dia clareou hoje de manhã, dei uma checada de rotina na
Ella’s Pink Lady e encontrei diversas lulas pequenas espalhadas pelo
convés, onde ficaram presas após pular para cima do veleiro durante a
noite. Uma delas tinha uns 25 centímetros de comprimento e enquanto
trabalhei no convés durante o dia encontrei diversas menores enfiadas
nos lugares mais improváveis. Espero ter encontrado todas, ou só terei
notícias delas quando começarem a cheirar mal daqui a alguns dias!
As condições climáticas estão bem calmas. Tivemos um vento de
mais ou menos 14 nós bem atrás de nós durante todo o dia, por isso
estamos avançando a uma velocidade estável de cinco nós. Após realizar
todas as tarefas de praxe, passei a manhã respondendo e-mails e lendo.
Reli o livro de Kay Cottee sobre sua viagem sem paradas ao redor do
mundo, e também, é claro, o livro Lionheart de Jesse Martin. Após ler
como Kay era organizada com as tarefas domésticas, tomei a resolução
de melhorar nisso!
Ao longo dos anos, li e reli esses dois livros constantemente. Enquanto minha própria viagem se desenrolava aos poucos, comecei a entender de
uma nova maneira muitas das coisas que Jesse e Kay escreveram. Sempre
que lia seus livros, eu reagia de maneira diferente ou aprendia algo novo. Era
quase como se os estivesse lendo pela primeira vez. Agora, além de ter seguido o exemplo de Kay e Jesse no mar, também organizei meu próprio
livro. A sensação é bem estranha. Eu adoraria sussurrar no ouvido da jovem
garota que fui e dizer a ela: tudo é possível. Mas na verdade, no fundo ela já
devia saber isso. Caso contrário você não estaria lendo isso.
Hoje de tarde me mantive ocupada no convés tentando descobrir a
maneira mais fácil de abrir a buja (usar o pau de spi para abrir bem a vela
de proa) a fim de tornar a navegação a favor do vento mais confortável.
A água ainda estava um pouco gelada quando tomei meu banho de
água salgada hoje e tivemos uma breve mas forte pancada de chuva que
deu uma boa lavada na Ella’s Pink Lady. Agora estamos ambas cheirando
a rosas! É ótimo ter o convés livre de sal por uns tempos e a chuva não
deixa de ser uma novidade, pois foi a primeira que tivemos até agora.
Finalmente, comecei a soltar um pouco mais a imaginação na cozinha.
Na noite passada, comi bolinhos de aveia com queijo e uma sopa muito
cremosa (exagerei um pouco na nata!). Hoje de manhã, comi mingau de
cereal com algumas de minhas últimas frutas frescas. Almocei massa
outra vez e estou pensando em jantar feijão com piri-piri e batatas chips.
Terça-feira, 27 de outubro de 2009
Passando a Ilha Norfolk
A confortável rotina à qual eu já estava me acostumando foi
interrompida hoje por um vento de 25 nós. Formaram-se ondas baixas
que eu não chamaria de preocupantes, mas que certamente diferem dos
dias tranquilos que tivemos. É legal garantir um bom avanço, e mesmo
com dois rizos na vela mestra, a Ella’s Pink Lady está quase surfando nas
vagas com velocidades acima de até 8.5 nós.
Nessa noite, finalmente deixamos a Ilha Norfolk para trás. Foi um
alívio, pois não consegui dormir muito na noite passada tendo a terra e
alguns barcos por perto, e agora ajustei o rumo para o nordeste, o que
deve nos levar diretamente à linha do equador!
Enquanto contornava a Ilha Norfolk, avistei outro veleiro e conversei com
eles brevemente pelo rádio VHF. Eles se dirigiam à Ilha Norfolk e de lá para Opua, na Nova Zelândia. Eu disse a eles que estava em uma navegação
solitária, mas na hora achei que eles não entenderam direito que eu daria
uma volta ao mundo. Mais tarde, Richard, uma das pessoas que postava
comentários em meu blog com regularidade, encontrou outro blog de navegantes mantido por Michael e Jackie Chapman. Eram as pessoas com
quem eu havia falado e eles descreveram como a Ella’s Pink Lady parecera pequena e determinada ao cortar o Pací co enquanto todos os outros veleiros naquela região se dirigiam à ancoragem para se abrigar das
condições incômodas e do vento que ganhava força. Amei o reconhecimento
pela determinação que a Ella’s Pink Lady e eu compartilhávamos.
Hoje à tarde eu estava um pouco desanimada, então dei alguns
telefonemas para me animar, liguei a música e escovei bem o cabelo e os
dentes, tudo o que costuma me deixar bem. Até que percebi que havia
esquecido de comer! Fervi uma boa porção de batatas enlatadas e
resgatei meu ânimo de sempre.
Não houve um pôr-do-sol colorido hoje à noite devido ao céu
nublado, mas de qualquer forma o tempo estava úmido demais para que
eu sentasse no convés e curtisse.
Naquele trecho inicial, era raro eu não me sentir alegre e disposta, mas
tive meus momentos de tristeza e depressão. Tentei lidar com minha saúde
mental da mesma forma como tratava da manutenção da Ella’s Pink Lady. Trabalhei nisso e z tudo o que pude para manter o veleiro e meu corpo em
boa forma.
Nas poucas vezes em que quei com um humor sombrio e me senti um
pouco chateada ou amuada, eu não tinha ninguém para culpar além de mim mesma, pois eu havia sido preguiçosa em vez de me esforçar. Havíamos
traçado estratégias antes de minha partida para manter minha saúde mental.
Eu havia conversado com pessoas como Mike Perham, Jesse Martin e Don
McIntyre e entendi que o sucesso de suas viagens dependera tanto de seu estado mental quanto do estado da mastreação ou do casco. Eram raros os
momentos em que eu não conseguia me animar simplesmente escutando
um pouco de música, cando de pé contra o vento ou fazendo qualquer uma das outras coisas de que gostava, mas sem dúvida havia momentos em que eu precisava trabalhar duro para resolver a questão. Era muito mais difícil
quando o tempo estava ruim e eu não podia fazer nada além de segurar
rme e afastar as piores sensações. Quando isso acontecia, eu tentava me
apegar ao instante e não deixar minha imaginação ir muito longe. E se tudo falhava... o chocolate ajudava!
Quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Vida noturna, pequenos hábitos e rumo ao equador
Hoje estou cheia de energia após uma boa dormida à noite e um bom
café com muito creme pela manhã!
Ainda há ondas de tamanho considerável, mas são bem mais
extensas e suaves e o sol até chegou a dar as caras. Por isso, fiquei lá
fora curtindo um pouco. Quando estamos em um intervalo entre duas
ondas, a Ella’s Pink Lady parece pequena e um pouco perdida, mas então
subimos ao topo da onda seguinte e ganhamos uma boa vista do
horizonte. É como se estivéssemos no topo do mundo. Por fim ela desce
até a onda seguinte, ganhando um pouco de impulso no caminho.
O vento cedeu um pouco ontem à noite após soprar com força de 25
nós ao longo do dia e hoje de manhã tivemos perfeitos 15 nós
constantes nos empurrando a uma boa velocidade. Estamos
aproveitando o vento ao máximo e amando a boa distância que estamos
percorrendo enquanto ele dura. Agora que o Mar da Tasmânia ficou para
trás, estou começando a ficar ansiosa para chegar à linha do equador.
Vou cruzá-la pela primeira vez, então acho que vai ser bem empolgante!
Tenho pensado em alguns dos pequenos hábitos que adquiri, como
escovar os dentes todas as manhãs sentada na parte alta da cabine,
manter um pacote de pirulitos ou nozes ao meu lado enquanto trabalho
no computador e dormir com o equipamento, o colete salva-vidas e o
sobretudo, com uma faca no bolso e uma lanterna no pescoço. Pode
parecer desconfortável, mas durmo melhor sabendo que posso estar no
cockpit e totalmente equipada em uns poucos segundos.
No blog, algumas pessoas têm perguntado como é a vida noturna por
aqui, então vou descrever um pouco. Acho que muitas pessoas têm
calafrios ao pensar em como é estar aqui sozinha, porque a maioria deve
imaginar que é como uma noite nos arredores da cidade, onde tudo é
sinistro e silencioso. Mas não é nem um pouco parecido. Isso se deve
principalmente ao barulho e aos movimento constantes do barco, mas
também porque as ondas e o vento me fazem companhia! Em uma noite
clara, as estrelas são incríveis, mas adoro a escuridão das noites
nubladas quase na mesma intensidade, pois nelas posso ficar atrás da
capota para me proteger e sentir a Ella’s Pink Lady abrindo caminho sem
saber direito o que está por vir!
Àquela altura, eu não conseguia acreditar que o Mar da Tasmânia já havia
cado para trás. Após tantos anos de uma preparação por vezes
excruciantemente lenta, a viagem em si parecia passar voando. Eu sabia que ainda tinha um longo caminho pela frente e aquilo era apenas um pequeno
passo para algo muito, muito maior, mas por vários anos, cruzar o Mar da
Tasmânia me parecera um grande feito. Embora fosse o menor de todos os
oceanos que eu atravessaria, não deixava de ser um oceano, e a Ella’s Pink Lady praticamente passou voando por ele, percorrendo tudo a passos largos. Era fácil me alegrar, pois as coisas estavam indo bem e eu não havia passado por nenhum desa o real até aquele momento. Até que isso acontecesse, a
maior provação seria manter minha cabeça bem e, para ser honesta, isso não
vinha se mostrando um problema.
Sábado, 31 de outubro de 2009
Voando baixo e potência
O tempo segue nublado e o mar um tanto revolto, mas estamos
amando tudo e fazendo um bom progresso. Sinto um pouco de
saudades dos raios de sol, mas os diferentes tons de cinza também
rendem uma bela paisagem. Parece que as coisas seguirão assim por
alguns dias, com um vento constante chegando lentamente do sudeste.
Há uma vastidão de oceano vazio à nossa frente antes de chegarmos a
algumas das ilhas e corais na extremidade sul de Fiji e Samoa.
A vida a bordo é bem simples e essas pequenas coisas preenchem o
dia, mas, quando o mar está agitado, mesmo as tarefas mais simples se
tornam uma aventura. No entanto, o que está me deixando mais do que
feliz são as pequenas coisas. Os pontos altos são comer, conversar com
todos lá em casa, anotar nossa posição para ver o quanto avançamos a
cada dia, escutar música e ficar atrás da capota assistindo ao sol se pôr.
Claro que sinto saudades de todos na Austrália, mas na maior parte do
tempo estou curtindo tudo ao máximo. Tragam o próximo desafio!
A parte detrás da capota, onde eu cava com um pé de cada lado do cockpit para manter o equilíbrio, era o meu local preferido no barco. Eu amava observar o mar com o corpo protegido de tudo, exceto das ondas
mais ousadas, tendo o rosto e os cabelos levemente açoitados pelo vento
enquanto a Ella’s Pink Lady navegava por um mar que subia e descia o
tempo todo. Eu cantava alto qualquer música que estivesse tocando, sem jamais me preocupar por estar soando completamente ridícula, já que não
havia ninguém para me escutar além de eventuais pássaros, lulas alojadas no
convés ou gol nhos.
Eu me sentia viva ao escutar as músicas de Missy Higgins ou Powder nger estourando nas caixas de som e me regozijava por não termos
terra ao alcance da visão, apenas o horizonte nos chamando. É fácil se
entediar em casa, quando estamos focados demais no próximo passo para
curtirmos o momento que estamos vivendo. Na Ella’s Pink Lady só havia um momento. Era uma grande lição e espero poder levá-la comigo para sempre.
Aquele realmente era o meu próprio mundo e o tempo começou a ter um
signi cado diferente por lá. Conforme eu me dirigia ao leste, passando para
um fuso horário diferente do de minha casa, acertei quatro relógios em horários diferentes, o que só me deixava confusa. O que importava era
apenas o que comecei a chamar de horário do Ella’s Pink Lady!
Eu dormia cada vez menos à noite e mais nas manhãs e comia em
qualquer momento que desejasse. Havia uma liberdade em poder decidir tudo – quando comer, quando tomar banho, o que ler e o que fazer – que eu
jamais vivenciara antes. Era outro aspecto de viver em meu próprio
mundinho... e eu gostava disso. A única coisa que ditava as regras em meu
novo mundo era o clima. Eu era escrava dele e embora às vezes tivesse problemas com isso, no m das contas ele era o motivo pelo qual eu estava
lá. Eu queria ir até o limite e encontrar força e sabedoria dentro de mim para
atravessar os momentos difíceis. Se toda a navegação fosse tranquila, eu não estaria fazendo a viagem.
Domingo, 1º de novembro de 2009
Nova sacola de comida, nova carta
náutica e última laranja
Bem, chegamos à minha última fruta fresca. Acabo de saborear minha
última laranja e tenho certeza de que sentirei saudades! E por falar em
comida, hoje abri a primeira nova sacola de comida. Uma sacola de
comida dura 14 dias. A sensação é de que atravessei um marco e estou
ansiosa para a janta de hoje, quando poderei escolher as melhores
comidas. No fim da semana, todas as coisas gostosas já terão sido
comidas, e voltarei a comer as segundas opções.
O progresso foi um pouco mais lento hoje, pois o vento parou quase
completamente por um bom tempo na noite passada e então se voltou
contra a proa da Ella’s Pink Lady na manhã de hoje. Mas ainda estamos
devorando as milhas e nos aproximando muito das extremidades da
carta náutica. Peguei uma nova carta e passei a tarde dando uma espiada
e estudando as áreas por onde navegaremos. Parece que agora
realmente estamos entrando em águas pouco familiares: nunca naveguei
tão longe para o leste antes e tudo é novo e empolgante para mim.
Estou um pouco incomodada comigo mesma no momento, pois
pensei que as coisas estavam calmas o suficiente para abrir a escotilha.
Logo provou-se o contrário, pois uma onda quebrou sobre o convés e a
água entrou na cabine. Há algumas roupas salgadas e ensopadas
penduradas por aqui, mas agora tudo está secando depressa.
Tá bom, vou ter que sair porque estou prestes a fazer algo corajoso,
ousado e talvez um pouco imprudente: abrirei a sacola com a etiqueta
“Deveres de casa”. Ok, pode ser que eu esteja sendo um pouco
dramática, mas me desejem sorte!
Segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Tudo está bem e um dia movimentado
O dia foi um pouco movimentado e o tempo passou tão rápido que a
postagem de hoje será curta. Só queria que vocês soubessem que está
tudo bem. Na verdade, mais do que bem: tudo está ótimo por aqui.
Estou amando cada momento!
Há um vento de cerca de 15 nós soprando do sudeste, então a Ella’s
Pink Lady está mantendo um bom ritmo (viajando a uns 80 graus em
favor do vento), avançando a seis nós constantes. Após passarmos meio
perto do Recife de Corais de Minerva (entre Tonga e Fiji) hoje de manhã,
passei por alguns veleiros, então me mantive alerta no convés. Afora
isso, andei vasculhando cartas náuticas e previsões do tempo outra vez,
conversando com algumas pessoas no telefone via satélite e realizando
tarefas de manutenção.
Terça-feira, 3 de novembro de 2009
Dia lento, comunicação e site
Hoje o dia foi mais calmo – na verdade, um pouco calmo demais. Não
tivemos vento na maior parte do tempo. O pouco progresso que fizemos
foi pelo próprio movimento das ondas! Mas agora há uma boa brisa
outra vez, então lá vamos nós de novo. Ficar balançando sem ir a lugar
nenhum começou a ficar um pouco frustrante, mas me ocupei com
alguns temas de casa, e finalmente usei a linha de pesca. Não tive sorte
suficiente para pegar alguma coisa, mas sempre dá para tentar de novo
amanhã. Também não tive muita sorte com os temas. Após completar a
primeira tarefa de inglês, enviei-o e descobri que abri a sacola errada e fiz
os deveres do ano que vem. Opa!
Enviei um e-mail para minha mãe com o assunto “Viu só? Eu disse!!!
Deveres de casa!” com o arquivo das tarefas de inglês anexo. Eu havia feito
aquilo sobretudo para provar o que havia dito, pois quando eu mencionava
que levaria os deveres comigo todo mundo zombava e dizia que eu não faria nada. Eu estava me sentindo muito bem por causa daquilo, até receber a
resposta de minha mãe...
Oi Jess.
Odeio ter que dizer isso, mas... essas tarefas são para o ano que vem.
Mas, por favor, continue, pois provavelmente você não vai querer fazê-
las no ano que vem!
Vou achar as coisas desse ano e mandar para você.
Com muito amor, mãe.
(Desculpa) Pobre Jess!
Típico de mim! Eu achando que estava fazendo tudo nos conformes e
descubro que sequer estava no ano certo! Se tivesse seguido a ordem padrão,
estaria cursando o primeiro ano do ensino médio, mas com as preparações
em tempo integral que antecederam minha partida, acabei deixando a escola em segundo plano e quei bem atrasada – passei de ano raspando antes de
sair. Eu havia levado deveres de casa comigo não apenas porque esperava
fazer um pouco deles e não me atrasar muito, mas também porque achava
que poderia haver momentos de maior tranquilidade em que eu gostaria de manter a cabeça ocupada. Terminei quase um ano inteiro de inglês durante
a viagem, o que não é muito, mas o su ciente para dizer àqueles que
debocharam que z um pouco!
Para me animar um pouco, comi ovos mexidos no almoço,
preparados com ovos em pó e nata. Ficou muito gostoso! Precisarei
comê-los com mais frequência. Ovos em pó não são exatamente fáceis
de encontrar, mas todo o esforço de minha mãe para descobrir onde
comprá-los valeu muito a pena. Na noite passada, levei meu saco de
dormir para o cockpit e consegui dormir um pouco sob a lua cheia. O
cenário era lindo: a luz da lua tornava as ondas cintilantes e iluminava as
velas. Preciso lembrar sempre de aproveitar ao máximo noites como
essa, pois as coisas certamente serão diferentes quando nos dirigirmos
para o sul outra vez e entrarmos no Oceano Antártico.
... Um dia desses eu estava com um desejo incrível de comer queijo e
não conseguia achar em lugar nenhum. Então, telefonei para minha mãe
e perguntei se ela sabia onde poderia estar guardado. Descobri que
naquele momento minha mãe estava em Melbourne, almoçando com
Jesse Martin e a mãe dele, Louise. Minha ligação rápida e casual sobre
algo tão desimportante como queijo evidenciou as diferenças entre a
minha viagem e a de Jesse. Quando ele viajou ao redor do mundo, as
ligações via satélite eram tão caras que eles reservavam apenas para
grandes emergências, e Jesse certamente não teve luxos como queijo!
De qualquer forma, todos deram boas risadas às minhas custas e
pareciam estar se divertindo.
Aqui está minha receita para os Ovos Mexidos Ella’s Pink Lady. Sim, sei que é bem simples, mas era a comida perfeita para eu me sentir bem, e
nunca deixei passar do ponto em todas as vezes que a preparei.
Serve 2 (ou uma navegante faminta)
4 ovos (eu usava ovos em pó)
¼ copo de leite ou nata (eu usava nata sempre que possível)
15 gramas de manteiga
1. Misturar os ovos e o leite e bater suavemente
2. Derreter a manteiga, adicionar os ovos e cozinhar a fogo baixo.
3. Temperar com salsinha seca.
Quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Descansar, relaxar e ler
Após muitas interrupções do sono nos últimos tempos, hoje de
manhã a minha cabeça parecia estar cheia de algodão. Então, passei
quase todo o resto do dia na cama lendo e cochilando, espiando pela
escada da gaiuta de entrada só para garantir e dar uma checada nas
velas. Toda a reposição de energias de hoje fez com que eu me sentisse
muito melhor, então estou cheia de energia outra vez nesta noitinha,
tocando música e sentando no convés enquanto assisto a todos os tons
de cinza migrando para o rosa ou o laranja.
Não tivemos sol durante todo o dia, de modo que estamos com pouca
energia, mas o progresso foi razoável. Tivemos um vento sudeste bem
consistente e a Ella’s Pink Lady navegou bem com todas as velas
erguidas.
Algumas pessoas tem comentado no blog que deve ser ótimo ver
outros veleiros por perto de vez em quando, mas não posso dizer que
concordo com isso. É claro que é bom conversar pelo rádio e descobrir
de onde eles vêm e para onde vão. Mas só fico realmente confortável
quando a Ella’s Pink Lady e eu temos o oceano só para nós. Sempre que
um pedaço de terra surge nas cartas náuticas, isso é um peso em minha
mente, e quase me sinto um pouco claustrofóbica!
A previsão é que o tempo de hoje se repita nos próximos dias. Então
deveremos encontrar algumas rajadas de ventos dos trópicos enquanto
continuarmos seguindo para o norte. Estou vendo cada vez mais peixes
voadores saltando da água, e estou contando as milhas para chegarmos
ao equador.
Por hoje é isso, pois minha barriga me informa que chegou a hora de
cozinhar algo para o jantar. Estou pensando em tacos (ou talvez deva
chamá-los de nachos, pois estão um pouco esmagados!) com carne
fechada a vácuo, tomate enlatado e pimentas-da-guiné enlatadas.
Quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Umidade, balanço e cupcakes!
Com o mar balançando bastante e água por todos os lados, as coisas
por aqui estão ficando bastante salgadas. Sempre que volto do convés
trago comigo um monte de água. Além disso, alguns vazamentos
passaram despercebidos mesmo com todo nosso esforço para encontrá-
los antes de partir. Não são nada perigosos, mas não ajudam muito na
guerra contra o sal e a umidade. Assim, tenho usado isolante aqui e ali, e
parece que isso resolverá alguns deles (estou cruzando os dedos)!
Passamos perto de outro barco hoje de manhã, mas não consegui vê-
lo por causa da chuva.
Icei e baixei algumas velas. O vento arrefeceu, mas voltou mais tarde,
e agora estamos avançando a seis nós com 20 nós de vento.
Ultrapassamos a marca de 2000 milhas náuticas hoje, e meu palpite é
que faltam uns 16 dias para chegarmos à linha do equador. Mas é
impossível saber ao certo, pois depende muito do tempo que teremos
nas próximas semanas.
Na tarde de hoje, decidi que já era tempo de me divertir um pouco na
cozinha e fiz cupcakes de chocolate! Foi uma aventura e tanto, pois os
ingredientes voaram em todas as direções com o balanço da Ella’s Pink
Lady. Mas cheguei até ao fim da receita, embora boa parte das porções
tenham parado em meu rosto! (Será que eu não deveria pensar em
seguir carreira de malabarista quando chegar em casa?) Eles já estão
prontos e o cheiro está muito bom. Agora vem a parte divertida – pôr o
glacê e decorá-los!
Na sexta-feira, o vento estava um pouco forte, mas foi um dia bem
normal até a metade da manhã, quando Parker se recusou a corrigir nosso
rumo. Vesti o colete salva-vidas, atei o cinto de segurança e fui até a popa
para averiguar qual era o problema. Minha primeira inspeção me deixou um pouco perdida, pois não encontrei nada fora do lugar, mas uma olhada mais
cuidadosa revelou que um dos pequenos anéis de xação (uma espécie de
parafuso) que conectava uma das hastes do cata-vento à pá havia soltado.
Uma boa vistoria na minha coleção de partes sobressalentes do piloto de vento revelou que anéis de xação eram uma das coisas que eu não tinha.
Para que pudéssemos continuar em movimento a curto prazo, enrosquei
tudo e prendi com um barbante (coberto por um pouco de ta adesiva
con ável!) e telefonei para Bruce a m de dizer o que havia acontecido. Bruce passou um tempo trocando ideias com Phil para encontrar a melhor
maneira de consertarmos aquilo de modo mais de nitivo. Naquele instante,
era apenas um probleminha, mas quei preocupada porque con ava no
Parker de maneira irrestrita, e sabia bem que a viagem de Mike havia sido interrompida por problemas com o piloto automático, e algo semelhante
(um parafuso faltando) impedira David Dicks de realizar seu sonho de dar
uma volta ao mundo desassistido. O piloto de vento era uma das únicas
coisas insubstituíveis a bordo e sem ele não teríamos combustível su ciente para os pilotos automáticos. Passei algumas horas imaginando o pior, mas
tive que deixar aquilo de lado e torcer para que o meu enjambre aguentasse
rme. No m, tudo deu certo. Acabei nunca substituindo aquele barbante e
o con ável Parker continuou nos levando em frente ao longo de todo o Oceano Antártico com apenas uma cordinha e, é claro, ta adesiva... a
versatilidade desse troço é mágica!
Sábado, 7 de novembro de 2009
Navegando com as monções
Estou amando muito o modo como a Ella vem devorando milhas e
milhas nos últimos dias. Estamos navegando bem com as monções, com
o vento estacionado entre 20 e 25 nós e soprando do sudeste, muito
embora o sol não tenha cumprido com seu reluzente trabalho nos
últimos tempos.
Também estamos nos deslocando consideravelmente para o norte. A
leitura do GPS indica latitudes de dois dígitos. A temperatura está
começando a subir um pouco na cabine, mas com tanta água sobre o
convés, abrir as escotilhas está fora de questão. Mas tenho certeza de
que isso não é nada comparado ao calor que fará por aqui nas próximas
semanas!
Estou com um pouco de dor de cabeça e como hoje o mar está
totalmente livre e a Ella’s Pink Lady não está exigindo muito da minha
atenção, passei quase todo o dia lendo um livro em uma posição
confortável e me mantendo seca. Afora pássaros ocasionais e peixes
voadores, não vi muita vida selvagem nos últimos dias e ainda não tive
sorte para pegar um peixe. Mas é claro que recém passamos pela Fossa
de Tonga, um dos lugares mais profundos da terra. Não sou uma grande
pescadora, mas suspeito que esse não seja o melhor lugar para pegar
um peixe, né? Vou ter que continuar tentando!
O céu nublado tem proporcionado noites escuras por aqui. O céu e o
mar ficam completamente negros e é impossível dizer onde começa um
e acaba o outro. Se a água espirra em meu rosto ou não quando coloco a
cabeça pra fora da janela da capota é mera questão de acaso. Mas
mesmo quando tenho azar e me deparo com uma onda, não chego a me
incomodar: dou uma risada ou faço cara feia, mesmo quando estou com
sono. Tudo vai bem e nesse ritmo devemos passar por Samoa nos
próximos dias. De lá até o equador, teremos o caminho livre.
Domingo, 8 de novembro de 2009
Postagem de domingo um pouco atrasada!
Por aqui, o domingo foi o mesmo. Acabei de levar um banho de água
salgada fria e estou com meus pequenos ventiladores ligados para tentar
me livrar da sensação pegajosa de umidade, mas acho que terei que
aprender a viver com isso.
Meu saco de dormir foi guardado em segurança num cantinho
distante e acho que meu uniforme nos próximos tempos será uma
camiseta e um sarongue. Estou navegando pelos trópicos! Agora, o meu
café da manhã é de cereais em vez de mingau (ainda com meu
“tempero” extra grande de nata, frutas secas e mel).
O vento teve seu ápice de velocidade aos 30 nós na noite passada, de
modo que as coisas por aqui continuam balançando bastante, pois
viajamos a favor do vento. É um pouco frustrante ver as coisas voando
pela cabine ou descobrir que mais alguma coisa ficou úmida e salgada,
mas basta dar uma olhada nos registros e ver que as milhas estão
ficando para trás para recuperar o sorriso. Só um pouquinho mais de
1200 milhas náuticas até o equador!
Eu estava conversando com meu irmão Tom, que passou o fim de
semana caminhando com alguns amigos, e percebi como adoraria
esticar as pernas em uma longa caminhada. Eu não havia percebido
como sinto saudades de caminhar ou correr na praia. Os alongamentos e
poucos exercícios que faço quase todos os dias não são a mesma coisa.
É engraçado que eu nunca tenha pensado em apreciar coisas como dar
uma caminhada até o momento em que não pude mais fazer isso. Fico
pensando em todos vocês sortudos aí em terra. Espero que estejam
aproveitando suas tardes de sábado ao máximo e dando boas e longas
caminhadas!
Segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Dia movimentado e água
Acabo de voltar para a cabine após dar por encerrada a pesca do dia.
Nenhum peixe, mas as iscas estão cobertas de grandes marcas de
dentes, então parece que ganhei algumas mordiscadas! Bem, talvez
mordiscada não seja a palavra certa. Decidi não pensar muito no que
exatamente deixou aquelas grandes marcas de dentes, mas tenho
certeza de que não foi nada tão ameaçador quanto a minha imaginação
quer me fazer crer.
Parece que teremos outra noite escura por aqui e mais quente do que
nunca, mas sou uma garota feliz após um dia movimentado e produtivo.
O mar e o vento finalmente se acalmaram nessa manhã e o sol apareceu.
Saí da cama bem cedo, pronta para dar cabo de alguns trabalhos no
convés que adiei por causa do balanço forte do mar. Cumpri todas as
tarefas de manutenção e dei uma boa checada na Ella’s Pink Lady em
busca de desgastes e arranhões. Então o vento acalmou ainda mais, até
o ponto de ficar um pouco desagradável, pois deixamos de avançar. Mas
antes que começasse a ficar frustrada demais, uma grande nuvem de
chuva apareceu e nos deu um banho de água fresca. Chuva pode não
parecer algo muito empolgante, mas me senti no paraíso!
Utilizando a vela mestra e as pequenas canaletas que construímos
estrategicamente na capota, consegui coletar água suficiente para encher
os tanques de água e alguns dos recipientes vazios e tomar um bom
banho de água fresca. Na verdade, coletei tanta água que nem sabia
como usá-la, mesmo após ter lavado minhas roupas. Então, decidi me
atirar de corpo e alma e esfreguei todas as superfícies planas da cabine.
Diverti-me muito com a música alta e a temperatura do ar reduzida
temporariamente por causa da chuva. Nunca achei que diria isso algum
dia me referindo às tarefas domésticas! Jamais curti limpezas e faxinas...
será que estou ficando louca? Elas também são um bom exercício físico.
Enfim, isso nos leva a um dos tópicos que ainda não mencionei: a
água.
O que ando fazendo para conseguir água fresca? Acreditem ou não,
além da comida, a Ella’s Pink Lady está carregando praticamente toda a
água de que preciso. Sei que é difícil de acreditar, mas vejam bem: só
uso água fresca para beber e cozinhar e sou apenas uma pessoa. Além
disso, acredito que conseguirei encher os tanques de novo durante
pancadas de chuvas antes de deixar os trópicos e seguir para o sul. Para
o caso de emergências, também há um dessalinizador portátil a bordo da
Ella’s Pink Lady, mas, a julgar pela quantidade de água que consegui
juntar hoje, não acho que precisarei dele.
Caiu outra pancada de chuva hoje de noite, derramando muita água e
tornando minha vida interessante graças ao ruído de alguns trovões, às
rajadas fortes de vento e às mudanças aleatórias de direção. A Ella’s Pink
Lady passou por tudo isso sem maiores dificuldades. Comparada a
algumas das tempestades tropicais que precisarei enfrentar em breve,
essa garoa vai ser lembrada como uma nuvenzinha fofa.
No momento, não há muito vento, apenas suaves 13 nós. Mas graças
às condições tranquilas dessa manhã, o mar se estabilizou bastante,
permitindo à Ella’s Pink Lady deslizar no rumo certo sem ser atrapalhada
por aquelas coisas úmidas e balouçantes – as ondas! Acabo de checar a
velocidade e estamos seguindo a sete nós. Não seria nada mal continuar
assim por uns tempos, mas a previsão é de que o vento reduza outra vez
logo, logo, então acho que será difícil nos manter em movimento nos
próximos dias.
Por hoje é isso. Agora vou lá abrir uma lata de pedaços de tangerina
com dose dupla de nata para a sobremesa!
Terça-feira, 10 de novembro de 2009
Devagarinho, mas certamente
chegando no equador!
Hoje não estamos seguindo a favor do vento e passei a manhã
timoneando e cambando para aproveitar ao máximo os pequenos sopros
que tivemos. Estava totalmente protegida do sol com um chapéu de
palha meio ridículo, protetor solar (da Ella Baché, é claro!), óculos de sol
e calça sarongue, e não havia lugar melhor para estar do que ao leme,
sentindo o frescor da brisa leve.
O piloto de vento da Fleming, Parker, faz um ótimo trabalho de ajustar
a direção – na maior parte do tempo, muito melhor do que eu. Mas,
quando o vento cai para velocidades inferiores a cinco nós, até o pobre e
velho Parker se entrega. Hoje à tarde, o vento caiu a ponto de eu precisar
abandonar o leme, pois não havia sentido em timonear um barco que
não está se mexendo!
Mais uma vez, o céu está coberto de nuvens, com pancadas de chuva
varrendo o oceano e se perdendo no horizonte. A calma foi interrompida
por chuvas torrenciais – um dia bem típico para a Zona de Convergência
Intertropical (“ZCIT”). Para a minha sorte, a ZCIT está bem fraquinha
nesse momento, então não deve demorar muito para conseguirmos um
pouco mais de vento para nos levar ao equador. Acho que a falta de
avanço seria bem frustrante se não fosse por todas as gradações de
cinza e azul que ficam tão lindas ao refletir na água.
Apesar do progresso limitado dessa tarde, só restam 950 milhas
náuticas até o equador (isto é, até o ponto em que espero atravessá-lo), e
mal posso esperar!
Para mim, navegar sozinha pela zona de convergência foi bem legal. Tratava-se de um dos lugares míticos sobre o qual os marinheiros falam e as
pessoas escrevem contos e poemas: um lugar onde os marinheiros são
testados.
Dentre aqueles que conheço, “e Rime of e Ancient Mariner” [A Rima do Antigo Marinheiro], de Samuel Taylor Coleridge, é provavelmente
o poema mais famoso a captar o espírito da região (não passei por nada
semelhante por lá... mas mais tarde quei bizarramente calma justo nos
Quarenta Bramadores. Vislumbrei um pouco da loucura frustrante do marinheiro!)
No quente céu acobreado
Meio-dia, sol de sangue
Erguendo-se acima do mastro
Como a lua, igual de grande
A cada dia após o outro
Nenhum metro avançado
Parado, qual navio pintado
Em oceano pintado.
Adoro ouvir histórias das aventuras de outras pessoas e da maneira como enfrentaram locais como a zona de convergência ou o Oceano Antártico. A
ZCIT é conhecida pelos marinheiros como “Zona de Morte Tropical”. Ela
está situada entre o quinto paralelo ao norte e o quinto paralelo ao sul,
embora isso possa variar de acordo com a estação, e é conhecida por sua imprevisibilidade e as mudanças agressivas de clima. Um veleiro pode estar
completamente parado e então... Bam! De repente, um vento de 40 nós se
forma em questão de minutos. Isso acontece porque os raios de sol são mais
fortes por lá e ao aquecerem o oceano fazem com que ar quente e úmido se erga das águas. Esse ar morno é instável e gera sistemas de baixa pressão,
tempestades e vendavais. Então, quando há um encontro do vento frio com
o vento quente, é comum se deparar com sistemas de clima severo.
Àquela altura da minha jornada, eu já havia percebido que me sentia bem quando estávamos nos movimentando, mas cava impaciente e mal-
humorada quando a Ella’s Pink Lady e eu viajávamos muito devagar. Se
aprendi algo naquela viagem foi ter paciência. Pelo que eu havia lido sobre
as zonas de convergências, aquele seria um ótimo lugar para praticá-la. E quando algo já é esperado ( quei tranquila por saber que muitos outros
passaram pela mesma situação no mesmo lugar), lidar com as coisas ca um
pouco mais fácil. São as surpresas inesperadas que impõem di culdades e
nos levam ao limite. Sei que digo isso o tempo todo, mas era por causa dessas surpresas que eu estava viajando.
Quinta-feira, 11 de novembro de 2009
Jantar roubado!
Notícias incríveis para transmitir hoje. Puxei a linha de pesca e
descobri que finalmente peguei um peixe! Eu adoraria contar a vocês
que peixe era, o seu tamanho e que o seu gosto era delicioso, mas
alguém (com dentes bem grandes!) comeu ele antes de mim.
Afora alguns pedacinhos de carne que ficaram pendurados na isca,
meu belo peixe foi devorado por algo maior. Não me resta outra opção
além de continuar tentando!
Não dormi muito na noite passada, pois estava atenta a algumas
pancadas de chuva de aparência sórdida, mas elas não deram em muita
coisa, e passamos a primeira parte da noite sendo arrastadas um
pouquinho para trás, ai! Houve piadas a respeito do retrocesso na
ligação matinal. Mas hoje tivemos um progresso sólido, e consegui
recuperar um pouco do sono e curtir as boas condições. O Oceano
Antártico certamente não será assim.
Para todos os que estão tentando adivinhar quando cruzarei a linha, a
última previsão do tempo de Bob nos deu um TEC (tempo estimado de
chegada) no equador que aponta para o dia dezoito, dentro de mais ou
menos sete dias!
Sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Navegação Tempestuosa
Desculpa, já faz um tempo desde a última atualização.
Disseram-me que o meu blog se tornou o mais acessado da Austrália
e o pânico dos holofotes me deixou sem palavras! Não, estou brincando,
tá tudo bem. Na verdade, foi uma notícia incrível, e tive dificuldades para
entender a dimensão disso estando aqui sozinha. Bom, ao menos
fisicamente sozinha. É mesmo incrível poder compartilhar a minha
viagem com tantas pessoas maravilhosas. Para mim, é como se estivesse
compartilhando minha vida com vocês – uma vida que nem sempre é
muito empolgante. Seguir aos trancos e barrancos e desviar do que
aparecer em nosso caminho parece completamente normal. Sei que
muitos dirão o contrário. Mas pensem a respeito. Seria muito estranho
para você descrever para os outros os altos e baixos de sua vida
cotidiana? É um pouco surreal. Dito isso, obrigada a vocês por todo o
apoio!
E por falar em altos e baixos, a Ella’s Pink Lady e eu progredimos
bastante nos últimos dias. A leitura da latitude agora nos põe em locais
de apenas um dígito – uau!
As condições têm sido ótimas (brisa constante do leste ou do sudeste,
sol brilhando e um mar muito tranquilo), mas também fui interrompida
com frequência por tempestades. Até agora, nada muito sério, mas o
suficiente para me manter trabalhando duro e baixando e erguendo as
velas, bem como mantendo um olhar vigilante para qualquer nuvem que
pareça especialmente mal-intencionada. Na noite passada, uma
tempestade com muitos relâmpagos passou perto de nós. Ficar sentada
esperando que passasse com toda aquela eletricidade foi um pouco
entediante, então fiz biscoitos de chocolate a luz de velas para passar o
tempo. Suponho que devesse ficar um pouco assustada com os
relâmpagos, mas, depois de ter feito tudo o que podia, não havia muito
sentido em ficar preocupada.
É difícil acreditar em como os dias passam voando. Enquanto me
ocupo em dormir o suficiente, continuar com a manutenção diária,
checar a linha de pesca, comer e contatar o pessoal lá de casa, o tempo
simplesmente voa. Sempre fico pensando onde as horas foram parar.
Embora a Ella’s Pink Lady tenha sido construída e projetada para ser
forte, resistente e fácil de manejar com tempo bom, me divirto bastante
ao mexer nas coisas e ajustar um pouquinho as velas para ter um pouco
de velocidade extra. Mas é claro que quando o tempo piora, o
importante é ser cautelosa!
... Seiscentas milhas náuticas até o equador!
Sábado, 14 de novembro de 2009
Peixe, primeiros socorros, "Parker" e pão
Minha determinação para pegar um peixe ganhou novo fôlego ontem,
quando telefonei para a minha família e conversamos muito enquanto
eles comiam peixe com fritas em uma noite de sexta-feira.
Já pensei em tudo. De entrada, teremos sashimi com shoyu, depois
bifes ligeiramente fritos, talvez com um pouco de farinha e suco de limão
(não frescos, é claro), e possivelmente algum tipo de peixe com curry.
Tudo dependerá do tamanho e do tipo de peixe. Infelizmente, parece que
decidir pegar o peixe não é o suficiente. Até agora, nada!
Depois de falar tanto em comida, percebi que algumas pessoas têm
comentado no blog que precisarei cuidar do meu peso. Não se
preocupem, estou fazendo isso! Na verdade, tenho orgulho de dizer que,
após anos de dificuldades, consegui ganhar um pouco de peso nas
últimas semanas. Vocês devem estar pensando que é muito estranho
uma adolescente de dezesseis anos dizer isso, mas passei anos
escutando dos lobos do mar mais calejados que precisava ganhar corpo
e ter algumas reservas, pois isso poderia ser útil quando a Ella’s Pink
Lady se dirigisse ao sul para contornar o Cabo Horn.
Hoje não houve tempestades e consegui dar diversos cochilos sem
sofrer interrupções. Foi um dia ótimo para navegar e Parker, o piloto de
vento, tem feito um trabalho incrível. Além disso, nada exigiu muito
minha atenção. A noite passada foi especial, pois havia tantas estrelas
que eu podia jurar que o ar parecia mais denso por causa delas. Além
disso, nos últimos tempos há um pouco de fosforescência na água,
então a superfície ao redor da Ella’s Pink Lady ficou salpicada por luzes
brilhantes.
Hoje tive meu primeiro machucado leve na viagem. Nada sério, só
queimei um pouquinho o dedão no forno. O tratamento consistiu em
ficar sentada no cockpit com a mão em um copo d’água curtindo o pôr-
do-sol e comendo um pouco de nata e, obviamente, a aplicação de um
sempre útil bandaid! Não é exatamente um motivo para ligar para casa,
mas podem ter certeza de que acabarei me arrependendo: assim que
essa postagem for para o ar, o telefone começará a tocar e serei
submetida a diversos interrogatórios médicos. Isso é que é viver em uma
bolha de proteção! Mas falando sério, embora o contratempo de hoje
não tenha sido nada grave, a chance de me machucar de verdade por
aqui é real.
Graças a minha mãe, à farmacêutica e navegante Suzy Rass Mussen, a
Mark White, aos St John Ambulance Cadets, da Dromana Secondary
College, e à minha médica Margaret Williams (que navegou sozinha todo
o perímetro da Austrália alguns anos atrás), a Ella’s Pink Lady tem um kit
de primeiros-socorros capaz de rivalizar com qualquer hospital. Também
concluí um curso de medicina marina, conheço o kit de trás para frente e,
como mencionei, recebi muitos conselhos.
Acabo de assar um pão fresquinho encantador, então vou lá dar uma
beliscada nas partes crocantes antes que esfrie. É claro que cobrirei tudo
com nata e geleia e depois terei sopa e pão para a janta.
Só uma última coisa: com toda essa conversa no blog sobre a minha
maturidade, preciso dizer que dei boas risadas ao olhar para as minhas
unhas do pé pintadas de rosa!
Agora, são só mais 500 milhas náuticas até o equador!
Segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Progresso inconstante e golfinhos
O ritmo de navegação tem oscilado nos últimos dias. Quando temos
um pouco de vento, a Ella’s Pink Lady passeia com facilidade pelas águas
planas. Mas também há ocasiões em que ficamos sem nenhum vento. A
tarde de hoje em particular não foi muito empolgante: ficamos só
balançando de um lado ao outro sob um forte calor sem irmos a lugar
nenhum. Fiz um pouco dos temas hoje de manhã, pensando que se não
havia como fazer o veleiro avançar, ao menos eu teria algo para fazer.
Mas não posso dizer que fiquei muito tempo concentrada.
Em vez disso, após um período levando banhos de água salgada fria e
ajeitando o leme para manter a Ella’s Pink Lady apontada na direção
certa, acabei polindo o pequeno motor Yanmar e esfregando os lugares
onde havia água acumulada. Quando o sol se pôs, consegui me deitar
um pouco, suada e com calor, mas feliz por não ter desperdiçado o dia.
Tenho certeza de que após mais alguns meses no mar, a pobre e velha
Ella’s Pink Lady já não terá a ótima aparência de quando partiu de
Sydney, mas ao menos farei o possível para mantê-la com uma boa
aparência. É o que sempre me dizem: “Cuide bem do barco e ele cuidará
bem de você”.
Quando as pessoas falam sobre o necessário para navegar ao redor
do mundo, parecem nunca mencionar a paciência, mas estou
aprendendo bem depressa que é uma das coisas mais importantes.
Essa tarde foi bem legal: um bando de golfinhos passou algumas
horas brincando ao nosso redor e me diverti muito sentada à sombra das
velas na proa, com os pés balançando sobre a lateral do barco (sim, eu
estava atada ao cinto de segurança!) e assistindo a eles brincando nas
águas límpidas. Não sei ao certo de que tipo eram (pequenos e
totalmente cinza), mas eles ficaram por ali um século, então não devem
ter achado as músicas que escuto muito ruins! Amei o jeito como
brincavam, pegando as ondas e saltando por cima delas, e só posso
imaginar como deve ser divertido ter um mar vasto como esse.
Finalmente estou chegando às porções renegadas da sacola de
comida mais recente, então tenho me alimentado de maneira mais ou
menos aleatória nos últimos tempos (a janta de hoje foi carne seca, frutas
em latas e massa!). Curiosamente, estou muito ansiosa para abrir a
próxima sacola.
Acabo de perceber como já está tarde. Então, teremos que parar por
aqui.
P.S. Agradecimentos a meu pai e a Bruce por terem sido tão pacientes
comigo no telefone nos últimos dias e por entenderem que às vezes uma
garota simplesmente não está a fim de conversar.
P.P.S. Mesmo com um progresso tão lento, agora só faltam 370 milhas
náuticas para cruzarmos o equador!
Terça-feira, 17 de novembro de 2009
Trinta dias no mar e companhia
Hoje à noite, tenho companhia por aqui. Deixem que eu apresente o
Bobalhão. Ele é um pequeno pássaro marrom que pousou no refletor do
satélite Sailor 250, na popa da Ella’s Pink Lady. O Bobalhão ganhou esse
apelido devido ao seu perigoso fascínio pelo gerador eólico e suas
impressionantes tentativas de posar na lamina inclinada do piloto de
vento. Embora o gerador não esteja girando muito rápido nesse
momento, observá-lo voando tão perto dele sucessivas vezes foi um
pouco angustiante! De qualquer forma, ele já está sentado ali há mais de
três horas e parece estar bem confortável empoleirado no refletor.
Além do Bobalhão, vi muitos pássaros por aqui hoje, a maioria deles
mergulhões e atobás-pardos (ao menos acho que são!), o que é um
pouco surpreendente, pois a ilha mais próxima está a cerca de 200
milhas náuticas de distância. Afora uma pequena chuva na parte da
manhã, as condições de navegação hoje beiram a perfeição.
É difícil de acreditar, mas amanhã completaremos trinta dias no mar,
exatamente um mês desde nossa partida de Sydney em 18 de outubro.
Um a menos, mais sete pela frente! Parece que foi ontem que partimos
de Sydney e é uma loucura pensar que não tive contato direto com outra
pessoa nos últimos trinta dias. Para ser honesta, não me sinto diferente
por isso. É como alguém perguntar se você se sente diferente após uma
festa de aniversário. Mas continuo sendo a mesma de sempre! Abri uma
nova sacola de comida hoje, então voltei aos meus pratos favoritos.
Estou planejando fazer uma massa para o jantar. Será que o Bobalhão
gosta de massa?
Acho que não chegaremos no equador amanhã conforme eu
esperava, mas só restam 240 milhas náuticas, então não devemos
demorar muito. Manterei vocês atualizados conforme o momento se
aproximar. Estou ficando bem empolgada!
Após cruzar a linha, navegarei mais 200 milhas náuticas para o norte e
contornarei a Ilha Kiritimati, meu ponto de virada no hemisfério norte, e
então voltarei para o sul cruzando a linha outra vez e seguindo para o
Cabo Horn.
É isso que a Ella’s Pink Lady e eu temos a dizer por hoje.
Em seu livro, First Lady, Kay Cottee escreveu sobre “como até mesmo a mais sana das pessoas pode car meio biruta após longos períodos sozinha”
e como, durante uma de suas regatas individuais transtasmanianas ela cou
completamente exausta após quase 48 horas sem dormir e então decidiu
tirar um cochilo. Quando se deitou na cama, cinco pessoas sentadas à sua frente disseram que tomariam conta do barco enquanto ela dormisse. Ela
pediu que cassem à vontade, e quando acordou duas horas mais tarde
todas haviam desaparecido, mas tudo estava bem. Nunca passei por algo
assim, mas tive algumas conversas longas com minha tripulação de bichinhos de pelúcia e meu el amigo Parker.
Parker e eu desenvolvemos uma relação muito estranha. Sabe aquele
lme Náufrago, com Tom Hanks? Bom, não estou dizendo que Parker e eu
éramos tão próximos quanto o personagem de Tom Hanks e Wilson (nem que eu era tão louca quanto o personagem de Tom Hanks), mas já dá para
ter uma ideia.
Eu conversava com ele o tempo todo, pedindo que cuidasse o curso do
barco. Eu gritava “para cima” ou “abaixa, abaixa” se ele ajustava na direção errada. Devo admitir que estava mais para um monólogo do que para uma
conversa, já que ele não era de falar muito. Mas sem dúvida sabia ouvir
muito bem e eu compartilhava com ele os meus sonhos para o futuro e até
coisas mais importantes, como o que planejava fazer para o jantar.
Quando cava nervosa por algum motivo, como um vendaval se armando ou um mar particularmente revolto, eu conversava com a Ella’s
Pink Lady . Eu trocava uma ideia com ela quando as previsões de Bob
indicavam condições ruins, encorajando-a e ressaltando como ela era
maravilhosa em um tom de voz muito positivo. A verdade é que aquelas conversas eram melhores para mim do que para ela!
Durante as tempestades, eu gritava o tempo todo para Parker e a Ella’s
Pink Lady, pedindo que aguentassem rme enquanto caíamos ou subíamos
por uma onda especialmente difícil. Quando eu escrevia no blog usando a terceira pessoa, era porque havia incluído meus “amigos” na aventura.
Quinta-feira, 18 de novembro de 2009
Estrela cadente e só mais um
dia para cruzar a linha!
Não sou exatamente uma astrônoma, mas com todo esse papo sobre
chuva de meteoros na noite passada, dediquei atenção especial e vi uma
estrela cadente inacreditável. [Aparentemente, todos os anos, por volta
de novembro, a Terra passa por um rastro de poeira cósmica deixado
pelo cometa Tempel-Tuttle. A mídia estava divulgando que o avistamento
desse ano seria particularmente espetacular.] Era tão grande e brilhante
que fiquei até um pouco espantada antes de entender do que se tratava.
Mas não posso dizer a vocês qual foi o meu desejo!
Bem, o Bobalhão nos deixou essa manhã, mas foi bom ter companhia
e alguém com quem falar por uns tempos. Ele tinha opiniões
interessantíssimas sobre temas como moda e garotos! E não se
interessou nem um pouquinho pela comida que ofereci a ele, nem
pareceu se preocupar com o flash da câmera fotográfica.
O dia de hoje não foi muito empolgante por aqui, afora as tarefas de
praxe – acompanhamento da rota, skeds no rádio HF, etc. Na verdade,
dormi a maior parte do dia. Nos últimos tempos, tenho adquirido hábitos
noturnos, porque é muito mais fácil fazer as coisas depois que o sol se
põe e a temperatura fica mais fresca. Foi bom tirar alguns cochilos a mais
enquanto ainda tenho o mar livre e condições favoráveis.
O jantar de hoje foi uma omelete deliciosa com ovos em pó, manteiga
enlatada, pedaços de bacon e um pouco de salsinha seca. Também
participei (via telefone!) da minha primeira festa de travessia do equador
hoje à noite. Alguns dos meus tios e primos, meus avós e todos os seus
amigos se reuniram em Cromwell, na Ilha Sul da Nova Zelândia, para
comemorar a nossa travessia – mas chegaram um pouco cedo demais!
O vento foi bom e constante durante o dia inteiro, então progredimos
bastante e estamos a apenas 50 milhas náuticas do equador! Qualquer
coisa pode acontecer, mas parece que faremos a travessia dentro de dez
horas, uma manhã de quinta-feira na Austrália. Então, amanhã será um
grande dia.
Quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Um grande dia
Hoje eu cruzei a linha! Comemorei com um chocolate ligeiramente
derretido e o tradicional banho de água salgada imprescindível a
qualquer um que faz a travessia pela primeira vez. Precisei usar um balde
para garantir o banho, mas não posso dizer que foi ruim!
Atravessar o equador foi um dos marcos principais de minha viagem. Eu
estava muito ansiosa para chegar lá. Em termos gerais, o equador é uma linha imaginária que dá a volta na terra a uma latitude de zero grau,
equidistante dos polos Sul e Norte. Tem 21.600 milhas náuticas de
comprimento e divide a Terra nos hemisférios sul e norte.
Os navegantes têm a tradição de comemorar a primeira travessia de todas as pessoas a bordo, e eu estava bem disposta a seguir a tradição para
destacar bastante aquele momento. Disseram-me que em outras épocas a
iniciação não era das mais agradáveis e em alguns navios o ritual podia ser
bem cruel, sendo visto como um teste das habilidades do navegante para aguentar condições hostis. Não sei exatamente o que se fazia naqueles
tempos, mas sei que os navios de cruzeiro metamorfosearam a tradição em
algo bem mais divertido, e qualquer coisa que inclua chocolate está ótimo
para mim.
Sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Hemisfério norte
Não consigo ver nenhuma diferença. A água ainda é azul, as ondas
ainda passam e o vento ainda está soprando, mas, aparentemente, agora
a água que respinga no convés e fica para trás da Ella’s Pink Lady é água
do hemisfério norte! Não poderíamos ter um dia melhor para atravessar
a linha do equador: mar calmo, vento de 15 nós e sol a pino. Cruzamos a
linha às 20h17 UTC, a uma velocidade de 5.5 nós, e comemoramos com
o usual brinde a Netuno, o tradicional banho de água salgada, e muitas
ligações entusiasmadas. Eu também tinha alguns presentes guardados
especialmente para a ocasião. Brindei a Netuno com suco de frutas e
muito chocolate. Normalmente, não sou a favor da ideia de atirar um
bom chocolate no mar, mas achei que era a minha chance de entrar para
a lista de amigos de Netuno. Eu esperava que minha oferenda generosa
fosse recompensada com um peixe em minha linha, mas não tive essa
sorte!
Achei que o dia em que eu cruzasse a linha seria como todos os
outros, de modo que fiquei um pouco surpresa ao me ver um pouco
emocionada realizando malabarismos com três câmeras diferentes e
fazendo contagem regressiva nas medições de latitude do GPS. O que
me deixou tão tocada não foi o ato físico de passar para o hemisfério
norte (há um limite de o quão empolgada é possível ficar por causa de
uma linha invisível na água!), mas o fato de que isso implicava o fim da
primeira etapa. Claro, provavelmente foi uma das etapas mais fáceis
(digamos que foi uma adaptação!) se comparada ao que encontrarei no
sul, mas a distância que já percorremos é bem impressionante. Chegar
tão longe (e sobreviver a tudo o que aconteceu antes da partida!) me deu
confiança para saber que, embora sérias dificuldades estejam por vir,
será uma diversão derrubar qualquer coisa que apareça em nosso
caminho.
Mais uma vez, navegamos muito bem durante a noite. Já entramos
bastante no hemisfério Norte e estamos a caminho da Ilha Kirimati, que
possivelmente contornaremos amanhã ao fim do dia. O dia nublado
gerou um clima um pouquinho sinistro, mas acho que é mais culpa da
minha imaginação do que qualquer outra coisa. O fato é que a Ella’s Pink
Lady teve um progresso constante, então não posso reclamar.
Após toda a comemoração e diversão de ontem, hoje eu retomei
alguns trabalhos. Não que os trabalhos de manutenção não sejam
divertidos! Tenho certeza de que manter até mesmo os menores
problemas em potencial longe de nós traz suas recompensas e fico feliz
em estar ocupada.
Finalmente tivemos um pouco de luar nessa noite. Ainda não sei o
que farei para o jantar, mas estou pensando em arriscar uma espécie de
torta de maçã com frutas cristalizadas para a sobremesa. Um pouco de
sorvete por cima também cairia muito bem, mas é melhor nem pensar
nisso!
Obrigada a todos pelos cumprimentos em meu blog. Parece que
muita gente também se divertiu bastante comemorando em minha
homenagem! Mas ainda acho que o crédito deve ir para a Ella’s Pink Lady
e a incrível equipe que a fez chegar na linha de partida. Só estou de
carona no passeio.
Domingo, 22 de novembro de 2009
Contornando a Ilha Kiritimati
Vento na proa e uma corrente na direção contrária dificultaram muito
nosso avanço nos últimos dias. Recém estamos nos aproximando da Ilha
Kiritimati. Se tudo sair conforme planejado, devemos deixá-la para trás
até o fim da manhã. Será um alívio ter um pouco de espaço no mar e
avançar no sentido sul outra vez.
As Ilhas Kiritimati parecem bem interessantes, então acrescentei-as à
lista de lugares onde parar na próxima vez! Aparentemente, é o maior
atol do mundo, e devido a algumas curvas aleatórias da linha da data,
também é o país mais a leste do mundo. Pelo que li, é um lugar de cartão
postal, com praias de areias brancas e lagoas de corais... mas não se
preocupem. Não estou tentada a fazer uma parada. Na verdade, terei
sorte se conseguir ver o brilho distante das luzes ao passar perto dela
hoje à noite. Ah, e dizem que é um bom lugar para pescar!
Ontem, passamos por um barco (na verdade, por três!) pela primeira
vez em mais de uma semana. Eram barcos grandes de pesca, mas
aparentemente a tripulação não sabia falar inglês. Também levei um
susto ontem: eu estava sentada na sala de navegação e ouvi um barulho
terrível de algo sendo arrastado contra o casco. Fui para a rua e vi uma
boia imensa que havia se prendido ao piloto de vento, mas por sorte ela
se soltou antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, e não houve
nenhum dano.
Avistei algumas outras boias durante o dia, mas não sei ao certo o
que elas indicam e o que estão fazendo aqui no meio do nada.
Ultimamente, tivemos muitas noites claras e estreladas e tenho visto
elas muito bem porque, embora as temperaturas tenham caído um
pouco nos últimos tempos, ainda é muito mais fácil fazer as coisas
depois que o sol se põe. Fiquei um pouco enciumada ao ouvir que todos
lá em casa estavam indo para o cinema na noite passada, então organizei
minha própria noite de filmes e assisti um DVD no meu Toughbook,
acompanhada de algumas pipocas! Ainda tenho muito caminho para
navegar pelos trópicos, mas ando pensando cada vez mais no Cabo
Horn.
Terei que parar por aqui, porque chegou a hora de cruzar outra vez.
Fiquem na torcida, pois essa deve ser a última vez antes de terminarmos
de contornar a ilha!
Um dia antes de partir de Sydney, eu havia pedido que Tom comprasse alguns DVDs com seu amigo Andrew (não Andrew Fraser) para eu levar na
viagem. Dei instruções claras para que pegassem coisas de meninas, mas
claro que eles não conseguiram se conter, e acabei com pilhas de episódios
do Top Gear e um DVD ensinando a pescar em cima dos DVDs de Diário de Bridget Jones e algumas outras coisas de meninas. Era visível que Tom tinha
a esperança de que eu voltasse para casa sabendo tudo sobre carros se ele
mandasse diversos vídeos de Top Gear. Infelizmente, as coisas não foram
bem assim. Assisti a todos os episódios, mas sempre acelerava a velocidade de reprodução nas partes chatas em que falavam sobre os carros. Desculpa,
Tom!
Eu também tinha comigo a caixa de DVDs da série de TV Bones e curtia
assistir a um episódio de vez em quando. Mas depois de acordar algumas vezes de sonhos vívidos e horripilantes, aprendi que não devia vê-los antes
de dormir. Certa vez, sonhei que toda a equipe de investigação de Bones
estava na Ella’s Pink Lady comigo. Ainda mais bizarro foi o fato de que não
conversei com Booth e Bones sobre casos complicados de assassinato. Em vez disso, tivemos sérias discussões sobre as condições do tempo.
Era sempre estranho acordar com os estampidos e batidas do barco após
um sonho realista e perceber que eu estava sozinha. Durante meu tempo no mar, sonhei que pessoas de todo o tipo estavam comigo a bordo. Nem sempre eram estrelas da TV norte-americana. Em algumas ocasiões, eram
amigos ou familiares que apareciam, e quando estava com saudades eu
revisitava aqueles sonhos em minha mente, o que me ajudava a sentir-me
mais perto das pessoas que amo. Eu gostava daqueles sonhos.
Eu odiava os pesadelos que tinha quando as condições do mar eram
adversas ou nas partes mais difíceis da viagem, quando estava realmente
cansada. Na metade das vezes, eu não lembrava direito o que sonhara, mas
acordava com a mente confusa. Era horrível, pois naqueles momentos eu me lembrava de quando havia sido acordada com um baque durante o acidente
em que a Ella’s Pink Lady arranhara a lateral no casco do Silver Yang. Por
alguns segundos, eu não sabia onde estava. Experimentava um sentimento
de impotência, como a sensação de ser arrastada por uma corrente. Queria lutar contra aquilo, nadar no sentido contrário, mas não conseguia. Odeio
esse sentimento de fraqueza. De certa forma, era esse o motivo da minha
viagem. Eu queria assumir o controle de minha vida em vez de
simplesmente ser levada por ela.
Segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Finalmente um peixe!
Sim, estou mais do que contente e muito aliviada por informar que
finalmente peguei um peixe! [Veja na seção de fotos.] A situação já
estava ficando um pouco ridícula. Acho que é uma albacoara-cachorra.
Não é muito grande, mas tenho certeza de que será suficiente para
todos! Não posso dizer que muitos pescadores se orgulhariam da sujeira
que fiz para limpá-la. Estou feliz por não haver mais ninguém para
testemunhar a confusão toda, mas a prática leva à perfeição, né?
(Não cheguei a fazer isso, mas antes de voltar para casa quei tentada a
deletar os vídeos que me mostram abrindo o peixe... co envergonhada
quando as pessoas veem a sujeira que z.)
No fim das contas, a cruzada da noite passada não foi a última. O
vento e a corrente não facilitaram nossa vida e foi uma noite sem
descanso em que precisamos cruzar repetidamente e progredimos um
palmo por vez com grande lentidão. Sempre que eu pensava que
finalmente deixaríamos a ilha para trás, o vento virava um pouco e
tínhamos que cruzar outra vez. Era um pouco frustrante, mas sempre é
difícil não me alegrar com as estrelas brilhando e a música ligada.
Passei boa parte do dia no convés, curtindo a sombra das velas e
tentando (sem muito sucesso!) dar uma polida no aço inoxidável. Tenho
percebido um bom desgaste nas linhas do piloto de vento (nada
preocupante, há muitas de reserva), por isso passei um tempo
procurando uma maneira de reduzi-lo. É um bom lembrete de que Parker
trabalha o tempo todo. Sempre há algo para me manter ocupada, seja
retirar os cristais de sal dos painéis solares, responder um e-mail ou
correr atrás das tarefas domésticas (tarefas barqueiras?!).
Há muitos pássaros por perto outra vez e curto muito escutá-los
gritando uns para os outros enquanto sobrevoam a Ella’s Pink Lady. Isso
me fez pensar em todos os outros barulhos em terra que não escuto há
tanto tempo, o que me deixou com um pouco de saudades de casa. Mas
sei que assim que voltar para terra sentirei falta do barulho constante da
água contra o casco e de todos os rangidos e chiados que a Ella’s Pink
Lady produz ao navegar.
Quando chequei os e-mails hoje de manhã, encontrei um de tom sério
da minha mãe, que estava seriamente preocupada. Ela me disse para
tomar cuidado com todos os “garotos” – acho que devem ter me visto
revirando os olhos aqui!
Adoraria escrever mais, mas é hora de me divertir um pouco na
cozinha com o tão esperado peixe com fritas!
Atravessar o equador foi o meu primeiro grande marco e me despedir
daquela grande porção do Pací co foi incrível. Encontrei condições quase
perfeitas para navegar e as coisas foram melhores do que jamais esperei. Eu
estava amando a viagem, havia me acostumado a uma rotina confortável e não tive problemas técnicos de maior relevância. Pensando agora em
minhas médias durante a jornada, nossa velocidade pelo Pací co foi uma
das melhores. Acho isso bem interessante, porque eu esperava que aquele
fosse o trecho mais lento devido às aparições aleatórias de ventos contrários e à célebre ZCIT. Há algumas coisas que explicam por que me saí tão bem.
Quando comecei, eu tinha muito para provar a mim mesma e estava
determinada a me livrar logo de cara de quaisquer dúvidas que ainda tivesse,
então me esforcei mais naquela primeira etapa. O clima também foi um fator crucial. Gastar tempo ajustando as velas no convés sob um sol quente
não é exatamente desagradável, e mais para o sul eu passaria mais tempo
engaiolada na cabine tentando me manter aquecida em vez de fazer
pequenos ajustes que teria feito se ainda estivesse nos trópicos. Eu amava o sul e suas ondas incríveis, os albatrozes e o céu acinzentado. Mas, vamos
combinar: se precisasse escolher, não recusaria uma sequência de dias de sol
e de noites dormidas sob as estrelas!
É claro que não passei o tempo todo navegando de maneira bucólica com ajuda das monções naquela primeira etapa. Dormir o su ciente e tentar
desenvolver bons hábitos de sono foi mais difícil naquele primeiro mês. Eu
ainda estava me acostumando a isso, e como o Pací co é cheio de ilhas,
corais, veleiros e barcos de pesca, eu cava em estado constante de alerta e não me permitia dormir muito porque precisava ser cuidadosa. Minha
maior preocupação eram os outros veleiros porque, ao contrário dos
grandes navios, pequenos barcos de cruzeiro (ou ao menos a maioria deles)
não têm AIS e são quase invisíveis aos radares. É claro que bater em um pequeno veleiro causa muito menos danos do que colidir com um petroleiro
(e acreditem, sei muito bem disso!), mas de qualquer forma isso me
atormentava e eu não estava disposta a correr nenhum risco. Estava ansiosa
para navegar mais para o sul e, embora fossem surgir novos desa os, eu esperava ter o oceano só para mim.