Destemida

Jessica Watson · Capítulo 11 de 20 · parte 1/2

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Destemida

Etapa Seis - Oceano Antártico rumo à minha casa

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

Terça-feira, 2 de março de 2010

 

 

O tempo passa voando e seguimos em

 

direção ao norte

 

O tempo passa de maneira muito estranha, dando grandes saltos de

vez em quando e às vezes se arrastando minuto após minuto. Mas rápido

ou devagar, ainda estou curtindo cada instante.

No momento, estamos navegando perfeitamente com 20 nós de

vento e sol. A vida a bordo continua igual a de sempre, cheia de detalhes

que me deixam feliz. Por mais que esteja ansiosa, voltar para casa será

um choque e tanto, pois me adaptei muito bem ao cotidiano daqui.

Uma coisa empolgante (ao menos para mim!) aconteceu

recentemente: passamos para a carta náutica do Oceano Índico, com a

Austrália em uma das extremidades. Parece tão longe, mas ao mesmo

tempo tão perto. Também passaremos por um número surpreendente de

ilhazinhas em nosso caminho pelo fundo do Índico. Eu não tinha ideia de

que havia algo por aqui além de incontáveis ondas.

Bem, vou sair para guardar algumas coisas e dar uma organizada em

tudo. Como sempre após alguns dias de boa navegação, a cabine ficou

meio caótica. Mas uma previsão de tempo inconstante é muito mais

eficiente para me forçar a organizar tudo do que minha mãe jamais foi!

Sexta-feira, 5 de março de 2010

 

 

Detalhes do cotidiano

 

Nos últimos dias, vimos um pouco de tudo. O clima não foi muito

extremo, mas estava um pouco desconfortável porque o vento batia na

lateral da Ella’s Pink Lady enquanto ela navegava por ondas bem altas

(cinco metros, talvez um pouco mais). Nesse instante temos condições

calmas, ensolaradas e lentas outra vez.

Deve soar meio estranho e a maioria das pessoas pensa o contrário,

mas acreditem ou não, os ventos leves podem ser muitas vezes o

momento mais tumultuado para uma navegante. Quando os ventos

estão fracos, costumam mudar o tempo todo, exigindo muitas correções

de rumo e ajustes nas velas para que o barco continue em movimento.

Quando o clima está mais intenso, o normal é que a Ella’s Pink Lady siga

em frente sem precisar de muita atenção, e como o movimento das

ondas torna mesmo as coisas mais simples um milhão de vezes mais

difíceis, costumo me resignar e ler um livro enfurnada na cama nos

intervalos entre os trabalhos necessários (como me alimentar!). Quando

o simples ato de abrir um armário pode esparramar todo o seu conteúdo

pelo chão, acho melhor esperar sentada e fazer o menor número de

coisas possível!

Como não tenho nada de especialmente glamoroso para contar, achei

que seria uma boa ideia descrever a minha rotina diária em detalhes. Mas

quando comecei a pensar no assunto, percebi que não é uma ideia tão

boa, pois não tenho exatamente uma rotina para descrever. Com

algumas exceções, como as ligações diárias, não há absolutamente nada

de rotineiro em minha vida. Hábitos de sono estranhos, costumes

estranhos, a política de comer quando dá fome e, sobretudo, o clima

desafiador impedem que dois dias sejam iguais. Às vezes me sinto bem

motivada e me entrego à manutenção e à limpeza. Em alguns dias, mal

tiro os olhos do livro que estou lendo. De vez em quando fico bem

falante, dou diversos telefonemas e passo um tempão enviando e-mails –

mas também há sequências de dias em que todos ficam sem notícias

minhas. Posso dormir um monte hoje e quase nada amanhã. Às vezes

me esforço muito na cozinha, noutras sobrevivo à base de Cup-a-Soups

e bolachas. Nem sequer escrevo com regularidade em meu diário,

pulando com frequência alguns dias e compensando em outros ao

escrever um monte de uma vez só. Acho que posso dizer que sou um

pouco aleatória! Mas mais do que qualquer coisa, quem dá a palavra

final e recebe toda a prioridade é o clima.

Então, é essa a descrição dos meus dias. Ainda estou muito animada

e amando a jornada. Mas fiquei com muitas saudades de casa e da terra

ontem ao ver algumas fotos. Não que as ondas, os pássaros e o céu

sejam entediantes: é só que de vez em quando eu adoraria ter algo novo

para olhar!

 

As pessoas sempre me perguntam o que eu fazia com o meu lixo na

viagem e a resposta é simples: ele voltou todinho comigo. Cada vez que enchia uma sacola de comida vazia com lixo, eu saltava em cima dela

algumas vezes (se o clima permitisse), lacrava com ta e armazenava no

armário traseiro ou na proa. Duzentos e dez dias de lixo podem parecer

muito, mas não havia tanto quanto era de se esperar, pois quando minha mãe estava escolhendo e comprando a comida que eu levaria comigo, retirou todo o excesso de embalagem. A pilha de embalagens descartada era incrivelmente grande. Isso me fez pensar em todo o desperdício que vem

incluído em muito do que compramos.

Vi lixo plástico durante a minha viagem, mas não tanto, pois estava

viajando muito para o sul. Ian Kiernan, o famoso velejador e ambientalista,

cou horrorizado com a quantidade de lixo que viu no oceano ao competir

no Desa o BOC 1986/1987, uma regata de circum-navegação solitária, e

quando voltou para casa decidiu tentar fazer a diferença. Junto com alguns

amigos, formou um comitê e organizou o Clean Up Sydney Harbour Day [Dia de Limpar o Porto de Sydney] em 1989. Foi um grande sucesso e mais

de 40.000 pessoas apareceram para ajudar. Dali em diante, a ideia cresceu, e

o primeiro Clean Up Australia Day [Dia de Limpar a Austrália] ocorreu em

1990, com a participação de 300.000 pessoas. Ian Kiernan mostrou o que uma pessoa e o “poder do povo” são capazes de fazer. Sua ideia se tornou

um evento anual em todo o país e também deu origem a uma campanha

global que, de acordo com o site www.cleanup.org.au, “atrai anualmente um

número estimado de 35 milhões de pessoas em 120 países incluindo desde a Micronésia até a Índia no Pací co Asiático, da Argentina à Venezuela, na

América do Sul; da Turquia aos Emirados Árabes Unidos, na Ásia

Ocidental; de Aruba ao Zimbábue, na África; da Grécia à Polônia, na

Europa; e dos EUA ao Canadá, na América do Norte”. Coisas grandes crescem a partir de coisas pequenas!

 

Segunda-feira, 8 de março de 2010

 

Navegando com tranquilidade

Ontem foi um dia perfeito para navegar, com ventos de 15 nós, boa

 

velocidade, céu azul, mar tranquilo e um belo pôr-do-sol. Para melhorar,

a situação hoje é a mesma e a previsão para os próximos dias também é

boa, pois um sistema de alta pressão de deslocamento lento está nos

deixando. Com as velocidades que a Ella’s Pink Lady tem atingido nos

últimos tempos, acho não sou a única que está feliz em avançar para o

leste. A temperatura é de agradáveis 25 graus ao sol, então passo o dia

de regata e visto um suéter leve à noite. Acho que estou mal-

acostumada!

Sendo assim, no momento, nossa navegação é muito tranquila. Bom,

na verdade não tanto. O banheiro vem me causando alguma dor de

cabeça. Apesar de ter passado a tarde de ontem retirando e substituindo

diversos canos, ele ainda se recusa a funcionar, o que me deixa intrigada,

pois não se trata exatamente de um equipamento de tecnologia de

ponta. Definitivamente, não é o trabalho mais glamoroso ou agradável,

mas não posso parar de tentar! Afora isso, hoje me dei ao luxo de pegar

lençóis limpos e uma toalha nova. Não é bem um motivo para ficar

superempolgada, mas o que me impactou quando abri o invólucro de

plástico foi o cheiro fresco e indistinto de detergente. Isso me fez

perceber como há poucos cheiros diferentes por aqui. Na maior parte do

tempo, é apenas ar fresco e mar salgado. Imagino que, quando voltar

para casa, todos os cheiros diferentes vão ficar em evidência.

Mudando completamente de assunto, tenho trabalhado nos últimos

tempos com a equipe na Austrália para encontrar um nome para o livro

(originalmente, estávamos cogitando Ao redor do Mundo, mas não é o

nome ideal). Encontrar um título realmente adequado e que todos

gostemos está se mostrando um grande desafio. Então, gostaríamos de

saber se vocês não têm alguma sugestão, pois chegou a hora de

tomarmos uma decisão. Eu adoraria ouvir as ideias de vocês!

Ontem foi o Clean Up Australia Day, e espero que tudo tenha se saído

bem. Não havia muito que eu pudesse fazer pela causa daqui, mas fiz um

esforço a mais para organizar a cabine!

 

Recebi muitas sugestões de título dos blogueiros e foi fantástico ter um retorno dessa proporção, mas ainda foi muito difícil escolher. Eu não tinha

bem certeza do que queria. Já havia recebido algumas sugestões de amigos e

da família, mas nada tinha me agradado muito. Um que todos haviam

gostado era Garra Intrépida, mas eu não era nada intrépida e tive que recusar. É claro que eu tinha medos. Uma das mensagens que esperava

transmitir com a minha viagem era que ter medo é normal, o importante é

administrá-los e garantir que não o impeçam de vivenciar as coisas e

expandir seus limites. A ideia de intrepidez é um grande erro. Não queria de modo algum que as pessoas pensassem que eu era viciada em adrenalina ou

algo do tipo – não era esse o objetivo de minha viagem. Quando me

sugeriram outro título, Destemida, também não gostei. Achei um pouco

exibido, passando a ideia de que eu era um exemplo de pessoa destemida. Mas assim como Jesse Martin odiou Lionheart no início, comecei a gostar

mais do nome. Eu queria algo forte e inspirador, e não consegui achar nada

melhor. Agora, estou feliz por não tê-lo rejeitado, pois embora eu jamais

utilizasse “destemida” para me descrever, combina muito com a viagem.

 

Quinta-feira, 11 de março de 2010

Sol, estrelas e pores-do-sol

 

Em primeiro lugar, muito obrigada por todas as ideias de títulos. O

retorno foi incrível e nos deu muito o que pensar, além de ter rendido

boas risadas! Então agradeço mais uma vez.

A Ella’s Pink Lady não anda quebrando recordes de velocidade nos

últimos tempos, mas ainda estamos navegando em ritmo constante.

Ontem foi um dia bem devagar, mas hoje foi melhor. O sol e o mar calmo

ainda perduram, então as coisas não estão muito intensas. Mas quando a

velocidade cai para menos de três nós, vira um teste para a minha

paciência. Não é que eu esteja com muita pressa, pois ainda estou me

divertindo. Mas ir para algum lugar parece ter muito mais propósito. O

sol quentinho, as belas noites estreladas e os lindos pores-do-sol

rosados me deixam de ótimo humor. Mas quando também temos

velocidade... Aí sim sou uma garota feliz!

Outra coisa ótima das condições tranquilas é que consegui deixar a

escotilha da proa aberta, o que está sendo ótimo para refrescar a cabine.

Está ajudando muito meus esforços para acabar com o mofo e a

umidade. É inacreditável os lugares em que encontro pedacinhos de

mofo. A umidade dá um jeito de penetrar em todos os cantos. Os zíperes

dos meus jeans, por exemplo, foram todos corroídos. É um saco!

Finalmente, estou aliviada e orgulhosa de comunicar que o banheiro

está pronto para uso outra vez: o problema eram alguns grãozinhos de

areia presos na válvula de pressão e liberação de ar.

 

Se tivesse que escolher minha parte preferida da viagem, seria aquela

semana. Pouco tempo antes eu estava com muitas saudades de casa, mas naquela semana me sentia muito diferente. Após dias quentes e ensolarados de mar calmo e navegação fácil com pores-do-sol de tirar o fôlego e noites

de céu aberto com muitas estrelas, eu estava muito bem humorada. Foi a

maior sequência de clima estável e cômodo e amei cada minuto.

Eu jamais me cansava de observar as estrelas reluzentes, e uma das coisas mais incríveis que vi à noite foi durante uma ventania no Pací co, quando

Ella’s Pink Lady e eu vimos a lua cheia e clara que aparecia e desaparecia por

trás dos aglomerados pretos de nuvens.

Foi muito comovente ver o mundo cando mais claro, e depois mais escuro, e então a lua subiu mais um pouco e vi um arco-íris prateado e

multicolorido aparecer. Tive que piscar algumas vezes para ter certeza de

que estava mesmo vendo... Um arco-íris à noite! Um arco-íris lunar. O

perfeito arco de cores provocado pela luz da lua que brilhava no limiar da pancada de chuva era inconfundível. Após chegar em casa, descobri que o

arco-íris lunar é um fenômeno documentado. Eu havia visto anéis ao redor

da lua, mas nunca algo tão bonito quanto aquilo.

Eu nunca cava entediada e me mantinha ocupada com pequenos trabalhos e a manutenção durante o dia. Quando o céu começava a car

rosa, eu largava o que estivesse fazendo e me acomodava no cockpit com um

travesseiro e algo para comer, como palitinhos de queijo, um pacote de

frutas secas ou uma barra de chocolate (ou talvez as três coisas) e assistia ao céu mudando lentamente de cor até escurecer. Eu cava lá por horas

aproveitando ao máximo, olhando para as estrelas ou pelos pontos de

fosforescência na pintura da Ella’s Pink Lady.

Eu me perdia em devaneios ao relembrar feriados com a família e aventuras com Emily e meus amigos e me divertia ao lembrar de algo

engraçado que Tom ou Hannah haviam dito ou algo que havíamos feito. Ou

sonhava com o futuro. Durante aquela semana, senti-me muito agradecida por ser tão sortuda. Eu estava vivendo meu sonho e amando minha vida simples a bordo da Ella’s Pink Lady. Tenho uma família incrível, um futuro

empolgante e sabia que quando a viagem chegasse ao m haveria muitas

coisas boas me esperando em casa. Mas naquela semana, era su ciente estar

onde eu estava, e curti cada segundo.

 

Domingo, 14 de março de 2010

 

Tempo ainda calmo e alguma companhia

 

Não há muito de novo para contar sobre o clima. Continua calmo,

quente e ensolarado. Dias lindos seguidos de pores-do-sol incríveis.

Nossa velocidade tem oscilado um pouco porque às vezes a Ella’s Pink

Lady avança sobre a água e em outras só fica à deriva, dando um

passinho à frente de tempos em tempos. Ontem, encontramos um bando

de “fãs”. Os pássaros aterrissaram na água ao nosso lado durante o dia

todo. Eles nos observavam quando passávamos, ficavam para trás e

então voavam outra vez para aterrissar novamente ao nosso lado. O

fascínio das aves pela Ella’s Pink Lady devia ter ligação com as bolachas e

os vegetais enlatados que atirei para elas (sim, estou muito feliz por

finalmente ter achado uma utilidade para os vegetais!). Mas

independentemente do que as atraía, foi bom ter a companhia delas.

Por falar em companhia, o alarme AIS foi acionado ontem pela

primeira vez em um bom tempo, alertando-me para um navio que se

aproximava. Nossas trajetórias pareciam bem próximas. Como o dia

estava perfeitamente claro e eu não estava dormindo, até curti ter um

pouco de agito. Lavei-me, penteei o cabelo e abaixei o volume do som

para me preparar, mas fiquei um pouco decepcionada quando eles

acabaram passando tão longe de nós que não consegui discernir a

tripulação. Ainda assim, tive uma boa conversa pelo VHF com o vigia,

que me disse que eles também se dirigiam à Austrália, a Port Kembla,

logo ao sul de Sydney. Eles me desejaram sorte e desapareceram

rapidamente outra vez.

Mais tarde, o vento acalmou e o mar ficou plano justo quando o sol

estava se pondo, o que foi totalmente espetacular. A água era como um

espelho refletindo o rosa do sol poente e as estrelas após o escurecer. O

silêncio era incrível. Foi um daqueles momentos “MEU DEUS isso está

mesmo acontecendo”. Mas só consegui curtir por um tempo, pois logo o

cenário ficou meio sinistro e decidi ligar a música outra vez.

Ainda naquela noite conversei com Seamus, o piloto de um avião de

passageiros que passou perto de nós. Como estavam com todas as luzes

da cabina acesas, achei que conseguiria vê-los, mas no fim nossas rotas

não eram próximas o suficiente.

Mudando de assunto, venho percebendo que apesar de eu estar a

milhares de milhas de casa e no meio do oceano, meu irmão Tom tem

dado seu jeito para me incomodar. Além de seu tradicional repertório de

piadas horríveis escritas nos meus pacotes de comida (se vocês

escutassem as piadas de Tom, me entenderiam!), descobri essa semana

que ele substituiu alguns dos doces costumeiros da sacola de comida

por um estoque de ameixas salgadas, que ele sabe muito bem que é a

comida de que menos gosto no mundo! Ele respondeu às minhas

reclamações com o envio de fotos não muito bonitas de uma operação

recente em seu dedo do pé. Irmãos não são a melhor coisa do mundo?

Sem dúvida, há algumas coisas de casa que não dão saudade!

Nosso progresso na carta náutica do Oceano Índico está começando a

ficar bem impressionante. Ainda há muito a ser percorrido, mas os dias e

as milhas para casa estão começando a desaparecer. Também espero

vencer muitas milhas na próxima semana, quando é esperado um clima

mais agitado.

Bem, vou sair para almoçar, que aparentemente será pudim de

chocolate (com nata e creme de ovos, é claro!). Como sempre, tenho

uma lista de trabalhos para fazer antes do vento ganhar força.

 

Quinta-feira, 17 de março de 2010

 

Não exatamente confortável

 

Parece que minha cota de sol e navegação tranquila acabou. Acho

que as condições que temos nesse momento não poderiam ser mais

diferentes das que tínhamos poucos dias atrás. Chuva grossa, ondas

abruptas de quatro metros e rajadas de 40 nós. Nada muito dramático,

mas como estamos navegando a cerca de 80 graus do vento e das

ondas, o movimento não é exatamente confortável e estamos adernando

(inclinando) um tantinho.

Sempre que coloco a cabeça para fora da capota recebo chuva

cortante no rosto e estou realizando um número de acrobacia para

conseguir digitar isso, com as pernas ao lado das orelhas para me

manter firme e deixar as mãos livres para digitar. Tá, acho que soa bem

mais impressionante do que é de fato. Com três rizos na vela mestra e a

pequena buja de tempestade laranja erguida, a Ella’s Pink Lady está se

mantendo firme e forte, escalando uma onda após a outra.

Espera-se que o clima continue assim por mais um período de seis a

doze horas antes de ganhar força outra vez. Então, tenho muito tempo

para terminar o meu livro na segurança de minha cama! É engraçado:

ainda fico um pouco nervosa sempre que a previsão climática de Bob

mostra coisas desagradáveis. Mas depois, quando estamos em meio à

situação e tudo está tão preparado quanto possível, volto a dormir tão

bem quanto um bebê (sempre me pergunto que bebê dorme tão bem e

por quê). Dessa vez, fiquei um pouco exaltada ao esperar pelo vento,

pois ontem tivemos um nascer do sol lindo e brilhante e vocês sabem

como é o ditado: Céu vermelho ao sol poente, marinheiro contente; céu

vermelho quando desperta, marinheiro alerta.

Além dos costumeiros romances toscos de menininha, tenho curtido

muito livros de viagem. O que não é uma boa ideia, pois a lista de

lugares que estou doida para conhecer está cada vez maior! Também

encontrei um livro “aprenda a dirigir” e comecei a tentar memorizar

diversas placas de sinalização. Não é muito útil por aqui (big dã!), mas

conseguir uma licença de aprendiz está no topo de minha lista de tarefas

para quando voltar para casa.

Bem, estou me embrenhando outra vez na cama para evitar mais

machucados, e quero encerrar parabenizando Shaun Quincey, que

chegou à Nova Zelândia alguns dias atrás após remar desde a Austrália.

Sei que já disse isso antes, mas às vezes recebo as notícias com um bom

atraso. Acompanhar a viagem de Shaun me deixou agradecida por todos

os luxos que tenho a bordo da Ella’s Pink Lady!

Em 14 de março de 2010, o neozelandês de vinte e cinco anos Shaun Quincey se tornou o primeiro homem a remar sozinho da Austrália à Nova

Zelândia. Certamente a aventura corre em seu sangue, pois seu pai, Colin,

havia remado no sentido oposto, da Nova Zelândia à Austrália, trinta e

cinco anos antes. Shaun passou quarenta e cinco dias no mar. Ele contou no seu blog: “perdi dezessete quilos, voltei para trás durante cerca de vinte e

dois dias dos quarenta e cinco e remei nu quatro vezes (hábito um pouco

superestimado) e meu visitante favorito foi uma baleia-piloto”. Por que os

meninos gostam tanto de remar pelados? Jesse Martin fala sobre navegar nu em Lionheart quando a temperatura subia. Qual é o problema de pôr uma

sunga?

 

Quinta-feira, 18 de março de 2010

 

Um pouco de tudo

 

Ao olhar a carta náutica hoje, fiquei um pouco assustada ao perceber

que já estamos próximas da metade do Oceano Índico. Se tudo seguir

conforme o planejado, amanhã estaremos mais próximas do Cabo

Leeuwin, no oeste da Austrália, que do Cabo das Agulhas, na África do

Sul!

Digo a mim mesma o tempo todo que ainda há um longo caminho

pela frente, mas ao mesmo tempo não consigo deixar de ficar

empolgada com tanto PVP (progresso visivelmente perceptível). Há uma

parte cada vez maior da Austrália (uma forma muito familiar!)

aparecendo na tela de exibição da carta conforme a Ella’s Pink Lady se

aproxima lentamente.

O clima se acalmou um pouco desde terça-feira e após quase

desaparecer por completo por algumas horas o vento se acomodou em

20 nós vindos do nordeste. É sempre um pouco frustrante quando o

vento desaparece logo após uma ventania, pois ondas grandes são

deixadas para trás. Tentar nos manter na direção certa com pouco vento

e muitas ondas me impede de dormir bem.

Conversei com o Capitão Nick, do Queen Mary II, pelo telefone de

satélite quando ele passou hoje bem ao norte da Ella’s Pink Lady. Eles

estavam indo de Perth a Mauritius e Nick me transmitiu os votos de boa

sorte de todos os passageiros australianos e me deixou pensando por

um bom tempo em todos os luxos a bordo do QMII.

O livro de Mike Perham sobre sua viagem, intitulado Sailing the

Dream, foi lançado hoje no Reino Unido e na Austrália. Tive a sorte de

receber um de seus rascunhos finais para ler (li tudo em poucas horas e

então fui direto reclamar por não ter mais para continuar!). Posso dizer

sem dúvidas que a leitura vale a pena.

Ah, e acabo de ouvir que Jesse Martin foi indicado para o Cleo’s

Bachelor of the Year na Austrália. Então faço um pedido a todas as

garotas: vamos lá, precisamos dos seus votos!

 

Segunda-feira, 22 de março de 2010

 

Navegar com a Ella’s Pink Lady e ilhas

 

Na sexta-feira outra frente chegou trazendo consigo ventos de 40 nós,

mas eles sumiram bem depressa. Após quatro dias de céu nublado, hoje

tivemos um belo sol e ventos confortáveis de 15 nós.

O progresso constante nos trouxe para perto de duas ilhazinhas,

Amsterdam e Saint Paul. Estou de dedos cruzados para que o clima

continue bom e eu possa chegar o mais perto possível e dar uma

olhadinha nelas.

Tudo vai bem por aqui, com uma trágica exceção. O estoque de

pirulitos está chegando ao fim. Certamente, ainda há muitos espalhados

pelas sacolas de comida quinzenais, mas só restam uns poucos pacotes

do meu estoque extra utilizado quando comia todas as coisas boas nos

primeiros dias (o que é bem comum!). Agora que estamos na segunda

parte da quinzena e preciso de uma injeção de açúcar, só o que resta

para acalmar meu ímpeto é uma pequena pilha de pirulitos chamados

Goo-hearts (Coração de Gosma), que são tão bons quanto se espera de

algo com um nome desses.

Algumas pessoas mencionaram que não falo em detalhes sobre como

é navegar a Ella’s Pink Lady com muita frequência. Um dos motivos é que

geralmente não tenho muito o que contar. Como a mastreação é simples

e não estamos em uma regata, e sim em uma espécie de maratona, é

um barco muito simples de manusear. Para dar um exemplo, posso

colocar ou tirar os três rizos na vela mestra (o que faz com que o

tamanho da vela mestra aumente ou diminua) sem nem deixar a entrada

da cabine, e praticamente todo o resto pode ser feito do cockpit. Na

verdade, como tenho o hábito exagerado de erguer a buja de

tempestade no primeiro estai frontal sempre que a previsão do tempo é

ruim e o vento ultrapassa os 25 nós, posso afirmar que deixei a

segurança do cockpit com ventos de mais de 35 nós apenas uma vez.

Não é nada demais, mas não deixa de ser impressionante.

Sendo assim, peço desculpas por acabar com todas as imagens

dramáticas que vocês tinham de mim lutando contra as velas no convés

em meio a ondas gigantescas e ventos destruidores, mas essa viagem

consiste em corte de riscos, uma boa dose de preparação e espera

(muito!) duradoura em vez de ser marcada por uma navegação

movimentada. Essa não é a nossa prioridade!

 

Por falar em riscos: afora algum zigue-zague rumo ao norte para evitar diversas frentes passageiras, a Ella’s Pink Lady e eu estávamos seguindo por

uma latitude de mais ou menos 38 graus ao sul durante toda a travessia do

Oceano Índico. É uma posição bem conservadora para se navegar, mas

demos prioridade à segurança e ao conforto em detrimento da velocidade (acho que a essa altura vocês já sabem o quanto valorizo um pouco de sol!)

 

Além disso, apesar de todas as especulações e até de algumas

dúvidas minhas antes da partida, não houve nenhum momento por aqui

(até agora!) em que desejei ser mais forte. Eu adoraria dizer que é por

causa dos meus incríveis músculos e da minha força sobre-humana, mas

infelizmente não seria verdade. Aliás, estaria muito, muito longe da

verdade. O fato de que acho a Ella’s Pink Lady tão fácil de manusear se

deve ao tempo e ao esforço que dedicamos para ajustá-la e ao tipo de

barco que ela é. O S&S 34 não é grande e tem um desenho bem

conservador. As coisas que precisamos fazer (suspiro) por não termos

superpoderes!

Enfim, ter um pouco de sol outra vez propiciou uma boa oportunidade

para retomar meus esforços por um barco livre de bolor. Dessa vez,

ataquei o interior de diversos armários, o que na verdade foi bem

divertido, pois tenho encontrado um monte de bugigangas que eu havia

perdido ou haviam sido esquecidas. A melhor descoberta foi o meu iPod,

que sumira há um tempo atrás. É quase o mesmo que ter 8GB de música

nova!

 

Quinta-feira, 24 de março de 2010

 

Um pouco de agito e um barulho à noite

 

Bem, as coisas ficaram um pouco agitadas algumas noites atrás,

quando o vento ganhou força repentinamente e mudou muito de

direção. Em um segundo tudo estava quieto e a Ella’s Pink Lady

navegava tranquilamente pela noite estrelada com todas as velas

erguidas. No instante seguinte, o vento estava soprando a mais de 35

nós e a Ella’s Pink Lady adernava e avançava na direção errada. Ficar

ensopada às duas da manhã não é exatamente fora do comum, mas com

o vento do sul, as ondas e a chuva gélida foi uma experiência gelada e

inoportuna.

Após jibarmos e recuperarmos o controle de tudo, voltei para baixo e

escutei um ruído elétrico muito estranho. O tipo de barulho que faz você

pensar na hora: “isso não é bom”. Após alguns minutos de desespero

em que esvaziei armários na tentativa de encontrar o problema enquanto

imaginava todos os danos críticos que poderiam ter ocorrido, fiquei

muito aliviada ao descobrir que o barulho vinha de um pequeno

empacotador a vácuo que havia se ligado sozinho. Ri muito da minha

cara pela situação!

O clima continuou com ventos fortes e mar revolto com ondas de até

cinco metros. Portanto, quando nos aproximamos da Ilha Amsterdam,

ver a paisagem já não estava no topo da minha lista de prioridades, e

acabamos passando bem longe ao norte durante a noite.

Talvez na próxima vez eu dê uma olhada melhor. Tanto a Ilha

Amsterdam quanto a Ilha de São Paulo parecem ter histórias bem

pitorescas. Todas essas ilhazinhas no meio do nada parecem repletas de

casos de náufragos que sobreviveram nelas por anos antes de serem

resgatados por outros navios. Mas a história dessas ilhas que realmente

chamou a minha atenção foi a da empresa que montou uma fábrica de

lagostas em conserva na Ilha de São Paulo antes de declarar falência e

abandonar sete de seus trabalhadores na ilha. Quando alguém

finalmente lembrou dos pobres coitados e foi buscá-los três anos depois,

só havia dois sobreviventes. Imaginem ser esquecida e abandonada em

uma ilhazinha completamente no meio do nada!

O vento e as ondas diminuíram outra vez. Na verdade, um pouquinho

mais de vento não seria nada mau, pois não estamos saindo muito do

lugar. É hora de abrir o depósito de paciência até que as coisas se

animem um pouco. Por falar em vento, fiquei triste ao saber dos danos

causados pelo ciclone que passou pela costa de Queensland na semana

passada e por todos os barcos arrastados e naufragados em Airlie Beach.

 

Sábado, 27 de março de 2010

 

Algas e uma foca

Na maior parte do tempo, o vento tem ficado no agradável intervalo

entre 15 e 20 nós, empurrando a Ella’s Pink Lady com suavidade. Mas

agora ele caiu mais uma vez e junto o nosso ritmo de viagem. Também

há grandes ondas passando, o que torna o movimento bem

desconfortável e tira a Ella’s Pink Lady de seu curso. Manter-nos

vagamente na direção leste já exige ajustes constantes do Parker (piloto

de ar). Mas o bom progresso dos últimos dias mais do que compensa as

dificuldades de hoje.

Temos passado por pequenos aglomerados de algas nos últimos dias,

algo que eu não via desde que deixamos as proximidades das Ilhas

Malvinas.

Ontem, espiei pela vigia bem a tempo de ver uma barbatana muito

estranha ser erguida no ar. Corri até o convés e consegui ver que era

uma foca deitada de costas com uma das nadadeiras no ar (desculpa,

não consegui tirar uma foto!). É a primeira foca que vejo na viagem e

fiquei muito surpresa ao encontrá-la tão longe da terra. Mas cabe lembrar

que não sei nada sobre os lugares de preferência das focas.

Hoje seria um dia de manutenção do motor, mas como não havia

muito a fazer, passei metade do tempo limpando, lustrando e ajeitando

meu próprio corpo.

Agora, restam menos de 1.400 milhas até a Austrália!

 

Terça-feira, 30 de março de 2010

 

Grandes Ondas

Avançamos muito nos últimos dias, mas não em direção à Austrália.

Deslocamo-nos para o norte outra vez para evitar a pior das frentes que

está passando. Ela já passou, mas deixou um rastro de ondas enormes –

as mais altas chegam a atingir os sete metros. No geral, a Ella’s Pink Lady

lida muito bem com os percalços, mas as ondas que quebram de vez em

quando fazem o barco balançar bastante.

Quando o vento começou a diminuir hoje de manhã, finalmente

encostei um pouco a cabeça para dormir uns minutinhos. Eu devia estar

muito cansada, pois não acordei com o meu alarme rompe-tímpanos

(bom, estou sendo um pouco exagerada! Afinal de contas, meu ouvido

ainda funciona. Mas acreditem, ele é muito alto) e só acordei uma hora

mais tarde, quando vi que a Ella’s Pink Lady estava navegando contra o

vento e desviando do curso. Uma das ondas maiores deve ter abatido a

pá do piloto de vento enquanto eu dormia e sem ela Parker já não era

capaz de nos manter na direção certa. Por sorte, ainda tenho algumas de

reserva e foi fácil consertar a situação.

Na maior parte do tempo, dormir bastante não é um problema,

embora sempre em pequenos intervalos. Normalmente acordo ao menos

uma vez por hora para dar uma espiada nos instrumentos e checar tudo,

mas quando há vento forte, clima instável ou terra por perto, pode ser

difícil voltar a pegar no sono. Sei quando estou ficando exausta porque

começo a sentir uma coceira na garganta igual a quando estou ficando

resfriada. Mas como não há bactérias por aqui, não fico resfriada, o que é

um lado positivo!

Quando o sol apareceu hoje, a cabine ficou repleta de vapor com a

secagem de meu traje à prova d’água e de todos os outros objetos. O

vento e as ondas continuaram bem grandes e fortes o dia todo. Manter-

me equilibrada já tem sido o bastante para me manter ocupada.

Tenho certeza de que ainda haverá muito tempo ruim para enfrentar e

muitas milhas para vencer, mas não consigo deixar de pensar no retorno

para casa com cada vez mais frequência. É um pouco estranho: quanto

mais perto da Austrália eu chego, mais sinto saudades de todos. Já estou

ficando empolgada, mas também um tiquinho nervosa! Já mencionei

como estou ansiosa para dar uma volta a pé?!

Está escuro e há luz suficiente vindo da lua cheia para ver a crista das

ondas maiores. Sentir o movimento da Ella’s Pink Lady ao passar pelas

maiores é algo de que nunca me canso.

 

Deve parecer estranho que eu estivesse nervosa para voltar para casa, mas

estava um pouco. Disseram-me que talvez houvesse uma recepção planejada

e isso foi o su ciente para me dar um friozinho na barriga. Andrew disse algumas vezes que minha vida seria muito diferente após o retorno. Só o

fato de ter passado dois anos antes de partir me concentrando totalmente na

viagem geraria uma sensação de estranhamento por eu não ter mais esse

foco. Mas havia outro aspecto que pesava nos meus sentimentos, mais difícil de explicar, e espero que meus pais não quem chateados por eu mencioná-

lo. Eu estava realmente ansiosa para ver todos, mas às vezes me sentia um

pouco claustrofóbica ao pensar nisso. Eu não tinha certeza de como seria

voltar a morar na minha casa após ter tanta independência no mar. Sim, era impossível sair do barco, mas eu podia fazer o que quisesse na hora que

quisesse e tinha total controle sobre minha rotina. Voltar a compartilhar

uma casa com a família implicava abrir mão dessa independência, ao menos

por uns tempos.

Mas ter meus pais por perto certamente tornaria melhores os meus

hábitos alimentares. Eu havia me tornado muito preguiçosa na cozinha e estava em uma fase de milho e chocolate. Em vez de me incomodar em fazer uma omelete ou cozinhar alguns pernis de cordeiro quando estava com

fome, eu só abria uma lata de milho e completava a refeição com uma barra

de chocolate. Parece péssimo, eu sei!

 

Quinta-feira, 31 de março de 2010

 

De mais ou de menos!

 

Ainda não posso comunicar grandes progressos na direção da

Austrália. Dessa vez, os ventos leves e contrários nos impedem de

avançar para o leste. Odeio ser o tipo de pessoa que está sempre

reclamando porque há vento demais ou de menos, mas é essa a

sensação que tenho.

Na noite passada, quando desisti de ajeitar o leme a cada poucos

minutos e tentar nos manter na direção certa, a Ella’s Pink Lady ficou à

deriva navegando em um grande círculo. Não tenho certeza se isso

deveria ser motivo de orgulho, mas se fosse um concurso de círculos

sincronizados, teríamos levado o primeiro prêmio fácil, fácil. Era um belo

círculo! Talvez eu tenha futuro como um desses pilotos que escrevem

coisas no céu! Brincadeiras à parte, eu adoraria estar voando em direção

à Austrália nesse instante, mas o clima tem outros planos. Então, não há

muito que eu possa fazer além de esperar e seguir a corrente.

Como de costume, o tempo calmo propiciou uma excelente

oportunidade para pôr a manutenção em dia.

Ontem fiquei empenhada para resolver alguns ruídos. Enquanto

perambulava pela Ella’s Pink Lady com um spray de lubrificante,

encontrei algumas correntes que haviam se soltado. Foi bom tê-las

encontrado agora, enquanto o mar ainda está calmo.

Também me dei um trato com um balde de água quente durante o

banho de ontem em vez de usar apenas o bule de costume. Isso é que é

luxo, ainda que tenha demorado um século para aquecer tudo. A Ella’s

Pink Lady não deve em nada ao Queen Mary II! Até sobrou um pouco de

água quente, então pude sentar com os pés dentro de uma bacia

enquanto escovava o cabelo. Ah, é claro que para terminar eu acendi o

aquecedor para me secar (finalmente consertei o aquecedor, mas meu

secador de cabelo de 12 volts infelizmente parou de funcionar ainda

antes do Cabo Horn, uma grande tragédia!).

Uns dias atrás, quando o mar ainda estava revolto e com ondas

grandes, eu estava conversando com meu pai pelo telefone via satélite e

ele me pediu para descrever o movimento do barco. Por isso, fiquei

pensando na melhor maneira de descrever como são as coisas por aqui

a todos vocês que não navegam. Acho que o principal é que nunca

estamos simplesmente nos movendo em uma direção e o movimento

não é nada consistente. Em primeiro lugar, há um movimento

semelhante ao de uma rede causado pela passagem das ondas. Há

também a inclinação (como em um balanço) e, além disso, as ocasionais

acelerações quando descemos por uma onda, assim como quando

estamos na praia. Acrescente algumas subidas e descidas bruscas, como

se estivesse em um elevador hiperativo, e complete com a ideia de ter

seu universo inclinado em um ângulo de 45 graus. (Desculpa, estou com

dificuldades para pensar em um equivalente da vida cotidiana para essa

última!) Então, é mais ou menos como viver em uma montanha-russa

(bem, acho que é assim que é uma montanha-russa, mas vai saber, só

andei num brinquedo desses uma única vez e mal me lembro, pois

estava totalmente apavorada!). Mas uma montanha-russa com paradas

repentinas e puxões laterais aleatórios e ainda um pouco de barulho e

muita água. Essa é a receita para entender como é navegar com ventos

de 40 nós e ondas grandes.

Por falar no telefone via satélite, queria falar um pouquinho com vocês

sobre a SatCom Global, que patrocinou meu telefone via satélite Iridium,

e também o Sailor 250, que uso para enviar as postagens do blog, fotos

e vídeos. Quero dizer, é preciso admitir que assumir a conta de telefone

de uma garota de dezesseis anos é um impressionante ato de coragem.

Por isso, mil obrigadas, pessoal!

Vou terminar com uma boa notícia: temos vento outra vez! Enquanto

eu digitava, uma brisa agradável e constante começou a se formar e a

Ella’s Pink Lady está se movendo a mais de três nós no sentido sudeste.

Austrália, lá vamos nós!

 

Quinta-feira, 2 de abril de 2010

 

Atualizações rápidas e fotos

 

Ainda não estamos quebrando nenhum recorde de velocidade, mas a

Ella’s Pink Lady está seguindo em um ritmo razoável outra vez. Então

tudo está bem e hoje o sol se juntou a nós mais uma vez, o que também

fez maravilhas para melhorar meu humor. Agora, não deve demorar

muito até que o sistema de alta pressão responsável por esses ventos

fracos vá embora e tenhamos ventos mais fortes para nos dar um bom

empurrãozinho.

Tive um dia movimentado, aproveitando ao máximo o clima

agradável para fazer uma boa faxina. Por sinal, esfreguei e limpei tantas

coisas hoje que acabei quebrando o cabo do esfregão ao meio. Talvez eu

estivesse enganada quando disse que não tenho forças sobre-humanas!

Mas não há motivos para preocupação, também tenho um esfregão de

reserva.

Sei que fazer faxina não é o melhor dos passatempos, mas visto que

não posso sair para uma boa caminhada na praia para gastar minha

energia extra, não tenho outra escolha senão descontá-la nas minhas

roupas e na Ella’s Pink Lady. E até mesmo fazer uma faxina não é tão

ruim quando você está sentada no cockpit cercada por água azul, com

sol quentinho nas costas, uma brisa suave no rosto e uma seleção de

músicas!

Foi ótimo saber que Abby Sunderland contornou o Cabo Horn ontem.

Estou muito emocionada por ela. Isso traz de volta muitas memórias de

quando eu estava por lá. Vai, Abby!

 

Quinta-feira, 7 de abril de 2010

 

Alguns altos e baixos

 

Mil desculpas por ter ficado tanto tempo sem dar notícias. O clima

tem sido interessante nos últimos dias. Além disso, feliz Páscoa atrasada

para todo mundo. Acontece que ninguém se lembrou de empacotar ovos

de páscoa para mim, mas não foi o fim do mundo, pois tenho chocolate

mais que suficiente e minha mãe desafiou meu irmão Tom, minha irmã

Hannah e eu para uma competição de decoração de ovos via fotografias

por e-mail. Não tenho certeza de quem foi o vencedor, mas certamente

não fui eu!

O mar não tinha ficado tão alto com o clima ruim nos últimos tempos,

mas compensou a falta de tamanho com movimentos abruptos e

imprevisíveis, tornando a viagem desconfortável. Dessa vez, em vez de

desviarmos da ponta da frente como de costume, o centro de um

sistema de baixa pressão passou bem em cima de nós, gerando primeiro

ventos fortes vindos do norte e então desaparecendo totalmente antes

de nos acertar com uma pancada do sul. Uma mudança na direção do

vento como essa resulta em condições medíocres para navegar.

Embora as condições não fossem as piores por que passamos, por

algum motivo o movimento desconfortável e minha cama úmida me

deram nos nervos, deixando-me muito mal-humorada e com saudades

de casa. Normalmente, consigo me livrar de uma onda de mau humor

em poucas horas, mas dessa vez não consegui reunir a energia e fiquei

rabugenta por alguns dias inteiros, o recorde da viagem!

Mas bastou uma refeição decente e um avanço considerável para me

trazer de volta ao humor de costume e me fazer cantarolar (muito mal) a

plenos pulmões aquela que atualmente é minha canção favorita, “Forever

Young”, sob chuva no convés com a Ella’s Pink Lady avançando na

escuridão.

Não sou a única que tem enfrentado mau tempo. Os participantes da

regata individual transtasmaniana, incluindo um de meus maiores

apoiadores, Bruce, em seu Big Wave Rider multicasco de 46 pés, tiveram

um trajeto com muitas ondas noites atrás do outro lado da Austrália. Até

agora, Bruce está no primeiro lugar e mantendo uma média de

velocidade ao menos duas vezes maior que a da Ella’s Pink Lady!

Hoje, coloquei e retirei os rizos com frequência, pois havia muito

vento. Com cada linha de nuvens vinha um sopro de vento e então uma

breve pancada de chuva antes do sol aparecer outra vez por alguns

minutos. Embora tenha enfrentado bastante chuva na última semana,

hoje foi a única ocasião em que consegui coletar bastante água.

Ultimamente, sempre que chove há muitos respingos do mar, deixando a

água da coleta com um gosto salgado.

Mas consegui tanta que me dei ao luxo de um banho completo de

água fresquinha. Ter o convés livre de sal também é uma novidade!

Agora não restam dúvidas de que a Austrália já se assoma à nossa

frente. Menos de 400 milhas náuticas e apenas alguns dias até

passarmos pelo Cabo Leeuwin!

 

Não foi tanto o clima que fez com que eu não escrevesse no blog por tanto tempo, mas o meu humor! Olhando em retrospecto, aquele foi o

período mais difícil em termos emocionais durante toda a viagem. Deixei-

me cair completamente em um buraco negro e, diferente do que acontecera

em situações anteriores, quando consegui chorar e me lamentar por algumas horas antes de seguir em frente, dessa vez não consegui me animar. Fiquei

triste e com um péssimo humor por três dias seguidos. Por sorte, eu estava

sozinha! No m, superei aquilo e comecei a me sentir melhor, e atribuo

aquela depressão ao clima úmido e difícil, que estava uma droga completa. Ou era por causa da lua!

Quinta-feira, 8 de abril de 2010

 

Cinza e nublado, mas com um sorriso no rosto

 

Temos uma má notícia hoje. Algo ruim que estava ameaçando

acontecer há muito tempo finalmente aconteceu. Caiu o pegador da

minha única chaleira! Mas em breve poderei entrar em uma loja e

comprar uma nova.

Estamos a poucas centenas de milhas náuticas de passar pelo Cabo

Leeuwin e devemos estar na Austrália em algum momento do fim de

semana! O tempo está cinza e nublado outra vez, com um pouco de

ondulações na direção do vento e mais um pouco de chuva. Nada fora

do normal, só continuamos navegando.

Curti muito conversar com Jamie Dunross hoje, que não está tão

longe de nós em meio à Grande Baía Australiana, navegando um S&S 34

amarelo claro e prestes a se tornar o primeiro quadriplégico a navegar

sozinho ao redor da Austrália. Aparentemente, ele também teve

problemas para ser levado a sério quando contou seus planos às

pessoas. Sei que sou um pouco suspeita para falar, porque ele está

navegando em um barco maravilhoso (avante, S&S 34!), mas se

quiserem minha opinião, o que Jamie está fazendo demonstra

definitivamente que tudo é possível.

Não digo isso com a frequência necessária, mas obrigada a todos os

blogueiros, minha imensa família adotada! Todos que deixam

mensagens rápidas, saibam que valorizo o apoio. Ler seus comentários

de vez em quando sempre me faz sorrir, por mais que eu goste de fingir

que não estão falando de mim!

Estou pensando em comer muffins de chocolate no jantar, mas tudo

depende de eu conseguir me impedir de comer toda a mistura enquanto

cozinho!

 

Tenho certeza de que vocês acharão interessante, então pensei em falar

um pouco mais sobre Jamie Dunross. Jamie começou a navegar quando

tinha dez anos e continuou em atividade até os vinte e poucos. Aos vinte e dois ele deixou a costa e foi morar em Meekatharra, no oeste australiano, a

538 quilômetros da praia mais próxima, em Geraldton. Ele foi para lá

trabalhar nas minas de ouro.

Em 24 de agosto de 1988, quatro dias antes de seu vigésimo terceiro aniversário, ele estava terminando o seu turno e limpando alguns

equipamentos quando uma válvula defeituosa se abriu e liberou um jato de

água pressurizada que o atingiu no peito. Ele foi arremessado no ar e caiu de

mau jeito. Foi um momento que mudou tudo. Jamie recebeu o diagnóstico de quadriplégico C5

A história dele é muito inspiradora. No início ele relutou na reabilitação e

teve depressão suicida pela falta de sua antiga vida. Mas após alguns anos

difíceis, ele conseguiu aceitar o que havia acontecido e voltar a navegar foi parte importante desse processo. Ele ganhou uma medalha de ouro nos

Jogos Paraolímpicos de 2000 na Classe Sonar e competiu ao redor do

mundo todo.

Após quebrar diversos recordes australianos, Jamie partiu de Rockingham, no oeste da Austrália, a bordo de seu S&S 34, o Spirit of

Rockingham , para se tornar o primeiro marinheiro quadriplégico a navegar

todo o perímetro da Austrália. Jamie estava em Sydney para me recepcionar

quando voltei para casa, o que foi incrível, e no momento em que a edição australiana deste livro estava sendo enviada para a grá ca, ele estava prestes a contornar o Cabo York.

Jamie é incrível, e no seu site está escrito: “A vida continua. O que você

faz dela é o que conta”.

 

Domingo, 10 de abril de 2010

 

Águas australianas e lula de almoço

 

O dia de hoje começou com um belo nascer do sol enquanto a Ella’s

Pink Lady navegava sobre a linha verde da carta náutica e entrava em

águas australianas. Aquele foi um momento bem especial, marcado pelo

chocolate quente na mão (sim, consegui arrumar a chaleira!), uma garoa

leve e um albatroz que descreveu círculos acima de nós.

Mas ainda temos um longo caminho pela frente e na próxima semana

passaremos pela Grande Baía Australiana e nos dirigiremos ao sul rumo

à Tasmânia. É bem provável que eu passe sobre a linha verde outra vez e

volte a deixar as águas australianas. É estranho estar tão perto, mas

ainda ter tantas milhas pela frente.

 

Ainda mais empolgante do que voltar às águas australianas foi ser

sobrevoada por meus pais, Tom e Hannah em um pequeno avião. Eles

estavam com Gary (o mesmo fotógrafo que os acompanhou no Chile) para

tentar conseguir algumas fotos. Não conseguiram chegar tão perto quanto haviam conseguido no Cabo Horn devido a alguma regra do espaço aéreo,

mas saber que eles estavam lá já foi ótimo. Conversar com eles enquanto

davam voltas acima de nós pareceu uma grande reunião de família, o que dá uma ideia do que havíamos passado a aceitar como normal!

Naquele momento, as condições para navegar estavam perfeitas, com 18

nós de vento e uma boa área do mar para avançarmos. Eu estava exigindo

um pouco mais da Ella’s Pink Lady, com todas as velas em cima para exibi-la

um pouco. Avançamos com tudo por um bom tempo, praticamente dançando em meio às cristas de ondas. Fiquei emocionada por meus pais,

Tom e Hannah terem visto Ella’s Pink Lady em um grande momento (ainda

que fosse a distância).

Minha mãe disse como o barco parecia pequeno em meio às ondas. Era um conceito estranho para mim, pois naquele ponto a Ella’s Pink Lady era o

meu universo inteiro. Fiquei um pouco triste por o avião não poder chegar

mais perto, mas adorei ter a maior parte de minha família por lá. Foi a

recepção perfeita para as águas australianas e a maneira perfeita de comemorar o contorno vindouro do Cabo Leeuwin.

 

Acho que muitas pessoas estão se perguntando por que estou indo

para o sul em direção à Tasmânia em vez de pegar um atalho pelo

Estreito de Bass. O raciocínio por trás disso é que o Estreito de Bass está

cheio de navios e ilhas que poderiam resultar em alguns dias de pouco

ou nenhum sono para mim. Além disso, a previsão do tempo de longo

alcance feita por Bob prevê ventos fracos (também conhecidos como

navegação muito penosa) se pegarmos aquela rota em vez de seguirmos

para o sul e contornarmos a parte inferior da Tasmânia. Então, terei que

ranger os dentes e suportar mais uma queda na temperatura antes de

voltar para o norte pela última vez.

Encontrei uma lula no convés hoje de manhã. Uma segunda pulou a

bordo justo quando eu estava pensando no almoço, então criei coragem

e decidi comê-la. Abri uma lata de camarões (aquelas coisinhas mal

conseguiam passar por camarões!), fatiei metade da lula e fiz uma

variação de camarões ao alho. Completei com biscoitos água e sal com

Vegemite para celebrar meu retorno às águas australianas!

Bruce e o Big Wave Rider encontraram ventos leves na Tasmânia, o

que tem sido bem frustrante para ele, mas estou secretamente feliz por

não ser a mais devagar ao menos uma vez!

Continuar: parte 2 de 2