Destemida

Jessica Watson · Capítulo 12 de 20

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Destemida

Parte três - Casa

PARTE TRÊS

 

 

- Casa

 

Casa

 

“Relaxe os ombros, deixe o coração cantar, deixe os olhos

lampejarem, deixe a mente se elevar, olhe para cima e diga a si

mesmo... Nada é impossível!”

 

NORMAN VINCENT PALE

O dia anterior à minha chegada em Sydney começou

como qualquer outro dia no mar. Mas ao nal dele havíamos sido visitadas por seis helicópteros e um avião e o Big Wave Rider havia se juntado a nós.

Ficou claro que meus dias de navegação silenciosa haviam chegado ao m.

Conforme o vento e as ondas se acalmaram de tardezinha e o céu cinza

começou a clarear, vi um grande brilho no horizonte e algumas luzinhas cintilantes da cidade. Com o Big Wave Rider nos escoltando para observar

eventuais embarcações, consegui dormir por algumas horas, mas passei a

maior parte da noite me revirando na cama e escutando as músicas novas na

rádio FM. Eu nunca tinha cado tão empolgada por escutar propagandas e

quei emocionada por reconhecer algumas músicas anteriores à minha

partida.

Quando o dia nasceu no sábado, consegui discernir um pedaço de terra a

distância e passei o resto da manhã cambando nas variações do vento para seguir naquele sentido. Aos poucos, o vento diminuiu ainda mais, até que as

condições de navegação caram perfeitas. Conforme avançávamos

lentamente, uns poucos barcos, e então uma enxurrada deles veio se juntar a

nós. O que mais me impressionou naquela manhã foi que o vento mudou quando estávamos a dez milhas náuticas da terra. Parece uma coisinha de

nada se comparada à toda empolgação do dia, mas de repente senti o cheiro

da terra. O vento passou a ter um aspecto seco e frio, como nas manhãs de

inverno.

Nosso plano era passar por Sydney Heads às 11h. A transmissão o cial

começaria naquele momento e as boas-vindas o ciais e a coletiva de

imprensa seriam pouco depois. Tudo deveria estar encerrado às 14h.

Um plano excelente, mas a manhã foi passando e as coisas não ocorreram de acordo com o cronograma. Os ventos fortes do dia anterior haviam nos

levado mais para o norte do que eu gostaria e também interpretei mal o

tempo que levaria para navegar até a linha de chegada. Assim que percebi

que chegaríamos algumas horas mais tarde do que eu imaginava, senti-me terrível por deixar as pessoas esperando. Ainda não tinha ideia de quantas

pessoas estariam lá! Não havia nada que pudesse fazer para chegar mais

rápido. Forcei a Ella’s Pink Lady o máximo possível e cambei alegremente

muitas vezes enquanto viajava rodeada por uma frota de barcos cada vez maior. Eu não sabia dos incômodos que meu atraso estava causando às

agências de televisão e à grande multidão que se reunia no porto.

Quando me aproximei da linha de chegada, barcos e helicópteros se

aproximaram aos poucos. Conduzi a Ella’s Pink Lady contra o vento por um tempo e quando avistamos Sydney Heads avançávamos a uma velocidade de

seis nós. Buzinas, vozes, ruídos e a visão de diversos rostos me deixaram

estupefata. Sorrisos não eram su cientes para expressar o que eu estava

sentido. A imensa sensação de alívio por ter chegado de volta me fez chorar um pouco, mas eram lágrimas muito, muito felizes!

Quando cruzamos a linha e entramos em Sydney Harbour, minha

pequena histeria já havia dado lugar ao nervosismo. Bruce precisou gritar

para que eu enrolasse a vela de proa e Jesse Martin, Mike Perham e os caras da imigração pudessem subir a bordo.

Foi ótimo ter Jesse e Mike a bordo para cuidarem um pouquinho da Ella’s

Pink Lady enquanto o cara da imigração estampava meu passaporte e eu me

empanturrava com a comida fresca que haviam trazido a bordo (não consegui me conter e mergulhei em uma lata de chantili e opa... Tinha uma

câmera de televisão transmitindo ao vivo e virada para mim!).

Coloquei as roupas limpas que minha mãe e Emily haviam arrumado para mim, balbuciei feito uma panaca em algumas entrevistas ao vivo e tentei retribuir os acenos das pessoas nos barcos ao nosso redor.

Quando os Man O’War Steps entraram em nosso campo de visão,

consegui enxergar minha mãe, meu pai, Tom, Hannah e Emily nas docas. Eu

estava morrendo de vontade de abraçar todos, mas quando parti para os braços de meus pais era como se não conseguisse deixar a Ella’s Pink Lady.

Eu não queria deixar meu barquinho valente para trás.

Com Tom e meu pai ao meu lado e servindo de apoio, caminhei sobre

um tapete rosa muito longo. Foram as boas-vindas mais sensacionais que consigo imaginar e quei muito emocionada ao ver que tantas pessoas se

importavam com nossa conquista. Deixei o tapete rosa e subi

cuidadosamente os degraus que levavam até o palco de frente para um mar

de pessoas. O cenário composto pelas velas brancas da Opera House atrás da multidão e o céu azul in nito cobrindo tudo quase me deixaram sem fôlego.

A âncora e jornalista do Canal Dez, Sandra Sully, estava lá em cima me

esperando, e quando me dei conta estava ao lado do Primeiro Ministro,

Kevin Rudd, e da Premier de New South Wales, Kristina Keneally. Os dois discursaram e foram muito queridos em suas falas, mas uma palavra cou

presa em minha mente. Então Sandra fez algumas perguntas antes de

começar a encerrar o evento. Meu coração começou a acelerar pela primeira

vez desde que eu subira no palco. O Primeiro Ministro havia dito que eu era uma heroína e me senti inclinada a dizer algo a respeito disso, mas achei que

talvez não fosse conseguir com milhares de pessoas me observando. Teria

sido muito fácil sorrir, acenar uma última vez e descer do palco. Eu estava

dividida quanto ao que fazer, mas aquela era minha única chance, então perguntei a Sandra se podia dizer algumas palavras. No dia anterior, quando

ainda éramos só a Ella’s Pink Lady e eu, rabisquei algumas mensagens que

gostaria de transmitir se fosse possível. Queria compartilhar o que me inspirara a dar uma volta ao mundo.

Com a plateia me encorajando, respirei fundo e disse que precisava

discordar do Primeiro Ministro (não percebi que, aparentemente, meus pais

quase enfartaram ao ouvir isso, pois não sabiam o que eu estava prestes a

dizer e tiveram medo de que eu fosse deixar escapar um dos meus discursos apaixonados a favor da redução da idade mínima para votar!).

Eu disse ao Sr. Rudd que não era uma heroína, apenas uma garota

comum que havia acreditado em um sonho. Espero não ter soado atrevida

ou ingrata. Só falei porque acredito profundamente que não é preciso ser especial para conquistar algo. E de nitivamente eu não era uma heroína.

Falei um pouco mais sobre como os sonhos podiam se tornar realidade.

O meu havia se tornado! Mencionei minha crença de que é possível fazer

qualquer coisa com determinação e trabalho duro. E foi isso.

Entre as entrevistas e coletivas de imprensa (onde alguém me deu um

pote imenso de Nutella), tive alguns momentos rápidos com a família e

amigos próximos e não conseguia parar de olhar para os seus rostos e

absorver cada detalhe. Por m, fomos a Manly, onde passaríamos a noite, e tivemos momentos tranquilos com a presença de todos. Estar cercada pela

família e por amigos novamente foi maravilhoso e era quase como se não

houvesse se passado nenhum segundo desde que eu os vira pela última vez.

Além de Jesse e Mike, David Ducks, Jon Sanders (que detém o recorde de mais circum-navegações solitárias e sem paradas – três!) e Brian Caldwell (a

primeira pessoa com menos de vinte e um anos a navegar ao redor do

mundo) também se juntaram a nós. Foi incrível ter tantos navegantes

solitários no mesmo ambiente e ainda mais incrível ser uma deles!

Às 21h eu me entreguei e fui até o nosso apartamento acompanhada

apenas pela ala jovem. Emily preparou o meu tão esperando banho quente,

mas depois disso eu não dormiria antes de minha caminhada na praia de jeito nenhum. Embora tivesse recebido ordens expressas de não sair do apartamento, arrastei o pessoal para comermos um sorvete e fazermos uma

caminhada noturna pela praia (sim, é muita rebeldia adolescente!). Na

verdade, talvez “caminhada” não seja o melhor termo, visto que o que

zemos foi correr, perseguir gaivotas e jogar água uns nos outros. Depois

disso, nalmente entrei em uma cama macia, seca e sem balanço para

dormir.

Todos garantiram que eu fosse bem cuidada e, como presumiram que eu

gostaria de um tempo para descansar, me deixaram alguns dias sem qualquer compromisso. Em janeiro eu havia pedido que não zessem planos

para mim porque desejava dormir, mas depois de algumas semanas acabei

mudando de ideia. Eu não estava nem um pouco acostumada com aquilo.

Naquela primeira semana, enlouqueci todo mundo (desculpa, Pam!) e z com que subissem pelas paredes. Havia muitas coisas para ver e fazer e o que

eu menos queria era car relaxando no apartamento. Era incrível ter

alcançado a minha meta de navegar ao redor do mundo, mas já tendo feito

isso eu me sentia inquieta. Eu estivera trabalhando para aquilo durante anos, então acho que não é de surpreender que eu estranhasse que tudo houvesse

chegado ao m.

Recebi muitos cartões, presentes e cartas e foi ótimo saber que a Ella’s

Pink Lady e eu ajudamos a inspirar algumas pessoas a fazerem coisas que não haviam ousado fazer. Acho que eu não tinha ideia de quantas pessoas

haviam acompanhado a viagem até o dia em que voltei a Sydney. É um

sentimento incrível saber que in uenciei a vida de tanta gente de alguma

maneira. A atenção da mídia após o meu retorno foi bizarra. No início, tínhamos fotógrafos nos seguindo aonde quer que fôssemos, mas a minha

família não permitia que aquilo me incomodasse muito, então foi tudo bem.

Passei a primeira semana dando ótimas caminhadas, fazendo compras (ai! Mas amo minhas três jaquetas de couro) e fui a três festas de aniversário (primeiro a minha, depois a de Tom, e então a de meu pai).

Fiquei muito grata por todas as oportunidades que recebi para fazer

coisas bem diferentes, incluindo nadar com tubarões no Oceanworld de

Manly e ter aulas de surfe com Layne Beachley, também em Manly (muito legal aprender a surfar com alguém que foi campeão do mundo sete vezes).

Também assumi o leme de uma das grandes balsas de Manley através de

Sydney Harbour e subi a Harbour Bridge. Foi fantástico e eu não conseguia

parar quieta porque havia muitas coisas para fazer!

 

Após algumas semanas em Sydney, comecei a car ansiosa para voltar

para a água. Muitas pessoas caram surpresas por eu querer navegar com a

Ella’s Pink Lady costa acima, mas óbvio que eu queria! Eu mal podia esperar para navegar outra vez e ainda sentia que tinha uma tarefa para concluir –

a nal, Sunshine Coast era o lugar onde a viagem realmente havia começado

para mim.

A Ella’s Pink Lady e o Big Wave Rider partiram juntos em 31 de maio, um sábado, para aquela viagem de 470 milhas náuticas. Bruce, Murray, Tom,

Mike e eu planejamos navegar pela costa juntos e dar algumas voltinhas. Foi

um pouco estranho voltar para a Ella’s Pink Lady e se acostumar mais uma

vez com seu movimento e todos os ruídos. E demorou ainda mais para que eu me acostumasse a ter uma tripulação. O cockpit da Ella’s Pink Lady não é

grande, então tivemos alguns encontrões durante as cambadas e os jibes até

nos acostumarmos. Havia um sistema de baixa pressão vindo da costa leste,

então houve alguns dias de umidade e mar agitado, mas escapamos do pior. Enquanto estávamos no mar, Lennox Head foi atingida por um minitornado. Ele gerou muitos danos em um canto da cidade e deixou uma dúzia de feridos; então, zemos algumas ligações para garantir que

estávamos distantes da área de risco.

Fizemos paradas breves em Port Stephens, Trial Bay, Yamba, Peel Island e

Tangalooma, na Ilha Moreton. Em todos os lugares onde parávamos, as pessoas acenavam ou faziam um cumprimento breve com a cabeça, e em

Tangalooma fomos tratados quase como reis no resort (jantar, chuveiro

quente e uma pausa para alimentar gol nhos). Em Yamba, paramos para

reabastecer e pegar algumas batatinhas e Kay Cottee estava lá trabalhando em seu barco. Foi uma sincronia perfeita. Fiquei muito contente de

nalmente conhecê-la.

Foi muito legal embarcar no Big Wave Rider para o último pedacinho da

viagem. Depois que chegamos a Queensland e entramos em águas mais conhecidas, o sol apareceu e tivemos alguns dias muito bons em que

avançamos com a força do motor por Broadwater e Moreton Bay, as mesmas

águas onde eu aprendera a navegar muito tempo antes. Era difícil acreditar

como Broadwater parecia pequena se comparada ao lugar que aparecia em minhas lembranças. Na época, parecia ser uma extensão imensa e

atemorizante de mar aberto. Agora... Bom, eu mal conseguia acreditar que

cava nervosa por causa daquilo!

Durante todo o caminho pela costa, achei que a recepção caseira em Mooloolaba não seria grande coisa em termos emocionais. Foi ótimo ver a

forma conhecida das montanhas Glass House ao nascer do sol e quei

empolgada quando vi uma frota de barcos com pessoas que eu conhecia à

bordo se reunindo ao nosso redor. Mas foi só quando entrei na baía de Mooloolaba que a cha caiu. Eu estava em casa! Até aquele momento eu

estava rindo e me divertindo muito vendo os garotos jogarem panquecas e

bolinhos no Big Waver Rider. Acho que os policiais em nossos barcos de escolta não caram muito impressionados com seu comportamento infantil e não quei impressionada com a sujeira na Ella’s Pink Lady!

Ao contrário do que acontecera na recepção em Sydney, dessa vez

chegamos muito cedo. Com apenas um pedacinho da vela mestra estendido

para avançarmos mais devagar, navegamos rumo ao quebra-mar ao lado da praia, onde havia uma multidão de pessoas acenando. Foi ali que a cha

caiu. No dia em que entrei em Sydney, percebi que havia conseguido: eu

dera uma volta ao mundo. Desde então, fui me familiarizando aos poucos

com as maneiras como as pessoas foram tocadas pela viagem. Mas foi apenas ao ver todas aquelas pessoas de minha cidade natal recepcionando a

mim e à Ella’s Pink Lady que entendi a enormidade de tudo aquilo. Sentada

no convés, com o braço de Tom ao meu redor, chorei um pouco enquanto

assimilava a situação. Era difícil acreditar que eu estava olhando para aquela baía com a qual vinha sonhando havia tanto tempo. Era muito melhor do

que eu lembrava.

Após amarrar o barco nas docas, tive uma recepção o cial, mais

discursos e uma chance de cumprimentar rapidamente amigos e apoiadores antes de nalmente voltar para a nossa casa. Havíamos nos mudado pouco

antes da minha partida, então eu não tinha laços especí cos com a casa em

si. Era estranho ver como todos haviam criado seu espaço sem mim. Quase

senti um pouco de ciúmes. Foi o que melhor serviu para me mostrar como o tempo havia passado.

 

Depois de chegar em casa, tive uma provinha daquilo pelo que minha

família e minha equipe haviam passado quando eu estava no mar: escutamos no noticiário que Abby Sunderland havia acionado dois sinais de emergência 41 graus ao sul, nos Roaring Forties, um indício de que o Wild Eyes estava em apuros. Depois disso, não se soube nada dela por mais de

vinte horas. Quando minha mãe me acordou com a notícia às seis da

manhã, não consegui voltar a dormir e passei o resto do dia esperando para

saber mais. A espera me afetou muito, então só imagino como a família dela deve ter se sentido. Sempre acreditei que Abby se sairia bem, mas por mais

que você seja experiente (e ela é muito experiente), o oceano pode ser um

lugar hostil e inclemente. Foi um grande alívio quando soubemos que um

avião da Quantas fretado pela equipe de busca e resgate da Austrália havia estabelecido contato visual com Abby e em seguida conversado com ela pelo

rádio. Ficamos sabendo que o mastro dela havia quebrado com os ventos de

75 nós e ondas do tamanho de montanhas que também haviam

interrompido seu sistema de comunicação.

Estar em casa sem saber o que está acontecendo me deu uma ideia

daquilo que meus pais haviam enfrentado. Eles sentiram muito medo

quando meus sinais de emergência foram interrompidos durante um jibe

chinês e quando minha sked por e-mail não chegou e ninguém soube nada a meu respeito por mais de um dia. Eu estava bem, mas eles caram

preocupados. Aquilo me fez entender melhor ainda o presente que eles me

deram ao deixar que sua lha sonhasse tão alto.

Sempre me perguntei (e tive medo disso) se eu voltaria uma pessoa diferente daquela viagem. Bem, ainda sou a mesma de sempre, mas sem

dúvida mudei. (Minha mãe diz que não, é só que o mundo está me vendo de

outro jeito.) Mas não preciso me preocupar, porque meus amigos e minha

família ainda me tratam da mesma maneira.

Então o que mudou? Vou começar pelo mais fácil: meus hábitos de sono.

Não há dúvidas de que mudaram... E não foi uma mudança positiva. Após

sete meses de sono conturbado e quase dois meses passados desde o retorno à terra, ainda estou sofrendo para me adaptar. Para dar uma ideia de como meu sono anda confuso, estou escrevendo isto às 2h da manhã porque ainda

estou bem acordada.

Também há o fato de que não preciso mais provar nada a mim mesma.

Há muito tempo atrás, perguntei-me se eu era durona o su ciente para navegar ao redor do mundo. Já respondi isso e quei bem mais tranquila.

Talvez tranquila não seja a palavra ideal, porque se você perguntar a

qualquer pessoa que me conhece, ouvirá que não consegui parar quieta

desde que desci da Ella’s Pink Lady! Também estou mais... Con ante não é bem o termo certo, mas é algo nessa linha... Segura de mim mesma, talvez?

E então há a grande mudança! Tornei-me risonha e gritona. Um ano

atrás, se me jogasse água fria, você não me veria gritando nem morta. Mas

agora...!

Como estou com esse espírito re exivo, talvez seja uma boa ideia tentar

responder à pergunta assustadora: “O que você aprendeu ao passar 210 dias

sozinha no mar?”. Bem, algumas coisinhas no que diz respeito à escolha de

equipamentos (embora tenham sido surpreendentemente poucas lições). Mas se tivesse que apontar uma única coisa, diria que aprendi a não levar a

vida e eu mesma muito a sério. Aprendi a importância de me divertir! (Não

é muito original, eu sei.)

Desde que voltei, algumas oportunidades incríveis se abriram para mim, e me perguntam o tempo todo “E agora, o que você vai fazer?”. Escrever e

terminar este livro foi uma aventura à parte! Foi uma experiência e tanto

re etir sobre a viagem e os anos de preparação que a antecederam. Mal

acredito no que nós todos zemos e nas coisas pelas quais passamos só para chegarmos até a linha de partida.

Ao longo de todos aqueles anos, não me perguntei uma única vez se valia

mesmo a pena, nem por que estava fazendo todos passarem por aquilo.

Na época, não me dei conta, mas é incrível se concentrar tanto em um objetivo ao ponto de nenhum esforço parecer demais e jamais passar por sua

cabeça questioná-los. Também andei percebendo como tive sorte de estar

rodeada por pessoas que compartilhavam desse sentimento e ter pais que

me encorajaram e acreditaram em mim.

Agora que o livro está pronto, terei um pouco mais de tempo para mim

mesma. Estou ansiosa para nalmente tirar minha carteira de motorista,

preparar-me para navegar mais rápido, participar de regatas e me desa ar

em novas aventuras. Citando Sir Edmund Hillary, “Depois que você esteve lá, só o que deseja é voltar!”. Acima de qualquer coisa, estou ansiosa para ter

a chance de compartilhar minha viagem e minhas experiências com outras

pessoas, sobretudo jovens. Sei como tive sorte ao tornar tantos sonhos

realidade. Muitas pessoas me apoiaram e agora quero retribuir de alguma maneira.

Não sei se vocês se lembram, mas quando estava no Pací co eu vi uma

incrível estrela cadente e z um desejo. Tenho certeza de que todos acharam

que meu desejo era concluir a viagem ao redor do mundo. Não era. Não tinha nada a ver comigo (desculpa, a superstição ainda me impede de contar

o que era!). Não consegui pensar em nenhum desejo para mim mesma, pois

não havia nada que eu desejasse e não pudesse conseguir através de trabalho

duro. Como é mesmo aquela canção “Airplanes”, do B.o.B.? É um lance sobre precisarmos de desejos, não é? Adoro a música, mas não preciso de um

desejo. Tenho a capacidade de sonhar e isso é tudo que é preciso para tornar

os sonhos realidade. Não precisamos de estrelas cadentes. Podemos fazer as

coisas por conta própria.