Destemida
Prefácio
A lua crescente havia surgido, dando ao mar um brilho
prateado sobre a escuridão. Após o pôr-do-sol, a tarde calma e translúcida
foi levada por um vento leve vindo do Oeste, e o Ella’s Pink Lady estava
fazendo um bom tempo com todas as velas içadas: a vela mestra, a vela de estai e o Spi. As condições do tempo naquela primeira noite, após a partida,
eram as melhores que eu podia esperar. Enquanto observava a Ella’s Pink
Lady navegar a uma velocidade constante de quatro nós, senti-me
extremamente orgulhosa de meu pequeno e belo veleiro rosa. Era um grande alívio estar por m em meu caminho, e vislumbrei meus dias
vindouros de navegação e a grande aventura para a qual eu partiria em
breve. Era uma noite linda, e o pensamento de que algo pudesse dar errado
nem passava por minha cabeça.
Eu deixara Mooloolaba por volta das dez da manhã escoltada por barcos
e helicópteros, e após quinze horas no mar, e semanas de preparação em
tempo integral, eu me sentia cansada e um pouco nauseada. Normalmente,
levava alguns dias até que eu me acostumasse com o balanço do mar. Con ante de que tudo estava bem, decidi encostar a cabeça por alguns
minutos e tirar um cochilo.
Àquela altura, eu e a Ella’s Pink Lady estávamos cerca de 15 milhas
náuticas a leste da Ilha North Stradbroke. Eu gostaria de estar mais longe da costa, longe das frotas de pesca local e de eventuais navios, mas a corrente e os ventos brandos de antes zeram com que eu não tivesse navegado para muito longe desde a partida. Após examinar o horizonte e checar o radar e o
AIS (Alarm Indication System – Sistema de Alerta por Alarme), e programar
os meus alarmes, deitei na cama. Eu ainda vestia o colete salva-vidas e estava
presa ao cabo de segurança.
Uma grande explosão de fazer tremer os ossos me acordou ao mesmo
tempo em que o Ella’s Pink Lady foi arrancado de sua rota de repente e girou
violentamente. Enquanto o barulho de trituração persistia, levantei-me em
um pulo. Uma rápida olhada por cima da escada da escotilha revelou que havíamos colidido com algo enorme: um navio. O céu havia se tornado uma
parede de ferro preto que obstruía as estrelas e se amontoava diante de mim.
Os sons do motor invadiram minha cabeça e todo o meu mundo.
Precipitando-me em direção ao cockpit, agarrei o leme, desativei o piloto automático e tentei manobrar. Foi tudo em vão. Não havia para onde ir, nem
nada que eu pudesse fazer. Tremendo e rangendo, meu barco e eu estávamos
sendo arrastados em direção ao casco do navio. Uma nova espiada me
revelou que a popa do navio, onde assomava a ponte, aproximava-se rapidamente. Os ruídos estavam se tornando mais altos e, sabendo que o
mastro e o estaiamento estavam prestes a vir abaixo, corri de volta para
dentro da cabine em busca de alguma proteção.
Com as mãos sobre a cabeça, sentei na cama enquanto uma sucessão de sons totalmente novos e muito mais terríveis começava. Alguns poucos
segundos se passaram, mas para mim pareceram horas. A estante ao meu
lado partiu-se quando o cunho detrás da antepara se estilhaçou em mil
pedaços. O barco inclinou-se para um lado e, em seguida, deu um salto para cima, e quando o estaiamento emaranhado desprendeu-se repentinamente e
caiu sobre o convés tivemos um som de explosão maior do que os
anteriores.
Quando o barco se estabilizou e o ruído dos motores começou a desaparecer, voltei para o convés. Estava uma bagunça. Havia a mastreação e
os cabos, ocos de tinta preta enferrujada e lascas de metal provenientes do
casco do navio por todos os lados. Adiante do Ella’s Pink Lady, eu conseguia
ver os contornos escuros da popa do enorme navio que deslizava indiferente para longe, deixando-nos inertes em meio ao rastro de espuma que o
sucedia.
Chocada, incrédula e com a cabeça ainda confusa, tentei
desesperadamente lidar com o que havia acontecido. Conferi se havia água no porão ou algum dano no casco. A única coisa que eu conseguia pensar
era: “coitado do meu barco!”, e isso se tornou uma espécie de mantra
enquanto eu acionava interruptores para ver quais equipamentos ainda
estavam funcionando: “coitado do meu barco, coitado, coitado do meu barco”. Eu estava entorpecida, sacudindo a parte de mim que ainda dormia.
Todos os meus pensamentos estavam voltados para a Ella’s Pink Lady.
Respirando fundo para acalmar as mãos que tremiam, peguei o rádio
para chamar o navio e então agarrei o telefone para contar ao meu pai o que havia acontecido. “Estou bem,” eu disse. “Estou bem, perfeitamente bem,
mas fomos atingidos por um navio e perdemos o mastro,” terminei
apressada.
De volta ao convés, sozinha e a milhas de distância da terra rme, levei duas horas para organizá-lo, ajeitar a mastreação desfeita no seu lugar e
cortar os cabos emaranhados na vela mestra. Precisei parar com frequência
para me inclinar sobre a lateral do barco e vomitar, já que a náusea de antes
havia se transformado em um grande enjoo. Finalmente, liguei o motor e comecei a viagem de seis horas até Gold Coast.
Como as coisas haviam mudado depressa!
À minha frente havia 23.000 milhas náuticas de oceano vazio, vendavais furiosos e a ameaça de inúmeros imprevistos. Mas, naquele dia, eu duvidava
que qualquer uma das coisas a serem enfrentadas em meus meses sozinha
no mar seria tão difícil quanto manter a cabeça erguida ao navegar a
avariada Ella’s Pink Lady por entre os quebra-mares de Gold Coast e ver a multidão que se reunira ao lado do rio, a frota de barcos com espectadores e
o tumulto da mídia que esperava por mim.
Eu não sabia se a multidão estava lá para demonstrar o seu apoio ou para
testemunhar o que muitos pensaram ser o meu fracasso prematuro. Tive que forçar-me a ignorar os pensamentos negativos e a me concentrar apenas em
conduzir-nos ao longo do rio, acenando de vez em quando e rindo sem-
graça para os barcos próximos.
Eu sabia que aquele incidente horripilante daria combustível àqueles que criticavam eu e os meus pais pelo meu projeto. Na opinião deles, eu havia
mostrado exatamente por que jamais deveriam permitir que eu navegasse
sozinha. No entanto, naquele mesmo momento, eu havia provado a mim
mesma que tinha as habilidades necessárias para alcançar meu sonho. Quaisquer dúvidas sobre a minha capacidade de lidar emocionalmente com
aquilo haviam desaparecido. Percebi o tamanho de minha força interior.
Nos meses seguintes, quando a Ella’s Pink Lady foi arremessada
violentamente pelo vento e pelas ondas, ou nos momentos em que minha casa parecia estar a milhões de milhas de distância enquanto vagávamos em
meio à calmaria e os dias passavam em câmera lenta, tive tempo para
relembrar o dia após a colisão com o Silver, um cargueiro de 63.000
toneladas, e encontrei forças no fato de ter me mantido rme quando tudo o que queria era desistir. Como diz o ditado, o que não mata fortalece. Aquele petroleiro poderia ter me matado, mas não matou. E depois disso eu me tornei mais forte e determinada, e estava pronta para qualquer coisa que
aparecesse em meu caminho... Ou quase.