Destemida

Jessica Watson · Capítulo 3 de 20 · parte 1/4

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Destemida

Parte um - O Ponto de Partida

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

PARTE UM

 

- O Ponto de Partida

 

O Ponto de Partida

 

“A segurança é, geralmente, uma superstição. Ela não existe na

natureza, e no geral as crianças não a vivenciam. No longo prazo,

evitar o perigo não é mais seguro do que se expor de peito aberto. A

vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada.”

 

HELEN KELLER

Quando eu era criança, tinha bastante medo de tudo.

Não sei bem quando foi que isso mudou, mas minha mãe conta a história de um dia em que eu estava brincando com meus primos e minha irmã mais

velha em uma reunião de família. Eles estavam todos pulando de mãos

dadas em uma piscina e minha mãe estava olhando tudo de perto, porque eu

tinha medo da água e não sabia nadar. Eu tinha cinco anos de idade.

Pelo visto, cansei de car apenas olhando a brincadeira, pois quando

todos se alinharam e deram as mãos para um novo salto eu me juntei a eles.

Minha mãe conta que continuou esperando que eu soltasse, mas não soltei.

Pulei com todos os outros, rindo e dando gritinhos até atingirmos a água. Caí até o fundo da piscina e meu tio foi correndo me tirar para fora.

Eu gostaria de ser capaz de dizer quando foi que deixei de ser aquela

garotinha silenciosa que ia atrás dos outros sem ser convidada e me tornei a

garota que sai para navegar ao redor do mundo acreditando com todas as forças que, com dedicação su ciente, poderia fazer qualquer coisa que

pusesse na cabeça. Em algum ponto no meio do caminho, aprendi que se

quisermos viver nossas vidas de fato precisamos nos envolver, ir atrás de

nossas paixões e sonhar alto. Não sei quando foi que isso aconteceu e não lembro de ter pulado na piscina naquele dia – é só uma história que minha

mãe conta. Mas, em algum ponto entre aquele momento e a minha partida

do porto de Sydney a bordo do Ella’s Pink Lady, entendi o que Helen Keller

articulou melhor do que sou capaz: “A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada”.

Para contar a vocês a minha história e por que eu queria navegar ao redor

do mundo, preciso começar falando dos meus pais. Como meu pai gosta de

lembrar, eu não estaria aqui sem eles, e foi apenas com o apoio da minha

família que fui capaz de perseguir meu sonho.

Minha mãe, Julie, e meu pai, Roger, nasceram ambos na Nova Zelândia.

Eles se casaram naquele país em 1986. Em 1987, pegaram um voo para

Sydney, compraram uma camioneta de um vendedor de carros em

Parramatta Road e dirigiram pela costa até Queensland. Aparentemente, assim que chegaram à Paci c Highway e começaram a acelerar um pouco,

perceberam que o carro tinha um ruído terrível e bizarro que até então

passara despercebido. Hoje em dia, minha mãe dá risadas ao lembrar essa

história – ela diz que o vendedor deve ter pensado “Olha esses neozelandeses que mal chegaram, vou vender essa lata-velha pra eles”. Por

sorte, o carro aguentou até Gold Coast e meus pais se dedicaram a construir

uma vida nova.

Minha mãe conseguiu um trabalho como terapeuta ocupacional, mas meu pai desistiu de construir aquecedores e decidiu tentar algo diferente.

Antes de entrar para o ramo imobiliário, ele tinha um negócio de aluguel de

televisões, e não pode ter sido coincidência o fato de que nunca tivemos

uma televisão quando eu era criança. Acho que meu pai via como as pessoas se tornavam dependentes dela e o quanto isso restringia suas vidas ao

mantê-las inativas e dentro de casa, e decidiu que jamais seríamos daquele

jeito.

Tenho a impressão de que meus pais não planejavam car na Austrália para sempre. Mas então, em 1992, nasceu a minha irmã mais velha, Emily;

eu nasci em 1993; meu irmão, Tom, nasceu em 1995; e minha irmã mais

nova, Hannah, veio em 1997. Assim, com quatro crianças pequenas, eles estavam ocupados demais para pensar em voltar à Nova Zelândia.

Embora não tivéssemos uma TV (o que certamente nos torna uma

exceção), minha infância foi bem normal. Meus pais nunca foram

velejadores; no começo de seu relacionamento, o mais perto que chegaram

disso foi pescar em um barquinho de alumínio em Whangarei. Eles gostavam muito de viajar para acampar e fazíamos isso sempre que havia

uma oportunidade. Meu pai nos deixava escolher entre passar o dia em um

parque temático em Golden Coast ou gastar a mesma quantia de dinheiro

em uma semana no nosso camping favorito. Sempre escolhíamos o camping. Então, quando eu estava na quinta-série, minha mãe nos mandou

para um acampamento de férias aquático organizado pelo Iate Clube de

Southport. Tenho a impressão de que ela achava que, embora tivesse apenas

seis anos, Tom seria aquele de nós que curtiria mais a experiência, mas eu e Emily também adoramos. Hannah ainda era muito nova, então preferiu car

na praia com minha mãe. Depois daquele acampamento, nós três passamos

a ter aulas de vela para principiantes nos ns de semana, e logo começamos

a participar de regatas. Nosso instrutor, John Murphy, era excelente, embora eu tenha certeza de que ele deve ter cado com algum problema na garganta

de tanto gritar para nós “Cacem a vela!”.

No começo, eu não gostava muito de velejar. Tinha medo de sair para o

mar-aberto e me afastar muito da costa, mas nunca fui pressionada a continuar velejando, nem por meus pais nem por qualquer outra pessoa.

Nos dias de muito vento, quando decidia não velejar, eu tinha que car

sentada na praia com Hannah e me sentia excluída. Era duro ver todo

mundo empurrando seus barcos pela praia no m do dia – todos sorrindo e cheios de histórias –, e eu sabia que estava deixando o medo me impedir de

participar da diversão. Emily era muito boa. Ela sacava tudo depressa e fazia

as coisas parecerem fáceis. Eu via o quanto ela amava velejar e queria ser como a minha irmã mais velha. Era um pouco como naquele dia em que pulamos na piscina: eu não queria ser deixada na praia, esperando que todos

voltassem comentando a regata. Queria estar lá no meio. Nos dias em que

ventava muito e as cristas das ondas no mar aberto tinham um pouco de

espuma, eu não tinha força su ciente para manejar o meu barco e sempre

cava lutando em um dos últimos lugares. Mas nos dias tranquilos, quando

ser rápido e forte não era importante, descobri que, com um pouco de

planejamento, tática e muita paciência, era possível car em meio ao resto

dos competidores e disputar posições. Conforme fui melhorando, minha con ança aumentou e comecei a gostar mais e mais daquilo.

Certa vez, minha mãe me perguntou se eu me sentia pressionada para

velejar. A resposta foi negativa. Era simplesmente algo que fazíamos.

Tornou-se um programa de família e, se houve alguma pressão para que alguém velejasse, ela veio de nós (os lhos) e se direcionava aos nossos pais.

Não jogávamos basquete ou futebol, nem brincávamos de casinha – nós

velejávamos. As instalações para vela no Iate Clube de Southport, em

Hollywell, cavam separadas do resto do clube e tinham um ambiente amigável e familiar. Não demorou muito para que toda a família começasse

a passar os ns de semana no clube. Os lhos tinham aulas, participavam de

regatas ou navegavam em barcos maiores; nossos pais, por sua vez,

conduziam ou cavam a bordo de algum dos barcos de resgate.

Minha melhor amiga, Pamela Fredric, e sua família também eram

membros do clube de vela e tampouco tinham televisão em casa. Por isso, se

não estávamos na rua, ocupávamo-nos fazendo alguma coisa ou jogando

um jogo. A exceção eram as férias de inverno. Às vezes, meus pais alugavam uma televisão e um vídeo cassete e nos sentávamos e assistíamos juntos a

documentários e lmes para curtir o feriado. O vídeo favorito de nossa

família era um documentário sobre Sir Edmund Hilary e sua escalada do Everest.

Meus pais são pessoas bem normais, mas muita gente achava estranho

coisas como não ter uma TV e isso foi um indício prematuro de que eles não

adotavam certos estilos de vida simplesmente porque todos os outros

faziam. Quando camos mais velhas, as decisões só eram tomadas após todos da família darem sua opinião. Por exemplo, quando pintamos o bote

que levávamos no teto do carro, após termos passado um longo m de

semana na água, eles con aram que Emily e eu faríamos um trabalho tão

bom quanto o de um adulto. Nunca me senti uma criança rejeitada que não era vista ou ouvida, mas sim uma pessoa cuja opinião era valorizada.

Na época em que eu estava no colégio, meu pai já tinha abandonado

havia muito o negócio de aluguel de TVs para prosperar no mercado

imobiliário. Então, do nada, ele recebeu uma oferta para vender o negócio. Não aceitou a proposta, mas isso fez com que meus pais começassem a

pensar no que poderiam fazer se não estivessem tão presos a um lugar. No

início, como era de se esperar, eles acharam difícil contemplar a ideia de

abandonar sua vida enraizada, sobretudo por terem quatro lhos. Mas começaram a sonhar e uma das coisas que discutiram foi a hipótese de viajar

pela Austrália. Cerca de um ano mais tarde surgiu uma nova oferta, mas

dessa vez meu pai aceitou. Ele sempre dizia que se fosse viajar um dia,

gostaria de fazer isso ao lado da família. Não queria esperar até que tivéssemos saído de casa para se tornar um nômade grisalho. A nal, vai

saber o que poderia acontecer no futuro!

Então, o plano era comprar e reformar um ônibus com o qual

pudéssemos viajar pela Austrália antes que fôssemos velhos demais para querermos fazer isso juntos. Eu estava começando a quinta-série quando

meus pais venderam nossa casa em 2004. Enquanto preparavam o ônibus

para a viagem, eles compraram uma lancha de 52 pés para morarmos nela. Seu nome era Home Abroad [Casa no Exterior]. Tínhamos nos livrado de muitas tralhas quando deixamos a casa, mas garantimos que a nossa

calopsita de estimação, Maggie, fosse conosco. Acho que o plano era

passarmos algum tempo no barco e então partirmos para a grande aventura

a bordo do ônibus, mas acabamos cando no barco por mais de cinco anos e meio, percorrendo a costa de Queensland de cima a baixo e eventualmente

fazendo viagens de ônibus para o interior da Austrália.

Deixamos de ir à escola após nos mudarmos para o barco e passamos a

ser educados em casa, ou melhor, no ônibus ou no barco. Logo no início, aprendemos que barcos geram um sem número de problemas de quebra e

manutenção. Levou um tempo até que tivéssemos tudo em ordem nos

mínimos detalhes para passarmos mais tempo no mar e nos ancoradouros

do que na segurança das marinas e dos necessários atracadouros. Aos poucos, aprendemos a manejar o barco, e com o passar do tempo fomos

ganhando con ança. Emily e eu sentávamos com nossos pais para estudar

questões de navegação e fomos junto quando eles tiraram suas licenças de

rádio. Não levou muito para que estabelecêssemos uma rotina de atracar e deixar o porto. Cada um tinha suas funções e era parte importante da

tripulação.

Quando o barco já estava preparado e tínhamos o conhecimento

necessário (e havíamos melhorado nossa técnica de entrada nas docas o su ciente para que a marina parasse de colocar para-choques extras para

proteger os barcos cada vez que chegávamos!), subimos a costa leste da

Austrália avançando para o norte. Essa nova vida deu uma liberdade incrível

para mim e meus irmãos. Parávamos em ilhas onde não havia nenhum outro barco ancorado. Nadávamos, mergulhávamos com snorkels, catávamos

conchas e explorávamos praias, ilhas e cursos d’água. Fazíamos trilhas para

subir em faróis, descer pelos canais e encontrar cachoeiras. Os lugares sempre tinham algo de especial, em particular quando os tínhamos apenas para nós.

Visitamos algumas áreas incríveis, mas acho que todos concordamos que

a Lizard Island foi a melhor de todas. Era um paraíso tropical de tirar o

fôlego, com praias cercadas de palmeiras e recifes de coral. O principal ancoradouro em Lizard Island sempre está cheio de veleiros e barcos, e

todos desembarcavam ao pôr-do-sol para se reunir na praia. Era um

ambiente muito amigável e descontraído: enquanto os adultos conversavam

sobre suas idas e vindas, as crianças saíam para explorar o local por conta própria. Às vezes, visitávamos outras famílias a bordo dos veleiros, fazíamos

amizade e viajávamos juntos por algum tempo. Acendíamos fogueiras na

praia, guerras de água e expedições de todos os tipos, dando voltas nas ilhas

e subindo montanhas.

Mas na maior parte do tempo viajávamos sozinhos, e assim Emily, Tom,

Hannah e eu nos tornamos muito próximos. Nem sempre havia um

amanhecer idílico com mar calmo e céu aberto: havia con itos familiares,

brigas de irmão, provocações e mau humor, além da necessidade de parar em diversos portos para esperar que o tempo ruim passasse e estocar

provisões. Com frequência, enchíamos três ou quatro carrinhos nos

supermercados locais. Tom e eu nos tornamos especialistas em “escorregar”

um pouco de chocolate extra para dentro deles!

Quando o clima nos prendia em algum lugar por tempo demais,

cávamos impacientes (provavelmente era nesses períodos que a maior

parte das brigas e do mau humor despontava) e ansiosos para partir outra

vez. Meus pais aproveitavam as paradas para nos colocar em dia com as tarefas escolares, então sempre cávamos agradecidos quando o tempo bom

voltava.

Minha lembrança de uma das únicas vezes em que enfrentamos um tempo realmente ruim enquanto viajávamos é um pouco embaraçosa e também hilária à sua maneira. Ainda não fazia muito tempo que vivíamos

no barco, então ainda estávamos pegando o jeito. Eu tinha onze anos. Foi

uma daquelas tardes em que uma tempestade parece se formar do nada e

car feia rapidamente. A visibilidade era terrível, o vento era de 30 nós e o

mar estava um caos. Exceto no intervalo em que precisaram que eu casse

de vigia no convés, passei todo o tempo escondida debaixo da mesa da

cabine ngindo acalmar a Maggie!

Morar sobre a água também implicava conhecer personagens e velhos marinheiros de todos os tipos nos clubes de iatismo, marinas e

ancoradouros. Escutar suas histórias de navegação e experiências a bordo

era fascinante e, muitas vezes, inspirador, embora eu deva admitir que cava

incomodada pra caramba quando pediam que eu saísse da sala por ser uma garota – ou, por vezes, por ser um “jovem pau de virar tripa”.

Quando se vive na água, é preciso obedecer a uma lei não escrita de

sempre ajudar quando um barco está chegando e ajudar a prender suas

amarras. Ser uma “garotinha” implicava ter minhas ofertas de ajuda completamente ignoradas na maioria das vezes e ver o cabo ser atirado para

um homem adulto ao meu lado. Era muito frustrante quando isso acontecia.

Eu era tão capaz de manejar aquelas amarras quanto qualquer outra pessoa.

Eu odiava ser julgada pela minha aparência e pelo que as outras pessoas julgavam que uma “garotinha” era capaz de fazer.

Rejeições como essa já podem ter feito algumas pessoas desistir de

navegar juntas, mas no meu caso só serviu para aumentar a vontade. Talvez

em parte fosse porque mesmo sendo tão jovem eu sabia do que era capaz, e por isso não deixaria outras pessoas afetarem minha autocon ança. Por um

longo período, eu havia lutado para aprender como escrever e a gra a das

palavras (na verdade, ainda tenho muitos problemas com a gra a), mas tive sorte porque minha mãe e meus professores no colégio se deram conta bem cedo de que eu era disléxica.

Dislexia é um distúrbio de base neurológica que faz com que a pessoa

tenha di culdades para aprender e reconhecer a correlação entre os sons e

as palavras. É uma forma especí ca de disfunção do aprendizado que pode tornar a leitura, a gra a e por vezes a matemática difíceis de entender.

Algumas pessoas têm sua autoestima prejudicada por isso, mas eu tive sorte

porque no meu caso ninguém tratou isso como um grande problema. Nunca

me senti rotulada e nunca zeram com que eu me sentisse estúpida por não conseguir ler direito, algo que sei que acontece com algumas crianças.

Minha mãe sempre trabalhou duro nisso, estimulando meu amor pelos

livros ao ler em voz alta para todos nós. Ela me apoiou e me deu tempo para

encontrar o meu próprio jeito.

Minha mãe sempre dizia que algum dia uma luz acenderia em meu

cérebro e minhas di culdades para ler sumiriam. Ela tinha razão. Meu livro

favorito era e Little White Horse e eu enchia o saco de minha mãe o tempo

todo para que ela lesse para mim. Um dia ela disse:

– Jess, você sabe ele praticamente de cor, por que você não lê sozinha?

Fiz isso. Titubeei no início, mas depois parti para outras histórias e livros.

Após ter pegado o jeito, eu podia escapar para outro mundo sempre que

tivesse vontade. Hoje sou uma leitora ávida, mas não sei se serei boa com a gra a das palavras algum dia. Apesar disso, sempre tirei boas notas em

inglês (bem, eu tiraria se eles não descontassem pontos por eu chegar muito

atrasada) através de esforço e dedicação. Por sorte, tenho uma pessoa que

confere meus posts antes de eu subir o conteúdo, então não preciso me preocupar muito. Mesmo assim, tenho certeza de que riem bastante pelas

minhas costas por alguns dos meus erros mais memoráveis!

A preparação para a viagem exigiu que eu escrevesse o tempo inteiro. Eu escrevia para as pessoas pedindo conselhos, buscava patrocinadores e fazia listas e mais listas das coisas que precisaria. Escrever no meu blog também

ajudou a aumentar minha con ança e aprendi com isso mais do que com os

ditados semanais que fazia no colégio. Escrever este livro foi outro desa o,

mas pode ter certeza ele vai ser decifrado (editado) antes de chegar até você!

Talvez lidar com essa di culdade de aprendizado tenha me tornado uma

pessoa mais forte, pois enfrentar todos esses pequenos percalços (desde

alguns marinheiros ignorando minhas ofertas de ajuda para prender o barco

até as pessoas que a rmavam que eu não tinha as habilidades necessárias para navegar ao redor do mundo) jamais me zeram duvidar de mim

mesma... Ou quase nunca. Sem dúvida, superar a dislexia foi uma grande

lição que me ensinou o que é possível realizar com um pouco de esforço

adicional, apesar de todas as adversidades e contratempos que apareçam pelo caminho.

Morar sobre a água no barco a motor da família, cercada por um mundo

náutico, fez eu achar que navegar e cuidar de um barco eram coisas

cotidianas. Mas até o dia em que minha mãe começou a ler para nós o livro Lionheart , de Jesse Martin, eu sequer cogitava que poderia um dia me tornar

uma aventureira. Sempre pensei que aventureiros eram homens grisalhos de

barba que escalavam montanhas ou voavam em aeroplanos por grandes

extensões de oceano. Escutar a história de Jesse mudou a maneira como eu pensava. Foi como se uma luz se acendesse em minha mente. O cara não era

um super-herói, não era privilegiado em qualquer sentido, não tinha barba e

de nitivamente não era velho. Jesse era uma pessoa normal, dessas que

encontramos todos os dias, que decidiu tornar seu sonho realidade. Era alguém com quem eu me identi cava, e isso me fazia pensar... Eu

conseguiria fazer isso? Conseguiria navegar ao redor do mundo sozinha?

No início, não contei para ninguém o que se passava em minha cabeça. Comecei a ler tudo o que podia sobre navegar sozinha. Fiz listas do que precisaria e juntei artigos sobre barcos, mastreação e comidas de longa

validade. Minha mãe diz que sabia que algo estava acontecendo porque

comecei a pendurar fotos de grandes ondas do Oceano Antártico em cima

do meu beliche. Eu me visualizava lutando contra os mares selvagens e ventos inclementes antes mesmo de saber o que era “visualizar”.

Depois que a semente havia sido plantada e comecei a sonhar em navegar

ao redor do mundo, meu primeiro pensamento foi se eu seria capaz ou não

de fazer isso. O que me atraía não era tanto a natureza repleta de ação e movida a adrenalina da empreitada, nem as ondas arrasadoras de doze

metros de altura, mas sim a perspectiva de pôr um plano em curso e cuidar

de todos os detalhes para que os riscos fossem minimizados tanto quanto

possível. Eu sabia que era uma jovem garota sem a força de um homem adulto e, portanto, precisaria encontrar maneiras de fazer as coisas que

fossem compatíveis comigo e com meu corpo. Para mim, navegar não é uma

questão de força, mas de sabedoria, e gastei todo o meu tempo livre

aprendendo sobre navegação, fosse na prática ou conversando com navegantes experientes e escutando o que eles tinham a dizer. Eu gostava de

navegar mais do que qualquer outra coisa, e adoro o desa o de tomar

minhas próprias decisões e superar os problemas que surgem.

Quando estou na água rizando as velas ou mudando o rumo em resposta ao vento e às ondas, tudo se torna realmente simples. Visualizei por muito

tempo como seria estar no Oceano Antártico e me coloquei mentalmente

em diferentes situações, imaginando como me sentiria em situações

hipotéticas e perguntando-me o tempo todo se eu seria capaz de fazer aquilo, e se realmente tinha vontade. Então, cheguei à conclusão de que seria

capaz e, sim, tinha vontade.

Pensei muito nisso, z mais listas e li outros montes de livros, dentre eles Sailing Alone Around the World [Viajando Sozinho ao Redor do Mundo], de Joshua Slocum. Ele havia sido a primeira pessoa a navegar sozinha ao redor

do mundo. Slocum partiu de Boston, no estado norte-americano de

Massachussets, em abril de 1895, e navegou seu barco Spray até Newport, no

estado de Rhode Island, onde chegou em junho de 1898. Ele levou três anos, dois meses e dois dias para alcançar essa incrível façanha. Li tudo o que

consegui encontrar sobre circum-navegações solitárias e conheci a história

de pessoas como Francis Chichester, a primeira pessoa a navegar sozinha ao

redor do mundo no sentido oeste-leste passando pelos grandes cabos. Kay Cotee foi a primeira mulher a navegar sozinha, desassistida e sem paradas

ao redor do mundo, e li diversas vezes o seu livro First Lady.

Fiquei fascinada ao ler sobre Ellen MacArthur que, em 2001, se tornou a

pessoa mais jovem a completar a Vendée Globe, uma regata de volta ao mundo e sem paradas, e depois estabeleceu um novo recorde mundial para

uma circum-navegação solitária e sem paradas. Amei ler sobre Robin Lee

Graham e sua jornada de cinco anos para navegar ao redor do mundo em

seu barco Dove. Também li Lionheart diversas vezes e nalmente reuni a coragem para compartilhar as minhas ideias com minha irmã, Emily. Era só

mais uma conversa sobre nossas expectativas para o futuro, então não

pareceu algo tão importante assim.

Contar para os meus pais foi bem difícil. Eu tinha doze anos e nós recém havíamos voltado de uma temporada de viagens. Estávamos em uma

discussão em família bem séria sobre os nossos planos dali em diante. Foi o

momento perfeito para trazer meu sonho à tona, mas se Emily não tivesse

dado pistas e me forçado a explicar eu teria me acovardado e cado quieta. Eu sabia que meus pais não me proibiriam de ir, mas mesmo assim estava

incrivelmente nervosa.

Eu precisava me imaginar por conta própria no mundo lá fora e depois de um tempo vi que era capaz disso. Tinha pesquisado o su ciente para saber que era possível e que, em teoria, poderia fazer aquela viagem. Nunca

sabemos realmente o que vai acontecer – o oceano é poderoso e totalmente

imprevisível – mas eu acreditava que, com esforço, barco adequado,

preparação física e mental, o desenvolvimento de minhas habilidades de navegação e a busca pelos conhecimentos necessários para uma navegante

solitária, estaria apta a navegar ao redor do mundo.

Quando nalmente apresentei meu plano aos meus pais, acho até que

estava mais contando do que perguntando, mas é claro que não poderia fazer aquilo sem a bênção deles (ao menos não antes de completar dezoito

anos!). E se eles tivessem alguma objeção razoável, não seriam ignorados. Eu

escutaria e absorveria seus conselhos bem informados, bem como os de

qualquer pessoa.

Foi um alívio e tanto nalmente pôr aquelas palavras para fora. Eu não

poderia ter falado mais sério quando expliquei o que desejava fazer (até

rolaram umas lágrimas!). Não sei bem se eles acreditaram em mim de cara

ou se preferiram não fazer isso, na esperança de que eu esquecesse aquilo e partisse para outra ideia. Minha mãe diz que, quando percebeu que eu

continuava totalmente focada em tornar aquele sonho realidade após seis

meses terem se passado, começou a acreditar que eu atingiria o meu

objetivo.

Ela me deu todo o seu apoio. Meu pai não aceitou bem a ideia até muito

tempo depois. Depois de um período em que constantemente incomodei,

conversei, z com que ele me ensinasse tudo o que sabia sobre motores, pedi

para que telefonasse para navegantes que me aconselhavam e deixei o barco todo bagunçado com pastas cheias de recortes de revistas e fotos de barcos à

venda, começou a car mais difícil para ele ignorar a minha dedicação.

No m de Lionheart, Jesse Martin diz:

Precisamos encorajar e ajudar aqueles ao nosso redor, particularmente

os nossos jovens, seja lá quais forem os seus sonhos, e então

começaremos a ver grandes feitos. Eu era apenas uma criança normal

com um sonho e seriedade em relação ao meu objetivo. Mas nunca

teria conseguido sem o apoio da minha família... Há pessoas pelo

mundo que sonham em fazer coisas grandiosas, e é bem possível que o

seu lho, lha, irmão, irmã ou amigo seja um deles. Acredite neles e

encoraje-os para que não percam um dos mais magní cos recursos da

humanidade – a capacidade de sonhar.

 

Meus pais sempre me encorajaram a sonhar e, com a sua ajuda, eu faria

tudo o que pudesse para tornar meus sonhos realidade. Graças a navegantes como Jesse Martin, Kay Cottee, David Dicks e Tania Aebi eu sabia que uma

pessoa normal podia fazer coisas extraordinárias. Eu queria ser uma dessas

pessoas.

 

No m de nosso segundo ano no Home Abroad, retornamos à marina de

Mooloolaba para passar o natal em Sunshine Coast. Conforme cávamos

mais velhas, Emily e eu achávamos mais difícil viver em um espaço tão

con nado sem podermos car longe uma da outra ou do resto da família. Era ótimo car na marina porque lá podíamos nos espalhar um pouco, dar

mais espaço para os outros e cuidar de nossos próprios assuntos. A marina

cava a apenas cem metros da praia, então passamos uma boa parte do

verão passeando por lá com os Rawlings, que conhecêramos quando navegávamos por Whitsundays. Eles também passariam o natal em Mooloolaba.

Assim como nós, a família Rawlings tinha quatro crianças. Nick, o mais

velho, tinha mais ou menos a mesma idade de Emily e eles se tornaram

amigos desde o começo. Eu me juntava com Anna, a segunda lha dos

Rawling, e cávamos reclamando do comportamento de nossos irmãos mais velhos! Nós quatro dávamos voltas juntos e navegávamos pela baía e

dávamos volta em botes in áveis para passar o tempo enquanto os dois

lhos mais novos dos Rawling, Mikayla e Eric, brincavam ao redor da

Marina com Hannah e Tom.

Depois de nos acostumarmos à liberdade que tínhamos ao navegar, não

demorou muito para que nossas empreitadas diárias em Mooloolaba fossem

levadas a um novo nível. Convencemos nossos pais a nos deixar acampar.

Uma vez, fomos até um dos rios da região em um bote sobrecarregado. Estávamos empoleirados em cima de nosso material de acampamento, que

incluía até mesmo um refrigerador de 12 volts e um painel solar para

carregarmos nossos iPods. Atraímos alguns olhares engraçados dos

canoístas enquanto passávamos por eles em meio ao puf-puf-puf emitido por nosso motor de dois cavalos!

As nossas aventuras nos levavam com frequência para fora da área de

cobertura dos telefones e logo aprendemos que cabia a nós mesmos resolver

os problemas em que nos metíamos. Como era o mais velho, Nick era o líder. Meu cargo era o de “negociante paternal”, porque muitas vezes era

necessária muita persuasão para convencer nossos pais a nos deixar ir a

algum lugar.

Embora não bebêssemos, zéssemos muita festa nem usássemos drogas, minha mãe e meu pai eram muito criticados por outros pais do clube de

iatismo por nos permitirem tanta independência. Eles sempre sabiam aonde

íamos e nunca nos deixaram partir sem um kit de primeiros socorros bem-equipado, além de insistirem para tomarmos as precauções necessárias. Sim, coisas ruins podem acontecer, mas coisas ruins podem acontecer em

qualquer lugar, e não era necessário nos prender em um casulo para que

cássemos seguros. Meus pais tomaram uma decisão resoluta ao nos dar

espaço para explorar e eles con avam que faríamos as coisas da maneira certa. Na cabeça deles, independentemente de qualquer outra coisa, essa era

a maneira certa – e a única maneira – de criar os lhos, e me irrita quando

julgam-nos por isso.

As pessoas sempre me perguntam como convenci meu pai e minha mãe a me deixarem navegar ao redor do mundo. O certo é que comecei a minha

preparação e ganhei sua con ança por meio dessas aventuras menores. É

verdade o que se diz sobre grandes feitos começarem com pequenos passos.

Nick, Emily, Anna e eu sempre pesquisamos e planejamos cada etapa, e se qualquer coisa dava errado tínhamos que lidar com reclamações rmes e

duradouras. O mesmo princípio valia para navegar ao redor do mundo – na

verdade, houve menos reclamações e um monte de planejamento a mais,

mas foi parecido.

Houve uma viagem em particular que deveria ter sido um passeio

simples de m de semana com Emily e Nick em um veleiro de 23 pés, do

qual Nick era dono com mais um cara da marina. Na época Nick tinha

quinze anos, Emily catorze e eu treze. Veri camos a previsão do tempo, compramos as provisões, carregamos nossos rádios e partimos com o

primeiro raio de sol para um percurso de 35 milhas náuticas até Moreton

Bay, onde pretendíamos passar a noite antes de voltarmos no dia seguinte.

No início tudo correu bem. O trajeto de ida foi perfeito e chegamos ao ancoradouro a tempo de nadar um pouco antes que escurecesse.

As coisas começaram a ir ladeira abaixo à noitinha quando Nick, que

estava com um resfriado leve, deu uma piorada e começou a se sentir muito mal. Então o vento mudou de direção durante a noite e diversos dos barcos (incluindo o nosso) começaram a arrastar suas âncoras. Não conseguimos

dormir direito, pois passamos a noite desviando de outros barcos em uma

tentativa de não sermos liquidados. O raiar do dia foi mais promissor e

depois de preparar o café estávamos ansiosos para navegar para casa.

Após deixarmos as águas mais protegidas da baía, o vento começou a

ganhar força e então virou sem aviso para o norte, a direção em que

tentávamos ir. Estávamos no meio da tarde e não progredíamos em meio ao

mar revolto e o vento que ganhava força. Emily estava gravemente enjoada, o que deixou Nick e eu encarregados de navegar o barco e administrar as

ligações preocupadas de nossos pais. Não havia um perigo sério, pois não

estávamos longe da costa e uma ligação seria su ciente para chamar ajuda,

mas o vento que se intensi cava outra vez e a noite que se aproximava não ofereciam um bom prospecto.

Até aquela ocasião, eu teria sido a primeira pessoa a desabar em uma

situação dessas (e acabaria embaixo de uma mesa de jantar), mas junto ao

timão, enquanto Nick navegava, percebi que precisava lidar com a pressão se quisesse nos tirar dali em segurança. Se eu tinha esperanças de um dia

navegar ao redor do mundo, precisava começar a demonstrar meu potencial.

De um momento para o outro já não era Nick quem dava as ordens, como

costumava acontecer; tomamos as decisões juntos e Nick até seguiu minhas instruções. Exausta e encharcada daquela maneira, tudo parecia diferente.

Fazer força contra o timão se tornou divertido. Dar-me conta de que podia

fazer aquilo, fazer mais do que meramente deixar que as condições da

natureza levassem a melhor sobre nós, foi extasiante.

Olhando em retrospecto, eu diria que aquele foi o momento em que

viajar ao redor do mundo se tornou algo mais do que um sonho distante.

Durante aquela situação dramática, conheci minha autocon ança e descobri que podia de fato in uenciar o curso das coisas.

Depois de pesarmos as alternativas e telefonar para os nossos pais para

informá-los do que faríamos, demos meia-volta e deslizamos para um

ancoradouro seguro. Passamos outra noite arrastando âncora antes de

partirmos de novo no dia seguinte, já com o tempo mais calmo. Começamos o retorno para casa um tanto apreensivos, mas o dia acabou se revelando

perfeito. As chances de um retorno triunfal foram estragadas pelo som do

leme quebrando de repente a apenas algumas milhas de casa, mas acabamos

chegando à marina em um nal dramático para aquele m de semana inteiro no mar.

Meus pais não haviam desistido de ver um pouco da terra australiana e,

no início de 2006, zemos as malas e partimos em uma viagem de ônibus

pela costa, partindo em seguida para Adelaide e subindo até Birdsville Track para conhecer o interior. Era muito diferente de viajarmos juntos no barco,

porque não tínhamos tanto a possibilidade de sair e explorar por conta

própria. Foi incrível ver outras partes da Austrália, mas sentíamos falta da

liberdade que tínhamos ao viver sobre a água. E se já achávamos que os ânimos se exaltavam com facilidade no barco, era ainda pior em um ônibus.

No início, a novidade foi su ciente para nos manter empolgados e isso foi

bom para minha mãe. Ela adora faróis, então parávamos em todos que havia

ao longo da costa e subíamos os seis pelo caminho quase sempre escorregadio até o topo do promontório para observar a construção e a

vista. Para mim, o melhor de todos foi o farol de Wilsons Promontory, no

ponto mais ao sul da Austrália. Construído por prisioneiros em meados do

século XIX, a torre é feita com o granito local e está situada em um penhasco que dá para o quase sempre revolto Estreito de Bass. Não é

possível chegar ao farol em um veículo, então precisamos de um dia de

caminhada para chegar lá. Mas valeu muito a pena. A vista é estonteante e sem dúvida o farol está na minha lista de lugares aos quais quero voltar para explorar um pouco mais.

Campings eram caros e, como éramos totalmente autossu cientes no

ônibus, só os utilizávamos muito raramente. Aproveitávamos ao máximo os

paradouros de caminhões, as zonas de eventos ao ar livre e praticamente qualquer lugar em que um ônibus pudesse estacionar sem ser incomodado.

O ônibus era um veículo impressionante. Era enorme e robusto e havia sido

pintado de dourado com uma grande listra vermelha na lateral. Por isso,

chamava muito a atenção (acabamos nos arrependendo profundamente da pintura corajosa!). Teria sido excelente para uma banda de rock em turnê.

Numa das poucas vezes em que paramos em um camping para aproveitar

alguns dias de chuva e colocar em dia alguns dos deveres escolares, um

grupo de campistas curiosos se reuniu e elegeu um líder que marchou até o ônibus e bateu na porta. Estávamos todos trabalhando na mesa quando

escutamos eles perguntarem à minha mãe qual seria o melhor momento

para conhecer o interior do veículo. Preciso reconhecer que seu argumento

era bom: eles achavam que seria menos inconveniente se mostrássemos o ônibus a todos de uma vez só. Mais um motivo pelo qual evitávamos

campings!

Passamos meu décimo terceiro aniversário em um estacionamento na

Great Ocean Road, de frente para os Doze Apóstolos (embora pela nossa contagem houvesse menos de doze: o oceano e os ventos continuam

castigando as estruturas de calcário, então só havia oito quando chegamos

lá). Sou quase capaz de recriar nossa viagem assinalando os estacionamentos

no mapa. Havia um em Charlotte Pass, no coração das montanhas nevadas de New South Wales, onde tivemos que esperar a neve parar de cair para

irmos de bicicleta até o topo do monte Kosciuszko. É bastante signi cativo o

fato de que dá para subir a montanha mais alta da Austrália de bicicleta!

Em outra ocasião, passamos a noite no topo de uma duna de areia de frente para o Lago Eyre, no sul da Austrália. Esse lugar de acampamento

tornou-se ainda mais interessante porque cava no m de uma estrada de

chão alagadiça e cheia de areia, ideal para veículos 4x4, com cem

quilômetros de extensão. O ônibus não havia sido projetado para esse tipo de via, então os moradores nos olharam intrigados quando pegamos a

estrada deserta. Meu pai estava sempre preparado para qualquer desastre e

antes de começar a dirigir conversou com os moradores de uma cidadezinha

próxima para ter certeza de que havia um trator grande o su ciente naquela área para nos puxar se cássemos atolados.

Não foi a única vez que pegamos uma estrada daquelas. Para mim, o auge

de toda a viagem foi quando percorremos a Birdsville Track, uma antiga rota

de comerciantes de gado com 520km, que vai de Marree, no sul da Austrália, até Birdsville, em Queensland. É uma região muito bonita e o deserto se

estende por quilômetros e quilômetros em uma área vazia e plana,

interrompida apenas por ocasionais dunas de areia. Aquele é considerado

um dos pontos mais inóspitos da Austrália e, às vezes, dirigir por lá não é tarefa fácil. Embora seja muito seco na maior parte do ano e as tempestades

de areia sejam comuns, ele pode se tornar intransitável quando há chuva, e

há a possibilidade de inundações relâmpago. Não estávamos muito

preocupados, já que estávamos na estação seca. Parávamos o ônibus para ver eventuais poços e ruínas de antigos postos de pastores de ovelhas para

esticar as pernas e explorar. A terra vermelha, a água escassa e a vegetação

nodosa contrastavam fortemente com as águas azuis e orestas úmidas e

exuberantes da costa a que estávamos acostumados.

Logo aprendemos por que aquela estrada ganhara sua reputação: foi

quando o primeiro pneu furou e em seguida outros dois de uma só vez.

Trocar um pneu de ônibus é mais desa ador do que trocar o pneu de um carro, porque tudo é enorme e o número de peças sobressalentes que se pode carregar é limitado. Na primeira vez, tudo foi bem tranquilo graças à

ajuda que recebemos de algumas pessoas que passaram em veículos 4x4. A

segunda vez não foi tão fácil. Para início de conversa, não tínhamos pneus

su cientes, então tivemos que parar no meio da estrada e passar a noite ali. Meu pai pediu ajuda em seu telefone via satélite e esperamos até que

levassem pneus novos para nós. Lembrarei daquela noite para sempre.

Caminhei para longe das luzes do ônibus em direção ao deserto para olhar

para as estrelas. Pareciam intermináveis e estavam muito nítidas – era absolutamente incrível! Já vi algumas noites estreladas espetaculares no mar,

mas há algo de ainda mais especial no céu do interior.

Divertimo-nos muito naquela viagem e quei feliz por nossos pais terem

nos dado a chance de ver diferentes partes da Austrália, mas acho que perto do m todos sabíamos que nossas aventuras de ônibus em família estavam

acabadas. Estávamos cando velhos demais para aquilo e estávamos todos

ansiosos para voltar para o barco. Se eu queria aprimorar minhas

habilidades de navegação, precisava estar perto do oceano.

 

Em 2007, tudo indicava que permaneceríamos na Marina Mooloolaba, na

Sunshine Coast, por um tempo, então meus pais nos matricularam em

escolas locais. Só durei um bimestre na Maroochydore High antes de retomar a educação a distância. Como eu esperava que nos mudássemos

cedo ou tarde, não me envolvi com nenhum esporte nem qualquer outra

atividade escolar e tampouco tentei fazer amigos. Se eu pretendia navegar ao

redor do mundo, precisava direcionar todos os meus esforços para fazer isso acontecer, e voltar para a educação a distância me deu mais exibilidade. Arranjei um trabalho para lavar louça no Fish on Parkyn, um dos maiores restaurantes da Sunshine Coast. Eu precisava juntar dinheiro. A nal, se

queria ganhar um pouco de experiência navegando no oceano, eu precisaria

ser capaz de pagar as passagens para ir até um veleiro. Já era difícil o

bastante convencer as pessoas de que eu era capaz de assumir um posto em suas tripulações, mas eu também precisava convencer meus pais de que

estaria segura a bordo, e trabalhar longas horas para pagar minhas passagens

era outra maneira de mostrar a eles que eu estava levando muito a sério os

meus planos de fazer aquilo. É preciso dedicação para continuar em um trabalho que exige que você lave louça até a uma da manhã... Não é

divertido.

Para mim, a parte mais difícil de toda a aventura foi fazer com que as

pessoas me levassem a sério e encontrar maneiras de fazer tudo acontecer. Àquela altura, minha mãe já me dava 100% de apoio, pois vira como estava

levando as coisas a sério. Ela foi minha cobaia: eu apresentava minhas ideias

para arranjar patrocinadores e juntar conhecimento. Volta e meia eu

perguntava:

– Como tornar isso realidade? Qual é o próximo passo?

Comecei conversando com as pessoas e dizendo o que pretendia fazer. Eu

não tinha dinheiro para fazer aquilo sozinha e precisava explicar meus

planos para os outros. Visitei estaleiros, marinas e o cinas, conversei com todos que estavam dispostos a ouvir e z milhares de perguntas. Escrevi

cartas para todas as pessoas que eu imaginava que teriam interesse em me

apoiar de alguma maneira; mandei até uma carta para a governadora de

Queensland, Anna Bligh, para saber se havia alguma bolsa disponível para jovens aventureiros. Um de seus assessores políticos respondeu em seu

nome para me avisar que não havia nada que pudessem fazer para apoiar

empreitadas individuais, mas me passou informações sobre o prêmio Duke of Edinburgh Awards e também alguns sites que poderiam ser úteis. Contatei jornais e mandei e-mails para repórteres e editores para divulgar

meu sonho, na esperança de que alguém lesse a meu respeito e me ajudasse

com um patrocínio.

Quando completei catorze anos, eu tinha gasto quase três deles aprendendo tudo o que podia e pesquisando quais seriam os melhores

equipamentos. Eu precisava pôr as mãos à obra se quisesse atingir meu

objetivo, e uma das principais coisas a ser feita era conseguir um barco.

Continuar: parte 2 de 4