Destemida

Jessica Watson · Capítulo 9 de 20

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Destemida

Etapa Quatro - Oceano Atlântico Sul rumo ao Continente Africano

Quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

 

 

O que mais me dá saudades

 

A Ella’s Pink Lady e eu penetramos o Atlântico navegando lenta e

constantemente nas direções norte e leste e ontem fui agraciada com um

dia de sol inacreditável. Estava tão bonito que até me recolhi para dormir

esparramada na parte de cima da cabine (com meu protetor solar Ella

Baché, óbvio!). O sol quente e o som da água contra o casco me fizeram

pegar no sono em poucos minutos.

Ainda melhor, fui desperta por um bando de lindos golfinhos pretos e

brancos que estavam nadando ao nosso lado. Como sempre, foi muito

prazeroso vê-los brincar nas ondas azuis-esverdeadas. Então tivemos um

belo pôr-do-sol rosa, que curti sentada ao ar livre sem a sensação de que

meus dedos das mãos e dos pés estavam prestes a cair. Desculpem,

parece que estou contando vantagem!

Levando em conta que estou aqui há mais de três meses e quase cem

dias, achei que já era hora de fazer uma lista do que mais me dá

saudades.

Em primeiro lugar, é claro, vêm minha família e meus amigos.

Especialmente meu irmão e minhas irmãs. A segunda coisa é poder

relaxar sem a sensação constante de que preciso estar preparada para

qualquer coisa. A terceira é dormir – por longos períodos e sem

interrupções, sem alarmes nem nada para me despertar (pretendo passar

minhas primeiras semanas após voltar para casa fazendo isso, então, por

favor, não façam planos para mim!)

E caminhar. Sinto muitas saudades de poder esticar as pernas na praia

ou, na verdade, em qualquer lugar. E comida. Embora ainda não tenha

enjoado totalmente do que tenho a bordo, muitas vezes tenho desejos de

vários tipos de comida fresca: uma salada crocante, qualquer tipo de

fruta e até mesmo vegetais. Eu daria muita coisa por uma boa xícara de

café, pois não dá para fazer grandes coisas com leite em pó e a água

meia-boca do tanque! Nem preciso mencionar que um banho quente e

demorado viria muito bem e eu adoraria outra pessoa para revezar na

hora de lavar a louça, só para dar uma variada! Ah, e chocolate que não

tenha derretido e voltado à forma original é algo que sem dúvida faz falta.

O gosto não é o mesmo!

Temos outro belo dia nessa parte do Atlântico. A Ella’s Pink Lady está

avançando a cinco nós com o vento de 13 nós. Vou sair para colocar a

linha de pesca na água outra vez, algo que deixei de fazer desde que

esfriou. Não tenho certeza do que há por aqui para ser fisgado, mas

tentar não custa nada, né?

 

Acabei descobrindo que sim, tentar tinha o seu preço! Alguns minutos

após jogar a linha na água, um pássaro que estava circundando a Ella’s Pink

Lady mergulhou na água e cou preso na isca que eu recém havia lançado. Assim que percebi que a pobre ave estava sendo arrastada atrás de nós,

retirei a linha da água, mas o bicho já não estava nas melhores condições.

Fiquei tão mal com isso que muito tempo se passou antes que eu soltasse a

linha outra vez. Assim como Parker e minha tripulação de ursinhos de pelúcia, as aves eram minha única companhia costumeira. Eu passava horas

assistindo-as descrever círculos ao redor da Ella’s Pink Lady e foi horrível capturar uma delas. Contudo, eu não teria muito tempo para pensar naquilo, pois logo minha cabeça estaria cheia de outros assuntos.

Ao longo da semana anterior, algumas frentes passaram pelo céu e a

previsão era de que trouxessem ventos fortes, mas isso acabou não se

mostrando um problema. Eu não diria que quei complacente, mas quando Bob mandou outra previsão que indicava um vendaval moderado, não achei

que viesse muita coisa pela frente. Eu estava muito enganada!

 

Domingo, 24 de janeiro de 2010

 

Vento, ondas, ação e drama!

 

As condições climáticas de verão cessaram de forma repentina. Eu e a

Ella’s Pink Lady passamos por momentos bem interessantes por aqui.

Esperava-se que o vento ganhasse força e gerasse um bom vendaval,

mas nenhuma das nossas previsões ou computadores detectaram que

ele atingiria os 65 nós que registrei antes de perder os instrumentos de

medição do vento em um jibe chinês!

Esse vento todo resultou em ondas muito grandes e traiçoeiras. Para

dar uma ideia das condições do mar, elas eram semelhantes, e talvez

piores, do que aquelas da terrível regata Sydney-Hobart de 1998.

Tivemos um total de quatro jibes chineses, sendo o terceiro o mais

severo, quando tivemos o mastro empurrado a 180 graus dentro da

água. Na verdade, empurrado não é a palavra certa – seria mais preciso

dizer que a Ella’s Pink Lady foi suspensa no ar, atirada onda abaixo e

então forçada para debaixo de uma montanha de água até ser

violentamente virada de cabeça para baixo.

Com tudo bem vedado e sob condições que tornavam perigosas

demais as visitas ao convés, não havia muito que eu pudesse fazer além

de segurar firme. Com apenas a pequena buja de tempestade, o grande

piloto automático fez um trabalho excelente nos mantendo na rota a

favor do vento, talvez auxiliado (ou não) por meus gritos de

encorajamento! Apenas algumas grandes ondas traiçoeiras nos

atingiram a um ângulo (lateral) que se mostrou perigoso, causando os

jibes chineses.

A estrutura sólida da targa (a mesma que abriga os painéis solares)

está empenada e deformada, o que dá uma boa ideia da força das ondas.

Um tubo sólido de aço inoxidável com dois centímetros e meio de

espessura não é exatamente algo que entorta com a brisa, então pode-se

dizer que a Ella’s Pink Lady provou que é um barquinho bem durão!

Com o corpo inteiro preso e me segurando com as duas mãos

enquanto vários objetos voavam pela cabine e a Ella’s Pink Lady

reclamava ruidosamente devido ao esforço, era impossível saber quais

eram os danos no convés. Em alguns momentos, foi um pouco difícil

manter minha política de pensamentos positivos e racionais, mas no

geral me parece que a capitã aguentou o tranco tão bem quanto a Ella’s

Pink Lady. Sem dúvida, foi um daqueles momentos em que começamos

a questionar por que estamos fazendo o que estamos fazendo, mas não

houve nenhum instante em que eu não soubesse responder minha

própria pergunta com uma extensa lista de motivos que faziam

momentos como aquele valerem a pena!

Então, em meio a todo o drama, minha mãe recebeu em casa a pior

ligação possível do Centro de Coordenação de Resgates Autraliano

(CCR). Disseram a ela que um dos meus EPIRBs (aparelho de sinalização

de emergências) havia sido ativado. Um dos jibes chineses havia feito

com que o EPIRB automático instalado na capota ligasse sem que eu

soubesse. Por sorte, telefonei apenas alguns minutos depois, antes que

qualquer pessoa tivesse tempo de entrar em pânico. Fiquei bem

incomodada com aquela coisa estúpida por ter dado um susto tão

grande no pessoal!

Mas não saímos da situação totalmente incólumes, pois houve

diversos danos menores – por sorte, nada que possa nos deter. Na

verdade, acho que é mérito de David Lambourne, nosso armador, que o

mastro ainda esteja de pé e aparentemente em perfeitas condições de

uso. Os únicos danos foram na targa, que parece torta, no painel solar,

que amassou, e no piloto de vento, que está um pouco fora do ângulo,

mas felizmente (e por sorte) ainda funciona bem (vamos, Parker!).

Também há alguns rasgos na vela mestra e um dos pulpitos está torto.

Dentro, a cabine parece o cenário de um desastre e tudo ainda está

molhado ou úmido. O toalete, que caiu para o lado, estava despedaçado,

com cacos espalhados de um canto ao outro do barco junto com outros

restos de equipamento. O forno não está acendendo, mas com sorte o

fogo voltará quando estiver um pouco mais seco.

Mesmo após limpar a pior parte e finalmente dar uma boa dormida,

ainda me sinto como um marshmallow gigante. No que diz respeito aos

aspectos físicos, meus braços e pernas estão pesados e patéticos e, é

claro, estou com uma bela coleção de feridas! Em termos mentais, sinto-

me como se tivesse envelhecido uns bons dez anos, mas estou de volta

ao normal e de bom humor conforme nos aproximamos da metade da

viagem.

Quando o vento finalmente acalmou, fui presenteada com um belo

pôr-do-sol, e, enquanto limpava as coisas no convés, alguns golfinhos

pararam ao nosso lado, como se estivessem conferindo se estávamos

bem.

Devo um grande agradecimento a Bruce, que foi perfeito do começo

ao fim, dizendo as coisas certas no telefone todas as vezes em que liguei,

e também a Bob, que passou a noite em claro para me manter atualizada

com informações de quando o vento deveria se acalmar.

Eu poderia continuar para sempre, mas é melhor ficar por aqui, pois

esse post já está do tamanho de um livro e ainda há muito a ser feito por

aqui!

 

Não quei muito preocupada quando o tempo começou a piorar, mas

quando os instrumentos de medição do vento mostraram que havia rajadas

superiores a 60 nós, percebi que não seria apenas outro vendaval. Eu não esperava por aquilo, então as coisas não saíram bem como eu queria quando

desci a vela mestra. Eu acabaria me arrependendo de ter deixado ela erguida

por tanto tempo.

Passei a primeira fase da tempestade, quando as ondas ainda estavam aumentando de tamanho, navegando manualmente no cockpit e então o

clima cou agressivo demais e sentei para observar o piloto automático

elétrico, enquanto ele lutava para nos manter descendo as ondas. O vento

estava muito gelado e trazia jatos de água que nos açoitavam feito martelos. Ele batia dolorosamente em qualquer parte exposta da pele. Conforme a

tempestade ganhou força, quei pasma com o tamanho das ondas. Fiquei

absolutamente embasbacada. Já tinha visto ondas grandes antes, mas aquilo

era muito diferente. Eram paredes gigantescas de água. Eu havia visualizado elas por anos e pendurado fotos das ondas revoltosas do Oceano Antártico no tabique do Home Abroad, mas nada havia me preparado para sua potência e beleza.

A Ella’s Pink Lady aguentou tão bem quanto esperado com apenas a

pequena buja de tempestade erguida, mas depois de algumas horas comecei

a car nervosa. A tempestade continuava ganhando força e eu dava gritos de incentivo quase o tempo todo para o barco e o piloto automático. Se uma

onda particularmente grande nos pegava por trás, eu gritava alto para

alertá-los, de forma a ser escutada em meio aos uivos do vento. “Vamos lá,

garotas, tem uma grande vindo, preparem-se!”.

Quando a crista da onda nos pegava de lado, eu me segurava no que

estivesse a mão e continuava gritando, “Aguenta rme, aguenta rme, vamos

lá, você é capaz!”. Não tenho certeza se estava falando com a Ella’s Pink Lady

ou comigo mesma. Quando a onda chegava, surfávamos pelo vale enquanto eu gritava “Firme, rme”.

Chegávamos ao intervalo entre duas ondas e por alguns segundos tudo

cava quieto (ou ao menos mais quieto) enquanto o vento era abafado pelas

montanhas de água em ambos os lados do barco. Eu não precisava gritar tão alto enquanto dizia “Bom trabalho, garotas, bom trabalho, equipe”. Quando

sentia que o barco estava começando a subir na onda seguinte, eu gritava:

“Mais uma, só mais uma. Nós somos capazes”.

Tenho certeza de que os gritos serviam mais para mim do que para a Ella’s Pink Lady e o piloto automático, mas ao manter a voz forte e soar tão

positiva eu quase consegui me enganar de que estava calma, tranquila e

composta em vez de totalmente surtada.

Foi como na vez em que quei debaixo da mesa com Maggie, nossa ave de estimação. Eu tranquilizava a mim mesma ao direcionar toda minha

energia para tranquilizar outra pessoa. Isso parece maluquice? Pode até ser

que sim, mas funcionou. Não há nada como um bom blefe ou ngir estar no controle quando tudo está fora de controle.

Passadas algumas horas, o vento continuava ganhando força e as ondas se

transformaram em imensas montanhas negras com camadas de branco nas

faces. As cristas brancas espumavam e se enrolavam como fazem ao quebrar

na praia. Não havia mais nada que eu pudesse fazer no convés e estava

cando muito frio, então decidi que chegara o momento de me trancar

dentro da cabine e esperar que passasse.

Lá embaixo, até achei que o tempo estava melhorando um pouco e o pior

já havia passado. Telefonei para os meus pais e para Bruce e estava bem faladora e animada. Eu estava nervosa, mas também empolgada por termos

nos saído tão bem. Mas, então, passado mais um tempo, percebi que as

coisas não estavam melhorando e combinei de fazer skeds ao longo da noite.

Mantendo um olho nos instrumentos, só o que podia fazer era me acomodar e esperar que acontecesse seja lá o que estivesse para acontecer.

Não precisei esperar muito. O primeiro jibe chinês não foi tão ruim e a

Ella’s Pink Lady se reergueu bem depressa. Ela pareceu tremer um pouco,

mas partiu para cima de outra onda antes que eu entendesse o que havia acontecido.

Algumas horas se passaram entre aquele primeiro jibe e o segundo.

Praguejei contra mim mesma por não ter amarrado melhor a retranca nem

checado as amarras de alguns armários com mais cuidado. Eles se abriram e espalharam objetos pelo chão, incluindo os Toughbooks, que mais pareciam

tijolos. Eu não estava preocupada com os Toughbooks (eles são muito

resistentes), apenas comigo e com o barco!

O segundo jibe foi muito mais forte que o primeiro e realmente precisei me retorcer para conseguir xar a perna em algum lugar e me manter rme

para não bater pelos cantos da cabine. O mastro se inclinou bem mais do

que 90 graus e manteve-se assim pelo que pode ter sido menos de um segundo, mas pareceu muito, muito mais tempo.

O terceiro jibe chinês foi o que me deixou em pânico. Eu estava junto à

mesa de navegação preenchendo o livro de registro e tentando me manter

ocupada quando escutei um granderugido, como um trovão. A coisa mais

próxima àquele som que conheço é o motor de um avião, mas era mais gutural e assustador. Mal tive tempo de me apoiar antes que a Ella’s Pink

Lady fosse erguida no ar e arremessada de cabeça para baixo no intervalo

entre duas ondas. Agarrei-me no pega-mãos e meus pés encostaram antes

nas paredes e então no teto enquanto capotávamos. As coisas voavam pela cabine, embora eu tivesse me esforçado para prender tudo. Eu continuava

gritando à Ella’s Pink Lady, pedindo que aguentasse e dizendo que ela caria

bem.

Eu adoraria poder dizer a vocês o que estava se passando em minha cabeça naquele momento, mas não posso, porque não se passava nada! Eu

estava em um estado de entorpecimento e total descrença. Assim que

voltamos para a posição normal, arrisquei um olhar para fora pela gaiuta da

cabine. Eu não conseguia ver muita coisa e de maneira alguma arriscaria sair para olhar direito, mas o cockpit estava um caos. A estrutura sólida de aço da

targa e seus tubos grossos estavam deformados e o Parker estava em um

ângulo estranho. A retranca havia se movido e arrancado pedaços da capota.

Aquela onda devia ser incrivelmente forte para causar danos desse tipo. Não

quei muito tempo olhando, porque poderia haver outra de força

semelhante por perto.

Dizer que eu estava muito preocupada após aquele terceiro jibe chinês

seria um eufemismo. Não chorei, nem quei histérica. Enfrentei tudo de maneira muito sóbria e racional e comecei a ponderar os possíveis desfechos

para a situação. Planejei o que precisaria fazer se as coisas piorassem.

Quando conversei com Bruce, foi o único momento em toda a viagem em que ele perguntou como eu estava e a resposta foi “nada bem!”. Eu disse a ele que as coisas estavam sob controle, mas concordamos que seria uma boa

ideia contatar as autoridades locais de resgate para informá-los que eu estava

enfrentando ondas imensas e um clima ruim e a situação poderia piorar.

Depois de sentir a força da última onda e ver o estrago, eu não conseguia acreditar que o casco e a mastreação da Ella’s Pink Lady ainda estavam

inteiros.

Detive-me antes de dizer a Bruce que a balsa havia escapado de suas

amarras no cockpit. Consegui trazê-la para baixo, ciente de que nunca mais a veria se houvesse um novo jibe chinês, então não vi motivo para deixá-lo

mais assustado. Bruce havia conversado com Bob (era o meio da noite na

Nova Zelândia, então eles realmente estavam cuidando de mim!). Bob tinha

uma atualização da previsão e quando escutei o meu ânimo despencou. De acordo com as projeções de seus computadores, a pior parte da tempestade

ainda estava por vir. Eu não podia acreditar que aquilo pioraria ainda mais!

Eu não queria encarar o fato de como as coisas poderiam car ruins, mas

eles perceberam que se eu jaibasse e mudasse de direção, poderia escapar do pior da tempestade mais rápido. Por mim, parecia ótimo!

Depois que jaibei, atei-me outra vez ao assento úmido para tentar dormir

por alguns minutos. Eu estava segurando o telefone via satélite para tê-lo

por perto em caso de emergência. Houve mais um jibe chinês, mas foi mais parecido com o primeiro do que com o último e não causou o impacto que

eu temia. Depois de algum tempo, tive certeza de que as condições estavam

melhorando um pouco, apesar das previsões de Bob. Os uivos do vento e as

batidas das ondas já não eram tão altos e fortes. Felizmente eu tinha razão. Consegui dormir mais um pouquinho enquanto o vento começava a se

acalmar.

O modo como a Ella’s Pink Lady encarou aqueles quatro jibes chineses foi incrível. Isso mostra como o S&S 34 é um barco excelente.

 

Terça-feira, 26 de janeiro de 2010

 

Dia da Austrália!

 

Todos os anos no colégio, costumavam nos perguntar o que o Dia da

Austrália significava para nós. Nesse ano, seria difícil estar mais longe da

Austrália. Não há nenhuma das coisas típicas de uma comemoração do

Dia da Austrália por aqui: nada de sol, praia, feriado ou churrasco. Mas

esse ano posso dizer que estou orgulhosa de ser australiana e é ótima a

sensação de ter o apoio de um país inteiro.

Ainda tenho muito do mundo para ver (na verdade, muito da Austrália

também), mas as coisas que acho especiais de nosso país (além do

cenário magnífico) é a nossa atitude positiva e tranquila e a certeza de

que sempre somos capazes. Gosto de pensar que somos capazes de nos

unir para enfrentar desafios e mostrar ao mundo que podemos realizar

aquilo que acreditamos.

Então, como estou comemorando? Bem, na noite passada fiquei bem

contente por receber uma ligação via satélite do Primeiro Ministro Kevin

Rudd, que se ofereceu para passar a todos uma mensagem de Feliz Dia

da Austrália em meu nome. Foi o suficiente para fazer o dia valer!

Em notícias não relacionadas, estou contente em comunicar que o

toalete foi remontado (graças a Deus!) e o forno voltou a funcionar

depois de secar um pouco. Preciso dizer que, após passar alguns dias

sem forno, meu respeito por James e Justin (os caras que atravessaram

o Mar da Tasmânia de caiaque) e qualquer outro navegante ou

aventureiro, cuja fonte principal de comida era refeições secas e

congeladas, aumentou mil vezes!

O processo de devolver a boa forma da Ella’s Pink Lady após nossas

pequenas batidas está indo bem, ainda que não tenhamos recebido

apoio da outra frente que passou por aqui ontem. Por sorte, ela não

ofereceu mais que ventos de 40 nós. No momento estou esperando o

vento acalmar um pouco mais para terminar os remendos na vela mestra

e erguê-la outra vez. A Ella’s Pink Lady parece um pouco pior com suas

cicatrizes de batalha, mas o mais importante é que continua forte como

sempre. Eu não deveria estar muito surpresa, pois preparamos ela para

aguentar isso, e foi esse o motivo para escolhermos um S&S 34. Ainda

assim, é bom saber.

Não posso reclamar das milhas que andamos percorrendo. Estamos

voando baixo pelo Atlântico. Estou começando a temer que a viagem

termine e cheguemos em casa outra vez antes de eu estar pronta.

Bem, vou sair porque preciso preparar tortinhas de carne e guisado

enlatado para um hambúrguer. Talvez eu prepare depois um bolo ou

muffins, pois estou muito feliz pelo forno ter voltado a funcionar.

Feliz dia da Austrália!

P.S. Um milhão de parabéns a Abby Sunderland, que partiu para sua

viagem no último sábado. Sei o grande desafio que é chegar na linha de

partida. Embora aparentemente haja muitos adultos determinados a ver

Abby e eu como rivais, desejo a ela apenas a melhor sorte possível, e

estou muito emocionada por haver outra garota lutando pelo recorde!

Quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

 

Rumo ao Leste

 

A temperatura já não está muito fria e a Ella’s Pink Lady e eu estamos

ao norte o suficiente para evitarmos a pior parte dos inclementes

sistemas climáticos do sul (não que não estejamos preparadas para

enfrentar uma tempestade em qualquer lugar do mundo). Então, é hora

de começar a percorrer uma boa distância para o leste. Se formos muito

para o norte, arriscaremos perder os ventos predominantes vindos do

oeste que garantiam avanço tranquilo e boas distâncias.

Já estamos quase na metade da travessia do Atlântico: faltam apenas

2.300 milhas náuticas até passarmos pelo Cabo da Boa Esperança,

embaixo da África. O tempo voa quando estamos nos divertindo!

Não tenho grandes novidades e nada de muito empolgante para

relatar, só posso dizer que tudo está bem. Ainda estou amando cada

instante e curtindo todas as pequenas coisas. Andei terminando alguns

trabalhos após a tempestade e ontem aproveitei ao máximo o pouco de

sol que havia para lavar algumas coisas –a mastreação e as linhas de

proteção servem muito bem de varal!

Com todos em casa de volta às aulas (sinto muito, pessoal!), creio que

chegou o momento de procurar onde guardei meus deveres.

Parece que as coisas seguirão tranquilas por mais um tempo, então a

navegação deverá ser tranquila e, espero, faremos um bom progresso.

 

Sábado, 31 de janeiro de 2010

Sol, neblina e mar plano

 

Sei que sol e neblina não é a combinação mais típica e até ontem eu

não tinha ideia de que os dois podiam coexistir. Sem dúvida, foi curioso:

em um minuto tínhamos um perfeito dia de sol e no seguinte ele brilhava

através de uma densa camada de neblina. Meio estranho. A neblina ficou

pelo resto do dia e da noite, lembrando-me da serração que tivemos

mais ou menos na mesma latitude quando estávamos indo para o sul no

Pacífico.

Também tivemos condições de navegação muito boas – mal consigo

acreditar em como há poucas ondas e como o mar está plano, o que

torna nossa vida boa e confortável. Não andamos registrando as

melhores velocidades com os ventos leves, mas a Ella’s Pink Lady tem

conseguido manter um ritmo bom em direção ao leste. Todo o sol

quente e a facilidade para navegar me lembram os trópicos e parece que

estou de férias!

É incrível que, após apenas alguns dias de condições tranquilas,

tantos dos meus hábitos tenham mudado. Principalmente no que diz

respeito às pequenas coisas, como deixar objetos no banco do cockpit.

Na verdade, é uma maravilha poder apoiar uma caneca por um momento

sem que ela saia voando por aí. Preciso me lembrar o tempo todo de

deixar tudo organizado e afixado em seu lugar, pois sei que não vai durar

muito.

Apenas 2.000 milhas náuticas até o Cabo da Boa Esperança.

Por hoje é só, porque estou animada para sair de novo e aproveitar o

sol!

Segunda-feira, 1º de fevereiro de 2010

 

A vida segue normal por aqui

 

Mais dias ótimos para mim e a Ella’s Pink Lady navegarmos. Ontem foi

especialmente bom e nossa velocidade ficou o dia todo estabilizada ao

redor dos sete nós. Na maior parte do tempo, o vento esteve entre 12 e

17 nós. Bem, é um chute, pois desde que perdi os instrumentos de

vento, preciso recorrer ao método primitivo de olhar pela janela e atar

um pedaço de cabo no estaiamento para determinar a velocidade e a

direção do vento.

Essas são as condições climáticas que a Ella’s Pink Lady e eu amamos.

Alguém tem alguma objeção se eu driblar Sydney e começar uma

segunda volta? Não, não se preocupem, eu não faria isso. Ainda estou

tendo dias incríveis por aqui, mas também sinto saudades de várias

coisas em casa. Eu não passaria ao largo de um banho quente sob

hipótese alguma e tenho medo de não reconhecer meu irmão se ficar

muito tempo fora, pois parece que ele está crescendo um pouco a cada

dia!

Também tivemos mais daquela combinação estranha de sol e neblina.

Parece meio estranho registrar um dia com zero por cento de nuvens no

céu como sendo de visibilidade “muito ruim”. Mas eu sou de

Queensland, então acho que nunca me acostumarei à neblina! Além

disso, vocês devem ter reparado que estamos nos dirigindo ao nordeste

em vez de continuar no sentido leste. Bob disse para eu subir um pouco

mais para o norte a fim de evitar um sistema climático traiçoeiro ao sul.

É muito doido pensar que, não muito tempo atrás, manter-me

aquecida era uma guerra, sobretudo no que dizia respeito aos pés, que

exigiam várias camadas de meia e ficavam enfiados no fundo do meu

saco de dormir. Agora, estou sempre irritada por acordar de calor nos

pés! O fato de que algo tão pequeno está me incomodando já dá uma

ideia de como as coisas estão bem por aqui no momento.

Então, a vida segue normal. Ontem foi um dia de trabalho doméstico

(trabalho de barco) e sempre há tarefas de manutenção para me manter

ocupada, como apertar correias do motor e aplicar novas camadas de

fita em pontos desgastados. Aparentemente, também estou passando

(ou desperdiçando) um bom tempo cozinhando. Minhas omeletes de ovo

em pó estão melhorando a olhos vistos, mas minhas tentativas de mudar

ou acrescentar itens às refeições da Easyfood estão falhando

miseravelmente, bem como a maioria dos meus experimentos

gastronômicos. É bom não ter ninguém para reclamar das refeições que

arruinei!

 

Não faltam histórias de refeições arruinadas para contar, mas nada supera

a vez em que consegui preparar um pacote de massa usando diesel no lugar

de água. Sim, diesel, o combustível! Eu estava assoviando junto com o rádio

e sonhando acordada enquanto preparava o jantar, então não estava tão concentrada quanto deveria e não percebi quando peguei o líquido do galão

errado e misturei com o leite em pó. Não reparei no cheiro estranho, nem na

consistência estranha, e assim que todo o pó havia sido dissolvido,

derramei-o sobre a massa e aqueci até car duro. O normal seria eu ter notado, mas foi só depois que mergulhei o meu dedo na panela para

provar... ECA!!

Em minha defesa, pouco antes de começar a cozinhar, eu estivera trocando o diesel de recipiente e respingou um pouco em mim, então meu

nariz devia estar anestesiado para o cheiro. Ainda assim, foi uma burrice, e

acordei rapidinho do meu sonho acordado depois que o gosto do diesel

chegou às minhas papilas gustativas!

 

Terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

 

Seguindo em frente

 

Estou quase começando a sentir que aqui anda a mesma coisa todo o

dia e acho que não deveria dizer isso em voz alta, porque agora que

disse, pela lei de Murphy, algo vai acontecer! E não é como se a falta de

ação fosse ruim. Nenhuma notícia já é uma boa notícia, né?

Parece que minha cota de sol acabou, o que é especialmente

incômodo porque, ao vasculhar alguns armários uns dias atrás, encontrei

o meu sextante (um instrumento utilizado para descobrir a posição a

partir do sol ou das estrelas) e estou ansiosa para ler os livros e ver o que

consigo me lembrar – seria muito mais fácil se pudesse ver o sol.

Mas chega de reclamar. O lado bom é que o progresso tem sido bom,

com muitas velocidades de 6 e 7 nós. Também há muito mais pássaros

por aqui, porque estamos nos aproximando de algumas ilhas. Tenho

avistado algumas espécies diferentes. As aves por aqui parecem

menores que as do sul e estou com saudades de ver um albatroz!

Embora aparentemente iremos escapar da pior parte do clima ruim do

sul, espera-se ventos bem fortes dentro de alguns dias. Ficarei feliz

quando essa frente passar e pudermos ajustar a direção para o leste

outra vez.

P.S. parece que falei cedo demais! Acabei de terminar de digitar e

estava aqui sentada na estação de navegação olhando pela vigia (um dos

meus hobbies mais chiques!) quando de repente levei um susto, pois um

grande objeto laranja passou boiando a menos de um metro de

distância. Era algum tipo de boia de pesca com antena e, por pouco,

quase tudo se enrolou no Parker!

 

Sábado, 6 de fevereiro de 2010

 

Ondulações e golfinhos

 

Ontem foi um dia cheio de ondulações, com o vento um pouco

agitado enquanto passávamos por uma das extremidades do sistema

climático ao sul. Minha melhor Jess-timativa (é como Bruce chama

minhas descrições frequentemente vagas de como anda o vento) é de

rajadas de até 40 nós. As ondas continuam acima dos quatro metros, ou

seja, não são enormes, mas estão um pouco alvoroçadas e passam

rápido com bastante impacto, arrastando um pouco a Ella’s Pink Lady.

O vento aumentou e depois diminuiu conforme esperado e, como

tudo estava pronto de antemão, não havia muito a ser feito além de

segurar firme e seguir na carona. Agora que já passamos por algumas

ventanias, lidar com ventos de 40 nós se tornou rotina, assim como rizar,

cambar e jaibar se tornaram reflexos quase automáticos. Mas isso serviu

para me deixar mais cautelosa do que nunca. Saber que tudo foi checado

duas vezes é a única maneira de conseguir paz de espírito.

Antes do vento chegar, fui presenteada com a visita de golfinhos – na

verdade, centenas de golfinhos! Havia golfinhos por tudo, em todas as

direções e até o horizonte. Longas filas de golfinhos saltando sobre as

ondas, golfinhos escapando das vagas, golfinhos brincando na proa da

Ella’s Pink Lady e golfinhos nadando em silêncio e conversando entre si

com pequenos guinchos e grunhidos. Eu não sabia para onde olhar. A

visita chegou na hora certa, porque eu estava um pouco deprê e me

sentindo frustrada, mas os golfinhos despertaram muitos sorrisos!

Os golfinhos não foram minha única companhia recente: também

tenho visto diversas embarcações. Mais precisamente, vi três navios nos

últimos dois dias, o que é muito para os meus padrões.

Ao fazer uma reestocagem de mantimentos na cozinha, e retirar

coisas do depósito na proa, descobri que estou ficando sem Pringles

(estou no último saco!) e há pouco molho de tomate. Além disso, minhas

reservas de fruta enlatada estão minguando rapidamente. O lado positivo

é que encontrei uma reserva de Nutella escondida (chocolate no pão!)!

Restam apenas 1.500 milhas náuticas até o Cabo da Boa Esperança,

mas vamos passar bem ao sul e longe da terra.

 

Quando disse que estava deprê, não era que estivesse me sentindo um

lixo. Só estava em um daqueles dias em que não conseguimos afastar o mau

humor. Quando cava assim, eu negligenciava os deveres da navegação e postergava qualquer tipo de manutenção ou trabalho não essencial. Eu

deixava rizos na vela quando, com um pouco mais de esforço, poderia

deixá-la mais aberta, e não fazia nenhum telefonema nem mandava e-mails,

exceto pelas rápidas skeds fundamentais.

Ver-me cercada de repente por centenas de gol nhos foi perfeito para me animar e era impossível continuar deprê com eles em volta. É impossível não sorrir e rir ao assisti-los brincando na proa da Ella’s Pink Lady.

 

Terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

 

Peixe voador, sujeira, nenhum vento e,

 

então, muito vento

 

Ultimamente, tivemos alguns dias de pouco vento e outros de muito

vento. Tudo está bem mais agradável devido às temperaturas tropicais.

Até encontrei alguns pequenos peixes voadores (que geralmente são

encontrados em águas mais quentes) no convés e me molhei ao

inspecioná-los. Mas não grito nem a metade do que gritava ao levar um

banho de uma onda inesperada.

Além dos peixes voadores, tenho visto muito lixo e plástico flutuando

por aqui. É muito feio ver essas coisas boiando nas ondas – elas parecem

totalmente fora de lugar. Então, decidi que vou me esforçar mais para

recusar sacolas plásticas e utilizar menos plástico quando voltar para

casa.

Ontem, e mais uma vez hoje à noite, o vento estava em 35 nós, o que

manteve a Ella’s Pink Lady andando bem mesmo com velas rizadas. O

início do sábado foi muito frustrante com o vento parado. Não era tanto o

fato de que não estávamos progredindo que me deu nos nervos e sim o

horrível balanço do mar. Com ondas de quatro metros reminiscentes e

nenhum vento para manter as velas firmes, o balanço era extremamente

desconfortável, e me deixou de muito mau humor até que o céu se abriu

e o sol apareceu. Esse detalhezinho fez toda a diferença!

Passei o resto do dia me divertindo muito no sol e utilizando todos os

meus produtos da Ella Baché, cuidando de mim mesma e garantindo que

minha pele recebesse sua dose de atenção!

Quando o vento começou a voltar, eu estava me sentindo melhor e

pronta para conquistar o resto do mundo!

Outro navio passou por nós na noite passada e, como faço muitas

vezes, telefonei pelo rádio VHF para saber se eles sabiam a nossa

posição. Embora eu preferisse estar dormindo, o vigia do navio pareceu

bem amigável e foi bom conversar com ele, até o momento em que o

diálogo meio que morreu quando expliquei o que estava fazendo aqui.

Aparentemente, causo essa reação com frequência. É demais para eles

aceitarem? Mas, para ser justa, acho que é um pouco atípico se deparar

com um veleiro rosa no meio do nada que desaparece em meio às ondas

de uma noite escura e ventosa. E, bem, acho que deve ser bem estranho

ouvir uma voz de menininha dizer que sua próxima parada será em

Sydney!

Bem, chegou a hora da tão esperada atualização sobre a questão da

pesca. Temo que não haja notícias. Tenho soltado a linha de tempos em

tempos, mas depois que um pássaro avançou na isca e ficou preso na

linha algumas semanas atrás, ando um pouco receosa. O pássaro

conseguiu se livrar, mas fiquei tão mal que passei o resto da tarde

alimentando outras aves com biscoitos de chocolate (adoro meus

biscoitos de chocolate, então acho que isso dá uma ideia de como me

senti mal!). Como só tenho um número limitado de biscoitos de

chocolate a bordo, dá pra entender por que ando com um pouco de

medo de soltar a linha nos últimos tempos. Mas ainda tenho muitas

milhas pela frente e tenho certeza de que recuperarei minha confiança

em algum momento.

Por hoje é isso. O vento caiu para 15 nós, então chegou a hora de tirar

outro rizzo da vela mestra para nos manter em movimento.

 

Sábado, 13 de fevereiro de 2010

 

Escritório ao ar livre

 

Os últimos dias foram de sol e mar plano e estou amando, mesmo

que a velocidade da Ella’s Pink Lady esteja um pouco reduzida. Tivemos

muitas medições de três nós, o que não é exatamente um luxo, mas

significa que estamos nos movendo, e com o sol brilhando é difícil se

preocupar muito com qualquer coisa.

Essa é definitivamente uma atitude que precisarei mudar se decidir

participar de uma regata um dia. Caso contrário, ficarei na última posição

sempre que o sol aparecer!

Uns dias atrás, finalmente tive a ideia brilhante de tirar o computador

Toughbook de seu lugar na estação de navegação e levá-lo para o cockpit

para digitar um pouco – não me perguntem por que não pensei nisso

antes! Sentar em frente a um computador é centenas de vezes mais

prazeroso quando estamos ao ar livre e perto da água. Também é muito

mais fácil me persuadir a sentar e fazer tudo de uma vez. Peço desculpas

a todos que estiverem lendo isso cercados por quatro paredes!

Sentada do lado de fora em meu belo escritório ao ar livre, tive a

companhia de dois belos peixes azuis. Eles passaram a tarde nadando ao

nosso redor e mordiscavam sabe Deus o quê na parte externa do barco.

É bom saber que alguém está mantendo o casco limpo de algas. Foi tipo

uma lavagem expressa!

A Ella’s Pink Lady está navegando bem no momento, mas temos

alguns ventos contrários além do que sopra do sudeste, o que nos

desvia do rumo exato que eu gostaria de seguir. Além disso, hoje mais

tarde ou amanhã deveremos cruzar o primeiro meridiano. Mal posso

esperar para voltar para o hemisfério leste: aí sim terei a sensação de

estar a caminho de casa.

 

Se o sol estava brilhando, eu lidava muito bem com a ausência de vento e

aproveitava a oportunidade para fazer o que era preciso no convés, procurar

desgastes no barco e fazer alguma manutenção. Ao longo de toda a volta ao mundo, escrevi constantemente novas listas e risquei trabalhos conforme os

realizava.

Aqui está um exemplo de uma lista de tarefas escrita em 12 de fevereiro:

 

refazer as costuras da vela mestra;

encher o tanque de combustível;

apertar as correias e conferir o motor;

guardar as coisas de volta na proa;

limpar a cabine [isso aparecia em todas as listas!];

encher o álcool do forno;

apertar as porcas do leme;

apertar as porcas do piloto automático;

passar um pano úmido no painel dos eletrônicos;

passar um pano úmido e checar o piloto de vento;

usar o motor até que as baterias sejam recarregadas e o medidor de volts mostre “F”;

trabalhar no livro.

 

Segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

 

À deriva

 

Não temos navegado muito nos últimos dias: ficamos à deriva e

chacoalhamos de um lado ao outro, às vezes regredindo. Nada de muito

empolgante. Então, ainda não cruzamos o primeiro meridiano. Estamos

estacionadas a poucas milhas náuticas do hemisfério leste e não

conseguimos chegar lá porque não há vento!

Tenho passado a maior parte do tempo no cockpit navegando

manualmente ou concentrada em um livro para ignorar o balanço, o que

é um tanto frustrante – na verdade, muito frustrante! Não progredir dá a

sensação de que estamos apenas perdendo tempo. Descobri que a

melhor maneira de parar de arrancar os cabelos é adotar a estratégia

“não deixar isso me afetar” que utilizo durante as tempestades. Não é

ótimo que as adolescentes sejam tão teimosas? Ah, chocolate também

ajuda!

A boa notícia é que a previsão diz que o vento ganhará força em breve

e estou ansiosa para isso.

Eu ia dar um relatório mais detalhado da situação da Ella’s Pink Lady,

todos os desgastes, rasgos. etc. Mas vou deixar isso para amanhã.

O primeiro meridiano é a longitude (linha vertical) que marca o grau zero longitudinal no mapa mundi. Essa primeira linha meridional começa

no Polo Norte e termina no Polo Sul, e combinada à medida de longitude,

mostra exatamente onde estamos em uma carta náutica.

Ainda estávamos bem para o norte àquela altura: dá para dizer que estávamos mais ao norte do que precisávamos, mas o motivo de termos

escolhido esta rota mais longa era a menor possibilidade de sermos

atingidas por tempestades traiçoeiras. O conforto e a segurança sempre

pesavam mais do que a velocidade nas decisões. Ah, e o sol e as temperaturas quentes também eram levados em conta. Eu precisava me

recuperar um pouco e, como boa nativa de Queensland, acho difícil lidar

com a falta de sol. O progresso lento era um efeito colateral desagradável,

mas se tivesse que escolher entre isso ou frio e vendavais, escolheria sempre o progresso mais lento.

 

Quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

 

Lugares para ir, desgastes e rasgos

 

Não muito depois da última vez em que postei no blog, começamos a

ter um pouco de vento e cruzamos o primeiro meridiano, entrando no

hemisfério leste – graças a Deus! Depois disso, o vento se acomodou em

30 nós pela maior parte de ontem, e a Ella’s Pink Lady está acelerando e

cobrindo muitas belas milhas em direção ao sul e ao leste.

Admito que não estou tão excitada com o sul após ter temperaturas

entre 20 e 26 graus por tanto tempo. Aparentemente, não consigo me

empolgar muito com a ideia de voltar a águas mais frias e não acho que

Parker e a Ella’s Pink Lady gostem da ideia do frio muito mais do que eu.

Estou precisando fazer muitas correções para nos manter na direção

sudeste em vez de leste. Mas, a não ser que retornemos para uma

latitude mais ao sul, vamos demorar muito mais para chegar em casa.

Então é a contragosto que iremos em direção ao sul e ao frio!

De qualquer forma, prometi um relatório da atual situação da Ella’s

Pink Lady. No geral, ela está muito bem, levando em conta o número de

milhas que já venceu. Quero dizer, como você se sentiria após quatro

meses de trabalho duro sem um dia de folga?

Para começar, acho que afora a estrutura torta da targa e algumas

cicatrizes e pontos enferrujados no convés e nas partes de aço

inoxidável, ela aparenta ter sido um pouco castigada pelo tempo. Mas o

estaiamento, as velas, as escotas, etc., estão muito bem, com poucos

sinais de esfolamento e desgaste.

Parker, o piloto de vento da Fleming que agora está um pouco

danificado, está fazendo o mesmo bom trabalho de sempre para manter

nosso curso, embora tenha adquirido o hábito de friccionar os cabos que

o unem ao leme, obrigando-me a encurtá-las e invertê-las o tempo todo.

O pequeno motor Yanmar mostrou a que veio e nunca falhou em dar

a partida na primeira tentativa quando o aciono ou dou uma carga extra

nas baterias (com ele desengrenado, é claro). A única manutenção que

exigiu foi um ajuste rápido da correia e umas doses ocasionais de graxa

na gaxeta (onde o eixo do motor passa pelo casco), e precisei tirar um

pouco de água do filtro de combustível na semana passada.

Um de nossos mecânicos (Jim) instalou um filtro especial que separa

o diesel da água (entrou um pouco de água no tanque de combustível

durante um dos jibes chineses, quando estávamos de cabeça para

baixo). Obrigada, Jim!

Como o painel solar da Starboard foi um pouco avariado durante

aquela tempestade, ele parou bruscamente de mandar energia às

baterias. Mas os outros painéis e o gerador eólico ainda estão fazendo

sua parte e ainda temos muito diesel, então não foi uma perda muito

significativa.

Os reservatórios de água fresca vão bem. Tenho o suficiente para

chegar em casa utilizando aproximadamente dois litros por dia, o

suficiente para beber junto com o suco. Mas não sobra muito para gastar,

então a água fresca é apenas para beber e cozinhar, a não ser quando

temos uma boa chuva e conseguimos coletar um pouco mais.

A maior parte dos equipamentos elétricos está resistindo muito bem à

umidade. Bem, afora uma das minhas câmeras portáteis de vídeo da

Panasonic, que ficou um pouco molhada quando filmei alguns golfinhos

um tempo atrás, ui! Mas o laptop Toughbook já mostrou que é super-

resistente após ter sido exposto a muita água salgada e maus tratos.

Estou usando apenas uma boca do forno e tenho mais combustível do

que conseguiria usar em umas três circum-navegações, então parece

que exageramos um pouco nesse estoque!

E quanto à capitã, bem, o seu cabelo cresceu um pouco e, até onde

sei, ela está mais saudável do que nunca. Embora eu ande me

perguntando se minhas pernas não estão um pouco mais finas. Ainda

me exercito muito na maioria dos dias, mas acho que talvez não consiga

correr uma maratona logo depois de chegar em casa!

 

Antes de partir, passei por exames médicos completos, fui ao dentista e

z uma medição de massa corporal e exames de sangue. É interessante

comparar o antes e o depois das medições (obrigada à Body Composition

Australia). De modo geral, não mudou muita coisa durante a viagem. Pelo

que sei, saí normal e voltei normal! Só perdi um pouquinho de peso e, sim,

minhas pernas estavam um pouquinho mais nas.

Quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

 

Quatro meses no mar

 

Hoje completo quatro meses no mar, mas ainda parece que foi ontem

que partimos de Sydney! É um pouquinho assustador perceber o quanto

o tempo passou e como me acostumei totalmente à vida cotidiana por

aqui. Mas isso não quer dizer que não estou ansiosa para voltar para

casa.

Estamos com um tempo bem ruim, nublado e chuvoso no momento,

mas não vou reclamar porque estamos avançando bem. O vento sopra a

cerca de 25 nós, e como estamos navegando quase diretamente a favor

dele, a Ella’s Pink Lady está avançando de maneira um pouco

desconfortável. Não falta muito para retornarmos aos Forties e, como a

temperatura está caindo um pouco mais, parece que meu belo e

ensolarado feriado no Atlântico chegou ao fim. O lado positivo é que,

com sorte, logo voltaremos a ver albatrozes.

Ainda aparecem navios ocasionais. Passou outro muito perto ontem à

noite. Eles foram muito amigáveis e, quando mencionei no rádio que

estava pouco confortável com a proximidade com que iríamos passar um

pelo outro, eles ofereceram imediatamente para mudar o curso e nos dar

um pouco mais de espaço.

Ontem esqueci de dizer como anda a questão da comida. Afora a

tragédia da Pringles e o molho de tomate, as coisas estão indo muito

bem. Estou comendo um pouco menos do que minha mãe havia

planejado, o que significa que há um pouco de comida sobrando em

cada sacola e poderei escolher minhas coisas favoritas e ignorar as

menos gostosas. As frutas secas, os chocolates, as massas e a mistura

chinesa de vegetais, o atum e as tortas enlatadas são as primeiras coisas

a serem consumidas, e ao final da quinzena, a pilha de sobras

geralmente inclui bolachas água e sal, bananas crocantes, ervilhas secas

e feijão em lata. O que dá uma boa ideia do meu gosto. De qualquer

forma, para resumir, parece que voltarei para casa com comida suficiente

para alimentar um pequeno exército!

Faltam apenas 600 milhas náuticas para passarmos pelo Cabo da Boa

Esperança. Enfim, por hoje é isso.

 

Ver navios após tanto tempo foi uma novidade tão grande que justi cava

perder um pouco de sono e passar por eles em segurança. Eu os chamava no

rádio com frequência só para garantir que estavam cientes de nossa posição. A colisão havia me deixado extracuidadosa, talvez em excesso, quando

estava por perto de navios.

Os vigias sempre pareciam muito surpresos ao responder depois de

ouvirem minha voz de “menininha” no rádio. Eu pedia com educação que desviassem o curso e eles nunca se negaram.